E estreou a série Prism Rondo (プリズム輪舞曲) com character design original e história de Kamio Yoko, autora de Hana Yori Dango (花より男子). Como é um original da Netflix, tudo está disponível na plataforma; são vinte episódios, a maioria com 23 minutos, mas há um deles com 40 minutos e outros dois ou três com 30 minutos. Não sei o motivo. A animação do Estúdio Wit é de alta qualidade. As personagens em primeiro plano têm uma movimentação excelente e os frames parecem mais homogêneos que a média, já as personagens de fundo, os figurantes, às vezes são reduzidos ao mínimo, como forma de baratear os custos. Já os cenários são deslumbrantes, trata-se de um dos pontos altos da série.
O ponto de partida de Prism Rondo é a chegada de Lili Ichijoin a Londres. A jovem japonesa tem talento para as artes e veio estudar na Academia Saint Thomas, uma faculdade progressista para os padrões da época e que não discrimina ninguém por sua origem, etnia ou sexo. Estamos no início do século XX, depois da morte da Rainha Vitória (1819-1901), porque, quando a mocinha chega na capital da Inglaterra, estão acontecendo celebrações em memória da soberana. Lili termina se perdendo pela cidade, inclusive o endereço da academia voa da sua mão, e ela só consegue se encontrar por receber a ajuda de um rapaz estranho que estava desenhando com carvão à beira do Tâmisa.
Mais tarde, graças à Dorothy Brown, a aluna que lhe apresenta a escola, Lili descobre que o aluno gênio da escola é Kit Church, um moço de hábitos estranhos e a quem a protagonista precisa superar. Sim, Lili tem seis meses para se tornar a melhor aluna da escola de arte, essa é a ordem de sua autoritária mãe, ou terá que retornar para o Japão, se casar e assumir os negócios da família, que é fabricante de quimonos. Lili sente a pressão, mas fica fascinada por Kit, que pode parecer deslocado, estranho, mas tem um agudo senso de observação e termina sendo gentil com ela. A série foca na dinâmica entre as diversas personagens e as aulas de arte, com um detalhismo que parece ser parecido com o que temos em Nodame Cantabile (のだめカンタービレ).
O anime é simpático. A protagonista é uma jovem (*afinal, ela está na faculdade*) cheia de energia, que tenta controlar seu gênio esquentado e deseja atingir seus sonhos. Vemos sua família em flashback. Filha única, ela tem uma mãe supercontroladora, tanto que o marido não tem coragem de contrariá-la. Imagino que ele, também, tenha se casado com uma herdeira sendo um filho caçula e, por isso, foi dominado por ela. Fiz um episódio do Shoujcoast sobre esse tipo de arranjo, casamento-adoção, que é o que ocorre com Kouji e Kaya em Watashi no Shiawase na Kekkon (わたしの幸せな結婚). Parece um contrasenso que uma mãe conservadora como ela parece ser tenha permitido que sua filha fosse para uma escola tão liberal e progressista, mas é aquilo, o roteiro não está se preocupando com isso. O importante é que Lili tem que ser a melhor, para sua mãe, ser a segunda não é suficiente. Vejam a cena e apreciem a mãe-dragão que ela é. Não vou descrever a sequência.
Não ficou muito claro por qual motivo Lili não ficou esperando o carro de aluguel, mas ela encontrou o sujeito graças às indicações de Kit. De novo, uma mãe tão controladora não iria deixar sua preciosa filha correr nenhum risco. Na faculdade, conhecemos o professor de pintura a óleo, rígido, falastrão, que fica citando Shakespeare aleatoriamente, e Dorothy, que será a amiga impositiva. Ela acha que conhece tudo sobre o Japão e fica fascinada por Lili. No fim das contas, o que Dorothy conhece são estereótipos e Lili se sente um tanto sufocada pelas falas dela.
O anime brinca com o choque cultural, mas não toca em questões importantes logo no início, não sei se virá alguma coisa depois. Por exemplo, Lili estranha a comida, se surpreende com as calças de andar de bicicleta, algo que lhe lembram roupas de homem. Até seriam roupas de homem, mas no Japão não obrigatoriamente. Foi forçado, como foi a colocarem com bloomers, porque mulheres andavam de bicicleta usando saias longas, roupas especiais não eram obrigatórias.
