quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Comentando o livro "Novela: A Obra Aberta e seus Problemas"



Ontem, enquanto esperava horas intermináveis no pronto-socorro de um hospital, terminei de ler o livro Novela: A Obra Aberta e seus Problemas, de Fábio Costa.  Gosto de novelas, ultimamente, mais de ler sobre novelas do que de assisti-las e quando vi o livro sendo comentado pelo crítico Nilson Xavier no Twitter, decidi que precisava ler o material. Foi difícil, a distribuição da Giostri, a editora, não parece ser das melhores, mas, depois de um bom tempo encomendado na Livraria Cultura, ele chegou.

A obra como um todo é rica em informações sobre as telenovelas brasileiras desde que se tornaram diárias, em 1963, com 2-5499 Ocupado.  O autor, Fábio Costa, jornalista e historiador, fez um extenso trabalho de pesquisa, isso não há dúvida.  Sua bibliografia reúne muitos livros, alguns famosos (Nossa Senhora das Oito que é sobre Janete Clair, por exemplo), outros acadêmicos (A Negação do Brasil, é um deles), mas acredito que o grosso das informações vieram dos periódicos mesmo, que devem ter sido explorados à exaustão.  

Os Gigantes, um dos casos mais radicais de intervenção em novelas.
Uso esta palavra – exaustão – não é à toa, ela se enquadra perfeitamente ao trabalho feito por Costa, pois ao dividir seus capítulos por temas, ele tenta exauri-los e oferecer o máximo de informações sobre o máximo de obras.  Na maioria das vezes, o resultado é satisfatório, em outros casos, nem tanto.  Além do prefácio de Lauro César Muniz, cada capítulo é aberto com a fala de um novelista e traz como subtítulo o nome de uma novela famosa que se relaciona com o tema.  Exemplo, o capítulo 2, que é sobre a Censura durante a Ditadura Militar, tem como subtítulo “Acorrentados”, novela de Janete Clair produzida em 1969, na sua fase antes da rede Globo.

Cada um dos capítulos tem uma introdução rápida, que poderia ter sido mais estendida, porque eu sei que, ali, o autor poderia desenvolver melhor as suas próprias idéias, e os exemplos.  Nesse sentido, Obra Aberta se mostra um livro de curiosidades, um almanaque mesmo, que seria mais interessantes se tivesse algumas fotos.  O livro não tem ilustrações. Com oito capítulos, cada um aborda um aspecto do drama vivido na feitura de uma novela: desacertos entre autor e diretor; censura; afastamento de atores ou atrizes (*doença, gravidez, morte); problemas com elenco (*escalação para outras obras, desentendimentos com autor/diretor, demissão etc.*); desentendimentos gerados por estrelismos de atores/atrizes ou do autor; intervenções por necessidades de audiência ou dramatúrgicas; a necessidade de esticar  ou encurtar uma novela; aquilo que não coube antes entrou aqui (*^_^*).

Whalter Negrão, o salvador de novelas.

Navegar pelo livro é muito interessante e, ainda que alguns capítulos possam parecer cansativos pelo excesso de exemplos, é uma leitura satisfatória para quem sem interessa pela história das telenovelas e, pode, também, servir de ponto de partida para quem esteja pensando em pesquisa-las academicamente.  Por exemplo, sobre censura, papel deste ou daquela novelista, motivos principais de intervenção etc.  Realmente foi uma surpresa ver o quanto Walther Negrão foi mobilizado ao longo de décadas para consertar novelas vistas como problemáticas.  Lendo o livro, perdi a conta.

Incrível, também, ver como era freqüente que atores e atrizes mudassem de emissora e largassem uma novela até o início dos anos 1980.  Imagino que multas contratuais altíssimas foram criadas para resolver um problema.  Pior ainda, se eram protagonistas.  Interessante, também, foi descobrir que na Tupi era comum que muitos autores fossem também os diretores de suas novelas e que pelo menos um deles, Geraldo Vietri, parece não ter se adaptado na Globo por não ser o diretor de suas novelas.  Seria muito bom, dadas as repetições de certos nomes e novelas, que houvesse um índice remissivo ao fim do volume, mas sei que é raro livros brasileiros com esse tipo de recurso tão útil.  Não é, portanto, uma crítica particular para Novela: Obra Aberta.  Agora, mais alguns comentários sobre o livro em si: 

Vera Fischer e Felipe Camargo, mãe e filho em Mandala.
Quando o autor cria um capítulo sobre Censura, não convém acreditar que ela vem somente do governo militar, ou da lei de censura que sobreviveu ainda durante parte do Governo Sarney e atingiu, por exemplo, a novela Mandala, da qual me lembro bem.  Ela se baseava no mito mais conhecido de Édipo e gerou-se forte reação ao romance entre mãe e filho.  A censura pode partir da audiência, dos grupos de discussão, das cartas enviadas.

