quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Comentando Aquarius (Brasil, 2016)



Terça-feira, assisti Aquarius, o filme brasileiro mais controvertido e elogiado dos últimos anos.  Confesso que ele não me impactou, definitivamente, o chamado “Novo Cinema Pernambucano” não me empolga, agora, a interpretação de Sônia Braga foi uma das coisas mais arrebatadoras que eu já vi no cinema.  Sua Clara, uma mulher de sessenta e tantos anos muito bem vividos, é uma personagem rara e, talvez, uma das mais marcantes representações de uma mulher contemporânea na terceira idade que o cinema já produziu.  Por esse motivo, Aquarius já valeria a pena, mas sobram outros elogios à direção e para a fotografia.  De resto, quanto à polêmica, é lamentável que o clima político no Brasil esteja tão envenenado que as pessoas não consigam discernir o que é crítica legítima e elogio desproporcional, o que impede um filme como Aquarius seja apreciado como merece.

O resumo básico do filme é o seguinte:  Clara (Sônia Braga) é escritora e jornalista aposentada especializada em música, viúva por mais de uma década, ela mora de frente para o mar no Edifício Aquarius, último prédio de estilo antigo da Avenida Boa Viagem, no Recife. Lá ela criou os três filhos, agora, adultos, lá ela lutou e venceu um câncer de mama, e nesse apartamento aconchegante repleto de discos, livros e memórias, ela irá enfrentar as investidas de uma construtora que tem outros planos para aquele terreno: demolir o Aquarius e dar lugar a um novo empreendimento.  A partir daí, acompanhamos a resistência de Clara e a pressão da construtora para que ela aceite vender o seu imóvel.

Sozinha em um prédio antigo.
Clara, a personagem de Sônia Braga, é dona de um imenso desejo de viver e ela passa uma mensagem positiva para as mulheres da terceira idade, talvez, para qualquer mulher.  Poucas vezes o termo “empoderada” me pareceu tão adequado a uma personagem, neste caso, se aplica totalmente.  Obviamente, nem todas as mulheres de idosas são parecidas com Sônia Braga, detentora de um físico muito próximo da sua juventude, ainda uma mulher muito bela dentro dos padrões hegemônicos, mas o filme é generoso em nos oferecer várias outras personagens, as amigas, parentas e outras relacionadas com Clara, mulheres que encarnam a diversidade do humano.  Há brancas, negras, altas, baixas, magras, gordas, pobres, ricas, há mulheres de todos os tipos, ainda que Aquarius seja absolutamente sobre Clara.

Entre os atos de coragem de Aquarius – e de Sônia Braga – temos a exposição do drama do câncer de mama, na verdade, não do drama, mas da sua superação, o fato da protagonista ser guerreira e seguir em frente.  Uma das cenas de maior impacto é exatamente quando Clara troca de roupa e vemos que no lugar de um dos seios, há uma cicatriz que não é nada bonita.  Não se discute o fato dela não ter feito uma reconstrução de mama, poderia ter aparecido a questão em algum momento, afinal, o filme mostra o quanto o fato de não ter um seio faz com que Clara seja solitária no sentido sexual do termo.  Para muitos homens, o fator idade pode ser relevado, mas ela é menos desejável por não ter um dos seios.  

São muitas as cenas de praia.
Somando então a polêmica do seio mutilado, temos a mulher madura com desejos sexuais e tolhida de concretizá-los.   O que faz Clara, então?  Seguindo o conselho de uma amiga que deseja parceiros sexuais e, não, compromisso, ela contrata um garoto de programa.  Que fique claro que o filme não vende esse recurso como um ato feminista, simplesmente, o fato é apresentado no filme de forma naturalista, como tudo aliás, afinal, esta parece ser uma das marcas do diretor, Kleber Mendonça Filho.  Clara tem desejos sexuais, ela não consegue um parceiro, ela está sob pressão para vender seu apartamento, ela enche a cara e liga para o rapaz.  No outro dia, ela se sente um tanto desconfortável e, para piorar, está de ressaca, no entanto, não parece se arrepender da parte importante dessa história toda, afinal, a transa foi boa.

Se Clara é uma personagem forte e cheia de vida, ela também me pareceu arrogante, egoísta e até insensível em vários momentos.  Ainda que compreenda o apego pelo seu lar, suas memórias e recordações, o fato é que, ao contrário do velhinho ranzinza do filme Up, ela não mora em uma casa, mas em um apartamento em um prédio, agora, vazio.  Ainda que faça sentido abordar o tema a especulação imobiliária, criticar o capitalismo “selvagem” e o que mais se queira questionar, o fato é que Clara pouco se importa com o bem comum.  Pior ainda, é  que o filme, ao se posicionar ao lado dela, demoniza a filha (Maeve Jinkings), que alerta para o perigo dela morar sozinha em um prédio numa capital violenta, só para começo de conversa.

