segunda-feira, 25 de julho de 2016

Comentando O Jogo da Imitação (Imitation Game)


Um dos filmes que tive que assistir por causa da semana de cinema e mesas redondas do meu trabalho foi O Jogo da Imitação (Imitation Game, 2014).  Estava na minha lista fazia tempo, claro, afinal, tem o Benedict Cumberbatch no elenco, mas fui empurrando com a barriga e acabou que só vi agora mesmo, porque estaria na mesa redonda.  Gostei do filme como filme, tudo nele parece funcionar, se encaixar bem.  Algumas interpretações – Cumberbatch, obviamente, mas há o Mark Strong, também, e o Matthew Goode – são muito, muito boas, mas a parte história do filme me incomodou um pouco.  Não o suficiente para não gostar, reforço, mas me mexi na cadeira várias vezes. O Jogo da Imitação pontua alto como filme, como entretenimento, foi feito para atender a quem gosta de cinema americano, já em relação à história, é somente mediano mesmo. 

O filme é centrado em Alan Turing (Benedict Cumberbatch), gênio da matemática e pioneiro da computação,  e conta, principalmente, a história de como um grupo de matemáticos e linguistas trabalhando no chamado Hut 8, conseguiram quebrar código da Enigma, a máquina que enviava as mensagens codificadas dos alemães, diminuindo os danos no Reino Unido e contribuindo para a vitória aliada na II Guerra Mundial.  Concomitantemente, temos uma série de flashbacks que mostram Turing sofrendo com o bullying e descobrindo a criptografia e sua homossexualidade no colégio em 1927 e o protagonista sendo investigado em 1951 por suposta espionagem para os soviéticos e sendo condenado por suas práticas homossexuais.  Não suportando o tratamento, alternativa à prisão, através de castração química, Turing acaba tirando a própria vida em 1954.  Ele tinha somente 41 anos à época.

Um estranho no ninho.
Quando alguém assiste um filme como O Jogo da Imitação talvez não saiba nada sobre Alan Turing, ou detalhes sobre a máquina Enigma e deseja um espetáculo cinematográfico que, usando de muito suspense e drama, mostre a vitória dos cientistas superando obstáculos impossíveis.  Isso o filme entrega muito bem.  O Jogo da Imitação também é muito competente nas idas e vindas no tempo.  O roteiro – que foi premiado no Oscar – e a direção bem acertada conseguiram fazer esta difícil transição funcionar, coisa bem difícil de acontecer em muitos filmes.  Não há sobressaltos nas passagens de tempo e temos ora, Turing adolescente (Alex Lawther), ora, o cientista jovem e terrivelmente egocêntrico (*muita gente sugeriu que Turing fosse Asperger, daí a forma como ele é apresentado no filme*) e, ora, como o gênio encurralado pela justiça, mas, ainda assim, mantendo uma postura digna até o fim. 

São diferentes Turing ao longo do filme, dois deles se destacam e não foi por nada que Cumberbatch – que mais dia, menos dia, receberá o seu Oscar – foi indicado para melhor ator.  Ele conseguiu encarnar muito bem as dificuldades de um sujeito genial que foi, a narrativa do filme o apresenta assim pelo menos, empurrado para a solidão, tendo, de repente, quem aprender a trabalhar em equipe.   A superação, neste caso, não foi somente do código alemão, mas das travas que a personagem tinha, da sua incapacidade de se conectar com outras pessoas.

Turing precisa aprender a interagir com as pessoas.
Nesse sentido, também, o filme conduz bem a tensão entre os cientistas, destacando-se Hugh Alexander (Matthew Goode), que resiste aos modos de Turing até se deixar render por ele.  O filme transforma Turing em chefe da missão, quando, na verdade, Alexander permaneceu a frente do projeto o tempo inteiro.  Na verdade, o filme torce significativamente os fatos históricos para criar drama, em alguns momentos excessivo, para valorizar a figura genial de Turing.  Talvez, se a história fosse contada de forma mais enxuta, os resultados seriam igualmente bons, afinal, o feito de quebrar o código da máquina Enigma já é espetacular por ele mesmo.

