Estreou no dia 15 de março a nova série da BBC The Other Bennet Sister. Baseada no livro de mesmo nome de Janice Hadlow, a série terá 10 episódios e faz parte das celebrações dos 250 anos de nascimento de Jane Austen. Dois deles foram lançados de uma vez, não sei como será semana que vem e não consegui entender direito se no streaming da BBC foram lançados mais episódios, mas parece que sim. Enfim, isso não importa, o que quero comentar é como esse início foi simpático, delicado e melancólico. Mesmo acrescentando coisas ao original de Jane Austen, o roteiro foi muito respeitoso e convincente.
Só situando as coisas para quem não conhece Orgulho & Preconceito, Mary Bennet (Ella Bruccoleri) é a irmã do meio da família que é central no romance de Austen. Acima dela estão a protagonista Elizabeth (Poppy Gilbert) e a irmã mais bonita, Jane (Maddie Close); abaixo dela estão as duas cabeças de vento, Kitty (Molly Wright) e Lydia (Grace Hogg-Robinson). Jane tem a estima do pai e da mãe, Elizabeth é a favorita do pai, Lydia é a favorita da mãe e Kitty é a minion da irmã caçula. Já Mary é vista como sem graça e meio que condenada a ficar solteira. Como os Bennet não têm um filho homem, pelas regras da propriedade da família, tudo irá para o parente masculino mais próximo. Por conta disso, Mrs. Bennet está desesperada para ver suas filhas casadas; se não conseguir, muito provavelmente terminarão em uma situação econômica muito ruim.
No livro, Mary parece desesperada por alguma atenção. Ela se esforça no piano, mas não consegue tocar bem. Tenta cantar, mas é desafinada. Quer parecer culta, mas só soa pedante e moralista. Essas características estão na série, mas no segundo episódio. No primeiro, temos uma Mary que, mesmo se sentindo inferior às irmãs, ainda sonha em ser amada. Vemos a jovem indo ao optometrista, que é simpático, gentil e visivelmente apaixonado por ela como ela é. Hill, a criada da família e que está no livro original, tem um papel importante na série, porque ela é a única pessoa na casa que parece se preocupar com Mary, demonstrando simpatia e afeto pela jovem. É ela que se preocupa em preparar um belo, ainda que simples, vestido para que a moça vá ao baile. Observem o contraste entre a roupa de Mary e a das irmãs. Algo bem interessante é que Hill é interpretada por Lucy Briers, a Mary Bennet da série de 1995.
O baile é aquele no qual conhecemos Mr. Bingley, suas irmãs e Mr. Darcy, mas o foco está em Mary e no seu flerte com o jovem optometrista, que se chama John Sparrow (Aaron Gill). Só que o encanto se quebra quando Mrs. Bennet intervém e proíbe Mary de dançar uma terceira vez com o moço. Duas vezes já demonstra deferência, três vezes poderia sugerir algo mais. Mas Mrs. Bennet (Ruth Jones) quer que as filhas se casem, só que se Mary se comprometer com um sujeito de uma classe inferior, ela poderá atrapalhar os casamentos das irmãs. Elas, mesmo não tendo tantos recursos, são membros da gentry (*pequena nobreza rural*); já o rapaz, apesar de muito bem-educado e respeitável, vive do seu trabalho; ele não é um cavalheiro para os padrões da época.
Lembram de Emma tentando evitar que Harriet Smith se case com Robert Martin? O filme Emma da ITV é o que melhor retrata essa questão. Ela crê que a moça órfã seja filha de um cavalheiro, já o rapaz arrenda terras de Mr. Knightley e vive da agricultura. É um fazendeiro respeitável, mas não para se casar com uma moça da gentry. Seria um casamento desigual e indigno. O resultado é que Mary precisa dizer para Sparrow que não pode mais dançar com ele. O rapaz entende bem o que está acontecendo e a expressão no seu rosto é de cortar o coração. Sei que ele não deve voltar, mas queria que Mary acabasse rompendo com a mãe e ficando com ele.
