quinta-feira, 29 de outubro de 2015

ONU pede que Japão tenha leis mais duras a respeito da pornografia infantil


Estou muito ocupada esses dias, postei loucamente sobre o ENEM e o Shoujo Café meio que parou.  Rankings atrasados e tudo mais.  O nome disso é excesso de trabalho.  Uma colega me abordou no Twitter perguntando quando iria comentar sobre o pedido da ONU de banimento da pornografia infantil em todas as mídias.  Como esse assunto volta e meia aparece, olha esse da BBC de janeiro, eu comentei que já tinha falado disso em posts antigos.  Ela me mostrou esta notícia e eu vi que, sim, o assunto tinha retornado, mas que, vejam só, nem o Sankaku, que se revolta com essas coisas tinha comentado.

O que eu quero dizer com isso?  Volta e meia a ONU, grupos feministas japoneses e outros ativistas pedem ou exigem que o país torne suas leis contra pedofilia mais rígidas.   As leis japonesas foram reformadas, mas ainda são muito mais flexíveis em relação à pedofilia, especialmente a produção de imagens erotizadas com meninas de menos de 15 anos (U15), e as punições para quem mantém material pornográfico com crianças ainda é branda.  Mesmo com as mudanças na lei japonesa, deixaram de fora anime, mangá e games.  Afinal, não são meninas reais.  


A representante da ONU para questões relacionadas à infância e sua exploração, Maud de Boer-Buquicchio, visitou o Japão por uma semana e pediu - sim, pediu - que o país estivesse atento às representações de crianças em mangás.  Não fui procurar os fóruns da vida - cheios, via de regra, de machistas, misóginos e mesmo pedófilos - nem irei, eles não me interessam, mas imagino que a mensagem tenha repercutido como sempre, isto é, feministas malvadas, a ONU inútil, tentando impôr suas regras, blá-blá-blá.  Apareceram até dois comentários no grupo do Shoujo Café comparando My Little Poney e mangá hentai (*a pessoa estava sóbria ao escrever isso?????*) e outro dizendo que as pessoas não podem nem mais bater punheta em paz.  Olha, não expulsei a pessoa do segundo comentário, mas ela pode ir bater punheta onde quiser.

Outra coisa, o Japão é um dos países com maior desigualdade de gênero entre as nações desenvolvidas e desde muito tempo - a colega do Twitter me repassou um documento de 2009 - a ONU pede que o país tome providências em relação à questão.  Houve mudanças nas leis (*vejam o texto da BBC*) nos últimos anos, mas avanços, pouquíssimos.  Do documento, destaco o seguinte: “O Comitê está além disso preocupado com as atitudes estereotipadas particularmente prevalentes na mídia, onde homens e mulheres são frequentemente representadas de forma estereotipada e que a mídia está se tornando cada vez mais pornográfica.  As representações hiper-sexualizadas  das mulheres reforçam a os estereótipos existentes de que as mulheres são objetos sexuais e continua a alimentar a baixa autoestima das meninas.   O Comitê expressa sua preocupação em relação a alta incidência das afirmações discriminatórias de gênero e das falas sexistas feitas em público por oficiais do governo e a falta de ações para prevenir e punir a violência verbal contra as mulheres.”

Se vocês conhecem o Shoujo Café, sabem que, ainda que eu não coloque pedofilia real, isto é, com crianças de verdade, no mesmo patamar que os mangás e animes e games, eu concordo com esta parte do documento da ONU, isto é, as imagens têm poder.  Até hoje, por exemplo, um texto muito antigo sobre Kodomo no Jikan recebe comentários irados, da mesma forma que o meu texto comentando estupro consentido em materiais para o público feminino é lido e comentado de forma bem mais equilibrada.  Mais ainda, elas reforçam estereótipos negativos sobre o feminino e não somente entre as mulheres, o uso da pornografia é pedagógico e há séculos é consumido por meninos e homens dessa forma.  Essas imagens falam para eles, também.  Em alguns casos sublimando desejos (*que deveriam ser tratados com terapia*), em outras, os alimentando.  E a internet vira um esgoto onde esses sujeitos despejarem seu lixo.  Pegue Welcome to NHK e vejam que os japoneses entendem bem esse mecanismo.  O sujeito começa com pornografia infantil em formato mangá/anime/game e, em dado momento da série, está na porta de uma escola de educação infantil fotografando escondido menininhas.


