domingo, 28 de agosto de 2016

"Mulheres se destacam como leitoras, autoras e desenhistas de quadrinhos": Matéria Correio Braziliense dá destaque à relação entre as mulheres e os quadrinhos

Riri, Ironheart.
Minha amiga Natania, que fez dissertação de mestrado sobre Representações das Mulheres nos Quadrinhos durante os anos 1940, me disse que tinha dado entrevista para o Correio Braziliense, principal jornal da capital do país.  A matéria saiu hoje e, qual não foi a minha surpresa, ela é grande, muito bem escrita, e, melhor ainda, não está restrita para assinantes.  Por conta disso, vou deixar o link para que vocês possam ler, só o título já ficou ótimo:   Mulheres se destacam como leitoras, autoras e desenhistas de quadrinhos.

Assinada por Juliana Contaifer, a matéria traz dados recentes sobre a indústria de quadrinhos, entrevista gente muito relevante, desde pesquisadoras, caso da Natania, passando pelas moças do Lady's Comics, até chegar nas mulheres que estão criando quadrinhos.  Vou destacar dois trechos da matéria.  A introdução começa assim:
"As histórias em quadrinhos foram, por muito tempo, território masculino. Eram feitas por eles, para eles, como se mulher alguma tivesse interesse em ler aventuras de homens fortes e cheios de honra salvando o universo e mocinhas desamparadas dos mais variados problemas. Só que não são poucas as mulheres fãs de quadrinhos (muitas são autoras, inclusive). Em uma pesquisa do blog Papo de Quadrinho, especializado em HQs, descobriu-se que 31% dos leitores são do sexo feminino. A gigante Marvel apurou um número semelhante: 40%. Assim, as grandes editoras se dobraram às evidências e, finalmente, entenderam que precisavam criar identificação com esse público. E o primeiro passo foi oferecer personagens adequadas. (...)
Fora do cenário das grandes editoras, no mundo independente, as mulheres são ainda mais presentes. Seja em páginas da internet, blogs, no Facebook, seja em feiras dedicadas a fanzines e quadrinhos, as representações honestas de mulheres atuais, que não seguem padrões e lidam com dilemas e inseguranças, dão a tônica das heroínas contemporâneas. Em Brasília, são várias as meninas que se cansaram de procurar a própria voz nos quadrinhos disponíveis nas bancas e decidiram tomar o lápis e criar suas próprias aventuras."
Não concordo com essa história de território masculino, porque isso é uma construção discursiva.  Repete-se e repete-se e repete-se e, bem, as pessoas acabam se convencendo disso.  Pesquisadores durante muito tempo ignoraram as mulheres, ou as restringiram a um ou dois parágrafos.  O excelente livro A Novela Gráfica, de Santiado García, por exemplo, tem uma única menção às mulheres nos quadrinhos, cita a Trina Robbins não como pesquisadora, mas como criadora de material underground.  Ou seja, para falar das mulheres é preciso que existam mulheres pesquisadoras.  E, como escreveu minha orientadora de doutorado, Tânia Navarro-Swain, "O que a história não diz não existiu".  Se não falarmos das mulheres nos quadrinhos - autoras, personagens, pesquisadoras - elas deixam de existir, caem no esquecimento.

Miss Fury, uma das personagens que a Natania estudou.
A outra parte que eu gostaria de citar da matéria é a que fala de qual a porta e entrada para as mulheres brasileiras nos quadrinhos hoje, na verdade, desde pelo menos os anos 1990: Turma da Mônica e Mangá.  Motivo?  São materiais que dialogam com todos os públicos e, no caso do mangá, feitos para todos os públicos.
"Sendo a maioria das histórias em quadrinhos feitas para meninos, como as meninas passam a se interessar pelas histórias? Como são quase 40% dos leitores da Marvel? A editora Ana Recalde conta que as clássicas revistinhas da Turma da Mônica, desenhos animados e os grandes blockbusters de super-heróis que estreiam a cada ano são muito importantes para introduzir as crianças ao mundo das narrativas gráficas. Mas um dos movimentos mais importantes foi a chegada dos mangás ao Brasil. Se as meninas custavam a se identificar com as personagens que estampam as histórias, os quadrinhos japoneses trouxeram algo inédito: segmentação. "Eles têm mangás para meninas, para meninos, para idosos, para empresários, para adolescentes, para senhoras… Muitas das meninas que gostam de quadrinhos entraram nesse mundo por aí", conta Ana. Mas não é algo excludente, nem só as fãs de mangás se tornaram grandes fãs de quadrinhos — a editora explica que conhece meninas que não leram nem os quadrinhos japoneses nem americanos mas que, hoje, são leitoras assíduas de fanzines."
The Hawkeye Initiative.
É isso.  Vale ler a matéria.  Até do The Hawkeye Project, que critica a  hiperssexualização das mulheres nos quadrinhos é citada no texto.  A imagem acima é de lá.  Foi uma grata surpresa encontrar algo tão interessante na revista de Domingo.  É preciso falar de quadrinhos e, mais do que nunca, falar das mulheres neste universo.

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2 pessoas comentaram:

Vou admitir que não entendo muito bem a obsessão com super heróis que aparece em toda matéria sobre quadrinhos. Sei que essa menciona mangá, mas é uma parte tão curta e tardia... E tenho certeza que minha experiência com quadrinhos não é nem um pouco única - Marvel e DC foram basicamente irrelevantes na minha infância/maior parte da adolescência, e minha transição Turma da Mônica (e um pouco de Mickey & cia) -> mangá foi natural...

tem 2 obras feitas por 1 mulher que me divertem muito.
Ranmae Inuyasha (Rumiko Takahashi)

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