Um dos casos mais emblemáticos disso, foi o destino de um dos primeiros casais interraciais das nossas telenovelas.  Na novela Passo dos Ventos (1968/69) de Janete Clair, havia um romance entre um negro e uma branca.  A novela se passava no Haiti do século XIX ou XVIII.  Era ainda o tempo das novelas distantes da nossa realidade.  Enfim, foram as cartas dos leitores que separaram o casal, cada um seguiu caminho com “outro amor”.  O caso já me era conhecido, porque é citado no livro Nossa Senhora das Oito e é a maior omissão da tese do Joel Zito Araújo, A Negação do Brasil, porque, bem, sendo um trabalho sobre “o negro” na telenovela e falando basicamente de Globo, ele esquece este caso emblemático.

Milton Gonçalves em Pecado Capital.
Aliás, o autor, Fábio Costa, deveria tentar um trabalho temático, porque em alguns momentos percebe-se que ele poderia fazer discussões interessantes, como quando ele problematiza – algo que não fez em nenhum outro lugar – os motivos da rejeição à personagem Dr. Percival, interpretado por Milton Gonçalves, que pediu para Janete Clair que lhe desse a possibilidade de interpretar alguém que fugisse dos estereótipos impostos aos atores negros.  Culto, o Dr. Percival acaba flertando com a irmã de uma paciente, que é branca e casada.  

Outros livros, como os que eu citei no parágrafo acima, falaram que a censura não gostou do casal, porque era tabu – e os exemplos neste caso são muitos – a representação do adultério em novelas.  A censura reclamava, impunha limites, a igreja católica dava em cima e muitos fãs também se manifestavam contra.  Enfim, o romance não vingou. Costa não leva em consideração a questão do adultério, a meu ver o determinante, e levanta um ponto interessante, não teriam rejeitado o romance por não ser um casal pobre.  Daí, ele cita outros casais interraciais, todos com homem negro, mulher branca, anteriores.  O traço comum é que eram casais pobres.  Será que isso pesou?  Não sei, mas seria algo a se discutir com base nas cartas recebidas, se elas ainda existirem.

Lucélia Santos e Edwin Luisi em Escrava Isaura
Falando em pontos falhos.  O autor repetidamente deixa de explicar coisas ao largar frases que terminam com “não funcionou/não deu certo por vários motivos”.  Ora, quais  motivos?  Ainda que elucubrações do autor, seria importante lê-las, ou que fosse mudada a estrutura da frase.  Outro ponto um tanto decepcionante se refere a citação, mais que conhecida, da censura à palavra “escravo” na novela Escrava Isaura.  Sim, podem rir.  O autor, Gilberto Braga, já falou disso várias vezes em entrevista, comentei inclusive o livro de entrevistas A Seguir Cenas do Próximo Capítulo..., aqui no blog, e colocou em sua minissérie Anos Rebeldes a tal situação surreal usando uma das personagens que era novelista.  Fábio Costa fala da censura e não diz que na cabeça do censor, falar de escravidão era algo feio, que deveria ficar no passado, e que poderia produzir idéias subversivas na cabeça das pessoas, se elas associassem escravo com operário, exploração e por aí vai.  Era preciso explicar, porque a piada é boa.  

Aliás, as trapalhadas da censura são um caso sério.  O autor citou um caso obscuro de uma novela de 1965, Ainda Resta uma Esperança, na qual a censura vetou o nome original da novela, As Desquitadas, interveio de muitas formas, mas deixou passar uma menção clara à aborto. Segundo Costa, uma das protagonistas interrompe a gravidez, ou isso é sugerido em diálogo, porque estava se separando e não queria ter que criar o filho do ex-marido.  Isso seria muito forte hoje, aliás, não pensem que estou falando que há evolução de usos e costumes, mas a questão era tabu e continua sendo, só que, agora, com uma militância mais agressiva, imagina em 1965?  

Janete Clair, "Nossa Senhora das Oito"
As loucuras da censura, aliás, deveriam ser um inferno para os autores. Cenas cortadas, capítulos desfigurados, novelas inteiras embargadas, Janete Clair convocada para criar uma novela que pudesse substituir às pressas uma que foi proibida.  Não pode divórcio, não pode adultério, não pode gravidez na adolescência, bandido popular tem que morrer... Ainda assim, Dias Gomes tentava driblar de uma forma espetacular: uma cena cortada por um censor, reaparecia em outro capítulo. Vai que o censor não é o mesmo?  Vai que passa?  E, às vezes, passava mesmo.

