domingo, 24 de fevereiro de 2013

Comentando o Black Bird #15: O Início do Fim



Hoje finalmente concluí a leitura do volume #15 de Black Bird.  Minha edição, a da VIZ, chegou com atraso e o volume da Panini até chegou antes nas bancas.  Havia, também, a vontade de esticar um volume que, no geral, foi um dos melhores da série até agora.  Kanoko Sakurakouji começou a preparar o clímax da história neste volume, aliás, para quem não lembra, a série fechou em dezembro passado.  O volume #15 equilibra quase tudo muito bem, temos drama, romance, humor e até algumas discussões de gênero muito importantes.  Não vou evitar spoilers, aviso logo, afinal, se você está lendo a resenha do volume #15, deve acompanhar o mangá.

Ainda no volume passado, Misao começara a manifestar grande poder e terminamos por descobrir que ela está grávida.  Há, também, a discussão sobre o futuro da moça.  Ir para a faculdade?  Qual curso? Mesmo Kyo parece desejar que ela prossiga. Misao sente-se culpada por desejar algo simples: casar com o rapaz.  A gravidez precipita as coisas e, ao chegarmos no último capítulo, é revelado, depois de um ataque dos remanescentes do clã Nue, qual será o destino trágico da Senka Maiden: ser exaurida pelo bebê que carrega no ventre.  Eu já desconfiava de algo assim faz muito tempo, afinal, Sakurakouji termina por optar pelo óbvio, mas, ainda assim, o que conta é como o drama será conduzido daqui para frente.

O volume #15 traz algumas discussões interessantes, ainda que só superficialmente desenvolvidas, afinal, é Black Bird e eu não posso sair exigindo muito.  Misao não tem uma grande evolução como personagem desde o terceiro volume, eu acredito.  Ela é a heroína mediana, sem grandes aspirações na vida a não ser estar com o sujeito que ama.  Não é burra, mas não se mostra particularmente empolgada com os estudos.  Nesse volume, ela é questionada por Kyo sobre seu futuro profissional.  Isso é até engraçado, porque, bem, como Senka Maiden, ela não tem muito “futuro”, por assim dizer.  Talvez, a mensagem que a autora queira passar para as leitoras é que um namorado cuidadoso sempre se preocupa em perguntar sobre as aspirações profissionais da mulher que ama e estimulá-la neste quesito.  Será que foi assim que as japonesas leram?  De qualquer forma, mesmo antes de saber da gravidez de Misao, ele se mostra particularmente paciente e carinhoso com a menina neste volume.

O retorno de Renko, a moça humana mais velha e que mora com Tadanobu, um youkai amigo de Kyo, é interessante, também.  É ela e, não, Mana e Kana, que retornam artificialmente neste volume, a verdadeira amiga de Misao. É com ela que a protagonista se abre e tem coragem de discutir seu futuro.  Na verdade, Misao é uma criatura doméstica, seus horizontes profissionais só se estendiam até a possibilidade de ser professora de jardim de infância.  Renko – estudante universitária que deseja seguir como pesquisadora em sua área – explica para Misao que meninas de idade dela muitas vezes não sabem ainda o que querem ser no futuro.  Eu, que leciono para meninos e meninas do 3º Ano, concordo.  Adolescentes são pressionados e escolher cada vez mais cedo e há muito terrorismo em torno da questão do vestibular e da carreira a seguir.  No Japão, especialmente se você quer ir para uma universidade top, a coisa é ainda  pior.  Claro, que ninguém esperava de Misao algo como a Toudai, e ela mesma se pergunta se ser esposa e mãe não seria suficiente.  Por outro lado, sendo a Senka Maiden, esposa de um youkai líder de clã, ela já teria muito trabalho a fazer.  


O que quero dizer é que por mais importante que a discussão seja para as leitoras, a protagonista em si não tem lá muita escolha.  É como quando se levanta a questão do aborto.  Misao está grávida e Kyo lhe pergunta claramente se ela deseja ter a criança.  Nenhum leitor de Black Bird poderia ter dúvidas por um momento sequer de qual seria a resposta da menina, mas trazer a discussão é importante.  Kyo quer a criança, mas é Misao que está grávida.  A autora é muito madura ao pontuar isso.  Há a discussão dos métodos contraceptivos, também.  Em nenhum momento se sugere qualquer cuidado da parte dos dois, no entanto, Kyo diz que sempre tomou cuidado.  Isso significa o quê?  Camisinha?  Seria interessante ter mostrado a questão em algum momento.  De qualquer forma, o tal descuido ocorreu no dia da morte de Sho, quando ambos estavam muito tristes... Aposto que o youkaizinho na barriga de Misao é Sho reencarnado.  Não pego spoilers do futuro da história, mas é outra escolha óbvia.

Quando eles vão contar aos pais da menina, de novo, temos a questão levantada pela mãe da protagonista: Misao é jovem, está no colegial e é um peso muito grande para ela.  Os responsáveis são parte da discussão sobre uma gravidez precoce, especialmente, quando se trata de uma menor, e foi muito bom ver essa cena em Black Bird.  Aliás, é o ciumentíssimo pai da menina que define a discussão e Kyo se comporta da forma mais polida e madura possível.  Foi uma bela seqüência, aliás, é um volume com várias cenas interessantes.  


Misao terá que deixar a escola.  Em nenhum momento é levantada a possibilidade dela continuar a freqüentá-la durante a gravidez. Não sei como é no Japão, mas aqui, no Brasil, a adolescente grávida tem o direito de continuar indo às aulas.  É lei.  Tem também direito a um programa especial de estudos quando tiver que entrar em licença.  De qualquer forma, Misao percebe a escola como lugar de socialização – algo bem japonês, aliás – mais do que um lugar de estudos. Curiosamente, até pela natureza da história, a escola em si nunca foi um espaço bem trabalhado na trama. Daí, Mana e Kana, as amigas de colégio, serem personagens que praticamente não dão as caras e ficou meio absurda toda a importância que a autora deu a elas na conversa que tiveram com Kyo.  Misao não tem amigas ou amigos humanos no mangá, observem.  Talvez, sua natureza – ela atraia youkai – a isolasse, mas o fato é que a interação dela com humanos da sua idade nunca esteve em pauta em Black Bird.

De resto, o volume prima por alguns belos quadros e cenas muito bem desenhadas.  O traço da autora amadurece a cada volume e se torna mais interessante, dinâmico e bonito.  O humor também está presente em vários momentos, e o meu favorito foi a choradeira do seríssimo Sagami quando descobre que Misao está grávida.  Ninguém chama a atenção, ou comenta, mas enquanto os outros dai tengu comemoram, sorriem, Sagami está lá no cantinho chorando aos montes.  :) 

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1 pessoas comentaram:

eu também tinha CERTEZA desde o começo que o risco para a vida da senka seria quando ela engravidasse! Se não não faria o menor sentido toda aquela bobagem no começo de que sexo seria mortal e eles ficarem juntos diversas vezes e não acontecesse nada...

Ainda não peguei meu volume 15 pra ler, mas fico muito surpresa que a Kanoko tenha abordado tantas questões importantes e falado da gravidez adolescente com tanta maturidade (estou passada com a menção do aborto, achei demais)! Independentemente da resposta da protagonista, concordo com você que apenas levantar essas questões seja extremamente importante! Não esperava ver nada levado muito a sério em Black Bird, na verdade...

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