A importância do trabalho da equipe de Turing é incomensurável, afinal, eles efetivamente possibilitaram aos aliados salvar muitas vidas e evitarem maiores danos.  Meu marido, que entende muito dessas minúcias tanto matemáticas quanto detalhes da guerra em si, sempre acrescenta que japoneses e alemães foram um tanto displicentes com seus códigos, os primeiros mais, aliás, porque os americanos já tinham quebrado o código japonês antes da guerra, porque mantinham o mesmo padrão por muito tempo.  De fato, isso pode ter facilitado o trabalho de Turing e seus companheiros, mas não faz com que tenha sido fácil, afinal, eram milhões, na verdade muito mais, combinações possíveis, daí entender o nome do filme.  Eles precisaram descobrir o que se repetia para, de uma certa forma, diminuir sua imensa carga de trabalho.

O espião.
Pesquisando sobre o filme, vi que duas críticas foram frequentes, a primeira, e falarei dela mais adiante, a escalação de Keira Knightley para ser Joan Clarke, a única mulher a participar do projeto; a segunda, e essa irritou muito alguns britânicos, foi introduzirem no filme a idéia de que suspeitaram que Turing fosse um espião.  Essa idéia, a de que havia um espião dentro do projeto, é importante para o espetáculo.  O almirante Denniston (Charles Dance), comandante de Bletchey Park – o projeto era somente uma das suas seções – queria se livrar de Turing e desconfia que ele é o espião.  Alexander defende Turing, porque a mensagem cifrada do espião era muito simples para uma mente refinada como a do matemático.  Logo ficamos sabendo que o espião é John Cairncross (Allan Leech), personagem real, mas que nunca teve contato com Turing, nem fez parte do projeto.

Para alguns críticos no Reino Unido, associar Turing à espionagem, jogar isso em um filme dessas proporções, seria trazer mais uma mancha, esta inexistente, para um homem que fora submetido a tantas humilhações e injustiças.  Turing nunca foi investigado por espionagem e sua homossexualidade foi exposta sem nenhum cuidado pelos policiais que foram atender ao chamado de assalto em sua casa.  Aliás, se há uma cena absurda para mim no filme, é exatamente aquela em que Cairncross e Turing conversam abertamente – para os padrões da personagem foi algo até demasiado íntimo – sobre a orientação sexual do cientista.  E isso, claro, só estava lá para que pudéssemos ter Cairncross chantageando Turing.  Coisa boa que saiu daí?  Bem, foi dar espaço para que o homem do MI6, Menzies (Mark Strong), pudesse mostrar o quanto ele era ardiloso e previdente.  Pronto, eis minha personagem favorita do filme, adoro esse tipo de sujeito.

Clarke, Menzies e Turing.
Falando agora de Joan Clarke, a personagem é a única mulher a ter relevância no filme.  As outras que aparecem tem a função de compor o fundo e só isso. Daí, claro, o filme não cumpre a Bechdel Rule nem de longe.  A Clarke original era uma matemática e, ao contrário do que o filme coloca, já era funcionária de Bletchey Park antes de todos os caras que compuseram a equipe de Turing.  Vejam só, a questão de gênero mais dramática enfrentada pela personagem real m Bletchey Park foi receber salários menores do que os caras que trabalhavam no Hut 8.  Ela, como todas as mulheres que trabalhavam quebrando códigos era chamada de “menina” (girl), termo que apontava para a tutela e a inferiorização das mulheres, e recebia salário referente à funções secretariais.  Para poder ir trabalhar com os caras da Hut 8, precisaram dar um “jeitinho” e transformá-la em linguista.  Segundo li, na Wikipedia, ou sei lá onde, ela passou a colocar em seu currículo que ela era a linguista que não sabia nenhuma língua.  

Depois que a seção é dissolvida, ao contrário do que o filme mostra, vários de seus membros continuam amigos, ela e Turing, por exemplo, foram até o fim da vida, e Clarke prossegue trabalhando em Bletchey Park, ou seja, ela foi a primeira a chegar e a última a sair de lá.  No filme, para tentar fazer um paralelo entre o drama do homossexual e o drama das mulheres, a situação da Clarke de é pintada com tons dramáticos.  Ela é recrutada em um concurso, é a única mulher a resolver a palavra-cruzada de Turing, seus pais não a querem trabalhando em um ambiente masculino e, pelo menos para mim, nunca ficou claro se ela trabalhava com os caras, ou quebrava uns galhos para o turing, porque somente no finalzinho parece que ela efetivamente estava junto com eles na Hut 8.  

A Clarke real deveria ser menos romântica que a do filme.
Enfim, talvez um pouco mais de realidade aqui ajudasse a mostrar o quanto as coisas eram ruins, mas não daquela maneira.  Dos dados reais sobre Clarke, o único que aparece no filme de forma correta é o fato dela nunca ter se tornado “fellow” em Cambridge por seus feitos em matemática, porque, bem, a universidade não concedia esse título às mulheres. Ela poderia ser tão brilhante quanto seus colegas homens, e, ainda assim, nunca seria um “fellow”.

