O ANN trouxe uma entrevista com Rei Yoshimura, ela é especialista em mangá e curadora de exposições sobre o tema. Como ela está responsável no momento por uma exposição sobre Moto Hagio, Ryoko Yamagishi e Waki Yamato em Londres, deu uma entrevista lá. Eu a traduzi. Na medida do possível, mantive a estrutura do original, que está aqui. Os links do texto são do original, então, estão em inglês. Minhas observações estão depois da entrevista.
A Evolução do Mangá Shōjo na Década de 1970 com a Curadora Rei Yoshimura
por Andrew Osmond
| Rei Yoshimura |
Em janeiro deste ano, a Japan House London, em Kensington, recebeu uma palestra da curadora de mangá Rei Yoshimura. Yoshimura, retratada à direita, trabalha como curadora há mais de uma década, primeiro no Museu da Cidade de Kawasaki e, desde 2017, no Centro Nacional de Artes de Tokyo (NACT).
Especialista em estudos de mangá, Yoshimura já foi responsável por exposições sobre temas que vão de CLAMP a Hideaki Anno. Seu projeto atual é uma exposição que será inaugurada em Tokyo, com foco em três artistas icônicas de mangá shōjo da década de 1970. "Shojo Manga Infinity: Moto Hagio, Ryoko Yamagishi e Waki Yamato" ficará em cartaz no NACT de 28 de outubro de 2026 a 8 de fevereiro de 2027.
Entrevistei Yoshimura durante sua visita a Londres, com foco na evolução do mangá shōjo na década de 1970.
Se você comparasse os mangás shōjo do início da década de 1970 com os do final da mesma década, quais diria que foram os desenvolvimentos mais importantes no mercado nesse período?
Rei Yoshimura: As artistas de mangá que apresentei ontem [referindo-se a Moto Hagio, Ryōko Yamagishi e Waki Yamato] estrearam no final da década de 1960, e há um grande número de artistas de mangá que estrearam na mesma época. Essa geração de artistas de mangá conquistou um público maior. No final da década de 1970, cerca de dez anos após suas estreias, elas já haviam conquistado um público bastante amplo, o que expandiu o mercado.
Há também um outro tipo de transformação. Durante a década de 1970, a maioria dos artistas de mangá shōjo era do sexo masculino, mas, a partir da geração que mencionei, na década de 1980, eram principalmente mulheres.
Os mangás das décadas de 1970 e 1980 abordam temas muito sérios, mas são desenhados de forma altamente estilizada, enfatizando a beleza dos personagens e dos cenários.
Yoshima: Na verdade, o tipo de mangá shōjo que se popularizou no Ocidente é apenas uma parte do universo dos mangás shōjo. Existem alguns mangás shōjo muito mais leves, populares apenas no Japão. Esses mangás geralmente têm contextos com os quais somente os japoneses se identificam, e é por isso que não são tão populares aqui.
O verdadeiro valor dos mangás shōjo na década de 1970 era a diversidade de temas abordados. No Japão, a diversidade era muito maior do que a dos mangás populares [no Ocidente].
Isso me leva à minha próxima pergunta. Nas histórias em inglês sobre mangá shōjo, alguns títulos são frequentemente destacados, incluindo Rose of Versailles, They Were Eleven! e The Poem of Wind and Trees (Kaze to Ki no Uta). Mas quais outros mangás dessa época você acha que são negligenciados, especialmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha?
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| Rose of Versailles ©1972 IKEDA RIYOKO PRODUCTION |
Rei Yoshimura: Glass Mask é tão popular quanto A Rosa de Versalhes no Japão, uma série muito longa. Há também títulos da próxima exposição, como Emperor of the Land of the Rising Sun (Hi Izuru Tokoro no Tenshi, de Ryōko Yamagishi) e Haikara-San: Here Comes Miss Modern (Haikara-san ga Tooru, de Waki Yamato).
[Sobre Hi Izuru Tokoro no Tenshi] A obra aborda muito a história japonesa, e é por isso que há esse contexto que, de certa forma, falta internacionalmente. Hi Izuru Tokoro no Tenshi foi uma obra simbólica para a época; teve um impacto significativo em uma certa geração.
Se você tivesse que chutar, qual seria a proporção de leitores japoneses do mercado shōjo na década de 1970 que eram homens?
Yoshimura: Se eu realmente tivesse que chutar, diria que era de 20 a 30%.
Alguns mangás shōjo da década de 1970 popularizaram temas BL nesse formato. Os jornais japoneses e os comentaristas da mídia tradicional no Japão notaram isso e reagiram?
Yoshimura: Na década de 1970, o gênero BL ainda não era exatamente uma "coisa". Era apenas um dos temas abordados nos mangás shōjo da época, e isso era muito natural. E ninguém pensava em rotular [os mangás shōjo], porque a diversidade era enorme naquela época.
Hoje em dia, parece que mangás shōjo são adaptados para anime com muito menos frequência do que mangás shonen. Mangás shōjo eram mais adaptados na década de 1970?