Agora, censuras do regime, a gente até entende.  Mas e as rejeições do público?  O caso mais gritante é o de Torre de Babel, de Sílvio de Abreu.  Na explosão do shopping foram embora o casal de lésbicas, a velha ranzinza cadeirante, o jovem drogado, o pai que transou com a esposa do filho... Muita gente indesejável!  E a pressão foi do público.  Eu vi a sequência e lembro em detalhes.  Agora, o autor fala bastante de Torre de Babel, mas esqueceu que entre as remodelações para tornar a novela mais aprazível houve a transformação do ferro-velho, lugar soturno, sujo, feio e realista, em um bar temático colorido.  Aliás, foi isso que fizeram, também, com a cidade de A Padroeira, que o autor cita nas intervenções, porque foi caso notório, mas não detalha como em outros casos.  Aliás, em alguns momentos o livro é excessivamente detalhista, em outros, passa batido pelos casos.

Torre de Babel e sua explosão higienista.
O autor comete um erro ao incluir Ana Raio e Zé Trovão, da Rede Manchete, no capítulo das novelas que sofreram intervenções, afinal, ele não cita quais seriam e eu, que fui obrigada a assistir a novela pelo bem da unidade familiar, sei que apesar de chata, de não dar o audiência que a emissora precisava, e com história rala, ela seguiu sem problemas até o seu fim.  Na verdade, Ana Raio e Zé Trovão não deveria aparecer no livro.  Agora, outras novelas que sofreram intervenções, ele ignorou, isso sem falar de Desejo Proibido, de Whalter Negrão, que foi encurtada e nem citada está.
  
Em O Direito de Amar, de Whalter Negrão, uma das minhas novelas favoritas, o vilão, o terrível Sr. de Montserrat (Carlos Vereza) caiu no gosto popular e ganhou um monte de fãs que o queriam com a mocinha, Rosália (Glória Pires), que havia sido obrigada a casar com ele para salvar o pai de suas dívidas.  A ordem foi aumentar as vilanias da personagem para tentar reverter a situação, afinal, tínhamos que torcer pelo mocinho, Adriano (Lauro Corona), que era o filho do tal vilão.  Já em Sinha Moça, a primeira versão, Benedito Ruy Barbosa queria Giulia Gam, uma jovem atriz em ascensão, como protagonista, mas a Globo lhe impôs Lucélia Santos.  Isso está no livro A Seguir Cenas do Próximo Capítulo, que consta na bibliografia do autor.  Por qual motivo omitir algo que mudou, efetivamente, a cara de uma novela inteira?

Sem Lucélia Santos, Sinhá moça seria outra novela.
A outra omissão, eu tempero com elogios.  A parte em que o autor fala de Os Gigantes, que periga ser uma das novelas mais marcantes da TV brasileira, afinal, fala de eutanásia, homossexualidade (*aqui a censura vetou e a coisa foi abortada*) e termina com a mocinha e suicidando, foi uma das melhores do livro.  O autor, por exemplo, fala de todos os problemas de Lauro César Muniz com a Globo, das intervenções em sua novela, que depois o autor admitiu que ele se excedeu, também.  Foi demitido, aliás.  Fábio Costa esqueceu de falar de algo importante aqui, Benedito Ruy Barbosa foi convocado para terminar a novela, se recusou e demitiu-se em solidariedade ao colega.  Está em A Seguir Cenas do Próximo Capítulo, que tem entrevistas dos dois.  A novela foi terminada pela estreante Maria Adelaide Amaral e por Walter George Durst. 

O fato é que ler um livro como Novela: Obra Aberta só me faz pensar no quanto nossas novelas já foram criativas, especialmente, nos anos 1970.  Do quanto ousaram, mesmo driblando a censura e outras resistências.  Do quanto, em muitos aspectos, somos mais conservadores hoje, seja o público, seja as emissoras.  E, algo importante a escrever, se este livro saísse uns seis meses depois, seria incluída a trágica morte de Domingos Montagner, protagonista da atual novela das nove da Globo, Velho Chico.  Enfim, para quem se interessa por telenovela brasileira, Novela: Obra Aberta e Seus Problemas pode ser uma leitura interessante.  Tem problemas, mas tem grandes qualidades, também.  Talvez seja um ensaio para outro livro melhor do autor, quem sabe?  Para quem se interessar, o preço de capa é 50 reais.  É possível encomendar nas grades livrarias.

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