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sábado, 30 de maio de 2026

Studio Mappa quer lucrar nos dez anos de YURI!!! on Ice sem oferecer o que os fãs realmente desejam, um novo anime

YURI!!! on Ice (ユーリ!!! on ICE) estreou em outubro de 2016 e atraiu uma legião de fãs.  Dirigido e escrito por mulheres (Sayo Yamamoto e Mitsurou Kubo), ele apresentava de forma bem realista o dia a dia dos patinadores artísticos de elite nos oferecendo personagens ricas, multifacetadas e um romance que derreteu o coração de muita gente.  Até hoje, há quem se pergunte de aconteceu ou não um beijo no episódio #7.  Eu defendo que houve, e nos deram até um casamento simbólico entre os protagonistas Yuri Katsuki e Viktor Nikiforov.   YURI!!! on Ice só não é meu anime de esportes favorito, porque meu anime favorito de TODOS OS TEMPOS é a primeira temporada de Ace Wo Nerae! (エースをねらえ!).  Findo o seriado, o estúdio Mappa nos enrolou por anos com a  promessa de um filme animado focado em Viktor (*todo mundo queria uma segunda temporada...*) chamado Yuri!!! on ICE the Movie: Ice Adolescence com previsão de lançamento em 2019.  Teve até teaser, até que o projeto foi cancelado em 2024.

Com o décimo aniversário do anime, o estúdio Mappa liberou essa ilustração comemorativa e anunciou um BOX em Blu-ray da série.  E cito o Screen Rant: "O Box Set do 10º Aniversário, disponível para pré-venda e cadastro aqui, contará com a série de televisão completa, além de cenas extras e músicas relacionadas ao anime já lançadas anteriormente. A MAPPA ainda não divulgou a data de lançamento completa nem a lista completa de conteúdo, mas a arte comemorativa desenhada por Tadashi Hiramatsu será a ilustração oficial da capa da coleção."  E imagino que possa acontecer algum evento comemorativo, seja exposição ou ligado à  patinação com exibição especial da série ou de cenas selecionadas.  De qualquer forma, é só uma maneira do estúdio ganhar  dinheiro às custas dos fãs sem oferecer  nada realmente novo de YURI!!! on Ice.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Biblioteca em Osasco descarta QUARENTA MIL livros no lixo, dentre eles muitos mangás, inclusive Fushigi Yuugi e Inuyasha

Ontem, me avisaram que dentro do escandaloso descarte de livros da Biblioteca Monteiro Lobato feito pela prefeitura de Osasco estava Fushigi Yuugi  (ふしぎ遊戯).  Dá para ver na foto vários volumes do mangá de Yuu Watase.  A série, que está terminando as suas comemorações de 30 anos de término de publicação, foi publicada no Brasil pela Conrad entre 2002 e 2005, sendo um dos primeiros shoujo lançados em nosso país.  

Enfim, eu até tinha visto a notícia do descarte e repostado em algumas redes sociais, mas não sabia dos mangás.  A justificativa inicial da prefeitura foi esta: "Por meio de nota, a prefeitura afirmou que os livros estavam mofados e contaminados por fungos e que precisaram ser descartados "para evitar a contaminação de outras obras". A biblioteca está fechada para reformas desde 2020.".  Mas em nenhum momento, a prefeitura explicou se tentou recuperar os livros, se houve algum manejo dos volumes.  Simplemente pegaram e jogaram no lixo.  A prefeitura também se prontificou a recomprar os volumes descartados.  Bem, Fushigi Yuugi, Samurai X e provavelmente vários livros descartados estão esgotados.  Sabe-se lá o que eles jogaram nas caçambas de lixo.


Como a ação (*jogar livros no lixo*) causou revolta e a justificativa não se sustenta, o Ministério Público de São Paulo abriu investigação.  Pressionado, o prefeito Gerson Pessoa, do Podemos, abriu sindicância para saber quem deu a ordem para pegar milhares de livros e jogar fora.  Enfim, vamos ver como as coisas ficam.  De qualquer forma, isso só deixa evidente o descaso em relação à cultura, à coisa pública e ao dinheiro dos contribuintes.  E nem vou dizer que é coisa somente da Direita ou Extrema-direita, porque não conheço o comportamento do prefeito, mas, neste caso foi.

sábado, 21 de março de 2026

Posso perder a minha conta do Facebook e nem sei por qual motivo.

 

Vejam que gracinha: 

"Valéria, você enviou uma apelação em 22 de março de 2026. 
Volte aqui para conferir o resultado. 
Sua conta não está visível para outras pessoas no Facebook e você não consegue usá-la. 

O que acontece agora? 
  • Geralmente, levamos cerca de uma hora para analisar suas informações. Volte aqui para conferir o resultado. 
  • Se constatarmos que sua conta está de acordo com nossos Padrões da Comunidade, você poderá usar o Facebook novamente. 
  • Se constatarmos que sua conta não está de acordo com nossos Padrões da Comunidade, ela será desativada permanentemente e você não poderá mais apresentar uma apelação."
Não sei o que aconteceu. O Facebook pediu que eu confirmasse que era humana e gravasse uma selfie. Quando finalmente consegui enviar esse vídeo de checagem, recebo essa mensagem aí.  Não fiz apelo nenhum, estava postando normalmente e aconteceu um bug. Eles estão cada vez mais comuns no Facebook para PC. Agora, não posso usar o Facebook nem o Messenger.  Quero ver se decidirem que minha conta não cumpre com as regras, que a gente nem sabe quais são e eu perder minha conta de mais de vinte anos. Enfim, se eu sumir do Facebook, já sabem o motivo. O grupo do Shoujo Café por lá tem mais de 9 mil e 600 membros. Só para vocês terem uma ideia.

domingo, 8 de março de 2026

Shoujocast no Ar! Hoje é 8 de Março: Temos alguma coisa para comemorar? #8M


8 de março é um dia de luta, é um dia em que devemos lembrar das gerações de mulheres que vieram antes de nós para que tivéssemos o mínimo de direitos, é uma data para que nos unamos para defender o que temos, porque os direitos das mulheres estão sob ataque. Mas este ano não temos muito o que comemorar e eu estou aqui com um programa bem depressivo para provar.  Sim, poderia ter sido um texto, mas eu tive que escolher e acabei fazendo o vídeo.  Para a minutagem é preciso ir até o Youtube.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Shogakukan SE DESCULPA por publicar autor condenado por estupro sob pseudônimo e retira seu título da plataforma Manga One

Olha, esse caso é de um cinismo fabuloso, porque antes de contar a história já deixo registrado que ninguém irá me convencer de que os editores não estavam cientes dessa fraude.  Muito bem, vamos ao caso nojento.  

A editora Shogakukan suspendeu a distribuição do mangá Joujin Kamen (常人仮面) após descobrir que seu autor,  Ichiro Hajime, era na verdade Shouichi Yamamoto, autor  do mangá Daten Sakusen (堕天作戦). O departamento editorial do aplicativo de mangá da plataforma Manga ONE, que pertence a Shogakukan, anunciou no dia 27 que interrompeu a distribuição digital da série e suspendeu o envio dos volumes encadernados. Um comunicado oficial explicando as circunstâncias e pedindo desculpas foi publicado no site da empresa.  Tudo de forma muito discreta, sem maiores detalhes.

