sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Algumas palavras sobre a tal reforma do Ensino Médio


Sei que é bem off-topic, mas eu sou professora, eu leciono para o Ensino Médio, me preocupo com educação e tenho uma filhinha pequena aqui para zelar.  Preciso escrever, então.  Ontem o novo governo, aquele cuja plataforma não foi votada, mas que está sendo executada, apresentou a sua proposta de mudanças no Ensino Médio.  Proposta é bondade, foi uma medida provisória, um cumpra-se.  O texto na íntegra pode ser lido aqui.

Me senti obrigada a escrever por ter visto gente postando o vídeo de campanha onde a Dilma fala em tirar Sociologia e Filosofia do Ensino Médio, quando ela se referiu à sobrecarga curricular deste segmento do ensino básico. Ela falou, tomou pedrada, ficou na dela e estava rolando a discussão com a sociedade da base curricular comum. Discussão, vejam bem. Temer assumiu e desceu uma canetada. Simples assim. Percebem a diferença?  a forma de fazer as coisas.  Pior ainda, quando vemos este "perguntas e respostas" que saiu no Estadão, a coisa não está sequer definida, está alinhavada, mas é para cumprir.  Professores e, principalmente, alunos e alunas que se virem.  E quais matérias rodaram?  Sociologia, Filosofia, Artes e Educação Física!  Esta última foi uma surpresa, para mim, e nem esperaram a lembrança das Olimpíadas esfriar em nossa cabeça.


Eu fiz o ensino médio entre 1990 e 1992. Na época, vigoravam as diretrizes do tempo do regime militar que obrigavam as escolas a inserirem pelo menos uma disciplina de formação profissional.   A maioria das escolas colocava ou uma matéria genérica  (Técnicas Comerciais, Economia Doméstica, Técnicas Industriais, Laboratório etc.) e iam tocando, mas o comum mesmo é que nas escolas públicas e particulares para as classes trabalhadoras houvesse ensino técnico no 2º  Grau, antigo nome do Ensino Médio.  Você com 14, 15, 16 anos sendo convocado a decidir seu futuro, porque, para muitos, era ali a decisão.  Vai fazer o que?  Enfermagem?  Normal?  Eletrônica?  Processamento de Dados?  Administração?  Técnico de Laboratório?  Química?  Educação Física?  Científico era coisa de elite ou de gente que não se preocupava com o futuro dos filhos e filhas... E havia as pressões de gênero, claro... Menina fazendo Eletrônica?  Absurdo!  Garoto na Enfermagem?  É bicha, com certeza!

Olha, eu não tive Sociologia, nem Filosofia, no Ensino Médio. Artes, só na quinta e sexta-série (*6º e 7º ano*) e olhe lá.  Queria ter tido, talvez tivesse chegado na universidade em melhores condições, assim como meus colegas que vieram de colégios particulares de elite, ou do Pedro II. No final do meu primeiro ano, que na maioria das escolas particulares "para pobre"  era chamado de "formação geral", meu maior medo era não ver nunca mais Química, Literatura e outras disciplinas e ser colocada em um curso técnico (Formação de Professores, era meu destino desde a infância) que me formataria para o mercado de trabalho. Meu pai, e eu não o culpo, ele era pragmático, sabia das necessidades que passava para nos dar uma "boa educação", insistia nisso. "Professora sempre vai ter trabalho. Depois, você estuda o que quiser." Universidade? Que é isso mesmo? Ninguém na minha família próxima tinha feito mesmo... Em quem me mirar?


Alguns acidentes de percurso acabaram me fazendo ir parar no Científico. Meus pais, meu pai em especial, muito preocupados com o onde eu iria trabalhar depois. Enfim, as coisas acabaram saindo melhor do que eu poderia ter esperado. Se eu não tivesse ido parar no meu segundo ano em uma escola mais elitista, eu teria ficado para trás.  Teria, sim.  Ou teria penado muito, como meu irmão que fez curso técnico de Desenho Mecânico e nunca trabalhou com isso.  Mas foi sorte, acidente, ou intervenção divina. Escolham aí. Para a maioria dos meninos e meninas deste país, queria algo melhor e não pior do que eu tive.

Sei que há muito adolescente ingênuo comemorando, mas matéria optativa no Ensino Médio seria a criatura poder escolher um aprofundamento em cálculo, em algum tópico de literatura, cinema, ou introdução à arqueologia. Optativa não pode ser matéria fundamental para a formação geral de uma pessoa. A função da escola é abrir horizontes, formar um cidadão culto que possa se virar bem na maioria dos assuntos e círculos, não bitolá-lo.   


Com essa história de áreas, vai ter muito pai e mãe escolhendo por seus filhos, como eu vi acontecer quando lecionei no curso Normal.  Em pleno ano 2000, meninas obrigadas a fazer formação de professores, porque, na Baixada Fluminense, muita gente, mesmo anos depois, continuava pensando como meu pai, ou que eram obrigadas a concretizar sonhos frustrados das mães.  Ela não pode fazer Normal, a filha vai fazer.  Simples assim.  Humanas?  Que isso, meu filho!  Isso não dá dinheiro! Vai fazer exatas!  E há ainda outros abacaxis, como a semestralidade e o ensino integral, mas deixo isso para outro dia...

A educação no Brasil precisa ser reformada?  Sim.  Há sérios problemas?  Sim.  Os resultados dos testes internacionais apontam para isso, fora os outros indícios.  Só que o buraco é mais embaixo.  Conto um causo.  Estava em uma reunião geral e foi comentado que os alunos e alunas que chegam para entrar no terceiro ano sempre tiram nota baixa em matemática, ou seja, não poderiam entrar na série.  Então, o coordenador geral de matemática pediu a palavra e disse "não pensem que o caso é mandar voltar para o primeiro o segundo ano, o problema deles é de matemática básica".  


Enfim, sem entrar em questões político ideológicas, no tal do "notório saber", nem o fato de eu saber que vão dar dinheiro público para escolas privadas, porque este é o plano, me sinto muito triste com tudo isso.  Triste por mim, apesar de, pelo menos na proposta que está dada, minha disciplina (História) estar preservada, mas pelo futuro.  

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1 pessoas comentaram:

Bom Dia.Como futuro professor de química também comentarei.
1) Notório saber, foi uma das coisas mais ridículas que li em uma lei, fecha os cursos de licenciaturas então, já que as matérias pedagógicas e estágios são enfeites.
2) Lei baseada no que o ministro amigo do Frota e seus companheiros acham que é o melhor, boa coisa não deve ser.
3)A desculpa que 13 disciplinas é muito, por isso tem de tirar 4. Me fez lembrar do Ensino suíço que tem aula de música, educação cívica, design entre outros, e ninguém reclama.
4) Ensino Noturno passa a ser inútil.
5) Os gastos da educação serão congelados por 20 anos, onde que arranjarão dinheiro para isso?

O Ensino Médio necessita ser reformulado, mas de maneira preparatória e bem feita. Não é empregando pessoas sem formação, não valorizando o professor e as Universidades que isso será feito. Do jeito que as coisas são no Brasil, eu temo que você terá de dar aula de história e geografia recebendo o mesmo salário, como se fosse uma disciplina só, e eu vou ser o responsável por química, física e biologia.

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