domingo, 23 de novembro de 2014

All About That Bass: Comentando uma música chiclete que nada tem de feminista


Quem freqüenta o blog sabe que sou um zero à esquerda quando o assunto é música, especialmente, em suas vertentes mais contemporâneas.  Sei pouco, não tenho nenhuma vontade em saber mais e fico pasma com as sugestões que o Facebook me dá... OK. Estava eu na academia e tropecei no clip All About That Bass, de Meghan Trainor.  Chamou minha atenção, a música é chiclete, gruda no fundo do cérebro e não sai mais, o visual é bem anos 1960 fake, tudo muito colorido, com boa representatividade étnica e tal.  Fui procurar informações sobre a cantora e a música e me deparei com uma grande polêmica em torno do caráter feminista de All About That Bass.  Oh, boy... 

Pelo título, vocês já sabem o que eu penso, All About That Bass nada tem de feminista.  Colocar moças – e um rapaz – fora dos padrões de magreza em um clip não torna o material feminista, ainda que seja de grande alento para quem se vê diminuído e mal representado todos os dias.  A maioria dos que participam do clip são plus size e para ser enquadrado como tal, basta vestir 40.  Percebem o quanto isso é triste e limitador, além de pouco saudável?  É uma forma de empoderamento, sem dúvida, a letra é clara em relação a isso “No, I'm just playing I know you think you're fat/But I'm here to tell you that/Every inch of you is perfect from the bottom to the top” (Não, estou brincando, sei que você se acha gorda/Mas estou aqui para te dizer que/Cada pedacinho de você é perfeito, da cabeça até os pés), tudo que uma menina (*e menino*) gordinho às vezes deseja ouvir é que é perfeita do jeito que é, no entanto, há uma distância entre o que vi em All About That Bass e discussões feministas.   


Enfatizo isso, porque toda a letra da música – e ela pode ser encontrada aqui com tradução – exalta o “corpo violão” ou com “curvas”, pois é isso que os rapazes querem, ainda que a propaganda photoshopada venda outra coisa.  Em uma determinada parte do vídeo, a cantora aparece servindo um rapazinho que está sentado a mesa.  Assim, típica cena anos 1950.  E o cara parece fugido daquele filme a Vingança dos Nerds, todo arrumadinho e engomadinho.  A letra não deixa dúvidas: “Yeah it's pretty clear, I ain't no size two/ But I can shake it, shake it like I'm supposed to do/Cause I got that boom boom that all the boys chase/All the right junk in all the right places” (É, está bem claro, não visto 38/Mas posso rebolar, rebolar, rebolar, como devo fazer/Pois tenho aquela performance que os meninos querem/Todas as gostosuras nos lugares certos) e “Yeah, my momma she told me don't worry about your size/She says, boys they like a little more booty to hold at night” (É, minha mãe me disse "não se preocupe com seu peso"/Ela diz "meninos gostam de ter o que apertar à noite").  Os corpos fora dos padrões de magreza são sexualizados ao extremo, ainda que todo o clima do clipe seja contido e juvenil.  A letra é clara nesse aspecto.

O corpo acima do peso é desejável e o uso de palavras que remetem à comida, reforça que ele, o corpo das gordinhas, pode ser consumido, que há quem deseje consumi-lo, basta que a menina saiba “vender o peixe”.  Diria que a música ao mesmo tempo que parece empoderar as mulheres acima do peso, ela as objetifica, pois, no final das contas, o que importa é agradar o olhar masculino.  All About That Bass ensaia algo interessante quando coloca que se o moço deseja um corpo palito, photoshopado e siliconado, que vá pastar.  Há a certeza de que não faltará quem goste de ter algo para apertar.  É aí que começa o que eu considero a parte mais perigosa da música, desqualificar um tipo de mulher para exaltar outro.



Voltemos para a letra, “I'm bringing booty back/Go ahead and tell them skinny bitches Hey” (Estou trazendo as bundas de volta/Vá e diga a essas vadias magrelas 'e aí').  As “vadias magrelas” não são as culpadas pelo padrão de beleza opressor, são vítimas, também.  A música, ao traçar esta divisão, entre as moças de corpo violão que vão trazer as curvas de volta a moda, que são o sonho dos rapazes, e as outras, ossudas, varapaus, magrelas, photoshopadas, e, pior, vadias, joga mulheres umas contra as outras.  Afinal, qual o objetivo de toda mulher?  Conseguir um homem que lhe chame de sua.  Lembram da abertura do Casamento do Meu Melhor Amigo?  Pois é, até o visual é parecido com o clip de All About That Bass.

Se eu não aceito como positivo e aceitável a gordofobia (*ou lipofobia*) ou ainda que mulheres normais e saudáveis sejam humilhadas por comentários agressivos, propagandas excludentes, venda de produtos de caráter duvidoso, não vai ser desqualificando as mulheres magras ou magérrimas que o problema será resolvido.  É perder de vista que o sistema oprime e as pessoas aderem a ele de forma mais ou menos alienada, assujeitada ou mesmo consciente.  



Finalizando, All About That Bass é uma musiquinha legal, o clipe é divertido, mas e examinamos a letra e sua mensagem explícita, não vamos achar nada de feminista.  As meninas fora dos padrões anoréxicos podem até se sentir representadas no clipe, mas nele elas são produtos na vitrine, que podem encontrar o seu nicho, e só tem significado quando desejadas pelo olhar masculino.  Além disso, joga mulheres contra mulheres.  Se as magrelas são “vadias”, o que são as gordinhas?  Moças “pra casar”?  Vale a pena refletir sobre isso.

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