domingo, 11 de janeiro de 2026

Comentando o primeiro episódio de Uruwashi no Yoi no Tsuki (Sob a Luz da Lua): Um dos shoujo de maior sucesso no momento recebe uma adaptação à altura do desafio.

E estreou o anime de Sob a Luz da Lua, título nacional de Uruwashi no Yoi no Tsuki (うるわしの宵の月), série baseada no mangá de Mika Yamamori.  A animação está bonita, assume a estética shoujo mangá como instrumento para dar o tom da história, e conta com um trabalho muito potente dos dubladores, tanto os que fazem os protagonistas, quanto os coadjuvantes.  Eu resenhei o primeiro volume da série, que é publicada pela JBC, e o primeiro episódio cobriu metade desse volume.  Acreditei que iria pegar o volume inteiro, porque a gente não sabe quantos episódios a série terá, a adaptação sempre pode esticar ou criar alguma coisa nova e o mangá está no seu volume #9, #10 se a gente contar com o que ainda vai sair encardernado, mas já foi publicado na revista Dessert.  Para quem não conhece a história, um resumo:

As pernas longas, a voz grave e o rosto bonito de Yoi Takiguchi são a receita perfeita para tornar um rapaz atraente. Até que as pessoas descobrem que ela é, na verdade, uma garota! Apelidada de "príncipe" pelos colegas desde a infância, Yoi praticamente desistiu de ser vista como qualquer outra coisa, mas sofre com a situação. Até que ela encontra por acaso com Kohaku Ichimura, seu senpai e o outro príncipe da escola.  Ele fica impactado pela beleza de Yoi, mas recua ao acreditar que se trata de um rapaz para, quando o mal-entendido se resolve, se tornar insistente em conseguir a atenção da garota que pela primeira vez em sua vida está sendo cortejada e estimada não pela sua aparência andrógina.  Só que Yoi não consegue acreditar que o interesse de Ichimura é verdadeiro, ela não sabe lidar com esse tipo de atenção e ele ainda não sabe bem o que sente, ele só sabe que quer estar perto dela e admirar a sua beleza e compartilhar da sua companhia.  Como essa história irá se desenrolar?  É o que descobriremos acompanhando a série.

Assistindo ao primeiro episódio de Uruwashi no Yoi no Tsuki, só vi méritos.  A abertura deixa em evidência o gosto de Yoi por doces, algo que vai aparecer mais para frente na história.  Gostar de doces, no Japão, é coisa de mulher, da mesma forma que gostar de carne vermelha não é visto como algo muito feminino no país.  Fumi Yoshinaga discute isso em seu mangá Not Love But Delicious Foods Make Me So Happy! (Ai ga Nakutemo Kutte Yukemasu。/愛がなくても喰ってゆけます。), que tem resenha no blog.  A abertura apresenta as personagens, não sei ainda se a música me marcou ou não.

O anime começa enfatizando o desconforto de Yoi.  Ela é uma garota, mas é vista como o rapaz mais bonito da escola, mas algo ao estilo otokoyaku do Teatro Takarazuka.  Otokoyaku (homem + sombra) são as atrizes que fazem os papéis masculinos em um teatro musical no qual todas as atrizes são mulheres.  Admirar um otokoyaku é mais seguro do que se relacionar com um homem, há trabalhos acadêmicos sobre isso, porque elas são elegantes, bonitas, viris, têm uma voz treinada para ser mais grave, mas não são ameaçadoras (*gravidez indesejada é algo fora das possibilidades*), além de serem inalcançáveis, elas são um sonho de perfeição.  E a animação coloca flores ao redor de Yoi e por onde ela passa.  Era desse tipo de uso narrativo da estética shoujo que eu falei no primeiro parágrafo.

Só que Yoi é uma menina e ela não consegue lidar bem com essa atenção feminina, ainda que não tenha mais forças  para lutar, e uma espécie de escárnio masculino.  Ela sofre e essa angústia dela, o susto, a excitação, o medo de se decepcionar com Ichimura estão maravilhosamente bem traduzidos na animação.  Ichimura não sabe da história dela, não a conhecia até então, ele vê simplesmente beleza.  Como o primeiro episódio não avançou muito, e eu não darei spoilers, não sabemos muito sobre ele, salvo o ser rico, muito rico.  Só que isso pouco importa para Yoi e isso fará diferença para Ichimura.

Algo que agradeço muito ao anime é  o uso dos honoríficos.  Ichimura é inconveniente e chama Yoi de "chan", que é usado para crianças, para meninas, para mulheres com as quais o sujeito tem intimidade, na escola, na frente de outras pessoas.  Yoi nunca foi "chan" para ninguém fora seu pai e mãe, talvez.  Além disso, é algo que marca uma proximidade que eles não têm, ainda que ele já tenha tocado nela e a pego no colo (*sob protesto*).  Ele recua  e passa a chamá-la de "san", mas ele não se aguenta e é um tanto inconveniente e volta para o "chan", o que gera disse-me-disse, afinal, são os dois príncipes da escola.  Logo no início, a menina que presenteia Yoi e se declara usa "sama", que demonstra uma grande deferência.  A adaptação do mangá feita pela JBC apaga TODAS essas nuances que são importantes para a história.

Achei curioso que todos sempre usem "josei" (女性) e não "shoujo" (少女) para se referir às meninas do colégio.  É uma escolha, eu sei, mas por qual motivo usar mulher jovem e não menina/garota? Meu japonês não é suficiente para  entender, de repente, é uma nova tendência usar "josei" para adolescentes mais velhas. "Shoujo" até aparece quando alguém diz que Yoi parece o herói de um shoujo mangá e ela deseja ser tragada pela terra, porque, bem, ela nunca será a heroína, ou assim, ela acredita.  Outra coisa curiosa, que não comentei quando falei do primeiro volume do mangá, é a saia do uniforme.  Normalmente, os uniformes japoneses são desenhados com saias pregueadas ou de macho.  Usei as duas na época de escola. A saia do uniforme de Yoi é reta, sem pregas.  Já vi esse tipo de uniforme em manhwa e em escolas coreanas, tailandesas e de outros países asiáticos, mas não me lembro de ver em mangá ou em meninas japonesas.  É só curiosidade mesmo.

E eu gostei bastante do trabalho dos dubladores japoneses.  Rei Ichinomiya faz a voz de Yoi e  Ryouta Suzuki dá  a voz para Ichimura.  O trabalho da dubladora da Yoi em particular, porque ela precisa externar vários sentimentos.  E gostei do trabalho das dubladoras das melhores amigas de Yoi,  Aya Yamane (Nobara) e Momoko Seto (Kotobuki).  Quem não assiste em japonês normalmente não tem esse tipo de percepção.  Quanto à qualidade da animação, é boa, mas ainda não é a melhor possível, mas está acima de Hana-Kimi (花ざかりの君たちへ), bem acima, além da arte ser muito bonita.

Acho que é isso.  Uruwashi no Yoi no Tsuki estreia com grande qualidade.   O mangá está em andamento, o que deve conduzir a mais um anime com final aberto.  E, para quem quiser, já temos três volumes lançados em língua portuguesa pela JBC.  Se você quiser comprar, eis o link do Amazon.

1 pessoas comentaram:

Eu achei a animação lindíssima, mas espero que não seja só nesse primeiro episódio, não decaia. Os traços, a iluminação, os efeitos, tudo lindo. Estou tão feliz com essa adaptação! Torço muito para um dorama vindo também!

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