Curiosamente, e basta olhar o Shoujo Café, volta e meia revistas shoujo e josei de conteúdo erótico são confiscadas e/ou recebem o selo de material inadequado.  Mais recentemente, houve um homem que os mangás homoeróticos foram impedidos de entrar em uma prisão japonesa.  Imagino que era material bara, mas poderia ser BL.  Segundo a fala dos representantes da prisão, mangás de conteúdo gay poderiam estimular a prática da violência sexual na prisão... Enfim, perdi o link, mas alguém que ler esse texto, pode me repassar.

De resto, não tenho nada mais a dizer.  O Japão caminha à passos lentos em relação a igualdade de gênero e está repensando suas legislações de proteção às crianças de forma igualmente lenta.  A idade de consentimento, por exemplo, é mais baixa que a brasileira, que já é considerada baixa por muitos países.  É disso que a representante da ONU está falando.  Mais ainda, quando as leis em relação aos mangás e animes começam a aparecer, não raro vem de políticos de postura muito complicada ou alvejam coisas que não parecem ser censura pura e simples.  Não acredito que criminalizar o consumidor de mangás vá resolver, controlar o que corre na net é impossível, mas que, talvez, as editoras devam ser conclamadas a regularem o que publicam.  


P.S.: E, por favor, não venha comentar se você é a favor da disseminação livre e sem fronteiras de material lolicon - e shotacon - de que produtos com crianças sendo estupradas e torturadas, ainda que sejam crianças de anime, mangá e games, é legal.  Encontre outros espaços para comentar.  Também não venha falar de Simone de Beauvoir pedófila, porque, bem, ela e outros intelectuais assinaram sim mais de uma petição pela abolição da idade de consentimento nos anos 1970 (*quando eu estava nascendo, outra época, muito diferente de agora*) na França, direito deles, aliás, mas isso nada tem a ver com o post.  Mais ainda, feministas não tem heroínas inatacáveis, lideranças perfeitas.  E se algumas até têm, esta que escreve o texto nunca acreditou em heróis ou heroínas.  Por isso mesmo, nunca se decepcionou com nenhum ser humano, a começar com sua mãe e o seu pai, a ponto de se desmontar emocionalmente, questionar seus valores e outras coisas muito comuns por aí.

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5 pessoas comentaram:

Não vejo problema em gostar de manga e anime, e até certo ponto relevar alguns exageros e distorções, mas fica realmente complicado quando a pessoa passa a aceitar o inaceitável, justificar o injustificável e defender o indefensável, apenas pelo seu apreço ao material.
Manga e anime são mídias, e como tal, transmitem ideias e influenciam pessoas. Não dá pra simplesmente fechar os olhos para o tanto de aberrações de comportamento e desumanidades que certos materiais trazem, simplesmente usando o argumento de "liberdade criativa".
Especialmente quando o material expõe a risco justamente os mais indefesos.

Fui reler Sakura Card Captor há alguns meses e confesso que fiquei muito aterrorizada quando vi que há um relacionamento amoroso entre a amiguinha da Sakura e o professor da escola delas. A Rika tem apenas 11 anos. E a própria mãe da Sakura se envolveu com o marido quando ambos ainda estavam em ambiente estudantil e ela tinha 16 anos. Querendo ou não, é uma adolescente se envolvendo com um adulto.
Meu contato com SCC foi na infância. Com 8 anos, eu assistia o anime e com 9 lia o mangá. Lembro vagamente que achava esquisitas essas relações, mas, agora, assumo que fiquei decepcionada com a CLAMP por fazer isso. Manchou a imagem de um mangá pelo qual tenho um carinho gigantesco.
No mais, fiquei satisfeita com esse aviso da ONU. A gente sabe como mangás e animes são consumidos no Japão e como são importantes para a cultura japonesa. Propagar pedofilia através desses meios é um erro que precisa ser minado. Espero que as coisas se resolvam.

Kamile, a CLAMP alega que fala de amor e que amor não tem fronteiras. Agora, em Sakura nós temos um dos casos mais explícitos de pedofilia que eu já vi. O adulto manipulando uma criança e alimentando sentimentos que podem, sim, aparecer. Quem nunca viu o menino apaixonado pela primeira professora? Agora, veja o que esse tipo de história, sem que ninguém intervenha ou critique, pode produzir na cabeça de uma menina, a leitora de dez, onze, doze anos? No entanto, para muita gente, só é pedofilia quando envolve violência (*e eu vejo a atitude do Terada como uma forma de violência*) ou nudez, mas não é o caso.


Já a mãe da Sakura, eu diria que é falta de ética, mas sai do quadro de pedofilia.

