sexta-feira, 29 de março de 2013

Uma Páscoa bem Amarga...



Esta foto aí em cima foi a coisa que mais me impactou durante a semana.  Chocou aquilo que de cristão eu acho que tenho dentro de mim.  Sim, este será um post de Páscoa, um texto triste, fruto da minha revolta e insatisfação.  Talvez, seja um post escrito muito mais pela Valéria que é Batista, Protestante e tenta ser Cristã (*porque ser cristão é um processo de eterno aperfeiçoamento*), do que da redatora padrão desse blog.  Se quiserem continuar lendo ainda assim, eu agradeço.

Eu não queria voltar a falar de Marco Feliciano, não queria mesmo, mas ver cristãos – ou gente que assim se denomina, e eu respeito as crenças e o direito ao livre delírio pessoais alheios – comparando seu Salvador, o Filho de Deus (*cristãos acreditam nisso*) ao deputado Marco Feliciano.  Sob qualquer ponto de vista cristão, qualquer um, trata-se de uma heresia, mas a própria noção de certo e errado, segundo parâmetros bíblicos, está tão nublada que as pessoas escalonam erros teológicos e pecados a partir dos seus interesses pessoais.  Assim, aquilo que uns seis anos atrás me chocou como professora, já que saído da boca de um futuro (*provavelmente atual*) pastor, “roubar todo mundo rouba, mas ser homossexual é um pecado muito maior”, parece funcionar na cabeça de muita gente.  Esta semana, um ex-aluno da mesma faculdade, escreveu no meu Facebook em resposta à notícia “Anistia Internacional considera inaceitável Feliciano na CDH” que para tirá-lo, teriam que tirar todo mundo.  Imagino que, na cabeça dele, os deputados federais e senadores do país estão todos nivelados como criminosos, inclusive os pastores e líderes religiosos.


Eu fui educada em uma Igreja Batista, já frequentava os cultos na barriga de minha mãe, por assim dizer.  Durante boa parte da minha infância e adolescência – e eu fiz 37 anos em fevereiro – ser protestante ou evangélico era ser minoria, e estar nesta posição exigia um comportamento ético e moral diferenciado.  Não raro, pesado demais, repressivo até, mas era intolerável que alguém pudesse nivelar o comportamento ético de um crente – nem precisava ser pastor – com o de um criminoso e dizer que para punir um, teria que punir todos.  Também nunca vi durante todo esse período uma única pregação ou palavra de púlpito contra os homossexuais, não porque não existissem, mas porque não havia escala de pecados e se considerava que o comportamento ético e o testemunho de Cristo era o centro da vida cristã.  

A mudança dramática da última década e meia criou a lógica invertida que possibilita que pastores possam orar agradecendo a propina recebida como se bênção de Deus fosse (*isso aconteceu em Brasília*).  É esse raciocínio torcido que permite que os deputados da bancada evangélica sejam os mais processados e inexpressivos do congresso.  Infelizmente, essa mesma lógica invertida permite que muitos líderes evangélicos, praticantes de abuso espiritual contra seus fiéis, vendam para o seu rebanho que se trata de uma perseguição aos cristãos e, bem, todos os que assim se consideram precisam partir em defesa Marco Feliciano.


Parece que a trama está sendo tão bem costurada que muitos evangélicos – gente até crítica para muita coisa – está sendo conduzida a ver a insatisfação com a presença do Deputado Pastor, um sujeito que já expressou várias opiniões racistas, homofóbicas e misóginas (*e burras*), como presidente da Comissão de Direitos Humanos e das Minorias, uma perseguição aos evangélicos.  Há, inclusive, uma tentativa de dar a entender ao grande público – e a péssima imprensa nacional ajuda nesse aspecto – que querem cassar seu mandato.  Ninguém está questionando – não gente séria – o direito de Marco Feliciano ser deputado.  Eu posso lamentar que este tipo de deputado, e tantos outros igualmente daninhos, sejam eleitos, mas ele vem credenciado por mais de 200 mil votos.  Ele tem o direito de estar no Congresso e, dentro da lei, defender os interesses de seus eleitores e mesmo a sua agenda conservadora seletiva.  O que se questiona é sua presença como presidente de uma comissão que deve buscar garantir os direitos de cidadania de grupos que ele persegue e execra.  É essa situação que é insustentável e tem atraído críticas de vários setores, inclusive de líderes cristãos (*1-2*) que percebem o quão daninho é Feliciano para a CDHM e para a imagem da Igreja de Cristo como um todo.