Diego e seu avô, os "vilões" do filme.
Clara tem diferenças com a filha e o filme somente rascunha essa relação, nos dando indícios de algumas coisas mal resolvidas do passado da família.  Ana Paula, este é o nome da filha, se ressente da mãe por ter se ausentado por dois anos para, imagino eu, porque o filme não esclarece, concluir um mestrado, ou doutorado. O irmão mais velho, para tentar acalmar os ânimos, saca o livro fruto da tal ausência, uma obra sobre Villa Lobos, e mostra a dedicatória feita aos filhos, um singelo pedido de desculpas. Foi, talvez, o único momento do filme que me senti realmente comovida.  

Só que Clara é pouco sensível ao drama da filha, uma mulher recém divorciada com uma criança pequena para cuidar.  Eu, talvez, também, não percebesse a fachada do prédio recém pintada se estivesse carregando criança, bolsa, carrinho de bebê para deixar na casa da mãe e correr para o trabalho...  Na discussão com a filha, fica evidente que Clara é rica, ainda que não tenha como comprar um prédio como o Aquarius, em um lugar tão valorizado.  A protagonista dá a entender que a filha quer o dinheiro, os 2 milhões de reais oferecidos pela construtora, algo acima de qualquer valor de mercado.  Joga-lhe na cara que mora no Aquarius porque quer, porque ama o lugar, já que tem 5 apartamentos, e que pode dar dinheiro aos filhos, se eles quiserem.  

Carinhosa com os filhos homens.
Olha, essa sequência é uma das que expõem o quanto Clara é egocêntrica, o quanto ela só se preocupa consigo e mal vê os outros mortais ao seu redor.  Afinal, ela tem 5 apartamentos, mais o do edifício Aquarius, mas e os vizinhos que só tem o apartamento que está no prédio e não receberam todo o dinheiro da venda exatamente porque Clara não pretende ceder? Direito dela, sem dúvida, mas empatia zero pelo próximo, a começar por sua própria filha, não a tornam uma  heroína da resistência ao capital que desfigura as áreas litorâneas do país.  Em vários momentos, Clara me lembrou as Helenas das novelas do Manoel Carlos e me lembrar de novelas deste senhor não faz o filme ganhar estrelinhas, por assim dizer.

Algumas pessoas reclamaram da extensão do filme. Confesso que não senti.  Aquarius me pareceu ter mais ritmo que O Som ao Redor ou Que Horas ela Volta?, mesmo com sua narrativa lenta. Agora, é fato que várias sequências poderiam ser suprimidas.  Querem ver uma delas? Quando Clara está passeando pela praia com seu sobrinho favorito, que ela demonstra amar mais que seus filhos, e a namorada do moço pela praia, ela explicando onde termina a praia de Pina e começa Brasília Teimosa (*uma favela*), e a conclusão no churrascão na laje de sua empregada, Ladjane (Zoraide Coleto). Essa parte está lá para mostrar o quanto Clara – que não mostra empatia pela filha e pelos ex-vizinhos – é uma pessoa desconstruída, desapegada e preocupada com os menos favorecidos.  Esta sequência, assim como Clara toda afetuosa com o filho gay, enquanto é dura com a filha e distante com o filho mais velho, servem para ilustrar o quanto a protagonista é progressista, quando, bem, para mim há outras evidências de que a coisa não é bem desse jeito... 

Clara visita  o túmulo do marido.
No seu confronto com Diego (Humberto Carrão), por mais que sua ira possa ser justificada, ela é arrogante e prepotente.  Acusa o rapaz de ser “elite”, de não ter caráter, tudo assim de forma muito autoritária, afinal, ela sempre tem razão, e ele debocha dela, afinal, ela também é elite, apesar de sua pele “um pouco mais escura” e ele insinuar que, por isso, ela deve ter lutado para chegar onde chegou.  Na tensão estabelecida entre Clara e a filha é possível perceber que a protagonista herdou muita coisa e, em termos materiais, construiu pouco.  Outro momento que transparece a arrogância elitista de Clara é quando ela tenta lembrar o nome da empregada que roubou jóias de sua família.  A cunhada então diz “Nós as exploramos e elas nos roubam”, como se uma coisa fosse paga da outra e naturalizando a idéia de que pobres são ladrões, que o roubo é resistência à opressão, que isso é normal.  Olha, conheço um bocado de gente pobre que se ofenderia com essa cena e com toda razão. 