Yoshimura: Mesmo na década de 70, não havia muitas adaptações de mangás shōjo para anime. Primeiro, acho que os mangás shonen, pelos temas que exploram, são muito mais fáceis de transformar em anime. Animes exigem um tempo de tela menor por episódio. Acho que os temas abordados pelos mangás shōjo são muito mais parecidos com literatura ou filmes, então é mais difícil criar ganchos para cada episódio [de anime] do que para mangás shonen. Mangás shonen geralmente são publicados em revistas, e cada publicação tem cerca de 16 a 20 páginas, enquanto mangás shōjo têm 32 ou 40 páginas, então são muito mais longos. É mais difícil encurtá-los.
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| Aim for the Ace! ©Sumika Yamamoto, Shueisha |
Gostaria de perguntar sobre alguns mangás shōjo de esportes da década de 1970, como Attack No. 1 e Aim for the Ace!, que foram adaptados para anime. Como eles refletiram as mudanças nas expectativas em relação a meninas e mulheres no mundo real?
Yoshimura: Antes da guerra, havia muito mais expectativas sobre os papéis de gênero, especialmente para as mulheres. Depois da guerra, isso começou a mudar, mas acredito que, inicialmente, os mangás shōjo focavam mais em temas relacionados ao luto ou assuntos mais difíceis. E então, com o passar dos anos, a abordagem se tornou mais leve.
Pode-se considerar que, durante a década de 1960, muitos mangás shōjo de romance foram lançados, dando às mulheres mais autonomia na construção de suas personagens, o que pode ter contribuído para a quebra de expectativas. Além disso, na década de 1960, era extremamente popular que os mangás shonen tivessem temas esportivos, o que também pode ter influenciado.
Um fator muito importante foram as Olimpíadas de Tóquio de 1964. Pode-se dizer que os esportes em geral se popularizaram por meio de novas mídias, como a TV, que os transmitia em todo o país.
Não havia uma famosa equipe feminina de vôlei nas Olimpíadas?
Yoshimura: Sim, as Bruxas do Oriente.
Moto Hagio teve mais obras traduzidas para o inglês do que outras artistas de mangá shōjo da década de 1970. O que você acha que torna sua obra tão universal?
Yoshimura: Ela também é a artista mais importante do Japão, então é bastante natural. Seu estilo é muito influenciado pela literatura. E muitos de seus temas são universais porque apresentam elementos como ficção científica; muitos de seus temas são mais acessíveis ao público em geral. Na minha opinião, mesmo quando ela escreve sobre o Japão contemporâneo, há algo de estrangeiro ou universal em sua obra.
A Rosa de Versalhes é muito mais conhecida do que a maioria das outras obras da artista Riyoko Ikeda. Por que você acha que é muito mais famoso do que os outros trabalhos dela?
Yoshimura: É a mesma coisa no Japão, A Rosa de Versalhes é significativamente mais popular. De modo geral, os japoneses adoram a França; era especialmente admirada pelas mulheres jovens na década de 1970. Aprende-se muito sobre a história francesa nas escolas [japonesas], então muitos japoneses já conhecem a história da França. A tragédia de Maria Antonieta está muito presente em seus corações, então é algo muito natural para as mulheres japonesas.
Os temas BL ainda exercem grande influência nos mangás shōjo. Mas eu me pergunto se existem outras maneiras pelas quais você acha que os mangás shōjo da década de 1970 influenciam os mangás shōjo de hoje?
Yoshimura: Como eu disse antes, na década de 1970, os mangás não eram realmente vistos com base em gêneros, mas agora eles são categorizados mais do que antes. Uma coisa que me vem à mente é o mangá josei, que é um pouco como uma versão mais madura do mangá shōjo, que é popular atualmente. [Yoshimura se refere aos romances "Harlequin", originalmente criados no Canadá, que influenciaram e foram oficialmente adaptados para mangá por décadas; muitos desses mangás estão disponíveis em inglês. Veja o artigo detalhado de Rebecca Silverman sobre o assunto.] Todo esse gênero [de mangá] em torno desse tema se origina do mangá shōjo; eu acho que os leitores de mangá shōjo o popularizaram no Japão.
Me espantei com duas coisas, e estou me dando ao desfrute de discordar dela. A entrada em massa de mulheres no mercado de mangá começa em 1964, é a data marco porque é a estreia de Machiko Satonaka. Nos anos 1970, como está na entrevista, as mulheres já não eram tão minoria assim, deveriam ser mais ou menos metade das autoras em revistas shoujo. Depois posso ir atrás de referências. Outra coisa, e isso pode ser coisa do ANN, dedução deles, mas está no texto que quando Yosshimura fala de josei, que ela diz corretamente que era visto como shoujo para mulheres. Ainda é para muita gente no Japão, basta ver como autoras de josei ainda dizem fazer shoujo e pegar as premiações. Só que está escrito que quando ela pensa em josei, pensa em mangá Harlequin. Acredito que ela não deva ter uma percepção tão estreita da demografia, mas ser especializada em mangá não é ser especializada em shoujo e ela não é curadora somente de exposições sobre shoujo.


















































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