Não adianta muito o grupo Anonymous levantar a ficha de Marco Feliciano e expor os seus vários crimes, pois o público evangélico médio foi conduzido por muitos de seus líderes a considerar que corrupção é coisa comum, aceitável, desde que ele continue fazendo “a vontade de Deus”, isto é, perseguir os homossexuais, o direito de interrupção da gravidez até a 12ª semana ou os praticantes das religiões afro.  As bandeiras “morais” é que são fundamentais para os cristãos.  Assim, líderes como Feiciano passam a ser vistos como heróis, mártires de uma cruzada contra a dita “família tradicional”.  É fácil encontrar nos grandes portais de notícias os comentaristas que repetem esse script sem nem pensar duas vezes.  Todos se acreditam cristãos, mas crêem piamente que precisam se tornar uma massa acrítica e defender a qualquer custo seus supostos representantes.  É lamentável que se faça uma leitura tão seletiva da Bíblia a ponto de se desprezar os Dez Mandamentos ou os próprios ensinamentos de Cristo e se cavuque aqui e ali, no texto sagrado e fora dele, razões insólitas para tentar impedir que determinados segmentos da sociedade tenham seus direitos cerceados em um Estado Laico.


Ao mesmo tempo, cresce, principalmente graças à desinformação promovida pela grande imprensa, outra corrente, tão daninha quanto, que quer fazer crer que Feliciano é “boi de piranha” para esconder deputados condenados pelo Mensalão na Comissão de Constituição e Justiça.  Na verdade, ver o povo mobilizado, ainda que somente alguns segmentos dele, em prol de uma causa que não foi convocada pelos grandes veículos de comunicação, causa medo, ansiedade... Protestos, só os que são sancionados pelos grandes monopólios midiáticos.  Aproveitando a deixa, os picaretas da fé – ou empresários da fé, como diz meu pai – se aproveitam nesse momento para engrossar o coro do “para tirar um, é preciso tirar todos”.  É perfeito.  De novo, se faz questão de invisibilizar que a razão da crítica a Feliciano é sua incompatibilidade com a CDHM e, não, uma tentativa de criar uma cortina de fumaça, e, claro, se reduz a nada a indignação de negros, praticantes de religiões de matriz africana, homossexuais, feministas e pessoas de boa vontade (*e bom senso em geral*).  

No entanto, os mesmos que tentam pautar a indignação e os protestos alheios, pouco ou nada fazem para levar adiante as causas que vêem como as mais importantes.  Aliás, isso é mais que comum.  Qualquer matéria, por exemplo, sobre violência contra as mulheres, tem comentaristas para dizer que é preciso lutar contra a “violência em geral” ou que “morrem muito mais homens que mulheres”.  Sim, e o que você tem feito?  Toda notícia sobre maus tratos ou direitos dos animais tem seus comentaristas fixos dizendo que “Enquanto vocês lutam por esses bichos, criancinhas morrem trá-lá-lá”.  Sim, e o que você tem feito pelas criancinhas?  Minha pequena experiência de vida aponta que aqueles que levantam bandeiras por uma causa nobre, levantam por várias outras, também.  É raro alguém ser tão seletivo a ponto de só se importar com o próprio umbigo, quando pensa para além do seu bolso.  Sim, defender os direitos de TODOS os humanos, os direitos dos animais, o Estado Laico, é pensar para além do seu bolso.


Queria ter palavras melhores para deixar nesta Páscoa, mas ver Marco Feliciano comparado a Jesus Cristo me causa tanto desgosto que dificilmente poderei apagar isso de dentro de mim nos próximos dias.  Penso mesmo na dificuldade que pode se tornar congregar, participar ativamente de uma igreja, quando o evangélico médio considera mais importante impedir que duas pessoas possam casar no civil em um Estado Laico do que ter pastores deputados racistas ou acusados de mil crimes.  Mas vivemos tempos tenebrosos, sim, não vejo esse início de século XXI como de avanço, mas como um tempo de trevas mesmo, no qual o que é realmente importante fica subordinado aos individualismos, egoísmos, e interesses escusos.  

