quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Comentando A Scandal in Belgravia (Sherlock, BBC, 2012)



Finalmente acabei de assistir – na verdade, voltei ao início e revi quase tudo – o primeiro episódio da segunda temporada de Sherlock da BBC, chamado A Scandal in Belgravia. Infelizmente, apesar de toda a simpatia que tenho pelas personagens e pelos atores, esse episódio teve poucos méritos no conjunto. O título veio de Um Escândalo na Boêmia, um dos meus casos favoritos, aquele em que o detetive é derrotado por uma mulher, não qualquer mulher, mas "A Mulher" (The Woman), a americana Irene Adler. Adler povoa a imaginação dos fãs do detetive que volta e meia a convocam para participar de algum livro, conto, ou filme. Já perdi as contas. Lamentavelmente, nos últimos anos Adler aparece como uma golpista internacional, sedutora, e subordinada ao Prof. Moriarty. Como alguém comentou em um artigo do The Guardian criticando o episódio em particular, é realmente assustador quando uma personagem feminina se sai melhor em 1891 do que em 2012. Muito, muito assustador mesmo e choveram reclamações. Exemplos aqui e aqui. Também fiquei me perguntando afinal qual era "o Escândalo na Belgravia" que o título invocava... Mas, enfim, vamos adiante.

O episódio começa onde terminamos em 2010. Moriarty encurralando Watson e Sherlock. O detetive virando a mesa ao pagar para ver se o "criminoso consultivo" realmente estava disposto a morrer. Moriarty recebe uma ligação e decide partir, deixando Sherlock e Watson para trás. A guerra entre os dois está declarada. A partir daí, Holmes mergulha em uma fase crítica, porque não encontra nenhum caso interessante, algo à altura de suas faculdades. Decide aceitar o caso de uma morte suspeita, mas nem se dá ao trabalho de ir em pessoa, mandando Watson. Olha, ainda que ao rever a seqüência eu até tenha gostado um pouco dela, o Holmes não precisava ficar fazendo o Watson carregar um computador de lá para cá, e analisando por webcam. Nós sabemos que ele é um gênio e não me lembro de nenhum caso em que Holmes mande alguém em seu lugar, fora as grosserias, claro... Mas esse Sherlock da BBC ainda me parece carregar um pouco do garoto mimado. Se o Benedict Cumberbatch não fosse uma gracinha e a interação dele com o Martin Freeman tão perfeita, não sei se levaria até o final.

E entramos no que parece ser o caso de verdade. Mycroft, à serviço da Coroa Britânica, convoca o irmão para resolver um caso espinhoso. Uma moça da família real teve sua intimidade com uma dominatrix – Adler – registrada e esse material representa um risco para a monarquia. Holmes precisa recuperar os arquivos. E, depois de resistir e fazer mais grosserias, ele aceita com certo desdém. Palavra que imaginei uma daquelas princesas dos chapéus ridículos no casamento do William com a Kate, lembram? Eugenie e Beatrice... Mas, enfim, Adler, que no original era uma atriz e cantora de ópera (contralto) foi transformada em profissional do sexo, porque vocês sabem, né, é através do corpo que as mulheres exercem sua influência e poder. E é tão injusto, porque a Adler original – a de 1891 – era uma mulher ultrajada que buscava revanche contra um nobre imbecil e acabava descobrindo que não valia a pena... Não sem antes deixar o Holmes de quatro diante da sua inteligência e, talvez, algo mais...

Só que qualquer sutileza foi retirada dessa Adler de 2012. Por mais que seja engraçadinho ver o Cumberbatch fazendo aquela cara de bichinho acuado e o Freeman cara de espanto, é muito forçado a mulher desfilar nua de lá para cá na frente deles. Adler nesse episódio não parece ter motivação alguma. O que a move de verdade? Ah, sim, ela é capacho do Moriarty! Nem uma própria agenda ela pode ter... E foi bem absurdo o suposto disfarce do Holmes. Com sua cara estampada por aí e todas as possibilidades tecnológicas, quem teve a idéia de fazê-lo ir de cara limpa para a casa da Adler? Que disfarce foi aquela, por favor? O Holmes original, que desprezava as capacidades intelectuais das mulheres, se disfarçou para valer e duas vezes! Esse Holmes – que o Steven Moffat insiste em dizer que não é sexista – nem se deu ao trabalho de fazer isso. Sinceramente? Querem me convencer a mergulhar em Doctor Who, vivo vendo o pessoal elogiar o trabalho do Moffat, mas, depois desse papelão, começaram a dizer que ele tem um pequeno problema com papéis femininos... Bem, esse pequeno problema para mim é grande demais.

