domingo, 2 de outubro de 2016

E a Miss Brasil é negra!


Sim, por mais ridículo que possa parecer o título da postagem, ele se justifica, afinal, desde que o concurso existe em seu formato atual, 1954 (*há concurso de Miss desde 1900 pelo menos*), somente duas mulheres negras foram eleitas, Deise Nunes (Rio Grande do Sul) e, agora, Raissa Santana, do Paraná.  Sim, no Brasil, não no Japão, mas, aqui, em nosso país, mulheres negras parecem não ser consideradas belas o suficiente para representarem o nosso país.  Daí, exatos 30 anos depois, só para que alguns gritem "É marmelada!", a exceção volta a acontecer.  O fato é que o racismo marca os concursos de Miss em nosso país e mesmo em estados com população negra expressiva, mulheres negras não costumam ser as escolhidas como suas representantes.  Daí, curiosamente, as duas únicas misses Brasil negras são de estados do Sul... Vai entender?

Eu não postei nada sobre a questão antes, mas este concurso já se destacava por ter seis representantes negras: Victória Esteves (Miss Bahia), Beatriz Leite (Miss Espírito Santo), Deise D’Anne (Miss Maranhão), Raissa Santana (Miss Paraná), Mariana Deny (Miss Rondônia) e Sabrina Paiva (Miss São Paulo).  Um recorde que dificilmente será batido, salvo se a perspectiva do concurso mudar um pouco.  E a coisa está sendo anunciada como novidade, como festa, sem nenhum pingo de vergonha.  Como assim, ter seis candidatas negras no Brasil é algo surpreendente?  Mas é... 


Já houve concursos sem nenhuma participante negra, fazendo parecer que tínhamos uma população etnicamente mais homogênea do que a japonesa ou a sueca.  Um escândalo, portanto. Enfim, não vi outro veículo de comunicação comentando, mas o Jornal O Dia publicou que a diversidade das candidatas era uma das exigências do novo patrocinador, a Polishop.  Queriam, e conseguiram de forma razoável, que mulheres negras chegassem ao concurso de Miss Brasil.

E meu post é exatamente sobre isso: oportunidade.  Não houvesse uma pressão da sociedade e dos patrocinadores, não teríamos a possibilidade - vejam bem, possibilidade - de uma negra ser eleita Miss Brasil, porque, simplesmente, elas não chegariam às finais.  Elas seriam eliminadas antes, consideradas menos bonitas ou inadequadas a representar o Brasil.  Isso é o que chamamos de racismo estrutural, às vezes, sutil, às vezes, brutal, ele se manifesta de múltiplas formas.  Assim, sem oportunidade, não há possibilidade de vitória.  Isso vale no mundo das ciências, na educação, nos esportes e, também, nos famigerados concursos de beleza.


Este post não tem como intuito discutir o caráter machista dos concursos de beleza, algo, aliás, inegável.  Bom seria que eles não existissem, no entanto, eles existem.  Daí, outro ponto do texto é salientar a importância para a autoestima de meninas e mulheres negras que elas possam se ver, também, como modelos de beleza.  Falar que não importa esse aspecto, é ignorar o viés racial e somente se fixar no de gênero.  Para quem faz isso, as críticas das feministas negras são mais que merecidas.

Outra questão que vi sendo levantada por alguns, e que me parece cortina de fumaça, é que as mulheres negras que são valorizadas nos concursos de miss não seriam negras de verdade, que teriam traços caucasianos (*Sério?!*), que seriam, na verdade, mestiças.  Olha, há uma forma simples de definir quem é negro, ou não.  Sabem qual?  Perguntem ao racista assumido, porque eles e elas sabem bem apontar e duvido que Raissa Santana não seria apontada como tal.  Outra coisa, as estatísticas apontam - duas misses em 30 anos - que mulheres negras, tenham ela qual tom de pele ou configuração de nariz, ou lábios, simplesmente não conseguiam ser escolhidas.  Em vários anos, sequer chegaram ao concurso nacional, foram eliminadas antes.  Ponto final, mestiçagem funciona para todos lados e não estou anulando a violência de certos processos de miscigenação ao afirmar isso.  Daí, recomendo videozinho "A Jornada do DNA", porque ele é bem didático quanto a isso.  



Dito isso, parabéns à nova Miss Brasil, a linda Raissa Santana, chamada a fazer história, porque, bem, nosso racismo sem vergonha não permite que mulheres que não tenham um padrão de beleza pré-definido possam aspirar a coroa.  Espero que seja uma nova era e, não, um momento especial.  Quem sabe, eu possa ver, ainda em minha vida, uma Miss Brasil oriunda da comunidade japonesa, chinesa ou coreana.  E falo isso de coração, afinal, tenho 40 anos e só vi duas mulheres negras serem eleitas para representar o nosso país.



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1 pessoas comentaram:

Me parece ser uma das marcas da polishop de ter em seu "cast" mulheres de etnias diferentes, representando assim a variedade brasileira. Penso que isso é um acerto, espero que continuem assim.
Quanto a Raissa, vale lembrar que ela é baiana, mas concorreu por Paraná.
Outra coisa que gostaria de mencionar é o fato de que no ano passado, a Miss Brasil 2015, Marthina, sofreu bastante preconceito nos diversos fóruns que debatem sobre misses por ser "branca demais" e ter aparência "europeia demais", o que a desqualificava como representante de nosso país. Isso fora falarem de sua magreza e até mesmo apatia, enquanto a moça enfrentava um câncer no útero em silencio, sem deixar de cumprir com seus compromissos. O mesmo ocorreu com Melissa Gurgel, Miss Brasil 2014 por ser Cearense e considerada baixinha para os padrões de uma miss. Então você pode imaginar como elas foram desqualificadas por essas pessoas fanáticas.
Espero que essa linha da polishop continue. Que sejam eleitas as mais diferentes moças e como você disse, japonesas, coreanas, acreecento índias, ruivas, negras. Que essas garotas possam competir em igualdade e que muito em breve possamos deixar de quantificar que foram 6 ou mais. Mas com certeza, que venham novas Raissas como essa, que venceu o concurso de ponta a ponta desde o primeiro momento que pisou no palco

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