Falando em roupas, não há uma data precisa no anime. Se vocês observarem, vão ver mulheres vestindo roupas que podem ir do final da década de 1890 até os anos 1920. Isso vale também para os cabelos femininos, especialmente, dos figurantes. Já as colegas de Lili usam cabelos totalmente inadequados. Minha amiga Jessica comentou que Anne Shirley (アン・シャーリー) teve mais cuidado com isso. É ridículo ver Dorothy usando chiquinhas, outras moças com o cabelo solto. Elas são moças crescidas, deveriam estar com os cabelos presos. Mas pediram um shoujo mangá para Kamio Yoko e ela certamente olhou para séries shoujo de época, mesmo que tenha olhado livros e seriados ingleses, ou para o trabalho de uma Kaoru Mori, também.
As roupas e cabelos dos meninos são ainda mais descuidados. Artistas poderiam ter mais liberdade para se vestir. Peguem desde os Pré-Rafaelitas até o Grupo de Bloomsbury. Ainda assim, há os exageros de anime. Aliás, Prism Rondo é cheio de clichês e exageros dos shoujo mangá clássicos. Como comentei, Dorothy é a garota de óculos, isto é, sem graça, feia até, que se impõe à protagonista como amiga. Kit é o gênio um tanto deslocado e lembra ligeiramente o Hanazawa Rui de Hanadan. Aliás, dentre as boas coisas do anime temos a discussão sobre arte. Lili é muito boa, mas acadêmica, formal, já Kit não tem amarras. Isso também é um clichê, verdade, mas vai depender de por onde a coisa vai caminhar.
Como Kit tem bom coração, mesmo sendo um esquisitão, não me surpreenderia se ele ajudasse a mocinha a ser a nº1 para não ter que ir embora da Inglaterra, ou, talvez, se ela tiver que partir, ele vá atrás dela. A mocinha tem pesadelos com Kit como um monstro em um traço infantil. Aliás, a abertura é fofinha, nada excepcional, e usa também um traço bem infantil e simples. E na sequência da produção de uma pintura com a temática do céu, eu tinha certeza de que Kit iria pintar o céu refletido no mar ou o próprio mar como céu. E foi exatamente isso que aconteceu. 😁Vamos ver o quanto essas discussões sobre arte e escolas de Belas Artes serão aprofundadas.
Prism Rondo tem a assinatura de Kamio Yoko, inclusive naquilo que se aproxima e se afasta de seu maior sucesso, Hana Yori Dango. Por exemplo, na academia de artes há um trio de moças cujo nome começa com a letra "S". As três estão na academia para conseguir um marido rico, de preferência, com um título de nobreza, como Dorothy explica para Lili. Elas praticam bullying contra a protagonista, porque ela recebeu a atenção do filho de um barão. Inclusive, o rapaz é bem indecente na sua aproximação. O comportamento delas é idêntico ao do grupo de garotas ricas de Hanadan que atormentam Tsukushi por terem ciúmes de Doumyouji e dos outros F4.
Além dos problemas com roupas e cabelos, dessa falta de cuidado de shoujo mangá dos anos 1970, temos coisas que precisam ser exploradas como o racismo. Nesses primeiros dois episódios, as meninas do bullying debocham de Lili, mas me pergunto se esse racismo irá se materializar de outras formas. E há um aluno negro, ou assim parece. Ele nasceu na Inglaterra? Veio das colônias? De onde? Jamaica, talvez. O fato da escola ser liberal e progressista não quer dizer que o mundo seja assim, muito pelo contrário. Será que o anime irá mexer com essas coisas? Mesmo que de leve, deveria. E como não sabemos o ano, fico imaginando o que será feito, na verdade, nem deve ser, da I Guerra Mundial.
Como o ritmo do anime é muito gostoso, é fácil emendar um episódio no outro, mas eu tive que interromper. Se você quiser ler o mangá, ele já começou a sair, mas Kamio Yoko não irá desenhá-lo, a tarefa foi entregue para Maki Minami. Como a série está sendo publicada na plataforma Jump+, já deve estar disponível em inglês, além do japonês. Ah, sim! O prisma do título pode ser os olhos de Kit, em dado momento, alguém diz que ele vê o mundo por um prisma diferente, seus olhos. E a câmera mais de uma vez foca nos olhos de Kit, na luz se fragmentando ao se refletir neles. Lili deve ter que ver o amor nos olhos de Kit.















































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