terça-feira, 22 de setembro de 2015

Viola Davis: Um Discurso que Precisa ser Lembrado


Não assisto "How to Get Away with Murder", na verdade, atualmente, não assisto seriado nenhum, mas já li sobre o programa e o desempenho soberbo de Viola Davis.  Quem já a viu trabalhando, e eu só a vi no cinema, sabe do que ela é capaz.  Ela foi a primeira negra a vencer o Emmy de melhor atriz dramática.  A primeira em 67 anos.  O adepto da meritocracia - não raro homem, muito provavelmente branco, bem nascido, ou não, isso acaba sendo detalhe - deve repetir que foi a primeira que mereceu, alguém mais ressentido ainda irá falar "Ah, as malditas cotas! Era a fulana (*atriz igualmente competente, mas branca*) que deveria vencer!".  Aliás, foi uma reação semelhante à indicação ao Oscar do primeiro filme de uma diretora pelo Brasil em 30 anos com "Que horas ela volta?".  Mas não percamos tempo com eles.


Viola Davis fez um grande discurso, o vídeo está aí em cima.  A frase chave foi "A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é oportunidade. Não se ganha esse prêmio sem um papel".  Isso serve para lembrar aos adeptos da meritocracia que sem papéis mulheres de todas as cores, negras neste caso, e homens fora do padrão, apontaram a sub-representarão dos latinos nos Emmy este ano, você não será indicado, nem receberá prêmios.  Os papéis precisam existir, papéis importantes e com falas, ou grandes atrizes e, também atores fora dos padrões, não conseguirão mostrar o seu talento.

Pior ainda, às vezes os papéis existem, vide Katniss, se não entendeu, o livro é ótimo e vale a leitura, mas sofrem branqueamento.  Hoje, pintam o cabelo louro de escuro, colocam lentes de contato para tornar negros os olhos verdes ou azuis, décadas atrás, pintavam de negro.  O blackface hoje está abolido nos EUA, no Brasil, persiste prisioneiro dos péssimos programas de humor, mas já se optou por pintar de negro um ator ou atriz para que um negro ou negra não pudesse ter um papel de destaque, às vezes, nem de figuração.


Voltando ao ponto, Viola disse tudo em uma frase.  Aliás, a lógica poderia ser estendida a outras áreas como quadrinhos, por exemplo.  Só existem tantas mulheres mangá-kas no Japão, porque alguém decidiu que, sim, elas poderiam fazer o trabalho e que (*surpresa!*), apesar dos editores não perceberem a diferença, as leituras de shoujo pareciam preferir as mulheres mangá-kas.  Representação é importante, poder sonhar em ocupar um papel, se ver nele.  Pode parecer bobagem para quem sempre é representado, mas para muitos dos sub-representados é um grande estímulo, mesmo quando o material - filme, seriado, quadrinhos, novela - nem é tão bom assim.

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2 pessoas comentaram:

Emocionante!
E importante notar como ela reconhece todas as que vieram antes dela, e todas e todos que deram as oportunidades para ela tivesse a chance de estar lá e provar seu talento e seu esforço.
Espero que mais e mais pessoas se unam nessa "corrente", para finalmente dar oportunidades iguais a todas as etnias, gêneros e orientações sexuais.

Eu adorei ela ter ganho. O discurso dela foi uma direta para Hollywood mesmo. Demorou muito para esse prêmio chegar. E devemos acrescentar q o Brasil tb precisa melhorar nesse departamento. Mostrando negros de sucesso na tv.

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