quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Por que as mulheres idosas japonesas tem nomes em katakana?


Vi esse artigo no site Rocket News 24 e achei que valia a pena traduzi-lo.  Não sabia dessa peculiaridade em relação aos nomes e como as questões de gênero estavam intimamente relacionadas a forma como os pais japoneses davam nome a seus filhos e filhas.  Enfim, espero que gostem do artigo.  as imagens abaixo vieram do site Old Photos of Japan.

POR QUE AS MULHERES IDOSAS JAPONESAS TEM NOMES EM KATAKANA?

Dentre todas as controvérsias que se espalham no Japão sobre os “nomes kirakika”, foi levantada a questão sobre o tipo de nome compartilhado por muitas senhoras idosas japonesas.  Um grande número de vovós que estão envelhecendo tem nomes escritas em katakana, o alfabeto fonético que os japoneses de hoje em dia normalmente reservam para palavras estrangeiras.  Trata-se de uma tendência atribuída às Eras Meiji e Taisho (que, grosso modo, se estenderam de 1868 até 1926), e, com certeza, não se trata de coincidência.

Nesta época, muitos nomes japoneses, masculinos e femininos, eram escritos com símbolos chineses chamados de kanji, que concediam um significado adicional ao nome.  Por exemplo, muitos país nesta época usavam o ideograma de beleza (美, pronunciado “mi”) nos nomes de meninas.  Outra prática popular era adicionar o ideograma de criança (子, pronunciado “ko”) no final dos nomes das garotas.  Mas você sabia que este último já foi reservado apenas para os nobres e os membros da Corte Imperial? Até a época do censo da Reforma da Era Meiji, este tipo de nome era simplesmente proibido.  Na verdade, a maioria das garotas nascidas nesta época e pouco depois recebiam nomes de duas sílabas em katakana.  É bonitinho agora pensar a respeito desses nomes pequenininhos, velhinhas com seis nomes fonéticos curtos que eram lidos como “vale” (Sawa), verso (Shiku)  ou “arrozeiro” (Ine), mas a realidade por trás dos motivos pelos quais esses nomes eram escritos de forma tão simples é um indicador impressionante de como o Japão se desenvolveu como sociedade.


Basicamente, os nomes em katakana eram dados aos bebês dos sexo feminino antes dos anos 1900 como resultado da discriminação de gênero.  A capacidade de ler não estava disseminada entre os pobres da época, então, muitas famílias pagavam um erudito para ajudá-los a decidir sobre um nome em kanji esplêndido e cheio de significado para os seus filhos homens.  Entretanto, a mesma medida quase nunca era tomada em relação às filhas.  Mesmo hoje, os japoneses mais idosos – as mulheres em particular – tem muita dificuldade em ler kanji.  Em outras palavras, uma das razões para que os nomes das meninas fossem escritos em katakana era que se pensava que as mulheres não eram consideradas aptas a educação.  Se uma garota recebe-se um nome em kanji, ela não seria capaz de lê-lo.  Somente as moças que pertenciam às classes mais abastadas ou da nobreza, como as filhas de samurai, recebiam um nome em kanji como indicativo de seu status.

Para sermos justos, nem todas as explicações para nomes em katakana são tão sexistas.  Da Era Meiji até a II Grande Guerra, agentes secretos recebiam nomes em katakana (o silabário para nomes estrangeiros), ao invés de em hiragana (o silabário para palavras japonesas) ou kanji (ideogramas chineses).  Também neste período, os nomes eram registrados oralmente junto ao escritório do governo local.  Como poucos pais sabiam como escrever em kanji, muito menos sabiam explicar quais ideogramas deveriam ser usados no nome da criança, a documentação com freqüência era feita em katakana.


Hoje, alguns podem se perguntar por qual motivo o hiragana não era usado nos nomes dessas meninas, já que se trata, também, de um alfabeto fonético e muito associado com as palavras de origem japonesa.  É porque a natureza suave, cheia de curvas de hiragana era vista como muito feminina, e somente katakana e kanji foram usados em documentos oficiais durante um longo período.  No entanto, em um movimento um tanto moderno, as mulheres nascidas na região de Tohoku (nordeste do Japão), durante esse período de tempo muitas vezes receberam nomes hiragana, ao invés do katakana.

Em nossos dias, ainda que você encontre alguns meninos e meninas com nomes escritos em simples hiragana, a maioria das crianças, independentemente do sexo, tem nomes cheios de significado escritos em kanji. É bom saber que, embora o patriarcado esteja longe de ser derrubado no Japão, as meninas nascidas na era moderna recebem muito mais possibilidades de igualdade de oportunidades de se desenvolver, começando com o nome com a mesma complexidade que seus pares do sexo masculino.

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1 pessoas comentaram:

Fantástico conteúdo cultural! Coincidentemente - e eu sei que não pode de maneira alguma ser utilizado como parâmetro, umas vez que, se não me engano, o diretor se apropriou da história escrita pela personagem e ela mesma não aprovou de todo - eu estava assistindo pela milésima vez Memórias de uma Gueixa ontem e refletindo exatamente sobre a condição feminina no Japão de algum tempo atrás. Aliás, mulheres não serem consideradas aptas para a educação foi - e infelizmente não deixa de ser - um equívoco amplamente difundido tanto no Oriente quanto no Ocidente, né...
:(

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