No filme, Clarke parece um tanto preocupada com o casamento, afinal, é preciso oferecer um romance para  a audiência.  Daí, quem bolou o filme deve ter pensado “mulher, anos 1940, essa deveria ser uma preocupação de todas as mulheres”.  Talvez, mas Clarke em suas entrevistas e biografias não se mostrava nada preocupada com isso.  Casou-se, verdade, mas não teve  pressa, mas, de novo, era preciso mostrar a única mulher do grupo preocupada em arrumar um marido e não ficar sozinha com  seus números.  

Mais amigos do que amantes.
A questão do noivado com Turing, em entrevista de Joan Clarke (*aqui*), ela explica que no dia seguinte ao pedido de casamento – Turing, pulou etapas – ele contou da sua homossexualidade.  E ela? Bem, eles eram amigos, tinham vários interesses em comum, Turing mexia nos turnos dos dois para que trabalhassem juntos, ao invés do dramalhão do filme, ela aceitou a notícia com tranquilidade e acreditou que juntos eles poderiam resolver as coisas.  Turing a apresentou para a toda a sua família e foi uma sobrinha do matemático que em entrevista assegurou que Keira Knightley não era uma boa escolha para o papel.  

Olha, parece que em Hollywood hoje, na verdade já faz alguns anos, o povo acredita que só há uma atriz britânica jovem capaz de interpretar papéis de época.  Keira Knightley, que eu nem considero uma atriz ruim, mas somente mediana, é escalada para tudo, tenha ela perfil, ou não.  Parte se deve ao estrondoso sucesso de Orgulho & Preconceito (2005), mas a culpa, eu diria é da autora original... De qualquer forma, a melhor atriz para fazer Joan Clarke, em minha opinião, também estava nesta adaptação do romance mais famoso de Jane Austen e seu nome é Carey Mulligan.  Enfim, de qualquer forma, havia várias atrizes que fariam uma Joan Clarke melhor, mais comedida e menos exuberante como a personagem original deveria ter sido.

Quebrando o código.
Relacionado ainda à Joan Clarke, quem a levou para trabalhar em Bletchey Park foi um antigo professor Gordon Welchman, ele mesmo um matemático brilhante e membro da Hut 8.  Olha, a maior injustiça do filme foi simplesmente eliminar o co-criador da máquina que quebrou o Enigma.  Sim, Turing era um gênio, mas ele não fez a máquina sozinho.  Welchman é retirado para que Turing possa brilhar sozinho.  Fora isso, a máquina original chamava-se Bombe em homenagem à máquina polonesa que foi a primeira a quebrar o código do Enigma.  O problema, e aí, sim, o filme é bem fiel, os alemães descobriram que seu código tinha sido quebrado e o modificaram.  Por isso mesmo, todos os cuidados do serviço secreto britânico para que os alemães não soubessem.

Viram que eu escrevi “serviço secreto”, porque, bem, ninguém acredite que a escolha de alvos a serem salvos, ou não, dos alemães era dos cientistas, que eles e ela é que passavam para Menzies o que ele deveria, ou não, informar.  A escolha não era dos cientistas, ainda que estes fossem muito importantes, mas dos militares.  E, sim, quebrar o Enigma fez diferença em todas as frentes, inclusive para os soviéticos.  Interessante, também, é o filme mostrar que o problema não eram somente as bombas sobre a Inglaterra, mas o corte no abastecimento, os comboios com suprimentos que eram interceptados no caminho.  

Com o tempo, Turing ganha o respeito e a admiração de Alexander.
Enfim, por conta dessa situação do que salvar, ou não, da quebra do código e tudo mais, criou-se uma daquelas cenas super-dramáticas com o objetivo de tocar o expectador: Peter Hilton (Matthew Beard), o mais jovem dos linguistas e/ou matemáticos do Hut 8, tem um irmão marinheiro em um comboio que será atacado pelos nazistas.  Ele quer avisar do ataque, salvar seu irmão.  Daí, temos confronto entre Turing e Alexander.

Olha, o que se pode tirar dessa cena, além da discussão sobre ética, é mais uma parada para observar os papéis de gênero. Hilton se questiona se ele estava no lugar certo, ele, um homem saudável, deveria estar “fazendo papel de homem”, isto é, na frente de combate.  Trata-se da discussão, ainda que muito marginal no filme, de um modelo de masculinidade dominante.  