A sequência toda, aliás, me pareceu novela do Manuel Carlos, afinal não há contraponto, não há outra voz, são só as duas dondocas em uma casa de classe média alta falando de suas criadas, esses seres tão diferentes e pitorescos,que naturalmente vão roubar, mas que elas, patroas esclarecidas e cientes da selvageria do capital, vão entender suas ações.  A cunhada, dona de uma livraria, também debocha de uma cliente “sem cultura” e a piada com a mulher que foi comprar livros à metro para decorar a casa. Clara e suas amigas – e, repito, é ótimo ver tantas mulheres maduras em cena – são todas mulheres cultas, modernas, independentes e, bem, tratam muito bem seus empregados, ainda que Clara tenha sempre aquele ar, ora, autoritário, ora, complacente com os serviçais.

Jornalista amigo que ajuda Clara a prejudicar seus adversários.
Uma das críticas ao filme foi o quanto a personagem de Humberto Carrão era estereotipada e maniqueísta. Olha, acho que nem dá para sentir muito isso, afinal, a única personagem completa, bem desenhada, é Clara.  O rapaz é um capitalista sem freios? Sim, em certo sentido, mas até que as estratégias dele para expulsar Clara foram menos pesadas do que eu imaginava.  Imaginei, por exemplo, que o sujeito poderia pagar gente para dar um susto em Clara, agredi-la fisicamente, a assaltassem.  Promover uma suruba no andar de cima e, em outra ocasião, um culto, foi coisa bem trivial.  

Dada a gravidade da situação, o entrave que Clara representava ao seu projeto imobiliário caríssimo, ele pegou leve, por assim dizer, ainda que eu, como amante de livros tenha tido calafrios quando vi os cupins plantados nos apartamentos vazios do andar de cima. Infestação de cupins é um dos meus piores pesadelos.  Falando em sonhos e pesadelos, em Aquarius, as sequências oníricas ficaram muito evidentes, ao contrário do ocorrido em O Som ao Redor. Quando Clara sonha, sabemos que ela está sonhando e os recursos utilizados pela direção não deixam dúvidas quanto a isso.

Em busca de documentos que pudessem comprometer os donos da construtora.
Das poucas personagens do filme, uma que gostei muito foi o Roberval, o bombeiro salva-vidas interpretado por Irandhir Santos.  Gosto muito do ator, queria vê-lo protagonista de um filme no cinema.  E, bem, ele e Clara são amigos, ele se preocupa com ela, sabe da violência do bairro e que não é seguro (*para ninguém*) morar em um prédio sozinha.  Alguns diálogos bem humorados são travados entre os dois, como quando Clara lhe pede um número de contato, caso precise, e ele fica muito acanhado e pergunta se ela está dando em cima dele... Não estava, mas até que eles fariam um belo casal. 

De resto, preciso comentar pelo menos um aspecto polêmico em relação à Aquarius e me posicionar sobre ele. O filme ficou marcado pelo posicionamento político de sua equipe técnica e elenco. Eles protestaram em Cannes contra o impeachment de Dilma e tudo mais. Atraíram a ira da direita militante e tudo o que vem de ruim nesse pacote.  Pois bem, a primeira represália veio com a classificação indicativa do filme: 18 anos. Trata-se de uma forma eficaz de impactar a bilheteria, afinal, quanto mais baixa a classificação indicativa, maior a possibilidade de uma grande bilheteria.  Houve grita, o diretor berrou que estavam perseguindo seu filme, e baixaram para 16 anos.

Protesto contra o "golpe" em Cannes.
Todo mundo sabe que em nos nossos dias, classificação indicativa elevada está ligada a presença de sexo e nudez no filme. Tendo visto o filme, eu realmente não vejo perseguição em colocar a classificação indicativa em 18 anos e vou dar os motivos. Quando não tínhamos nem 10 minutos de filme, no aniversário de Tia Lúcia (Thaia Perez), em 1980, as crianças estão lendo textos elogiando a parenta querida e eis que a velha senhora olha para uma cômoda antiga (*que foi herdada por Clara*) e, do nada, afinal era um daqueles devaneios que a gente tem e corre o risco de perder o fio da meada do que acontece no entorno, lá estava a jovem Tia Lúcia fazendo sexo na cama e em cima da tal cômoda. Primeira cena de sexo com direito à nu frontal feminino e cunilíngua.  Plasticamente é tudo muito bonito, mas é um cena de impacto.