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6 pessoas comentaram:

Parabéns, Valéria!
Admiro sua lucidez e coesão e pelo talento de colocar isso num texto.
Acho que você conseguiu sintetizar bem um posicionamento cristão e crítico.

Ah, Valéria!
Quem me dera que as pessoas tivessem um pinguinho que fosse do seu bom senso.
Posso facilmente imaginar que teríamos um mundo muito mais tranquilo.
O pequeno comentário colocado em seu post, "Pense no que Jesus faria", diz muito, senão tudo.
Não consigo imaginar o Jesus descrito na Bíblia, caminhando entre nós, e atirando pedras contra negros, mulheres, homossexuais, cristãos ou muçulmanos, apenas por serem como são.
Imagino sim um Cristo na fila do banco de sangue, doando algo que ele vai recupera em poucos dias.
Imagino Cristo numa ONG, doando tempo e carinho para crianças ou velhos desamparados.
Céus, até posso imagina-lo atrás do nariz vermelho, fazendo crianças riem com outros Doutores da Alegria.
Esse Cristo do "amai-vos uns aos outros" é aquele cujo sacrifício é celebrado na Páscoa.
Não frequento igreja, não sinto que minha fé precise de alguns dogmas e rituais. Isso "sou eu", e não que impor meu "eu", meu jeito, a outros.
Admiro a maneira como você, Valéria, parece conseguir lidar com sua fé e o "mundano". Não sigo "sua cartilha", o que não me impede de respeitá-la.
Então, só posso sugerir, humildemente, que pense no Cristo que mencionei, aquele que quer o bem a todos.
Que a presença desse Jesus possa ser a verdadeira marca desta e das outras Páscoas que virão.
E que a mensagem de ressurrerição possa, no futuro, ser a do renascimento do Homem como uma criatura menos estúpida e mais amorosa.

"É raro alguém ser tão seletivo a ponto de só se importar com o próprio umbigo, quando pensa para além do seu bolso. "
Verdade! Quem luta por um assunto vai a luta por vários outros, agora quem reclama de um assunto nada faz pelos outros!
Parabéns! Seu texto conseguiu resumir tudo o que penso sobre esse assunto!
É triste ver gente que acredita nas tais "teorias da conspiração" contra o Feliciano, mas a pior de todas é ver gente que acredita que esses movimentos contra o pastor é uma tentativa de instalação da ditadura gay(wtf?) no Brasil.
Gays para mim nada mais são que um minoria que está buscando seu espaço e respeito na sociedade assim como negros e mulheres. Canso de dizer (e escrever nos sites) que esses dois últimos grupos foram também as ruas pedirem quase a mesma coisa e ninguém virou negro ou menos homem!! E dói muito, mas muito ver negros e mulheres apoiando esse cara (ai mesmo na foto dá para ver).
Pessoal também acha que ao conceder direitos a gays, os héteros que vão passar a sofrer perseguição! Deixar de ser opressor não vai te fazer virar o oprimido!!!
Sem falar nos que alegam que quem é contra ele é "cristofóbico" ou "evangelofóbico", mas isso é tão ridículo que nem merece comentar...
E para quem acha que lutar contra o mandato do Feliciano é se esquecer do Renan, Genoino e cia não se esqueça que no Brasil há quase 200 milhões de habitantes, tem gente suficiente para manifestar contra todos eles!

Olha Val, por eu já ter sido evangélico eu tento sempre lembrar que eu conheci e ainda conheço evangélicos que não são preconceituosos e burros, mas olha, é difícil viu? Mas eu me sinto eu mesmo quando eu sou justo. Sou um bom libriano. A movimentação das pessoas anti-feliciano e as marchas de repúdio à ele tem me animado. Equilibra um pouco com a falta de esperança que as vezes eu tenho com esse país chamado Brasil, que não me honra nem um pouquinho...
Val, parabéns pelo ótimo texto. Foi bem triste, mas bem real.
Beijão!

Olha eu sou evangélico e achei seu posicionamento muito sensato! Que as pessoas possam ter mai disernimento! Abraços :3

"Tempo de trevas"... É isso o que eu enxergo nesses anos. Misoginia, corrupção, falta de educação, desrespeito, intolerância, violência, tudo isso embrulhado no pior dos invólucros, que é a hipocrisia. Medo do que ainda está por vir.

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