Correr como forma de aliviar a tensão não foi clichê
neste caso, pois Turing tinha de fato a corrida como um hobbie.
Os verdadeiros homens vão para o front, são guerreiros, em casos extremos, se capturados,  fogem e se juntam à algum grupo de guerrilha, ou mesmo um dos exércitos aliados (*houve um paraquedista americano que se perdeu no Dia D, juntou-se à resistência francesa, foi capturado pelos alemães e conseguiu lutar com os soviéticos depois de resgatado; merecia um filme*).  Cientistas não são homens de verdade, mesmo quando salvam vidas ainda são vistos como “menos homens” do que aqueles que oferecem sua vida no campo de batalha.  E este modelo de virilidade e a representação social do que é, ou não é, ser homem, pouco mudou.  

Nesse sentido, O Jogo da Imitação se presta a uma discussão sobre as masculinidades hegemônicas para além da questão, que é a mais relevante do filme, do estigma da homossexualidade.  Da perseguição aos gays, da sua invisibilização e de como a partir do final do século XIX a ciência substitui à religião quando a questão é expor, punir e execrar os homossexuais.  E reforço que a ciência substitui a religião nos discurso oficial, oferecendo explicação para algo que é visto, sabido e que não pode ser ignorado, mas ainda são os discursos religiosos os norteadores do estigma, da repulsa e do próprio rumo que muitas pesquisas tomaram e tomam até hoje. A ciência não é neutra, os cientistas muito menos.  

Clarke apoiou Turing até o fim.
Outra coisa a se reforçar, é que quando você cria as punições – e Turing, assim como Oscar Wilde, foi enquadrado por uma lei de 1885 – não há uma preocupação com as lésbicas.  Elas existem, sem dúvida, mas para os homens que fazem a lei, sexo só é sexo se existe falo envolvido, daí, talvez, a única lésbica perigosa, ou talvez existente, e isso a Inquisição já dizia, é a que tenta se utilizar de algum artifício que simule o papel do membro viril, usurpando o papel masculino.  Resumindo, a lei que pegou Turing não pegaria mulher alguma, porém, isso não quer dizer que era legal, tranquilo e aceitável socialmente ser lésbica, ainda mais ser butch.  

Para terminar, apesar de entender a importância dentro do filme da construção da imagem e da identidade homossexual de Turing, que isso dava o tom de militância à película que poderia atrair alguns expectadores por outros motivos, confesso que achei a parte do Turing adolescente um tanto forçada e enfadonha.  Queriam explicar o despertar do desejo homossexual na personagem e criaram um melodrama que, ainda que bem articulado, tirava o foco das partes mais interessantes do filme.  De resto, usaram de outro clichê, aquele que pinta os internatos ingleses como verdadeiras filiais do inferno, em vários momentos, especialmente quando comunicam a morte de Christopher para Turing.  

Durante muito tempo, os feitos do Hut 8
permaneceram um segredo de estado.
O jovem Turing era íntimo de Christopher e todos sabiam, suas famílias se conheciam, os responsáveis pelo colégio cuidaram de prepará-lo para dar a notícia da morte do amigo.  No filme, tudo é feito para ressaltar a insensibilidade daquela sociedade e a solidão do protagonista.  Efeito dramático atingido e intensificado pelo quase caso de amor de Turing com sua máquina, que deixa de ser Bombe e passa a ser Christopher, não somente para ele, mas para todos os envolvidos.  

É isso, o Jogo da Imitação chegou a me emocionar – e Cumberbatch ajuda nisso, é claro, especialmente nas cenas do Turing mais velho, perseguido e que se deixa dissecar pelos seus perseguidores, mas é muito mais um dramalhão mesmo.  Há muitos outros aspectos, que me escapam, porque estão longe da minha área de atuação e interesses, que o filme apresenta muito bem.  Vi isso na mesa redonda com meus colegas de Física, Matemática, Biologia e Artes, mas eu não tenho condições de analisar.  Recomendo o filme de coração, mas não poderia deixar de analisar  algumas questões e apontar os problemas que vi ao longo da película.  E deixo a frase repetida tantas vezes no filme “sometimes is the very people who no one imagines anything, do the things that no one can imagine” (“Às vezes, são as pessoas de quem ninguém espera nada que realizam as coisas que ninguém consegue imaginar”).

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