sábado, 3 de outubro de 2015

Mundos de Papel : um olhar sobre os quadrinhos britânicos para meninas



Estava fazendo uma pesquisa sobre quadrinhos britânicos para meninas, aliás, falei alguma coisa no Shoujo Café tempos atrás, e me deparei com um texto bem interessante chamado Paper Worlds - Why girls' comics were wonderful (Mundos de Papel - Porque os quadrinhos para garotas eram maravilhosos) de Jac Rayner e decidi traduzi-lo.  Confesso que tropecei em algumas gírias, mas acredito que a tradução ficou razoável.  Queria muito poder colocar as mãos em um exemplar dessas revistas britânicas e ver como eram.  Sei que houve uma espécie de Comics Code na Inglaterra, por isso mesmo, os quadrinhos eram observados e mesmo censurados nas suas temáticas e abordagens, ainda que, como o text bem aponta, alguma coisa escapasse, especialmente, nos anos 1970.  Curiosamente, a última morreu bem no momento em que os mangás começaram a invadir o mundo de língua inglesa.  Eu realmente acredito que não foi coincidência, mas o golpe de misericórdia.  Segue o texto:


Mundos de Papel - Porque os quadrinhos para garotas eram maravilhosos, por Jac Rayner.

Segundo a autora, as personagens da Bunty sempre apareciam lendo a revista.
Pôneis e  balé e  escola! Se você acha que os quadrinhos para grota eram só sobre isso, então, você nunca leu nenhum.  Ou, pelo menos, você nunca  leu nenhum bom.

Sim, havia pôneis, geralmente aqueles que nossa heroína tinha que montar em segredo para salvar de um parente  malvado que queria enviá-lo para um abatedouro ou domar a fim de ganhar uma competição, para o espanto de todos, especialmente o esnobe que tinha dinheiro para aulas de equitação e pensou que sua vitória era certa.

Sim, havia ballet, e as meninas que o amavam, mas foram proibidas de dançar por tias que estavam com ciúmes de seu talento, ou que tinham perdido irmãs bailarina e estavam com medo de que suas sobrinhas morressem por algum motivo relacionado ao balé.

Lisa The Lonely Ballerina.
E, claro, havia escolas, desde o internato de Angela Brazil-ish o St. Elmo de The Four Marys publicado na Bunty até o Grange Hill-like frequetdo por Pam de Pond Hill na revista Jinty. Escolas nos quadrinhos para meninas dos anos oitenta e noventa às vezes até tinham até (surpresa) meninos presentes!

Mas havia muito mais ...

Nos primeiros tempos do que vamos chamar de forma elitista de quadrinhos para meninas bem comportadas - aqueles que incluem quadrinhos ao lado de textos ilustrados - havia um monte de figuras inspiradoras para as meninas: adolescentes ou jovens que tinham empregos agradáveis ou eram noivas gentis.

Esperava-se que as meninas fossem aeromoças ou enfermeiras, ou se elas fossem  realmente especiais, bailarinos ou modelos - mas era, claro, esperado que desistissem de suas carreiras, quando se casassem. A protagonista da história 'Sister of the Bride' da revista Bunty teve problemas terríveis no final dos anos sessenta, corajosamente sabotando a carreira de sua irmã para garantir-lhe um casamento feliz.

Já na primeira edição de Bunty, de 1958, fomos apresentados através da história ilustrada à Lyn Raymond, uma aeromoça - 'Ela tem o melhor dos empregos para todas as garotas'. Lyn, que estava atrasada para uma entrevista por ter ajudado um homem cego, mas conseguiu o emprego porque ele era fora contratado para testá-la, deu-nos uma mensagem moral importante, que ecoou ao longo dos anos de histórias em quadrinhos das meninas. Se você parar desinteressadamente para ajudar cegos/crianças perdidas/ mendigos doentes, em seguida, sua gentileza será compensada dez vezes, e você vai conseguir o que você pensou que tinha perdido, enquanto o sua rival egoísta vai perder tudo.