Mas o que o Sr. Shouichi Yamamoto fez?  Segundo informações da imprensa japonesa (*colocarei todos os links no final*), em 2016, Shouichi Yamamoto atuava como professor e iniciou um relacionamento com uma aluna de 15 anos.  Em uma das fontes que eu encontrei em inglês, os abusos foram descritos em detalhes, mas vou poupar vocês e dizer o seguinte: era coisa de mangá hentai guro.  Os abusos se estenderam por três anos.  Shoichi Yamamoto foi preso em 2020 sob a Lei de Proibição de Pornografia Infantil e condenado em processo sumário (multa de ¥300 mil).  Motivo?  Ele gravava e fotografava  os abusos e estupros.  Por  conta  disso, seu mangá Daten Sakusen foi interrompido sem divulgação pública da prisão ou dos crimes, a editora, a mesma Shogakukan, colocou como justificativa um "problema pessoal".  Percebem como protegeram o sujeito?

Em 2021, o editor de Shoichi Yamamoto ofereceu à vítima um acordo de ¥1,5 milhão (aproximadamente 50.220 reais) com uma cláusula de confidencialidade, mas a vítima recusou (*Há suspeita de que ele tenha tentado encobrir outros casos do mangá-ka.*).  A jovem desenvolveu estresse pós-traumático e outros transtornos e acabou sendo expulsa da universidade (*o termo que apareceu foi esse*), imagino que ela não deu conta.  Em julho de 2022, a vítima entrou com um processo civil contra Yamamoto. Em 20 de fevereiro de 2026, o julgamento civil foi concluído com uma sentença que ordenou a Yamamoto o pagamento de 11 milhões de ienes em indenização.  Isso dá mais ou menos 340 mil reais.  A corte reconheceu que o professor, um adulto em posição de autoridade, se aproveitou da baixa autoestima da menina estabelecendo uma relação de dominância e a obrigando a atos sexuais contra a sua vontade.  Agora, prisão que é bom, nada.  Se o que eu li que ele fez é verdade, e fosse no Brasil, em situação normal, claro, ele iria para a cadeia.  Poderia nem ser por tanto tempo, mas além da multa teria prisão.

Como a bomba explodiu na imprensa japonesa, a Shogakukan não conseguiu fazer como lá em 2020.  E cito direto do post do Mangás Brasil: "Em comunicado próprio, a ilustradora Tsuruyoshi Eri afirmou que não tinha conhecimento do histórico judicial do roteirista quando aceitou trabalhar no projeto.  Com a repercussão do escândalo, alguns autores que publicam suas obras na plataforma estão tomando atitudes para se desvincular da empresa. Eno Sumi (Aftergod) suspendeu a serialização temporariamente. Já Ryuhei Tamura (Cosmos), entrou com um pedido para remover seu trabalho do catálogo da One. Além disso, diversos mangakás e profissionais da área, tem se manifestado em solidariedade à vítima e cobram atitudes, como Ichika Yuno (Canção do Amanhecer)."  O nome original de Canção do Amanhecer é Yoake no Uta (夜明けの唄).

Por conta dessa situação toda, a Shogakukan interrompeu a distribuição on-line e a publicação dos volumes da série do condenado. Pediu desculpas e admitiu que o agressor não deveria ter sido contratado como autor, expressando seu mais profundo pesar às vítimas, leitores e artistas.  

Vamos lá!  Eu acredito que a desenhista da série seja inocente.  Ela deve ter sido escalada pelos editores para  o projeto, mas não acredito mesmo que os editores e outros dentro da empresa estivessem no escuro em relação à identidade do autor.  Muito provavelmente, imaginavam que a Justiça não iria condená-lo e poderiam continuar fingindo demência, afinal, quando Shouichi Yamamoto foi afastado lá atrás, ninguém sabia o motivo da suspensão da sua série.  E para quem quiser comparar com o caso do Nobuhiro Watsuki (Rurouni Kenshin), ele patrocinava o abuso infantil ao comprar material pornográfico com crianças, mas ele não violou ninguém.  Esse cara aí, o Shouichi Yamamoto cometeu estupros e outros abusos.  Ele  foi muito além, ainda que, pelo que entendi do caso, eles tenham sido enquadrados dentro da mesma lei.

Para as fontes do caso: Oricon News, Oricon em inglês, Coki, Asahi, Itmedia, Sankei, ZakZak e Anime Corner.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Surgem dois novos selos de mangás voltados para o público feminino, só que um deles não se assume como tal

Desde o mês passado, deveria ter feito post comentando dois novos selos criados no Japão para o público feminino.  Primeiro, veio o Comic Mirage da editora Gentosha, isso lá em dezembro; depois, veio o Comic Lupia.  O Mirage Comic, o primeiro selo digital da Gentosha, vai publicar mangás de fantasia e romance.  Tudo, absolutamente tudo, na estética das séries que eles já apresentaram grita shoujosei.  No entanto, em nenhum momento da release o selo se assume como o que é: para o público feminino.  Deve ser a onda de negação de demografia que vem forte no Japão, desde que seja para esconder que o público prioritário é feminino.  

Isso aqui GRITA shoujo.

Eles começaram com quatro séries com lançamento por capítulos no Comic Cmoa e três meses depois em outras lojas on line especializadas. Para quem quiser, siga o Twitter do Comic Mirage e visite a página deles.  E temos o Lupia Comics, que se assumiu como o que é, material para mulheres.  Segundo o Comic Natalie, "A COMIC LuPIA publica principalmente mangás de romance para mulheres. Baseado no conceito de uma "utopia da leitura", o selo visa oferecer histórias que permitam às leitoras escapar do cotidiano e se entregar aos seus corações.".  Tudo bem explicadinho.  

O material também será oferecido primeiro no Comic Cmoa, depois, em outras plataformas.  A ideia, segundo o CN, não é  apenas publicar obras originais, mas também desenvolver adaptações para mangá de romances (light novels?) populares. Além disso, o selo está considerando diversos projetos, como suas próprias obras, como adaptações para cinema e teatro e eventos, seja isso o que for.  Percebem a diferença? O perfil no Twitter com Comic Lupia é este aqui. Será que essa palhaçada de negar que é para o público feminino irá virar moda?  Espero que não.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Mais informações sobre o mangá de Prism Rondo (Love Through a Prism): vai ser shounen. Venha passar raiva comigo.

