Passei a semana fora porque estava participando da ANPUH-Minas em São João Del Rei. Participei de duas formas: ministrando com a prof.ª Natania Aparecida da Silva Nogueira um minicurso sobre Quadrinhos e Ensino e apresentando uma comunicação sobre a Rosa de Versalhes (Versailles no Bara/ベルサイユのばら) do ST História e Mídias. Para montar meus slides, retomei a questão que usou o mangá de Riyoko Ikeda como texto motivador na prova de História no Exame Comum de Admissão na Universidade (大学入学共通テスト, Daigaku Nyuugaku Kyoutsuu Test), em 17 de janeiro. Por conta disso, tropecei em uma entrevista com Ikeda que eu não conhecia e que é uma das melhores que eu já vi, porque ela traz questões que eu não vi a autora trazendo de forma tão clara. Inclusive reconhecendo que mangás têm lugar na universidade, porque ela fala contra isso na entrevista que está na edição italiana que eu tenho em casa. Tenho um post, que já está desatualizado, com entrevistas traduzidas de Riyoko Ikeda.
Ikeda não considera a Rosa de Versalhes sua melhor obra; ela considera Orpheus no Mado (オルフェウスの窓) sua obra-prima. Agora, parece que, ao mesmo tempo que ela ama a Rosa, ela meio que se ressente deste mangá ter eclipsado outros trabalhos que ela valoriza mais. E destaco esse trecho: "É verdade que, depois de "A Rosa de Versalhes", recebi uma enxurrada de ofertas para trabalhos históricos, mas me orgulho de ter criado muitas obras que abordam questões sociais. Explorei aspectos crus da natureza humana, desde bombas atômicas e minorias sexuais até bullying escolar e as dificuldades enfrentadas por mulheres de carreira. Não sei se o mangá pode resolver problemas sociais, mas acredito que ele pode, pelo menos, apresentar a existência dessas questões. No entanto, os temas que abordei estavam muito à frente de seu tempo e não foram discutidos na época. Depois, sinto um pouco de tristeza por terem sido soterrados pela sombra de "A Rosa de Versalhes" e esquecidos.".

Enfim, poderia me estender muito na discussão dessa entrevista, mas estou correndo. Para quem quiser ler o original, link AQUI. Mantive a estrutura original da entrevista, inclusive com as ilustrações nos lugares em que aparecem na entrevista. A tradução está abaixo:
A autora de "A Rosa de Versalhes" revela suas lutas passadas e seus sentimentos em relação aos jovens, em conexão com a inclusão de uma questão no Exame Comum de Admissão na Universidade: "Oscar é o meu ideal".
Yurie Otani
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Uma questão relacionada a "A Rosa de Versalhes" que apareceu no Exame Comum de Admissão na Universidade (Foto: Departamento de Fotografia e Vídeo, Minako Shinzaki)
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Uma questão relacionada ao mangá shojo "A Rosa de Versalhes" apareceu na prova de admissão à universidade para "História Geral e Exploração da História Mundial", realizada em 17 de janeiro, causando grande repercussão. "A Rosa de Versalhes", uma obra-prima atemporal ambientada durante a Revolução Francesa, retrata a vida da Rainha Maria Antonieta e da bela jovem Oscar, que se vestia como homem. A autora, Riyoko Ikeda (78), escreveu em seu blog que ficou "tão comovida que pensei: 'Que bom que estou viva!'" sobre a inclusão da questão na prova. Conversamos novamente com Ikeda-sensei para saber mais sobre seus pensamentos a respeito de "A Rosa de Versalhes" e sua mensagem para os jovens que vivem na atualidade.
— Você sabia de antemão que "A Rosa de Versalhes" seria incluída no Exame Comum de Admissão na Universidade (Common Test)?
Não, havia o risco de vazamento de informações e eu não fui contatada (pelo Centro Nacional de Exames de Admissão ao Ensino Superior). Quando soube pelos jornais, fiquei muito feliz, embora achasse que devia ser extremamente vantajoso para as mulheres. "A Rosa de Versalhes" é publicada em série há mais de 50 anos, desde 1972, e eu já tenho quase 80 anos. As pessoas que fazem o Exame Nacional de Admissão ao Ensino Superior hoje são os netos dos leitores daquela época, então me sinto muito honrada por ter tido essa oportunidade de ser vista pelos jovens.
— A pergunta incluía vários painéis da obra, acompanhados da observação de que "pode-se pensar que as mulheres aristocráticas daquela época eram colocadas em uma posição subordinada a seus pais e maridos patriarcais". Quais foram seus pensamentos ao retratar a situação difícil das mulheres que viviam em uma sociedade dominada por homens?
Antes do casamento, elas estavam sob o controle do pai, e depois do casamento, sob o controle do marido. Eu achava que era uma vida terrível, mas, por se tratar de um fato histórico, retratei-a de forma imparcial, sem envolvimento emocional excessivo.
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| Questões relacionadas a "A Rosa de Versalhes" que apareceram no Exame de Admissão à Universidade (Parte 1) |
Mas o patriarcado persiste no Japão há muito tempo, não apenas durante a era da "Rosa de Versalhes". Eu mesma saí de casa jovem e vivi como quis depois de me casar aos 22 anos, então não acho que me sentisse frequentemente vítima dos homens.