The Four Marys na capa da Bunty.
Outras mensagens morais foram passadas pelos quadrinhos ao longo dos anos. Misty, a revista com temas sobrenaturais da IPC nos anos 1970, deu-nos novas lições de moral a cada semana, muitas vezes em excelente estilo punição adequada ao crime. Não seja vaidosa, ou monstros horrorosos vai rasgar você. Não cause problemas na loja de sua mãe, ou você vai ser transformado em um manequim. Não colete borboletas, ou aliens vão caçar e matar você para colocar em suas coleções. Não coma camarões ou aliens parecidos com esse crustáceo vão comer você, após ter mergulhado em molho de alho. A beleza - ou horror - de Misty era que você nem sequer precisava ser uma pessoa má para um terrível destino levá-la - você só tinha que ter um minúsculo pequeno soluço moral, ou nem isso, para ser condenado por toda a eternidade.

Misty era uma revista em quadrinhos particularmente popular entre os meninos, que, obviamente, nunca admitiam em público por medo de agressões no playground. Mas, veja você, Misty foi mais do que apenas outra revista para meninas ...

As meninas geralmente gostam coisas diferentes das dos meninos, a sabedoria diz. Elas gostam de emoção, sofrimento, tragédia. Ação e violência não são realmente sua maior preferência. E, embora quase todas as pessoas trabalhando quadrinhos para meninas fossem do sexo masculino, eles jogaram com esses pontos fortes, produzindo histórias comoventes e reconfortantes de órfãs vitorianas e ginastas oprimidas.


Misty, Histórias para não ser lidas à noite.
Em meados dos anos setenta, DC Thomson veio com uma idéia brilhante: um novo personagem sobrenatural para meninas, Spellbound. Mas ainda era - bem, um pouco “mulherzinha”. Enquanto lá na IPC, Pat Mills e John Wagner estavam entre os que decidiram revolucionar os quadrinhos para garotas. As heroínas ainda eram meninas. Eles ainda contava os tipos de histórias garotas gostavam. Mas de “mulherzinha” eles não tinham nada ...

Misty lidava com horror, oferecendo contos de fantasmas e pactos com o diabo. Jinty agora intercalava suas escolas e ginastas com excelentes histórias de ficção científica. Oh, as histórias de ficção científica da Jinty! Elas são o auge dos quadrinhos para meninas, e eu vou puxar o cabelo de qualquer um que diga o contrário.

Houve Land of No Tears - 'Hop-Along "Cassy, que teria horrorizado o Daily Mail com seu desejo de ficar 'aleijada' pela simpatia que tomou conta dela, ao encontrar-se em um futuro onde a perfeição é tudo. Houve The Human Zoo, onde os gêmeas idênticas são capturadas por alienígenas que tratam seres humanos como animais. E o mais glorioso de todos, houve Worlds Apart, onde seis meninas encontram-se presas em uma série de mundos que são versões de seus próprios desejos distorcidos, e só podem escapar através da morte da menina em cuja mente elas estão em... Qualquer história que começa com "O dia começou como qualquer outro. Um caminhão-cisterna transportando resíduos químicos altamente perigosos deixou um estabelecimento de pesquisa governo” tem que ser boa, mas enquanto viajávamos pelas escorregadias, atraentes, vaidosas, cheias de crimes, inteligência e assustadoras, não só tinham as pitadas de perigo e adversidade (com algumas lições de moral à mão) para meninas, tínhamos uma história de aventura excelente.

The Boyfriend from Blupo
Os dias de glória não poderia durar para sempre.  A revista Tammy engoliu tanto Misty e Jinty, e ela própria desapareceu para sempre em 1984. Ao lado na DC Thomson, as fotonovelas mais baratas gradualmente substituíram os quadrinhos, e e tudo se reduziu a garotos e estrelas pop e moda. Oh, ainda havia coisas boas - 1995 clássico menor da Bunty, The Boyfriend from Blupo (acima) apresentou o melhor de todos os exemplos de 'Carpe Diem', quando heroína Lee, desesperado para encontrar um par para a discoteca da escola, convida o garoto alienígena, cuja nave espacial caiu na sua frente.

Mas a Bunty - a primeira e a última - finalmente desapareceu em 2001, e este foi o fim para os quadrinhos para meninas bem comportadas. Ninguém os quer mais (e, agora, cada vez que eu abordo os editores, eles dizem que a arte é muito cara, que não há leitoras, e que não há anunciantes para um produto desse tipo). Mas tenho certeza que ainda há dias como outro qualquer acontecendo lá fora, com camiões-tanque perigosos à solta. E talvez um dia nós vamos ser capazes de ler sobre eles novamente.

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