quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Até Jane Eyre entre os livros banidos de escolas nos EUA e IA está sendo usado para montar as tais listas

Faz muito tempo que, nas escolas nos EUA, especialmente nos estados republicanos, com destaque para a Flórida, os pais se organizam para banir livros.   Normalmente, os materiais banidos são aqueles que abordam questões de gênero (*papéis atribuídos a homens e mulheres em uma dada sociedade*), identidade de gênero e sexualidade.  O Conto da Aia é figurinha fácil nessas listas.  Outros livros foram acusados de trazer linguagem profana (*palavrões*), conteúdo sexual e violência incompatíveis com aquilo que seria recomendado para menores.  Os mangás normalmente são pegos por causa disso.  Com o  passar do tempo, livros que discutem racismo e direitos civis começaram a entrar nessas listas.  Mesmo livros e  quadrinhos sobre o Holocausto já foram banidos, como Maus de Art Spiegelman.  Um documentário excelente chamado O ABC da Proibição de Livros (The ABCs of Book Banning) trata muito bem desse absurdo e foi indicado ao Oscar em 2024. 

Tudo isso é coisa que vem de anos e foi amplamente endossada pelo presidente Trump. Desde que assumiu, a prática se tornou corrente nas escolas das bases militares norte-americanas.  Segundo o The Guardian, "Os Estados Unidos registraram quase 12.000 proibições de livros em escolas públicas durante o ano letivo de 2025-2026, o maior número em um único ano, de acordo com a organização sem fins lucrativos de defesa da liberdade de expressão PEN America.".  Mas eis que a Newsweek coloca no título de uma matéria (‘Jane Eyre’ and Manga Join List of 11,000 Banned Books in America)  que Jane Eyre, de Charlotte Brontë, está entrando nessas listas, não sei se no Texas ou na Flórida, ou nos dois.  

Por qual motivo incluíram Jane Eyre nessa lista?  Será que o fato da protagonista desse livro publicado em 1847 ter uma mocinha insubmissa para os padrões da época? "Não sou um pássaro, e nenhuma rede me aprisiona; sou um ser humano livre com vontade própria." ("I am no bird, and no net ensnares me; I am a free human being with an independent will.").  Será que frases assim incomodam?  É feminista demais?  Será que a tensão sexual entre Jane e Mr. Rochester é o problema?  E, vejam, tensão sexual padrão vitoriano leve.  É difícil de explicar.  A matéria não explica e eu fui procurar outras fontes.  Não encontrei explicação.

Jane Eyre foi um dos livros favoritos da minha adolescência.  Acho que li com 14 anos e já reli várias vezes.  E tenho resenhas de várias das adaptações da obra para o cinema e  para a TV aqui no blog (1943, 1970, 1983, 1996, 1997, 2006, 2011), porque se sai alguma coisa relacionada a Jane Eyre, normalmente, vou atrás.  Aliás, ano que vem teremos mais uma adaptação para o cinema.  Privar adolescentes do direito de escolher ler esse livro e tantos outros é uma crueldade.

Uma das minhas versões favoritas... E eu não resenhei até hoje.

O artigo da Newsweek ainda aponta também que, agora, essas associações de pais reacionários estão usando IA para construir essas listas.  Imagino que essas pessoas não leem os livros que pedem para banir.  Enfim, as  coisas são ruins, mas elas sempre podem se tornar piores.  E essa onda deve engrenar no Brasil novamente caso a eleição deste ano termine como parece que vai terminar.  Se vocês procurarem, já comentei várias vezes sobre banimento de livros no Shoujo Café.

1 pessoas comentaram:

Absurdo banir este livro! E você tem toda razão, o resultado da nossa eleição está caminhando para tragédias.

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