Anteontem, havia sido anunciado que Prism Rondo (プリズム輪舞曲) ou Love Through a Prism, anime original da Netflix com character design de Kamio Yoko teria mangá, algo que eu já tinha comentado que seria inevitável, e que ele provavelmente seria seinen.  Quando foi anunciado o mangá, a informação é que ele sairia no Manga Mee, plataforma que publica mangás para o público feminino.  Fiquei surpresa.  Foi informado, também, que ele teria arte de Kamio Yoko com participação de sua ex-assistente Maki Minami (Special A).  OK.  Surpreendente.  Hoje, o ANN publicou que toda a arte será de Maki Minami, o roteiro deve ser de Kamio Yoko, mas que o mangá irá sair na plataforma  Shonen Jump+.  Alguns comentários sobre isso.

Manga Mee é  uma plataforma japonesa, a Shonen Jump+ vai para o mundo inteiro e o mangá já deve ser publicado pelo menos com duas opções, japonês e inglês.  Basta olhar o character design e você sabe que é shoujo, só que se é publicado na Shonen Jump+ e se o anúncio veio da página da Shonen Jump é shounen.  Isso quer dizer que se o  mangá for excepcionalmente bom ele será colocado em listas de melhores mangás shounen ou para o público masculino?   DU-VI-DO!  Afinal, está na cara que ele é joseimuke.  Sabe onde vão enfiá-lo?  Na lista dos melhores mangás femininos.  o critério revista/plataforma/selo cai por causa disso?  Não, simplesmente fica evidente o quanto de investimento se faz em plataformas para o público masculino e como há a consciência de que esse investimento se reverte em maior visibilidade.  É isso, só quero dividir minha raiva com vocês nesse primeiro dia do ano. 👍🏾🙃

P.S.: Parece que vai sair nas DUAS plataformas.  Vamos ver qual selo o encadernado terá, então.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Feliz Natal... ou eu espero que seja...

Mais um Natal, aniversário de Jesus, porque, acreditando nele ou não, essa data festiva existe para marcar seu suposto aniversário.  Queria muito estar feliz fazendo essa postagem, infelizmente, não estou.  Só consigo pensar nos feminicídios em que eu tropecei de ontem para hoje.  Mulher decapitada na rua em Brasília, homem que trucidou com facão e martelo a esposa e três enteados crianças, sujeito preso por matar a esposa e deixa seu filho MORRER DE FOME, mulher grávida de cinco meses estrangulada pelo marido e, por fim, a morte de Tainara Souza Santos.  Ela foi a mulher arrastada por um ex-raivoso, perdeu as duas pernas e estava internada fazia 25 dias.  Ela deixou para trás dois filhos ainda crianças.  Vocês têm noção do quanto a violência contra as mulheres está escalando?  Que  só no dia de Natal, sem procurar nada, eu tropecei em três feminicídios violentos?  E eu tenho certeza de que amanhã haverá mais.

E eu estou aqui chorando por alguém que eu nem conheço, porque tudo isso é muito, muito revoltante. E o ódio que matou Tainara, mata outras mulheres todos os dias e em todos os lugares do mundo.  Mata todas nós  um pouquinho.  E políticos de extrema-direita menosprezam a vida dessas mulheres, riem em debates quando o tema é invocado, querem nos tirar o mínimo, que é a Lei Maria da Penha.  

E esse ódio mata de formas cada vez mais cruéis, porque esses feminicidas não querem SOMENTE matar, como se fosse pouco, eles querem destruir essas mulheres, privando-lhes até da possibilidade de um funeral digno. Me lembrei de uma das piores impiedades, hybris, da mitologia grega, que era desfigurar o guerreiro.  É isso, desfigurar, destruir aquilo que exteriormente essas mulheres têm de mais belo, aquilo que esses desgraçados cobiçam, tomam posse e se dão ao direito de destruir.

Enfim, mas eu vou deixar a minha mensagem de Natal, a que eu escrevi para o Facebook e Instagram, porque minha raiva está aqui borbulhando e ainda  que esse sentimento me ponha em movimento, é possível sentir outras coisas, é preciso sentir outras coisas.  Segue minha mensagem de Natal:

"Não importa se você acredita ou não, mas trata-se de uma festa de aniversário de uma criança que não tinha lugar para nascer. Ele nasceu em um estábulo, em uma manjedoura. A data, 25 de dezembro, é meramente simbólica, porque, como meu primeiro pastor dizia: Natal é quando Jesus nasce no nosso coração. Sempre é Natal para alguém, portanto.

Adorazione del Bambino, c. 1619-1620, Gerrit van Honthorst

Mas vou me fixar na ideia da falta de lugar. Enquanto alguns têm muito e outros têm pouco, há quem tenha quase nada. Separe um momento da sua festa, caso você esteja fazendo uma, claro, para pensar naqueles que nada têm. Que não tem lugar para nascer, para repousar a cabeça, que tem fome e frio, que estão ameaçados pela guerra e sem esperança no futuro. Ninguém precisa ser religioso para isso, só precisa ser humano, mesmo.

Se indignar com as injustiças, lutar por um mundo melhor para todos, todas e todes, porque somos todos nós humanos e eu não vou excluir ninguém, desejar paz na Terra, nesta aqui mesmo, e que as crianças, todas elas, possam ter um futuro melhor é ter espírito de Natal."

sábado, 29 de novembro de 2025

O Amazon adicionou dublagem em inglês e espanhol gerada por IA para Banana Fish.

O site Anime Corner fez um post denúncia sobre o Amazon Prime estar produzindo dublagens geradas por IA, como no caso de Banana Fish (バナナフィッシュ), eles falam da dublagem em inglês, mas abri o streaming e vi que há dublagem em espanhol.  


Muito bem, o anime está disponível faz tempo, mas o Amazon nunca se preocupou em contratar um estúdio de dublagem, agora, para economizar, como se não tivesse dinheiro, preferem usar IA. Segundo o AC, a qualidade é péssima, como qualquer dublagem feita por IA, e os dubladores perdem o emprego. Eu assisto a tudo com o áudio/dublagem original, mas defendo que tudo tenha dublagem do país no qual está sendo exibido, mas que seja uma dublagem humana.  

O AC também comentou que dubladores norte-americanos reclamaram da situação no Twitter, enquanto a discussão dos fãs foi principalmente no Bluesky.  É possível que logo tenhamos esse tipo de dublagem em português e, claro, se não houver forma de parar, logo esse recurso, a dublagem por IA, será regra para os animes e outros materiais.


"Que vergonha, @amazon e @PrimeVideo! Depois de anos de fãs esperando por uma dublagem em inglês de Banana Fish, vocês nos entregam essa porcaria gerada por IA? É uma tremenda falta de respeito. Será que uma narrativa sobre trauma queer foi entregue a uma máquina porque pagar atores de verdade é muito difícil? Corrijam isso, ou eu..."

terça-feira, 25 de novembro de 2025

25 de Novembro: Mais um Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher e as coisas não parecem estar melhorando

Todos os anos, eu faço um post no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher.  A data  foi estabelecida em 1981, durante o Primeiro Encontro Feminista da América Latina e Caribe, realizado em Bogotá,  a data escolhida foi o 25 de novembro como Dia Internacional da Não-Violência contra as Mulheres.  Trata-se do ponto de início de uma campanha que termina no dia 10 de dezembro, Dia dos Direitos Humanos.   A ONU oficializou a data em 1999.  

Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher  foi criado para lembrar o assassinato das irmãs Mirabal, Minerva, Pátria e Maria Tereza, chamadas  de “Las Mariposas”, em 25 de novembro de 1960, pela ditadura de Trujillo, que governava com mão de ferro a República Dominicana.  As irmãs foram presas com seus maridos, mas a comoção foi grande e elas foram libertadas.  Mais tarde, quando iam visitar os maridos na prisão, a ditadura simulou um acidente de carro, os corpos das irmãs foram encontrados no fundo de um precipício, elas já  estavam mortas antes de serem atiradas no abismo.  A morte das três irmãs acabou precipitando a queda do ditador (*apoiado pelos Estados Unidos*), no poder desde 1930.  Hoje, a editora Nemo postou um fragmento do quadrinho francês Ousadas, de Pénélope Bagieu, contando a história das três irmãs.  

Em 2024, estima-se que 50 mil mulheres e meninas foram assassinadas por parceiros íntimos ou familiares em todo o mundo, 137 por dia. Embora os homens representem a maioria das vítimas de homicídio globalmente, as mulheres são assassinadas de forma desproporcional dentro de seus próprios lares: 60% de todas as mulheres assassinadas intencionalmente morreram pelas mãos de parceiros ou parentes.  Uma mulher é assassinada pelo parceiro ou por um parente a cada 10 minutos no mundo, segundo dados da ONU.

A violência de gênero afeta todas as regiões. Em 2024, a África registrou o maior número de feminicídios por parceiros íntimos/familiares (22.600) e o maior nível de risco (3 por 100.000 mulheres). A Ásia veio em seguida, com 17.400 casos, enquanto as Américas apresentaram um dos maiores riscos relativos (1,5 por 100.000). A ONU informa, no entanto, que há muitas lacunas de dados e vários países não têm enviado informações sobre o número de feminicídios.  A África do Sul, por exemplo, envia seus dados regularmente e é a recordista de feminicídios no mundo atual.  Será que o país é realmente o recordista?

A data é importante para que lembremos do quanto as mulheres ainda precisam conquistar, começando com coisas básicas, como direito de ir e vir, autonomia sobre seus corpos, a possibilidade de dizer "não" a um homem sem ter sua vida interrompida.  Aqui, no Brasil, temos índices pavorosos de casamentos infantis, e estou falando de meninas entre 10 e 14 anos, porque se somarmos as adolescentes como um todo, a coisa piora, isso sem falar na gravidez na adolescência, não raro fruto de estupro; estamos entre os países com o maior número de feminicídios no mundo, sendo a maioria das vítimas mulheres negras, e as taxas estao crescendo; estamos em uma batalha permamente para que direitos de interrupção da gravidez que datam de 1940 não nos sejam tirados e que mulheres sejam enquadradas como assassinas se interromperem a gestação mesmo em caso de estupro, risco de morte ou de estarem carregando um feto inviável, os únicos admitidos pela lei.  E ainda vemos crescer o movimento antifeminista, que é alimentado principalmente por visões religiosas extremamente misóginas e pela ignorância mesmo, a falta de letramento de gênero.  

A  gente  não precisa sair do Brasil para apontar casos de violência contra as mulheres, mas se observarmos o mundo, a coisa não fica muito melhor, não.  A Itália recentemente tipificou o feminicídio, mas o editorial do La Stampa fala do quanto o feminismo é mal visto no país e que os direitos das mulheres são motivo de deboche.  Se olharmos para os Estados Unidos, depois da derrubada da Roe vs Wade, temos os direitos reprodutivos das mulheres sob ataque com um número cada vez maior de estados proibindo o aborto na maioria dos casos.  

Com as proibições, mulheres  que chegam perdendo a gravidez ou com alguma complicação não raro têm os cuidados negados, porque os médicos têm medo.  Várias já morreram ou ficaram estéreis.  Enfim, as taxas de mortalidade materna nos EUA, que já eram altas em relação a outros países desenvolvidos, pioraram (*1 - 2 - 3*).  E, claro, o ataque às mulheres trans avança nos países desenvolvidos, com destaque para os Estados Unidos de Donald Trump, já que pessoas trans foram eleitas como o INIMIGO pela extrema-direita com a conivência de alguns grupos feministas.

Se sairmos dos países desenvolvidos, temos o Afeganistão como o símbolo do rebaixamento das mulheres e meninas com o confisco de direitos humanos básicos, como a educação, o lazer, a expressão de pensamento, a saúde básica.  E a maioria do mundo não parece disposta a pressionar o talibã.  Quem se importa com as mulheres?  Com os terremotos que assolaram o país, mulheres foram deixadas sob os escombros, porque os homens consideravam que estariam pecando se as tocassem ou as vissem sem véu ou roupas consideradas corretas ou por medo do regime.  Mulheres morreram por causa disso, seu número provavelmente nunca saberemos.  

No Sudão, mulheres e meninas estão sendo estupradas em massa e mortas pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) e seus aliados com o patrocínio dos Emirados Árabes Unidos.  No Iraque, depois de quase uma década de resistência e luta das mulheres, a idade de casamento para as meninas foi reduzida para os 9 anos para as meninas xiitas e 15 anos para as sunitas.  Sob Saddam Hussein, a idade era de 18 anos.  Sim, Saddam Hussein não era um sujeito legal, mas o nome disso é retrocesso.  Os EUA derrubaram o governo iraquiano pelo petróleo, não para garantir os direitos das mulheres ou de qualquer minoria. Agora, o direito de família saiu das mãos do Estado e foi praticamente entregue aos clérigos, o que precariza ainda mais a situação das mulheres.  

E vou fechar com o horror que se repete na Nigéria onze anos depois do sequestro das 276 meninas de Chibok, estudantes de um colégio cristão que foram levadas pelo Boko Haram.  A maioria foi obrigada a se converter e se casar com jihadistas, foi estuprada, teve filhos de seus captores e nem todas foram devolvidas.  No dia 22, mais de 300 alunos, a maioria meninas, e 12 professores de uma escola católica no estado do Níger, na Nigéria, foram sequestrados. Os números começaram com cinquenta e foram aumentando.  50 deles parece que conseguiram fugir, mas a maioria continua retida.  Havia um alerta para que as escolas fechassem, mas imagino a dificuldade para enviar as crianças e adolescentes para casa, normalmente, em zonas rurais.  Não seria arriscado, também?  O primeiro ataque relatado foi a um ônibus.  É o horror para essas meninas e suas famílias.

Enfim, a violência contra as mulheres  persiste e ela tem várias modalidades; identificá-las é importante para um combate eficaz.  Às formas listadas aqui, outras poderiam ser acrescentadas, como a simbólica.  Uma das discussões do momento é a volta dos padrões de magreza extrema.  Algumas matérias sobre o elenco de Wicked: For Good  estão destacando isso (*1 - 2*).  Magreza como sinônimo de beleza, de sucesso, mas de uma feminilidade frágil, que ocupa pouco espaço público.  Como esses padrões são extremamente opressivos, eles terminam por pressionar as mulheres e  meninas  e buscar um ideal inalcançável e pouco saudável.  Como resultado, temos angústia, transtornos alimentares e muito lucro para inúmeras indústrias que vivem da criação e exploração das "necessidades femininas".  