E não foi somente isso, apesar da trama ter seus momentos: o Holmes tocando terror quando maltratam a Sr.ª Hudson (*mais uma vingança na lista para um próximo Shoujocast*), as boas cenas com o Watson e até com o Mycroft, mas foi um episódio sexista para além da conta. Não vou entrar em detalhes, mas Sherlock derrota Irene Adler e ela se humilha diante dele. Vejam bem, a gente pode especular que o Holmes ficou fascinado por Adler, e isso até está presente no capítulo, mas nunca que A Mulher teria se apaixonado pelo detetive. Só que vocês sabem, o ego masculino dos autores do episódio precisava dessa virada no final! Imagina! Adler era "A Mulher", porque era boa de chicote e de cama, não por ser tão brilhante quanto o detetive. E, bem antes disso, ele já tinha sido um grosso com a Molly (*a legista*) e com a nova namorada do Watson. Mas, claro, isso rendeu aquele climão de bromance entre os dois. Eles são o verdadeiro casal...

Talvez, a melhor parte tenha ficado para o Mycroft. O jogo dele com o Moriarty por trás das costas do irmão. O plano que envolvia vários governos para burlar o terrorismo internacional, salvou o episódio, está aí a cois amais interessante do roteiro. O Moriarty da série é muito mais perigoso, ao que parece, que o criado por Conan Doyle, e o Holmes mais velho também não é boa bisca. De resto, muita tensão erótica entre Adler e Holmes e as ponderações a respeito da virgindade do detetive. Na boa, eu poderia passar sem isso, sabe?

Amanhã devo pegar o segundo episódio. Vejam bem, apesar das críticas, continuo tendo muito carinho pelo seriado da BBC. O problema é que com temporadas de somente três episódios não é possível cometer muitos erros. Esse primeiro episódio não foi bom para começar com o pé direito, por assim dizer. Como fã dos originais e feminista, considero o que fizeram com a Adler foi ofensivo. E, bem, teve o final desnecessário e ruim... Aliás, o ideal seria terminar com a humilhação da Adler. Não poderia imaginar que o final que deixou muita gente irada fosse aquele que eu acabei de ver... Minha cara, se eu pudesse vê-la no espelho, deve ter sido bem engraçada do tipo "WTF?!". Mas vamos ver se no episódio dois as coisas melhoram.

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9 pessoas comentaram:

Pois é.

A primeria temporada, terminou com um gancho otimo e por quase um ano ficamos querendo saber como tudo aquilo ia se resolver.

Apesar de comico a cena do celular, eu achei uma saida muito facil pro dilema.


Gostei de alguns aspctos ,como a sucessão dos casos rejeitados e das referencias ao canon, alem do blog do Watson ter trazido fama ao Sherlock, o jogo politico envolvendo Microfty (essa deve ser a versão dele mais atuante e importante), etc

Mas são só detalhes, a trama principal e a pessima caracterização de Irene (não basta ser dominatrix, tem que ser chantagista), sua transformação de pessoa querendo justiça/vingança para uma trapaceira em busca de lucro.

E é claro, criou-se uma situação em que Sherlock não poderia perder (havia muita coisa em jogo) e pq Irene é derrtada?

Pq ela foi sentimental e apaixonada como "toda" mulher, enquanto Sherlock mantem-se frio e impassivel, como um homem "deve" ser...

Vc tb apontou coisas que eu venho criticando sempre, como a grosseria e má educação do detetive, sua rivalidade infantil com o irmão, etc

Não foi um bom começo mesmo.

Que eles tenham aprendido a lição e mantenham o Moffat longe dos roteiros.

Ah, sobre Doctor Who,, o Mofatt só pão a mão na quinta e sexta temporadas modernas, que se tornaram polemicas justamente por isso.

As 4 primeiras são bem melhores, e tem otimas personagens feminas como Rose Tyler, Martha Jones, Donna Nobre (minha preferida), embora o final feliz não seja obrigatorio para todas.

Quando tiver tempo e paciencia assista sim. :)

Acho que a Belgravia do título se refere à área onde fica a residência/local de trabalho(??) da Irene. O endereço é: 44 Elisabeth St, City of Westminster, London SW1W. Dá para encontrar pelo Google Street View; e o Palácio de Buckingham fica ali perto. =] Já o escândalo...

Ri um bocado ao imaginar uma daquelas princessas esquisitas tendo um caso com uma dominatrix. Uns especularam que a ilustre cliente seria a Lady Katie, mas sua teoria é de longe a melhor. rsrs

Ah, Holmes manda Watson numa espécie de investigação solo no conto "O Desaparecimento de Lady Frances Carfax"; embora lá os motivos parecessem mais sólidos que os atuais. Acho que essa parte só serviu como desculpa para termos um Benedict sassaricando de lençol.

Acho que a melhor coisa do episódio foi o jogo entre Moriarty e Mycroft. E você está certa, ambos são perigosos e cada um defende seu lado como pode (espere para ver uma decisão que o Holmes mais velho tomará no 3º epi). Gostei muito do plot sobre o terrorismo, podiam ter desenvolvido o enredo daí. Ou invertido umas cenas e acabado o epi naquela parte em que a Irene foge com o celular. Mas, né, Moffat.

Tirando a cena bonitinha com a Mrs. Hudson, o tratamento dispensado às mulheres nesse episódio foi de deixar a boca amarga.