Quando vi o ator Aaron Gill imaginei que ele seria de origem indiana. Seria fácil explicar a presença do jovem, mas a questão racial não é trazida por Mrs. Bennet. Além disso, no baile há várias figurantes que não são brancas. Enfim, a série é mais uma produção color blind, isto é, a cor dos atores e atrizes do elenco não faz diferença, porque ninguém tem cor. Como optaram por esse caminho, estão fazendo a coisa do modo errado, porque todo o elenco principal é branco. Pega até mal colocarem atores não-brancos para "colorir" o fundo. Seria melhor não ter ninguém. Isso invalida a série? Não. Mas é algo que tira um pouco do seu brilho. De personagens "de cor" até agora na série temos Mrs. Gardner (Indira Varma) é interpretada por uma atriz de ascendência indiana e outra personagem que não apareceu ainda, Ann Baxter (Varada Sethu) é indiana mesmo. E há ainda uma Miss Clarke (Seraphina Beh), que é interpretada por uma atriz negra.
Retornando, a origem de Mrs. Bennet é no grupo social de Mr. Sparrow; ela casou para cima. Sabemos disso se atentarmos à reserva que as irmãs de Bingley e Darcy têm em relação ao tio de Elizabeth, Mr. Gardiner (Richard Coyle), que mora em Londres e precisa trabalhar, mesmo que sua ocupação seja respeitável, que ele tenha excelentes condições financeiras e seja mais cavalheiro do que muitos dos nobres que circulavam nos livros de Jane Austen. A ideia da série é que Mrs. Bennet acredita que suas filhas devem se casar dentro do seu grupo social (*algo que é herdado do pai*) e se Mary ficar solteira, tudo bem, afinal, alguém precisa cuidar dos pais idosos. Mrs. Bennet nesta série é muito cruel com Mary; o livro não sugere tanto. É por causa desse trauma que Mary desiste do amor e decide ser a personagem que conhecemos no livro. Ela abandona suas leituras leves (*ela já lia antes, mas eram romances, livros de História*) e passa a ler Filosofia, coletâneas de sermões. Coisas que ela não entende ou são chatas mesmo. Acredita que, assim, terá alguma relevância, talvez conseguindo a estima do pai.
No episódio dois, conhecemos Mr. Collins. O ator que o interpreta, Ryan Samson, parece ir na linha do Mr. Collins de David Bamber, que faz o papel na série de 1995. Só que ele é ainda mais baixinho. Acho chato que a única produção que acompanhou o livro ao escalar a personagem foi Orgulho & Preconceito & Zumbis, que escalou Matt Smith. Mr. Collins é jovem, muito alto e desengonçado. Só que geralmente escalam um ator que parece passado dos 30 e meio atarracado. O ator que faz Mr. Collins nessa produção já tem 40 anos, ainda que pareça ter menos idade.
Mrs. Bennet, assim como no livro, quer empurrar Lizzie para o primo distante que irá herdar tudo. Só que Mary é convencida por Charlotte Lucas (*que foi a primeira a aconselhar Mary a não dançar uma terceira vez com Sparrow*) a tentar conquistar Mr. Collins, porque ele e Lizzie não combinam. Charlotte convence a jovem a se sacrificar pela família e se salvar do pior destino para uma mulher, ficar solteira (*e dependendo da bondade da família*). E ela se esforça. Na série, Mr. Collins, diante da frieza e sarcasmo de Lizzie, começa a olhar para Mary, que sabe sermões de cor e toca piano. Só que, mais uma vez, Mrs. Bennet intervém e rebaixa a moça. Mr. Collins está reservado para Lizzie, ela não deveria interferir.
Quando Lizzie rejeita Collins, Mrs. Bennet vê em Mary uma possibilidade, mas Charlotte parece perceber que pode ser sua última oportunidade de se casar. Como Collins diz que aprecia mulheres que sabem cantar, Charlotte estimula a moça a cantar sabendo que Mary não canta bem. Charlotte nessa série é bem cobra criada. Eu vi malícia nas ações dela com o intuito de enredar Mr. Collins. Ela meio que planejou tomar Mr. Collins para si. Enfim, Mary canta no baile em Netherfield, do mesmo jeito que está no livro, vira motivo de chacota e envergonha toda a família. Algo que difere do livro é que Mr. e Mrs. Gardiner estão no baile e que Elizabeth se desculpa com Mary por ter pedido ao pai para tirá-la do piano.
