sábado, 15 de outubro de 2016

Recomendação de Filme para o Dia doas/as Professores/as: O Sorriso de Monalisa


É muito comum que filmes sobre professores e alunos sejam filmes sobre homens.  O professor que inspira, que liberta, que faz sonhar... Professoras, especialmente, em filmes de época, parecem estar comprometidas com a manutenção do sistema.  Quando pensamos em alunos, normalmente, são garotos, também, cheios de curiosidade pelo mundo, pelo saber, pelo sexo, meio perdidos, mas com um professor inspirador as coisas tendem a entrar nos eixos ou o joio ser separado do trigo.  Ao Meste com Carinho; O Clube do Imperador; Mr. Holland, Adorável Professo; O Preço do Desafio etc.  estão aí para isso.  Por outro lado, há quem não consiga citar um filme com professoras inspiradoras, bem, deixo a indicação de O Sorriso de Monalisa (Mona Lisa Smile, 2003).

 O ano é 1953, Katherine Ann Watson (Julia Roberts) é uma brilhante professora de História da Arte formada na Universidade da Califórnia convidada a lecionar no tradicional Wellesley College (*Hillary Clinton estudou lá*), no  Massachusetts.  A faculdade feminina de elite parecia um excelente lugar para desenvolver suas potencialidades, mas, ao chegar lá, Watson descobre que todo o curso parecia ser direcionado para a formação de boas donas de casa.  Não é de surpreender, afinal, estávamos nos anos de backlash, isto é, retrocesso com o reforço de papéis de gênero que fizessem as mulheres voltar para casa.  Afinal, depois da II Guerra, os homens voltaram e o mundo precisava retornar aos eixos.


Entre as alunas, a principal opositora da nova professora é Elizabeth "Betty" Warren (Kirsten Dunst), que escreve para o jornal da escola editoriais reforçando que uma boa mulher deve ser "bela, recatada e do lar".  Warren está noiva e tem suas faltas abonadas para cuidar dos preparativos do casamento.  Algo comum em Wellesley.  A professora, no entanto, vê potencial em  Joan Brandwyn (Julia Stiles), melhor amiga de Betty e tenta despertar nela o desejo por prosseguir nos estudos.  As outras duas moças do grupo são Constance "Connie" Baker (Ginnifer Goodwin), uma moça gordinha e insegura, e Giselle Levy (Maggie Gyllenhaal), uma jovem questionadora e progressista.

O filme mostra a interação da professora com as alunas, os conflitos dentro de uma sociedade (*micro e macro*) conservadoras, do quanto fazemos escolhas e julgamentos equivocados.  A  professora, por exemplo, não consegue ver potencial em Betty, mas ela termina por surpreendê-la.  O Sorriso de Monalisa fala, também, de feminismo e sororidade.  Giselle e a professora acabam se envolvendo com o mesmo homem,o professor vivido por Dominic West, no entanto, ao descobrirem, é sua amizade e parceria que prevalece.  


Lembro que li uma crítica sobre este filme onde o autor (*homem*) dizia que o filme era ruim, porque, bem, as  mulheres nem brigavam pelo bofe... Verdade!  Filme bom é aquele que mostra não a parceria entre as mulheres, mas que as coloca se destruindo por causa de um homem que seduzia alunas e mentia descaradamente... 

Quando foi lançado, houve quem reclamasse que o filme é injusto com Wellesley, que a instituição era progressista, se comparada com outras na mesma época, que mulheres muito importantes, com uma sólida vida profissional, se formaram lá, como  Annie Jump Cannon,  Nora Ephron, Hillary Clinton, Pamela Melroy,  Madeleine Albright.  Enfim, que a faculdade não oferecia um curso espera marido.  A questão é que até o início dos anos 1960, o que se esperava é que o college fosse isso mesmo, um espera marido, com seus intercâmbios com instituições masculinas e universidades que permitiam achar o marido certo, ou que eles encontrassem as esposas certas.


Enfim, já é mais que hora de  rever O Sorriso de Monalisa, faz muito tempo que assisti.  É um filme feminista importante, com um elenco de grande qualidade e com um diretor, Mike Newell (*Quatro Casamentos e um Funeral*) com muita sensibilidade.  Talvez, o impacto do filme não seja tão grande, porque as alunas não são mais adolescentes, no entanto, recomendo que estejam atentos/as ao controle que o sistema exerce sobre jovens mulheres, seus corpos, vontades, mentes.  

Peço, também, que procurem o documentário que vem com os extras do filme, ele mostra estatísticas de educação, vida sexual, trabalho das mulheres em 1953 e em 2003 nos EUA.  E digo mais, em tempos de Marcela Temer e Escolas de Princesas, filmes como O Sorriso de Monalisa são mais que fundamentais, são um alívio, na verdade, um sopro de sanidade.  O final do filme é lindo e libertador, que mostra a diferença que uma professora pode fazer na vida de suas alunas e o impacto que essas mesmas alunas podem ter sobre sua mestra.  Sim, porque há reciprocidade, não é um filme sobre uma professora fada madrinha mágica mudando vidas ordinárias, mas sobre como mulheres podem se ajudar e crescer juntas.

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