E é isso.  Devo fazer outro post  no final da campanha, mas não terei estômago de escrever sobre o tema diariamente, como fiz em algum ano que ficou para trás.  Falar de violência contra as mulheres é fácil, porque basta que eu abra um grande portal e saia contando as notícias, mas é muito desgastante.  Eu sou mulher, sou mãe de uma mulher, estou irmanada com todas as mulheres do mundo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

PDL da Pedofilia: Deputados e deputadas querem impedir que CRIANÇAS estupradas possam ter acesso ao direito de aborto previsto na lei desde 1940

Lá em 2024, houve toda  uma movimentação da ala mais vergonhosa da Câmara dos Deputados para fazer avançar o PL1904/2024.  Os grupos de mulheres, assumidamente feministas ou não, se mobilizaram para colar nessa infâmia o rótulo de PEC do Estuprador, porque o objetivo era negar às mulheres e meninas o direito de interrupção da gravidez após 22 semanas nos casos previstos em lei, isto é, risco de morte da mulher, estupro e anencefalia, condenando-as por homicídio, cuja pena é maior que a de estupro.  Gente como Sóstenes Cavalcanti, minion do Pastor Malafaia, tinha certeza de que a população brasileira iria acolher essa perversidade.  Com os protestos de rua e na internet, eles tiveram que recuar, mas voltaram à carga tentando mudar o artigo 5º da Constituição Federal, dando ao feto os mesmos direitos de uma pessoa já nascida.  Isso impediria o aborto em QUALQUER SITUAÇÃO condenando mulheres à morte e/ou levarem a termo gravidezes fruto do estupro.  

E os justiceiros não têm nenhum problema em matar mulheres para vingar fetos imaginários, mesmo ao arrepio da lei e dos códigos que regem suas profissões.  Mês passado, Paloma Alves Moura, de 46 anos, sangrou até a morte em um hospital (*de administração católica*) em Olinda.  Sofrendo de grave endometriose, ela ficou dez horas sangrando sem que, segundo seus familiares, recebesse o atendimento necessário.  Motivo?  A desconfiança de que havia cometido um aborto.  Eu conheço outros casos, acredito que a maioria das mulheres conheça.  O fato é que os defensores das vidas em potencial, não raro, não têm problema algum em fazer sofrer e deixar morrer mulheres e meninas caso suspeitem que elas cometeram ou pretendem cometer um aborto, mesmo que seja acolhido pela lei.

E é  bom enfatizar o MENINAS, porque, segundo a 19ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, são elas, especialmente quando negras, as maiores vítimas de estupro.  E cito matéria da CNN"O perfil das vítimas de estupro em 2024 revela que a maior parte dos crimes, 76,8%, foi classificada como estupro de vulnerável, em que as vítimas são menores de 14 anos. Dentro desse universo, 61,3% das vítimas totais tinham até 13 anos de idade, com a faixa etária de 10 a 13 anos concentrando o maior volume de casos."  Pela legislação brasileira, é  sempre estupro se a pessoa tem até 13 anos.  SEMPRE.  Outro dado importante é que a maioria dos casos de abuso acontece DENTRO DE CASA, normalmente, o abusador é alguém conhecido da menina ou membro da família (*pai, padrasto, avô, tio, irmão, primo, cunhado*).  E vou citar dois casos que chegaram aos jornais e são exemplares quanto a isso.

Ano passado, um homem em Goiás conseguiu que a Justiça impedisse que sua filha de 13 anos pudesse ter acesso ao aborto legal, pois, sendo menor de 14 anos, sempre é estupro.  Esse sujeito era acessorado por advogados ligados a um grupo católico de militância contra o aborto; já o suposto estuprador era um homem de 24 anos, amigo do pai da menina, com quem ela morava, e frequentador de sua casa.  Quando a gravidez se tornou conhecida, ela estava com 18 semanas, mas o direito da menina foi negado e a gestação progrediu trazendo mais sofrimento para a vítima.  Já semana passada, um pastor foi preso, aqui, em Brasília, por estuprar suas  filhas, uma enteada, e torturar o enteado para que ele não o denunciasse.  

Cortada para a Câmara dos Deputados no dia 5 de novembro, por 317 votos a favor, 111 contra e uma abstenção, foi derrubada uma resolução do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente) de dezembro do ano passado que estabelecia prioridade de atendimento às meninas menores de 14 anos em caso de aborto, dispensando, inclusive, a autorização do responsável (*que poderia ser o criminoso*).  Não se tratava de fazer nada do que não estava na lei, mas de reforçar seu cumprimento, especialmente, por se tratar de vulneráveis. Desde então, deputados e senadores da bancada religiosa (*católicos, evangélicos e espíritas*) estavam tentando não somente derrubar a resolução, mas fazer avançar novamente um projeto como o do PL do Estupro.  83 deputados não participaram da votação, mas eles não seriam capazes de reverter o resultado, mesmo se votassem todos contra o PDL-03/2025, doravante chamado de PDL da Pedofilia.

O que estabelecia a resolução do Conanda que foi derrubada"Diretrizes para o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, com prioridade absoluta e atuação integrada dos órgãos públicos;  Direito à informação sobre direitos sexuais e reprodutivos, inclusive sobre o aborto legal, de forma adequada à idade; Dispensa de boletim de ocorrência, autorização judicial ou consentimento dos responsáveis; Direito ao sigilo absoluto, escuta especializada e atendimento que evite constrangimentos ou exposição da vítima.".  Querem negar inclusive o acesso à informação, sem ela, é impossível saber se você tem ou não tem algum direito.  É o paraíso dos pedófilos, protegidos pelos religiosos que se dizem defensores da vida.

Observem que o objetivo é barrar o acesso ao aborto para meninas que foram ESTUPRADAS, algo garantido por lei desde 1940.  E os dados são assustadores: "Em 2023, quase 14 mil meninas nessa faixa etária tiveram filhos no país, mas apenas 154 tiveram acesso ao aborto legal."  A decisão do Conanda poderia ajudar a diminuir o problema, porque efetivamente meninas pelo Brasil inteiro estão tendo o seu direito negado, várias delas condenadas a morrer durante uma gravidez que sempre é de risco, abandonar a escola, ou se verem "casadas" com seus abusadores.  E o deputado Otoni de Paula (MDB/RJ), que é pastor, veio com a história de que o PDL tem como objetivo "frear a indústria do aborto, a cultura da morte".  Não!  Quer é espezinhar e punir ainda mais as meninas vítimas de estupro.

