domingo, 4 de dezembro de 2016

O Estupro de Maria Schneider: Diretor Confessa, sente culpa, mas não se arrepende


Como você se sentiria se soubesse que houve um estupro real em um grande clássico do cinema que é lembrado, em muitos casos, por causa da cena na qual a violência aconteceu?  Começo dizendo que nunca assisti O Último Tango em Paris (Last Tango in Paris), filme de 1972 que mostra o relacionamento doentio e marcado pelo sexo entre um norte americano de meia idade, interpretado por Marlon Brando, e uma adolescente, a atriz Maria  Schneider.  Ele tinha 48 anos e ela tinha 19.

A diferença de idade, aguçando fantasias masculinas e femininas.  Sim, gente, eu considero uma fantasia machista, mas é uma fantasia de muitas mulheres: homem mais velho, experiente, misterioso, e dominador.  Fora isso, era Marlon Brando em cena, um dos grandes galãs do cinema, ainda que não em sua melhor forma.  As cenas tórridas de sexo fizeram a fama do filme, que foi proibido no Brasil durante a ditadura por mais de uma década.  


Schneider teve uma vida atribulada depois do filme.  Dez anos atrás, segundo o The Guardian, ela teria falado de estupro, ou algo próximo disso (*ela deveria estar tentando amenizar para si mesma o que houve*).  Ninguém lhe deu atenção.  Era uma atriz sem uma carreira sólida falando de dois monstros sagrados do cinema, Brando e o diretor Bernardo Bertolucci.  Dois homens que nunca falaram do assunto e uma mulher querendo chamar atenção.  Schneider morreu em 2011.

Umas duas semanas atrás, vi o vídeo de Betolucci, o único vivo das personagens desse drama e crime, confessando que, sim, houve um estupro.  O vídeo -entrevista é de 2013.  Para quem não sabe qual é a tal cena, trata-se de uma seqüência em que a personagem de Brando pede que Schneider vá buscar manteiga, a joga no chão de bruços e usa a gordura como lubrificante para uma penetração anal.  Na cena, a personagem de Schneider é obrigada a repetir blasfêmias (*se você é católico veria assim, com certeza*) ditas por Brando.  Durante toda a seqüência, ela está aos prantos.  Parecia uma grande interpretação.


 Lembro que adolescente, quando ouvi falar desse filme, o texto citava o quanto era sexy a tal cena, uma das cenas de sexo mais marcantes do cinema.  Era um estupro real, independente, ou não, de ter ocorrido a penetração.  A atriz ficou traumatizada, passou a odiar o diretor, como ele mesmo diz no vídeo.  Segundo Bertolucci, ele e Brando tiveram a idéia.  A cena não estava no script e Maria Schneider foi pega de surpresa.   O diretor queria tirar a melhor interpretação dela, não como atriz, mas como uma garota que resiste a um estupro.  Sim, ele diz isso e diz não se arrepender, apesar de sentir culpa.

Eu acreditava que eu só tinha ficado sabendo da entrevista agora e que ela fosse pública desde 2013.  Não, ela foi guardada e somente agora apareceu.  Muitos atores, atrizes e gente do cinema estão execrando publicamente Bertolucci, mas é só isso.  Pensem agora nos limites que alguns "artistas" não devem respeitar, na desigualdade entre os participantes do ato.  Dois homens maduros, renomados e uma novata.  Na palavra dela sendo desqualificada, no medo, humilhação, no silêncio.  Tudo é sórdido demais, mas não deve ser caso isolado, somente é caso confessado.


No fim das contas, em casos de estupro, não raro é a vítima que precisa se esconder, mudar de endereço.   É a vítima quem se afunda na depressão, nas drogas.  É a vítima que fica ao desamparo.   Ela é a louca, a golpista, a mentirosa.  Até que, coisa mais rara, o criminoso confessa, mas faz pouco caso, porque, bem, agiu em nome da arte (*ou do amor, ou do desejo irresistível, ou da oportunidade, ou...*).  Um diretor consagrado deveria ter outros recursos para extrair interpretações apaixonadas de seu elenco.  Faria ele o mesmo com um homem?  Du-vi-do!  Talvez, nem com uma atriz de renome, mas o fato é que ele não levou em conta o que Maria Schneider poderia sentir, queria, somente, criar uma cena fetichista de dominação e humilhação de uma mulher.  Ele conseguiu e é um diretor laureadíssimo.

Enfim, só queria deixar marcado esta história, especialmente, nesses dias que marcam a campanha da eliminação da violência contra as mulheres.  Eu fiquei um tanto impactada quando fiquei sabendo que o vídeo é novidade.  

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4 pessoas comentaram:

Que absurdo, não vi o filme, mas fiquei chocada com a capacidade desse diretor e do próprio Marlon Brando. Nojo.

Vi o filme, achei a cena bem forte e na hora fiquei em dúvida se havia sido de verdade ou não. Mas, como sempre fui muuuito fã do Marlon Brando por causa de Sindicato de Ladrões e O Poderoso Chefão, além do apoio aos índios na entrega do Oscar, não queria acreditar que fosse verdade... T_T E ela sofreu demais, além do estupro, não conseguiu ser respeitada como atriz e acabou tendo depressão e virando usuária de heroína, muito triste e revoltante. Perdi um ídolo.

Horrível isso.Afetou toda a vida dela.Brando foi um grande ator,gosto de o selvagem,um bonde chamado desejo,sindicato dos ladrões..Mas como pessoa nunca achei ele admirável.Quanto ego desses artistas,achar que estão acima de tudo,do certo e errado em nome da "arte".


Não vi o filme, mas vi, há alguns meses um documentário sobre o filme onde a atriz relatava exatamente isso, que era muito jovem e que não sabia que o diretor não tinha o direito de ter forçado aquela cena, que ninguém na produção esclareceu que ela não precisava aceitar uma cena que não estava no script. Ela também contou das humilhações que sofreu a vida toda, principalmente em restaurantes por causa da cena. Eu fico pensando que se alguém que causa algo assim a uma mulher sai completamente impune, mesmo admitindo, como podemos esperar algum respeito da sociedade? :(

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