Por outro lado, era doloroso quando eu não conseguia ter filhos e outras mulheres me perguntavam: "Você é mesmo uma mulher?". Sempre que eu abordava questões de criação de filhos ou educação em palestras, as mulheres na plateia quase sempre diziam: "Você não tem o direito de dizer essas coisas, já que não tem filhos". Era uma época em que a ideia de que uma mulher que não podia ter filhos não era uma mulher era considerada normal.
Oscar expressa todos os meus sentimentos.
— Você reflete sobre as dificuldades que enfrentou como mulher em "A Rosa de Versalhes"?
Minha crença na importância da liberdade é perfeitamente expressa pela personagem Oscar. Suas palavras e seu modo de vida são o meu ideal.
Oscar nasceu como a filha caçula de um general francês e, como todas as suas irmãs eram meninas, foi criada como um menino para se tornar a sucessora do pai. No fim, ela é grata ao pai por isso, sentindo que pôde conhecer um mundo mais amplo do que suas irmãs jamais poderiam ter conhecido. Oscar era uma pessoa que constantemente se rebelava contra a época.
Minha intenção com "A Rosa de Versalhes" era ser um mangá infantil, mas recebi muitas cartas de fãs, principalmente de mulheres adultas. Naquela época, as mulheres trabalhadoras eram frequentemente forçadas a uma vida de servir chá e fazer cópias no escritório, casando-se e abandonando seus empregos ao atingirem uma certa idade. Acho que as mulheres que queriam trabalhar duro enfrentavam uma época muito difícil e dolorosa.
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| Questões relacionadas a "A Rosa de Versalhes" que apareceram no Exame de Admissão à Universidade (Parte 2) |
Por isso, tantas mulheres admiravam o estilo de vida livre e forte de Oscar. André, o fiel apoiador e maior confidente de Oscar, também era popular, e eu frequentemente via comentários como: "Eu gostaria de ter alguém como André na minha vida".
No entanto, também houve críticas de que "isso não é historicamente preciso"...
— A questão do Exame Comum incluía a observação de que "a capacidade de retratar as emoções e os conflitos de pessoas no passado que não foram registrados pode ser a força da ficção". Como alguém que trabalhou em muitas obras históricas, qual a sua opinião sobre essa observação, Ikeda-sensei?
Concordo. No entanto, como se trata de ficção, os pensamentos e ideias do autor também estão presentes, e não necessariamente são fiéis aos fatos históricos. Em relação a "A Rosa de Versalhes", recebi críticas de pessoas instruídas dizendo: "Isso não é historicamente preciso". Claro, isso é natural, já que a própria Oscar é uma personagem fictícia. Respondi: "Não estou escrevendo um livro de história". Espero que os leitores apreciem a ficção como ficção e também estudem os fatos históricos adequadamente.
É verdade que, depois de "A Rosa de Versalhes", recebi uma enxurrada de ofertas para trabalhos históricos, mas me orgulho de ter criado muitas obras que abordam questões sociais. Explorei aspectos crus da natureza humana, desde bombas atômicas e minorias sexuais até bullying escolar e as dificuldades enfrentadas por mulheres de carreira. Não sei se o mangá pode resolver problemas sociais, mas acredito que ele pode, pelo menos, apresentar a existência dessas questões. No entanto, os temas que abordei estavam muito à frente de seu tempo e não foram discutidos na época. Depois, sinto um pouco de tristeza por terem sido soterrados pela sombra de "A Rosa de Versalhes" e esquecidos.
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| Riyoko Ikeda (Foto cedida por Riyoko Ikeda Production) |
Jovens acham "A Rosa de Versalhes" difícil de ler
— No entanto, "A Rosa de Versalhes" se consolidou como uma obra-prima atemporal, com uma adaptação para filme de animação lançada no ano passado. Qual você acha que é o motivo de ser amada há mais de meio século?
Honestamente, nunca pensei nisso, então não sei. Na época em que estava sendo publicada em formato de folhetim, recebi uma carta que dizia: "Sua mera existência neste mundo é uma aberração. Quero testemunhar sua queda." Cinquenta anos se passaram desde então, então espero que essa pessoa continue viva e veja meu fim (risos).
Contudo, tenho a sensação de que obras históricas como "A Rosa de Versalhes" podem se tornar cada vez mais difíceis de aceitar no futuro. Recentemente, recebi uma carta de uma leitora, por volta da idade do colegial, que escreveu: "Recomendei 'A Rosa de Versalhes' a um amigo, mas ele disse que era muito difícil de ler." Fiquei surpresa. Em primeiro lugar, os nomes dos personagens são difíceis, e entender o contexto histórico também foi um desafio. Talvez estejamos numa época em que obras sérias sejam evitadas, e obras de entretenimento fáceis de entender, como romances cotidianos, estejam ganhando popularidade. É por isso que fico tão feliz que tenha sido incluído nas questões do Exame Comum desta vez. Para todos os jovens, por favor, leiam "A Rosa de Versalhes" pelo menos uma vez. Pode ser útil algum dia, em algum lugar.
(Composição/Departamento Editorial da AERA, Yurie Otani)
Ver perfil da autora Yurie Otani
Nascida em Tóquio em 1995. Formada pela Faculdade de Artes Liberais da Universidade Cristã Internacional. Após iniciar sua carreira como jornalista na sucursal de Mito do Asahi Shimbun, trabalhou nas redações do "Weekly Asahi" e do "AERA". Como jornalista versátil, busca responder às perguntas "por quê?" do seu cotidiano. Ela apresenta o programa de rádio e podcast "AERA no Dabera Radio", disponível no YouTube.
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