O senso que saiu esta semana  mapeou que existem pelo menos 34 mil crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos vivendo em uniões conjugais.  A maioria absoluta são meninas e seus parceiros homens mais velhos.  O Brasil ocupa a sexta colocação no ranking de casamentos infantis feitos pela UNICEF.  Isso deveria ser mais assustador do que os 154 abortos legais, ou a resolução do Conanda, mas não é, porque, bem, os deputados e deputadas que votaram contra os direitos das meninas não se importam realmente com elas, nem querem prejudicar os homens que se apropriam de seus corpos e manipulam sua vontade, já que, pela lei, elas não são capazes de consentir.

Segundo a Folha, o texto aprovado pelo Congresso "(...) chama o direito ao aborto previsto por lei de "deturpação ideológica" e afirma que o Conanda "cria tipos penais e extrapola seu poder de regulamentar".  Já o Ministério das Mulheres emitiu uma nota dizendo que "A gestação forçada é a maior causa de evasão escolar feminina e leva à morte de uma menina por semana no Brasil. A resolução do Conanda, construída com a participação da sociedade civil, não ultrapassa suas funções e nem cria novos direitos, ela apenas detalha como aplicar a lei para salvar vidas".  Se passar no Senado, nem precisa de sanção presidencial.  De novo, é preciso mobilização nas ruas, porque é necessário evitar, também, mais um desgaste para o STF, porque certamente a coisa irá parar lá.

Fora isso, o PDL exige que a privacidade da vítima seja violada, porque torna obrigatório o Boletim de Ocorrência, algo que é dispensado em caso de estupro.  Vocês sabem, coloquei os dados, que na maioria dos casos o criminoso é conhecido ou parente da vítima, então, a denúncia dificilmente vai acontecer.  Segundo a criminalista Mariana Rieping, "A lei brasileira é clara: basta o relato da vítima e o consentimento. Ao tentar transformar a objeção de consciência em uma forma válida de recusa, o PDL subverte a lógica da proteção à vítima e abre perigoso precedente para a interferência de valores pessoais na garantia de um serviço público de saúde”.  Lembrem do caso da menina de 10 anos estuprada no Espírito Santo e que não conseguiu acesso ao aborto em seu estado, teve seu nome vazado por grupos religiosos bolsonaristas e viveu um inferno junto com sua avó.  Tudo, claro, com o apoio da ministra na época e atualmente senadora, Damares Alves.  A menina, a vítima, foi demonizada e gente de bem ficou desejando sua morte e castigo eterno.

A autora do PDL-03/2025 é uma mulher, a deputada católica bolsonarista Chris Tonietto (PL/RJ).  Ela é uma das mais vocais defensoras do confisco de qualquer direito à interrupção da gravidez, mesmo ao custo de morte da mulher ou da criança estuprada.  A urgência na votação foi estratégica.  Os deputados a favor do PDL da Pedofilia aproveitaram-se, com a conivência de Hugo Motta, da COP 30 e da chacina no Rio de Janeiro para passarem essa violência contra crianças e adolescentes estupradas.  Trata-se de uma insanidade, o que está em curso.  

Há criminalistas que apontam que esse PDL é  inconstitucional, porém, nada impediu que esses deputados e deputadas avançassem com essas propostas.  É preciso fazer com que os seus eleitores e eleitoras fiquem sabendo do que se trata isso, porque muitos não sabem e dar o nome que merece: é PDL da Pedofilia, sim.  E, caso queiram saber quem são os apoiadores do PDL da Pedofilia, é só clicar aqui.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

As pessoas deveriam parar de tentar acreditar que obras de fantasia são material histórico para justificar sua visão de que as mulheres de outras épocas eram absolutamente miseráveis

Imagine que você está lendo um manhwa que tem uma ambientação europeia e parece ser inspirado no século XIX.  As roupas femininas parecem ser algo da metade do século, Era das Crinolinas e coisa e tal.  Só que, neste mundo, a mocinha, que é irmã de um duque, usa um anel contraceptivo para não engravidar, faz um exame de DNA para descobrir seu verdadeiro pai e transa loucamente com seus dois irmãos sem sentir nenhuma culpa, porque religião nem deu as caras na história.  Neste mesmo quadrinho, o vilão é o príncipe herdeiro, homem casado, mas que quer a mocinha de qualquer jeito e propõe que ela se torne sua concubina e o imperador, pai do moço, diz para os irmãos dela que ele garante que ela será tratada como esposa e que os filhos dela e que os filhos dela, não os da esposa legítima, serão os herdeiros do trono. O príncipe herdeiro diz para nossa protagonista que irá matar a esposa assim que ela se  casar com ele e que, caso ela continue se recusando, ele irá revelar para o mundo que ela se deita com os dois irmãos e acabar com a reputação da família dela. Super historicamente correto para a Europa no século XIX e pode escolher qualquer país, qualquer um.

Mas eis que eu leio o capítulo 41 dessa bodega e a mocinha está morando com o pai, um gigolô (*acho que deve ser cafetão, mas está gigolô nas scanlations*), porque ele apareceu para reclamar a sua guarda depois que o fato dela não ser irmã do duque apareceu nos jornais.  Eu acho que quem plantou a notícia foi o próprio duque para afastar o príncipe herdeiro, porque, agora, ela não poderia ser concubina dele, afinal, veja suas origens, não é mesmo?  Só que ela está prisioneira na mansão do pai, que, aliás, foi presenteada pelo seu irmão duque, e sendo torturada por ele, que ameaça vendê-la para  quem pagar  mais, prostituí-la e outras coisas que eu não irei escrever aqui.  Eu fico furiosa com esse capítulo e posto um pequeno comentário no Bato.to: 

"Eu sei que esse tipo de história não é feita para fazer sentido, mas está me dando nos nervos. Bem, a FL já passou da idade de casamento, como dito em algum capítulo anterior; agora, foi dito que ela já passou da maioridade legal. Por esse motivo, ela não está presa a esse pai; ela pode voltar para Evan (que eu suponho estar tramando algo) ou pegar o dinheiro dela e ir morar sozinha. Essa situação com aquele homem horrível é absurda. E quem o trouxe para a história? Leon? Bem, vou dormir. Eu preferia quando tínhamos apenas um vilão, o príncipe herdeiro." (I know this kind of story is not made to make sense, but it's getting to my nerves. Well, the FL has passed the age of matrimony, it's said in some chapter back; now, she said she has passed the legal age. For that reason, she is not bound to this father; she can go back to Evan (whom I suppose is plotting something) or take her money and go live alone. This situation with that horrible man is absurd. And who has taken him into the story? Leon? Well, I'm going to sleep. I preferred it when we had just one villain, the crown prince.)