Sherlock e John vivem bem juntos, mas o autor precisa afirmá-los como héteros. Mas a Irene é lésbica (seria o clichê "girl on girl is hot"?) e, vejamos só, obrigatoriamente apaixonou-se pelo mocinho e foi humilhada por isso! Fora que a moça é esperta, não precisava daquele final ridículo (outro clichê, o "damsel in distress"?). Além disso, o ~drama~ todo criado com sua "morte" foi vergonha alheia.

E como o Anderson falou: se ela tinha mesmo material para um escândalo, por que não manter seu lado de pessoa que despreza tolos reais? Por que ela teve que virar uma peça na mão do Moriarty, usada para distrair os Holmes e obter informações confidenciais? Manteria a coerência do arco, entendo, mas jogou a personalidade original da Irene pelo ralo.

O Moffat pode espernear o quanto quiser, mas nunca vou engolir a humilhação que a personagem Irene Adler sofreu com essa adaptação. =/

Meu Deus quanta exigência, esse episódio foi fantástico, é muito feminismo na parte de vocês, poupe-me.
As adaptações de Moffat são brilhantes, não há nada de errado. E Sherlock é o herói lembra? É um Sherlock arrogante, mas é o Sherlock.
Os fãs veneram o Moffat, tanto os de Doctor Who quanto os de Sherlock. E se vocês não concordam, estão bem por fora. Sherlock não é um sucesso mundial a tôa. Todos gostaram dessa nova Irene, essa Irene DOMINADORA.. e de certa forma ela mereceu essa derrota. Quanto á virgindade do Sherlock, não tem nada de tão perturbador,...ele é assexual lembram?

E não se esqueçam que os trabalhos do Moffat são assim, sempre com um teor cômico..um pouco humor.

Fanboy detected.

Olha só, Sherlock ser assexual é por sua conta. Moffat ser brilhante é por sua conta. Todos gostaram dessa nova Irene é por sua conta. Aliás, a leitura do texto mostrou que mais de uma pessoa não gostou dessa nova Irene, mas você se recusa a considerar que quem não compartilha da sua opinião seja ALGUÉM. Legal isso, não?

Irene Addler merecer a derrota é fruto do desvirtuamento da personagem. Nos originais, Sherlock Holmes era o herói, mas não no sentido babaca contemporâneo que alguns abraçam, por isso mesmo, ele foi derrotado. Como fã de Sherlock Holmes há mais de 20 anos me dou ao direito de discordar. Você pode continuar agindo como membro do fã clube no Moffat e se recusar a ver que eu gosto do seriado e que tenho o direito de criticá-lo naquilo que percebo como problemático.

Passar bem.

"Os fãs veneram o Moffat, tanto os de Doctor Who quanto os de Sherlock."

Engraçado, sou fã das duas series (e as recomendo pra todos os amigos), mas nem de longe venero o Moffat. Alias nas lista de whovians que participo todo mundo reconhece que ele teve boas ideias, mas tb tem falhas, principalmente na maneira como trata as mulheres (ainda mais no tocante a sacralização da maternidade), e em varias decisões iquivocadas.

Irene ser dominadora não me incomoda em si, mas ela ser uma chantagista a serviço de Moriaty, ela perder toda a sua inteligengia e astucia por se apaixonar(quando no original oq havia entre eles era respeito e um que de admiração), ela ser derrotada daquela forma humilhante e ainda precisar ser salva como donzela em perigo, ah isso incomodou a muita gente sim.

Fanboys precisam realmente parar de achar que tudo é 8 ou 80, que uma coisa ou é maravilhosa ou é horrivel, oq que se vc gosta de algo tem que ter adoração e não ousar critica. Precisam amadurecer em fim.

Bom, até agora eu apenas tinha visto os fãs "venerando" o senhor Moffat e pessoas que gostaram da nova Irene. Mas há outros pontos de vista pelo o que eu vi. Eu não conheço e nem sou fã de Sherlock Holmes há tanto tempo, nem mesmo conheço os trabalhos de Sir Arthur por completo. E bom, me pareceu que você não gostou em nada desse episódio...quase.
E eu nunca percebi esse tipo de tratamento de Moffat em relação ás mulheres..vou prestar atenção. Perdôem-me o comentário imaturo, mas eu realmente gostei do episódio, de cada segundo :)

Apesar de gostar bastante dos episódios de Doctor Who assinados por Moffat, detestei essa Irene Adler.
Eu sou apaixonada por Sherlock Holmes desde meus 15 anos (fangirl mesmo!), e achei fantástica a aparição de Irene. Por mais que eu odiasse o fato de Holmes ter ficado encantadinho por ela, ela era como eu queria ser! Uma mulher decidida, de atitude, que trabalhava e se sustentava com ARTE!

Achei ofensiva essa Irene, deturpada. Não consegui aceitar como "adaptação", ela foi distorcida mesmo, num seriado que achei tão bom foi uma terrível falha, pra mim.

Mas a cena da Sra Hudson, bem como a do season finale da 1ª temporada, com Watson com bombas, foi excitante! Sherlock Holmes em fúria quando mexem com os seus, como no conto Os Três Garridebs, em que Watson se fere!

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