Primeiramente, eu gostaria de deixar claro que não sou a favor de lolicon/shotacon. Mas eu queria entender exatamente o que a ONU está querendo. Por exemplo, a ONU que acabar com aqueles mangás que tem sexo com meninas/meninos muito novos (14 ou -)? Ou ela quer acabar com qualquer sexualização de menores de idade? E se for aqueles animes/mangás ecchi, mas que tem adolescentes relacionando-se com adolescentes? Digo isso, não porque sou a favor de alguns desses conteúdos, mas se ela quer acabar aqueles mangás de sexo com crianças propriamente dito, eu entendo ela fazer a crítica ao Japão. Mas se envolve todos esses conteúdos que citei, deveria tbm fazer uma crítica à muitos países ocidentais por permitir a localização, não?

É só darmos uma mexida na amazon americana na área de animes, que nós vamos ver vários mangás e blurays de animes ecchi com sexualização de menores de idade. Em umas reportagens que vi pela internet, se usava muita a imagem de um anime da temporada atual, um tal de Valkyrie Drive, e pelo que sei o mesmo está sendo transmitido oficialmente e de forma legal pela Funimation no EUA.

No campo de jogos não é muito diferente. Só de exemplo o senran kagura: se vc pesquisar vai ver que o mesmo causou muita polêmica com o seu lançamento ocidental, no entanto foi lançado assim mesmo e sem censura para todo o continente americano e europeu e não só um jogo, mas todos incluindo spin offs. Só de curiosidade, enquanto a classificação desse jogo é 17+ nos EUA e no Japão, aqui no Brasil ele é 14+ (uma leve crítica a classificação indicativa brasileira, é só olhar na psn).

E aproveitando, vamos falar do Brasil na questão de mangás, pq eu posso estar errado, mas parece que os mangás ecchi (onde a maioria são menores de idade) aqui só perdem pros battle shounens. E não há nenhum pudor na publicação desse conteúdo por aqui, só dar uma olhada nas contra-capas de sankarea ou na capa do volume 3 de corpse party. Além disso, estão pra chegar to-love-ru e um pseudo-dxd que não sei o nome, o que me dá a impressão de que isso vende por aqui. O Brasil, por si só talvez não seja tão importante nessa discussão, mas temos grandes economias como EUA, França, Itália e Espanha lançando de forma oficial e legalizada conteúdos, principalmente mangás, com sexualização de menores. A maioria dos que foram lançados no Brasil, são lançados antes nessas economias maiores.

E numa rápida pesquisa eu descobri (me corrija se eu estiver errado, pq posso estar) que somente 6 países no mundo tem leis que proíbem conteúdos com sexualização de menores em cartoons/animes/mangás/jogos. E desses 6, pode-se dizer que somente Canadá e o Reino Unido são economias importantes.
Fonte: http://dbpedia.org/page/Legal_status_of_cartoon_pornography_depicting_minors

Por fim, pra mim, passa uma sensação de hipocrisia a ONU cutucar primeiro o Japão, sem antes cutucar os países ocidentais para criar leis que impeça a localização desse tipo de conteúdo. Porque os japoneses devem pensar que o ocidente, fala, critica e gera polêmica, mas no final compram direitos autorais dessas obras e vendem de forma legal. E mesmo que os japoneses lucrem bem mais com a venda interna, ainda assim é mais dinheiro no caixa deles. Pode ser que a ONU pensou em ir logo acabar com a fonte do problema. Mas o posicionamento dos países ocidentais me passa a sensação daquelas pessoas que falam mal da indústria de cigarros, mas tá sempre fumando "unzinho".

Filipe, existe uma pressão da ONU (sobre os países que fazem parte da organização) para atingirem certas metas em relação ao bem estar geral da sociedade. A pressão sobre o Japão tem a ver com uma legislação muito frouxa em relação ao abuso de crianças e à questão da desigualdade de gênero, daí o trecho que destaquei do documento de 2009. Mas não é algo impositivo do tipo "ou vocês mudam, ou...". E dentro do próprio Japão há pressões em relação a isso. Fora que a idade de consentimento é de 13 anos, a do Brasil é de 14.

Enfim, mas saindo para outros países, eles mais recebem do que produzem. O Japão é o centro distribuidor de animes, mangás e games com conteúdo lolicon. Shotacon é algo que fica mais lá, enfim. Agora, as leis em relação à pornografia infantil com personagens e não pessoas é algo em discussão em vários países. É pedofilia? Provavelmente, não seri a resposta geral.

De resto, vi sempre depender de quem assume condução da questão. Conservadores, os religiosos, especialmente, censurariam tudo. E não é disso que a representante da ONU está falando.

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