O título foi tirado da frase que abre um artigo do excelente site Unseen Japan, aberta aqui no meu navegador por mais de um mês. Ela se chama Casos de stalking e ordens de restrição no Japão batem novo recorde (Stalking Incidents, Restraining Orders in Japan Set New Record). O Japão é um país muito seguro, especialmente se comparado com o nosso, no entanto, matérias recentes apontam que as mulheres estão se sentindo cada vez mais vulneráveis ou que a sociedade tem se tornado mais sensível à violência que elas sofrem.
Segundo a matéria, a Agência Nacional de Polícia (NPA) registrou, em 2025, 3.717 casos de stalking e 3.037. São recordes desde que o país passou, em 2000, sua lei contra o stalking. Segundo a matéria, os novos números e o relatório da NPA revelam "(...) um número recorde de prisões por stalking e ordens de restrição após um caso de perseguição e assassinato de grande repercussão.". Essas situações de assédio e stalking são comuns nos mangás. Naqueles que são feitos para o público feminino, normalmente são mostrados como um problema, algo que causa terror, porque as autoras sabem como esse tipo de coisa pode terminar e tendem a não ser complacentes com essas coisas. Isso,, claro, em mangás mainstream. Por exemplo, apareceu uma situação como essa no primeiro episódio de um anime que está no ar agora, o Parede de Gelo (Koori no Jouheki/氷の城壁).
Já nos materiais para o público masculino, o stalking pode ser apresentado através do olhar do perseguidor, como algo excitante e prelúdio para um relacionamento amoroso/sexual ou mesmo uma escalada de violência. Sim, lembrei de uma exceção em um material para o público feminino: Koi to Yobu ni wa Kimochi Warui (恋と呼ぶには気持ち悪い). Com o agravante de ser um homem mais velho perseguindo uma adolescente. Escrevi sobre ele anos atrás.
A matéria também relata que a polícia diz "(...) ter consultado pessoas sobre um total de 22.881 potenciais casos de stalking. Esse é o segundo maior número desde 2000. Dos casos investigados pela polícia, 1.546 resultaram em medidas contra o perseguidor para pôr fim ao seu comportamento ilegal. Isso representa um aumento de 205 casos em comparação com 2024. 1.577 casos resultaram em advertências. Um total de 2.171 casos resultaram em acusações formais com base em outras leis. Dois casos, tragicamente, terminaram em homicídio." Trata-se de maior sensibilidade ou de um fenômeno que vemos por aqui e que parece ser mundial? De que estou falando, do aumento dos casos de violência contra as mulheres articulados à circulação de discursos misóginos na internet? O Netlab da UFRJ monitora várias redes sociais e os resultados são assustadores, mas nada surpreendentes.
Os dois casos de assassinato que parecem ter chocado o Japão, segundo a notícia, não são muito diferentes do que a gente vê por aqui, no Brasil, dia sim e outro também. "Shirai Hideyuki, de 27 anos, assassinou sua ex-namorada, Okazaki Asahi, de 20 anos, em dezembro de 2024. A polícia da província de Kanagawa não realizou buscas na propriedade de Shirai em Kawasaki durante quatro meses, mesmo após Okazaki ter consultado a polícia nove vezes sobre o fato de Shirai estar a perseguindo. O caso veio logo após outro, em março de 2025, no qual um homem assassinou sua ex-namorada, dona de uma lanchonete, em Nishitokyo. O agressor, seu ex-marido, havia cumprido pena de prisão por agressão." Este último caso acabou detonando questionamentos sobre a necessidade de mudanças nas leis do país, inclusive a contra o stalking.
Os casos acabaram reforçando as queixas de defensores de direitos das mulheres que apontam que a polícia não leva a sério as queixas das mulheres e que 80% dos casos de importunação e stalking terminam não sendo registrados. A maioria das mulheres respondeu que ao tentarem registrar queixas são recebidas por policiais pouco interessados ou que desconfiam da sua palavra e, por isso, terminam desistindo. No Brasil, essa situação só mudou um pouco quando foram criadas as delegacias da mulher e o pessoal que lá trabalha recebeu treinamento adequado.
O artigo termina fazendo as mesmas ponderações que eu fiz lá em cima: os casos estão aumentando ou a polícia está ficando mais atenta? Talvez, os dois casos de assassinato em um país tão seguro tenham servido como alerta. Agora, na base disso tudo está a estrutura patriarcal que estimula os homens a acreditarem que têm o direito sagrado de se apropriarem das mulheres e que não podem ser rejeitados, porque as mulheres precisam ser gratas por terem sido escolhidas. Resumindo, esse problema é mundial, porque o patriarcado atravessa todas as sociedades deste mundo no qual estamos vivendo.


















































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