Mais adiante, temos a festinha que a construtora permitiu que acontecesse no apartamento em cima do de Clara.  Depois de um bom tempo, ela, incomodada, vai reclamar e, ao olhar pela fresta da porta, percebe que está acontecendo uma orgia, várias pessoas estão transando, de novo temos nu frontal feminino, sexo quase explicito e nu frontal masculino com pênis ereto.  Depois, temos a transa de Clara com o garoto de programa, igualmente explícita, e, mais adiante, do nada, a câmera gira e para distraída em um casal fazendo sexo no matagal para, logo em seguida, focar em uma praça onde vários jovens estavam se divertindo.  Não questiono as cenas de sexo, (*salvo a do matagal, tão útil quanto o close na fralda suja de cocô de um dos netos de Clara*) pois todas elas tinham função na narrativa, agora, dizer que o filme não merecia uma classificação indicativa de 18 anos é querer tapar o sol com a peneira.

Movimentos e jornalistas de direita fizeram campanha
 contra o filme e os profissionais envolvidos.
Já caminhando para o final, nem preciso dizer que o filme cumpre a Bechdel Rule, afinal, ele gira em torno de uma mulher que tem várias amigas mulheres. Sim, porque ter uma mulher protagonista não garante a presença de outras mulheres em um filme.  Nesse sentido, Aquarius é muito positivo, porque coloca em cena uma protagonista espetacular, várias personagens mulheres e, o mais incrível, a maioria delas com mais de cinquenta anos. Ainda que a luta de Clara me parece egoísta e até irreal, é a interpretação de Sônia Braga, sua entrega ao papel, que a faz brilhar. Realmente torço que o filme, cercado de polêmicas, perseguido pelos radicais políticos de direita (*e, talvez, pelo próprio governo que se instalou depois da derrocada do PT*) e esnobado como candidato brasileiro ao Oscar, seja lembrado com uma rara indicação de uma não falante de língua inglesa para melhor atriz. Quem sabe? Seria muito merecido.

Um dos destaques de Aquarius é a trilha sonora. Várias décadas e estilos musicais diferentes se fazem presentes no filme. Clara tem fixação por LPs e usa com frequência a vitrola. No entanto, não se trata de rejeitar a tecnologia, a protagonista simplesmente tem paixão por colecionar discos e ouvi-los. Para quem entende de música, e eu não entendo quase nada, a trilha do filme é um presente.

Irandhir Santos e Sônia Braga nos ensaios.
De resto, não pensem que minhas críticas à Aquarius sejam desqualificações ao filme.  Realmente, não o acho tão espetacular quanto muitos acreditam. Pode ser que não tenha a sensibilidade necessária para apreciar o tipo de cinema feito por Kleber Mendonça Filho, por trás do discurso engajado que permeia as falas do diretor e seus filmes, eu vejo muito elitismo e um afastamento do mundo social, aliás, tudo isso se materializa espetacularmente em Clara, senhora de seu mundo e impermeável às opiniões e necessidades de quaisquer outra pessoa.  “Eu já tive um câncer.  Eu prefiro dar um câncer do que ter um”, diz a protagonista em um determinado momento e é assim mesmo que Clara conduz seus assuntos. Ela é linda, vibrante, mas tem no egoísmo exacerbado uma estratégia de sobrevivência.   

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1 pessoas comentaram:

O filme é bem cansativo, a montagem dele me deu a mesma sensação de som ao redor, de cenas picotadas colocadas em sequência. Eu realmente não curto o trabalho desse diretor. E me incomoda que num filme de quase 2h30min o diretor não consiga acrescentar complexidade a outros personagens.
Eu não consegui gostar de Clara ou me conectar com o drama dela,mas deve ser pelo o que você observou, ela é muito egocêntrica e a relação com os filhos dela é bizarra. Mas a cena da mudança da faixada do prédio, eu até entendi lá a indignação dela, acho que ela se sente magoada de como a filha é desapegada ao apartamento vendo como uma questão de negócios. Mas o conflito dela com filha fica vazio.
Eu gostei mais da empregada dela e o drama do filho que perdeu a vida em um acidente. E também a mesma coisa que me incomodou no filme, e em boa parte desses filmes que tratam dessa questão social de desigualdade não é um olhar observador, o pobre no filme é sempre um outro. Embora aquela cena lá que os meninos negros entram no exercício mostrou lá meu preconceito, porque eu pensei: Eita, que esses meninos vão assaltar o povo.
Mas vou repetir aqui o que disse no meu twitter, você pode fazer um filme inteligente e engajado com apelo comercial como um tropa de elite 2, ou filmes como esse que pra mim visam um público bem restrito.
Só sei que chega de Kleber Mendonça na minha vida.

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