sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Homofobia em Brasília II



Só mais uma nota sobre o caso do professor de inglês aqui de Brasília, eu estou me aborrecendo ao ver as pessoas – gente boa, gente que respeito, homossexuais até – negando o óbvio, que foi um caso de homofobia. Ah, mas ele está reclamando porque foi despedido e está usando o fato de ser gay para chamar a atenção. A vítima – que nem disse ser gay – mente, afinal, todo gay é suspeito, todo negro é suspeito, toda mulher é suspeita... Algumas mais, outras menos, claro. Oras, se o Brasil fosse um país com índices baixíssimos de homofobia, eu até acreditaria nisso, mas não é. Homofobia, racismo, misoginia são constantes por aqui.

Também há quem diga que o problema foi de hierarquia. Ele tinha que obedecer e ponto. Obedecer e quietinho. Brigar pra quê? Aqui no Brasil, Rosa Parks seria chamada de encrenqueira, afinal, a lei dizia que ela, por ser negra, deveria levantar caso faltasse lugar no ônibus para um branco, qualquer branco, sentar. Ela desobedeceu a lei, logo, ela é o problema. Ainda bem que o modus operandi da maioria dos brasileiros e brasileiras não é regra no mundo.

Já li também – e não foi nada escrito por direitistas homofóbicos, não – que meninos e meninas de 12 até 14 anos não estão aptos a entender que quando alguém bebe perde a inibição, que menina beija menina ou menino beija menino, ou que existem namorados ou namoradas que traem. Não sei em que planeta essas pessoas vivem, mas aqui no meu planeta, crianças de 5ª série (6º ano) entendem isso, algumas têm pais separados ou sofrem com os desdobramentos do uso de bebidas alcoólicas por membros da família ou ainda querem dar sua opinião sobre a questão do beijo. Vamos deixar para discutir homofobia, racismo, machismo, traição, abuso de álcool ou drogas na faculdade? Ah, por favor! Aí já é tarde, desmontar o mosntrinho será muito mais difícil. Escola é lugar de discussão, formação de cidadania.

Também já li, que aula de inglês não é lugar de discussão e que poderia pegar outra música para dar aula. Primeiro, toda música conta uma historinha, seja ela boa ou ruim, série, triste, imbecil, de amor, de ódio, mas conta. E esta era um prato cheio. Ah, será que professor de inglês não é capaz de dirigir um debate? Me recuso a discutir isso e subestimar a inteligência dos meus colegas.

Mas e a tal interdisciplinaridade? Tem gente que não sabe que ela existe, mas existe, até no Colégio Militar que trabalha dentro de uma proposta tradicional isso existe. A gente tenta trabalhar junto, há professores que não gostam, mas às vezes produzimos coisas muito legais.Estuda-se a música em inglês, discute-se em outra disciplina. Por que, não? Sabe “se beber não dirija”? Pois é, a questão só pode ser o beijo lésbico. Mas tem gente que não quer ver.

Cito um exemplo. Quando dei aula em uma escola particular aqui em Brasília, escola moderninha. As crianças da 5ª série (10, 11, 12 anos) pediram apra colocar música de fundo. Deixei. E toma Kelly Key e a tal música do "cachorrinho". As meninas adoravam, os meninos reclamaram. Pegamos a música e discutimos. Todos saíram felizes. Refletiram, os meninos se sentiram respeitados, afinal, eu poderia ter feito piada ou dito que era bem feito para os homens aprenderem. Não, ninguém merece ser humilhado, usado, tratado como objeto. "Ah, a aula era de História! Você não deveria perder tempo com isso!" Ou então "Eles eram novinhos demais!". Sim, vamos esperar a faculdade.

Falando da música especificamente, não vejo nada de lésbico ou de criativo ou de positivo nela, já disse isso. “I kissed a girl” faz apologia àquele lesbianismo fake para agradar marmanjo. É excitante ver duas meninas (bonitas, produzidas) se beijando. O namorado é o centro da questão. Considero o professor ou qualquer um bem ingênuo ao considerar a música subversiva, mas, ao mesmo tempo, como sofreu censura, ela realmente era subversiva. Vê que contradição?

Qualquer pessoa tem o direito de ser conservadora. É direito considerar a homossexualidade um problema, se isso não se reverter em violência ou perseguição, está dentro do que eu consideraria liberdade de expressão. Mas eu respeito muito mais quem assume essa postura do que quem fica em cima do muro, angustiado em se posicionar, ou se nega a ver o que está diante dos olhos. Quem fecha os olhos para a homofobia, colabora com ela. E é exatamente por isso que a legislação criminalizando a homofobia seria muito bem-vinda aqui no Brasil. Pesando no bolso, as pessoas pensam duas vezes.

1 pessoas comentaram:

Ótimo post, Valéria. Rifaram o ensino no Brasil, lamentavelmente. A escola é para ser um espaço de discussão, formação de cidadania e apuração do senso crítico. Mas agora virou depósito de gente, onde crianças e adolescentes lobotomizados repetem discursos enquanto colam para provas que nem cogitam em estudar.

Sinceramente, não sei o que será daqui pra frente. Tenho medo dessa geração que está neste forno defeituoso, porque o bolo vai solar.

Related Posts with Thumbnails