Explicando o "Quem o trouxe para a história", logo nos primeiros capítulos, Leon, o irmão mais novo, está procurando pelo pai da mocinha, Aris, porque ele e o duque sabem que ela foi adotada.  Leon quer que o pai da protagonista revele sua origem e, assim, ele poderá se casar legalmente com ela.  Leon é burrinho, além de não entender a palavra consentimento.  Não gosto nada dele.  Evan, o duque, é manipulador, mas, pelo menos, ele não forçou a mocinha a fazer nada que ela não quisesse.  Enfim, o fato é que o pai bandido foi trazido para a história.  Mas eis que uma criatura, que se revelou historiadora como eu, mas que eu imagino que não seja das melhores, porque parece acreditar que esse mundo de fantasia tem alguma verossimilhança histórica escreveu o seguinte:

"Nada do que lhe foi dado (nem mesmo se ela trabalhou para obtê-lo) é dela. Tecnicamente, tudo pertence ao chefe da família e pode ser considerado roubado. Ela não pode se casar com ninguém sem a permissão dele, ou será devolvida ao pai e seu "marido" terá sérios problemas legais.  Ela não consegue um emprego com pessoas da nobreza sem a permissão dele. Ela não conseguirá um emprego fazendo muito mais do que vender seu corpo, porque as habilidades que possui não são as necessárias para as classes média ou baixa, ou é um trabalho proibido para mulheres. Como nobre, ela não pode nem entrar em um convento sem a permissão do pai.  Se ela conseguir escapar dele (lembre-se de que ele a tranca à noite e controla quem ela vê durante o dia), então tudo o que ela tem como possibilidade é uma vida nas ruas, ou nos bordéis, ou ser arrastada de volta para ele e tratada ainda pior.  As sociedades patriarcais são projetadas para tornar as mulheres completamente dependentes dos homens. Se os homens que controlam a vida de uma mulher são horríveis, então, de alguma forma, elas devem ter merecido isso, segundo a opinião pública. (SPOILER: Ela será resgatada e tudo ficará bem. O príncipe herdeiro e seu "pai" terão o que merecem. Só vai levar mais tempo do que o planejado para colocar tudo no lugar e garantir que ela saia dessa enrascada sem nenhuma culpa.)" (Nothing that has been given to her (or even if she worked for it) is hers. It all technically belongs to the head of the family, and it can be claimed as stolen. She can’t get married without his permission to anyone else or she will be returned to her father and her “husband” will be in serious legal trouble.  She can’t get a job with the nobility without his permission. She can’t get a job doing much else except selling her body, because the skills she has are not what is needed by the middle or lower classes, or is work that is forbidden to women. As a noble, she can’t even enter a convent without her father’s permission.  If she can escape from him (remember that he locks her up at night, and controls who she sees in the daytime), then all she has is a life on the streets, or the brothels, or being drug back to him and treated even worse.  Patriarchal societies are designed to make women completely dependent on men. If the men who control a woman’s life are awful, then they must have deserved that somehow according to public opinion.  (SPOILER: She’s going to be rescued and everything will be fine. The Crown Prince and her “father” will get what’s coming to them. It’s just going to take longer than they had planned to put all of the pieces into place, and make sure she comes out of this mess without any blame.)

Olha, ler essa bobajada, porque, repito, estamos falando de um mundo de fantasia em primeiro lugar, me deixou muito, muito irritada.  Fora que, vamos combinar, mesmo em sociedades patriarcais há regras e nossa mocinha estava ligada a uma família mais poderosa do que o pai que apareceu.  Se nosso duque estalasse os dedos, o vagabundo sumia  e estou falando em ir para outro plano e ninguém iria lamentar.  Como fiquei com muita raiva, redigi uma resposta tentando fazer a criatura entender que ela estava sendo ridícula e joguei meu currículo na cara dela.  Não deu certo, mas eu não vou continuar as repostagens, porque ela acredita piamente que a autora está tentando retratar a Regência inglesa (*não está, nem roupa inspirada na Regência aparece na história, a camisola da mocinha é um babydoll e ela usa calcinhas dos nossos dias*), entre 1795 e 1837, e está fazendo uns malabarismos para tentar convencer que a mocinha não tem direito algum, porque ela teve reconhecer que, mesmo na Inglaterra, que ela estava supostamente descrevendo, uma mulher solteira e maior de idade tem alguns.  Minha resposta foi:

"Bem, eu sou historiadora, feminista, na área de estudos de gênero e com tudo o que isso implica. Esta é minha profissão há quase 30 anos. Este manhwa é uma fantasia histórica, então a autora pode usar todas as bobagens que quiser e misturar elementos ocidentais e coreanos como quiser. Então, estou dizendo que, de acordo com a maioria das leis europeias ou mesmo no Brasil (meu país) no século XIX, uma pessoa de 25 anos, homem ou mulher, é maior de idade e pode fazer o que quiser. Quantos anos tem a nossa protagonista? Não sabemos, mas foi dito que ela já passou da idade de casar. E se ela não fizer parte da família ducal e não for menor de idade, ela pode se casar com quem quiser, conseguir um emprego ou fugir. Toda essa situação é ridícula, mas eu gosto da história e estou aqui perdendo meu tempo comentando.  Se ela não tem 25 anos, tudo bem. Mas, novamente, é fantasia, e não se trata de nenhuma sociedade patriarcal que conhecemos; é uma mistura do que agrada à autora. Toda essa baboseira do príncipe herdeiro tomá-la como segunda esposa ou concubina não seria possível em nenhuma sociedade ocidental desde o século XII, pelo menos. E esse tipo de baboseira histórica acontece repetidamente na maioria dos quadrinhos japoneses e coreanos.  Dito isso, estou ciente de que tudo vai ficar bem, só estou furiosa porque os dois "irmãos" não estão fazendo nada para resgatá-la."  (Well, I'm a Historian, a feminist one with gender studies in my curriculum and all that comes with it. This is my profession for almost 30 years. This manhwa is a historical fantasy, so the author can use all the nonsense and mix Western and Korean elements as they please. So, I'm saying that according to most of the European laws or even in Brazil (my country) in XIX century, a 25-year-old person, man or woman, is of legal age and can do as he or she pleases. How old is our FL? We don't know, but it was said that she was past the age of marriage. And if she is not part of the duchal family and not a minor, she could marry who she pleases, get a job, or run away. This whole situation is ridiculous, but I like the story and I'm here wasting my time commenting it.  If she is not 25, OK. But again, it's fantasy, and it's not any patriarchal society we know; it's a mix of what pleases the author. All the bullshit wth the Crown Prince taking her as a second wife or a concubine would not be possible in any Western society since the XII century at least. And this kind of historical shit happens again and again in most Japanese and Korean comics.  All that said, I'm aware that everything is be OK, I'm just mad because the two "brothers" are doing nothing to rescue her.)

Para  quem quiser o resto da discussão, está aqui.  Vejam que meu primeiro comentário nada tinha a ver com pedir verossimilhança histórica, porque eu não sou doida e tenho uma história pessoal a honrar, mas as pessoas parecem embarcar nessas histórias com disposição para legitimar qualquer sofrimento imposto às mulheres.  A normalização e espetacularização do abuso sob a justificativa de que "no passado era assim", mesmo quando se trata de séries de fantasia, é comum.  Já escrevi muito sobre isso em vinte anos de blog.  Em Bridgerton acabamos com o racismo, mas a vida das mulheres continua cheia de restrições, o Conto da Aia, livro da maior relevância, acaba se esticando como série e meio que estimulando um filão que pode ser chamado de pornô da tortura.  Não achei um artigo que eu acredito que comentei no blog e que comenta sobre séries literárias extremamente violentas que surgiram na esteira do sucesso do seriado, mas encontrei uma resenha do Metrópoles que foca nesse ponto, como O Conto da Aia é um pornô da tortura contra mulheres.