Falando em Elizabeth, não consigo ver a personagem do livro na atriz (Poppy Gilbert). É uma moça bonita, ainda que sem sobrancelhas (*gosto de sobrancelhas*), mas seus olhos não me remetem aos "fine eyes" (*olhos bonitos*) do livro. A atriz que faz a Jane, Maddie Close, não me pareceu tão bonita assim. O par Lydia e Kitty (Grace Hogg-Robinson e Molly Wright) é engraçado e elas usam roupas combinando. Foi uma boa ideia. Achei o Mr. Bingley (Aled Owen) muito testudo, mas é o penteado, porque achei ele muito bonito nas fotos que achei. E ele parece mais velho do que é. Outro que foi enfeiado é Victor Pilard, o Mr. Darcy. Ele ficou parecendo o Mr. Darcy "vampiro" de um quadrinho de Orgulho & Preconceito que chegou a sair no Brasil. Mas Darcy e Bingley nem têm falas, ou tiveram até o momento, eles só aparecem de longe. Quem tem falas e humilha Mary é Caroline Bingley (Tanya Reynolds). Mesmo assim, é interessante não terem eliminado Louisa Hurst (Lucinda Dryzek), a outra irmã de Bingley, e seu marido (Fergus Craig).
Ruth Jones é uma Mrs. Bennet extremamente cruel. Não a vemos dando chilique, o foco não é esse. Ela continua mal-educada, mas o foco é em como ela parece desprezar a filha feia. Richard E. Grant está deliciosamente divertido como Mr. Bennet. Altíssimo nível de ironia e deboche mesmo. E fica parecendo que Mary é a filha fisicamente mais parecida com ele. Ainda assim, fora na parte dos óculos, que causam horror à mãe e às irmãs, ele apoia a filha, mas morre aí; ele é o mesmo pai negligente do livro e de qualquer outra adaptação. Mary é invisível e precisa buscar um lugar onde possa ser valorizada e amada.
Falando da atriz que faz Mary, Ella Bruccoleri, ela consegue passar uma melancolia muito grande para a filha que não é amada. A série abre com Mary pensando que já é muito ruim ser bela e pobre, mas ser sem graça (plain) e pobre é uma tragédia. A atriz não é bonita, mas não é feia. Fizeram bem em escolher alguém que não está dentro daquela caixinha do "basta se arrumar que ela fica linda". Ela sempre será alguém fora do padrão, bem diferente das irmãs. Feliz escolha é não investir na linha "ela não é como as outras garotas", porque Mary quer ser como as outras, mas ela sempre foi empurrada para trás pela mãe, sempre foi negligenciada pelo pai e meio que ignorada pelas irmãs, não sendo a favorita de ninguém. Somente a criada lhe dá algum carinho.
Quanto ao figurino, achei bonito e apropriado. O pessoal que fica de olho em reutilização de roupas, pontuou que pelo menos um vestido que aparece sendo usado por Elizabeth veio da série da BBC de 1980 (*resenhas aqui*). Deve haver outras roupas recicladas. As figurantes do primeiro baile pareciam somente OK, mas as personagens com falas tinham roupas boas, até os sapatos no baile, quando aparecem, são bem bonitos. Algo a se destacar é que todas as mulheres usavam cabelo preso. O único penteado que poderia estar melhor é o de Mrs. Bennet, que precisava ter algo cobrindo a cabeça para indicar que ela era uma mulher casada. Fora isso, não tenho do que reclamar.
No final do episódio dois, até Kitty aparece casada. Não precisavam correr com isso, bastava até seguir o livro com Kitty passando temporadas com as irmãs que casaram bem, Jane e Elizabeth, e Mary ficando para trás. Mas foi uma escolha da série. Mary fica sozinha com os pais e uma grande tragédia acontece, algo que vai mudar a vida da personagem. Vamos ver como fica a situação no episódio três. Espero que tenhamos dois episódios de uma vez.



















































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