Enfim, gêneros como dark romance vão muito nessa linha e eu não gosto desse tipo de material, já li alguns para saber que não são para mim.  Mas manhwa que é o centro dessa discussão maluca e que me estimulou a escrever esse post é somente um TL (teen love) que talvez tenha o conteúdo sexual mais pesado no qual eu já tropecei.  Dito isso, eu não iria jamais fazer resenha dele e ele é, sim, para maiores de 18 anos, sem negociação.  O nome da série é Beyond the Walls of the Duke's Mansion, os homens da série são bonitos, pelo menos Evan e o príncipe herdeiro são, mas a arte é irregular, especialmente quando se trata da mocinha que pode parecer mais jovem ou mais velha sem motivo aparente (*na verdade, ela parece mais velha no início da história*).  A mocinha, Aris, debutou faz tempo, mas o irmão duque - que tem uma moral inatacável e é solteiro apesar da idade e responsabilidades - afastou todos os seus pretendentes.  Ela tem imenso desejo sexual, seu quarto é ao lado do outro irmão, que vive trazendo prostitutas, e, um dia, ela decide contratar um gigolô.  Evan, o duque, impede o sujeito de entrar e acaba tendo intimidades com Aris, que não o rejeita, mas eis que Leon tenta seduzir a mocinha.  Ambos os sujeitos sabem que ela é adotada, já Aris não sabe, mas se pega com os dois sem nenhuma culpa.  E, só para constar, as scanlations não são censuradas, o que torna o conteúdo sexual mais ostensivo ainda. O primeiro capítulo já joga uma situação muito pesada na nossa cara para somente depois começar a contar a história.  Não acho que seja para todo mundo e nem acho que a putaria da série valha isso tudo, mas eu quero saber como as autoras, porque acredito que são duas (*é  baseado em livro*), vão levar esse troço até o fim com o mínimo de coerência.  Faltam poucos capítulos para o final.  

Espero que quem chegou até aqui na leitura tenha entendido o meu ponto, não se deve tratar material de fantasia como histórico e a gente precisa estar atento para como esses autores e autoras de fantasia tem uma ideia muito distorcida do passado, assim, de forma genérica, como uma época em que os homens (*qualquer homem, porque esse pessoal nem reflete sobre questões de ordem econômica*) podiam tudo e as mulheres (*qualquer mulher, vide parênteses acima*) não podiam nada e colocam esse tipo de ideia em seus quadrinhos e livros.  Isso é uma fantasia que não nos permite ver que havia espaço para resistências, negociações e mesmo subversão da ordem e que não existe um passado patriarcal monolítico, mas que ele tem nuances que variam no tempo e  a depender da sociedade e cultura que estamos analisando.  Às vezes, as mulheres até venciam, sabe?

Aliás, só para emendar com outro manhwa que eu estou lendo, Bound by Fate, que é um isekai no qual a mocinha, que é uma médica obstetra, volta para a Dinastia Joseon (1392-1897) e encontra no passado o homem com o qual o seu destino está entrelaçado, temos um drama que meio que joga por terra até a fantasia do príncipe oriental que pode tudo.  E vou explicar, a protagonista sempre sonha que está fazendo sexo com um homem desconhecido, seu casamento vai mal, ela não consegue engravidar mesmo fazendo vários tratamentos e descobre que o marido, também médico, só que dermatologista, a está traindo com sua melhor amiga (*que engravidou*), vem sabotando as inseminações artificias e seus remédios para matá-la, porque ele quer se livrar dela, mas que ficar com todos os bens do casal.  E foi ela quem trouxe a maioria do dinheiro para o casamento.  Enfim, nossa mocinha é cética, mas vai atrás de uma xamã que lhe explica que ela só vai conseguir engravidar desse tal homem do sonho e lhe dá um amuleto funerário.   Como ela precisa mais de um advogado do que de uma feiticeira, ela acaba descobrindo o homem com quem sonha, só que sofre um acidente, por causa dos remédios sabotados pelo marido, e entra em coma.  Acredito que ela não morreu.

No passado, século XV, ela se vê casada com o mesmo traste, a melhor amiga é a madrasta do sujeito e ela está, mais uma vez, sendo envenenada e sabotada no seu intento de engravidar.  Mas em uma tentativa de fuga, ela encontra o príncipe herdeiro, que vive tendo sonhos com uma mulher sem rosto que dança para ele, por isso o sujeito vive de bordel em bordel em busca da tal mulher dançarina, porque mulher decente não dança (*não entendo nada de história da Coreia, então, não sei*).  Nossa mocinha tinha como hobby praticar dança tradicional, mas o sujeito é capaz de transar com ela, uma mulher casada, mas, não, de peruntar se ela pode dançar para ele.  Enfim, muita água já rolou debaixo dessa ponte, mas o tal príncipe, ainda que tenha arrumado um divórcio para a protagonista, que somente  o monarca ou ele poderiam conceder, não pode nem tomá-la publicamente como concubina, porque ele foi obrigado a se casar para fortalecer sua posição.  Não consumou o casamento, a noiva tem cara de vilã e parece ter uma relação incestuosa com o irmão que parece fascinado pela mocinha, mas estamos nesse pé.

Casamentos são negócios entre famílias e mesmo um monarca não pode casar com quem bem entende, nem se livrar da consorte como lhe aprouver.  Como esse manhwa parece levar a História, essa com H maiúsculo mais à sério, tendo a acreditar nele.  Então, mesmo essa história do monarca, príncipe, nobre levando uma mulher qualquer para dentro de casa, ofendendo a esposa legítima e colocando os filhos bastardos na frente dos que nasceram dentro do casamento não deve ser coisa normal nem na Coreia ou no Japão.  E digo mais, a depender do poder do clã da esposa, ia dar ruim e esse papo de que a mulher é sempre culpada pode até aparecer em privado, mas, em público, é a honra da família que está em jogo e se ela tem força, não vai levar desaforo para casa, não.

É isso.  Eu estava precisando escrever.  Se não tivesse gravado um Shoujocast (*que acredito que será um fiasco, porque praticamente ninguém assistiu*), gravaria um vídeo.  E não saiam atrás dos dois manhwas que eu citei se não forem maiores de idade.  Beyond the Walls of the Duke's Mansion nem vale tanto o esforço, é tipo "é ruim, mas eu gosto", ainda que me agradasse mais ter a mocinha somente com o Evan (*nada contra trisais na ficção, mas não gosto do Leon*), já Bound by Fate muito mais ou menos e seria melhor se tivesse menos sexo, porque a história é instigante por si mesma e o sexo, às vezes só atrapalha.  Enfim, é isso.  Não coloquei links para scanlations, não, mas é fácil encontrar.