segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Mangá-ka explica por que os homens leem tão pouco shoujo mangá

Nodame Cantabile era bem popular entre os homens adultos.
O Rocket News 24 fez um post interessante sobre um twitt da mangá-ka Tina Yamashima que explicou o motivo de tão poucos homens leem shoujo e josei mangá.  Vejam bem, não é lerem mangás feitos por mulheres para revistas masculinas, mas consumirem mangás pensados por mulheres e para mulheres.

O post abre dizendo algo que já é sabido no Japão faz pelo menos uns 20-25 anos, mas que muita gente por aqui ainda parece ignorar: as mulheres e meninas leem cada vez mais shounen e seinen mangá.  Alguns argumentam que o motivo é o fato dos editores e mangá-kas (*alguns deles mulheres*) colocarem em cena cada vez mais bishounen com um físico delgado e cabelos estilosos que têm apelo para o público feminino, outros defendem que são as histórias e as técnicas de narrativa dos mangás masculinos que atraem as meninas.  Seja  lá o que for, o fato é que uma parcela considerável do público de uma Shounen Jump é feminino.
Ore Monogatari!! rompendo estereótipos e saindo do nicho.
Por outro lado, os mangás pensados para mulheres e meninas são consumidos principalmente por elas.  E digo mais, quando alguma autora shoujo/josei consegue destaque para fora do nicho, ela é levada para uma revista seinen, principalmente.  Querem exemplos?  Moyoco Anno, Chika Umino, Fuyumi Souryou, Tomoko Ninomiya etc.  Algumas vão e não voltam.  Como Tina Yamashina explica isso?  Vamos lá... 

Yamashina nasceu nos EUA, passou a infância na China e, agora, estuda arte em Tokyo.  É uma jovem mangá-ka.  Ela usou um quadro de um mangá da artista Naoko Matsuda para explicar o porquê dos homens não lerem shoujo mangá.  Olhem a ilustração abaixo, a minha tradução capenga é a seguinte:


Homem: “Se... se shoujo mangá fosse realmente interessante, não haveria mais homens lendo?”
Mulher: “Você entendeu tudo errado.  A questão não é que os homens não leem, porque eles não são interessantes.” 
“Mulheres leem shounen e seinen mangá.  Homens não leem josei mangá, não por não serem interessantes.” 
“Homens não tem problema com mulheres atrás deles enquanto eles, os homens, mantêm seus próprios valores.  Mas elas não conseguem absolutamente suportar a aproximação com os valores femininos.”
Lembram da capa rosa de Otomen e do
rebuliço que causou aqui no Brasil?
Acredito que a ideia de “valores” (*values, na tradução com RN24*) funcione melhor com “olhar”, “ponto de vista”.  Nós, mulheres, estamos mais que acostumadas com histórias narradas por homens (*ou mulheres ocupando o “lugar de”*), segundo os valores masculinos, a partir do seu olhar, afinal, o mundo inteiro giraria em torno deles.  Muitas vezes, abraçamos suas narrativas, seu olhar como se nosso fosse, ou subvertemos as histórias, as personagens.  Daí, tantos fanfics criados por mulheres.  Ou a gente agarra, se apropria, ou, até algum tempo atrás, teria pouca coisa para ler, assistir no cinema, ou na TV.  Agora, quando se trata de um olhar “feminino”, e não estou falando de “feminista”, a coisa muda de figura.

Quando falo em “feminino”, estou partindo da ideia de que, no geral, e no Japão talvez de forma mais aguda, homens e mulheres são socializados de forma diferente.  Daí, somos construídos como homens e mulheres e levados a pensar que “uns são de Marte, outras, de Vênus”.  


Akiko Higashimura sofreu forte backlash em uma revista seinen.
Obviamente, as coisas não funcionam dessa maneira certinha, mas “coisas de mulher”, pior ainda, de “mulherzinha”, causam horror aos homens.  Se possível, coloque com capa rosa ou lilás para que eles se mantenham afastados.  É até honroso para uma menina/mulher gostar de coisas vistas como masculinas, desde que ela não se desvie muito da norma em outros aspectos, agora, vai um homem dizer que curte romance de banca, shoujo mangá, Crepúsculo.  Ele logo sofrerá algum constrangimento sério por parte dos amigos homens, ou, até mesmo, de algumas mulheres.

Enfim, por isso tudo que escrevi, já sabem que concordo com a Tina Yamashina.  Obviamente, há outros motivos, como anime na TV.  Mas lembrem de um caso recente: Akiko Higashimura, que chamou a atenção com seus mangás modernos e cheios de humor, terminou sofrendo forte rejeição do público masculino de uma  revista seinen, porque, bem, seu ponto de vista, leia-se humor, foi “feminino” e crítico demais para incomodar os leitores alvo da revista. Simples assim, eles até querem mulheres, elas até podem trazer um olhar diferenciado, mas desde que se conformem à norma, isto é, os tais valores básicos masculinos.


Dorama baseado em mangá de Naoko Matsuda.
Para quem se interessar, o site de Tina Yamashina é este aqui.  Já Naoko Matsuda é a mangá-ka que produziu um volume chamado Shoujo Manga (少女漫画) homenageando clássicos desta demografia e sua influência na vida das leitoras.  Uma das histórias, que falava de uma office lady fã da Rosa de Versalhes (ベルサイユのばら) virou dorama.  A  protagonista se perguntava como Oscar se comportaria se estivesse em seu lugar.  Eu tenho esse volume em casa e é uma pena que não tenha scanlations.  Se duvidar esse quadro citado pela Yamashina veio de lá.

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2 pessoas comentaram:

Eu penso que a Shonen Jump é ponto fora da curva. Como uma proporção enorme das suas séries são animes populares e, portanto, têm um marketing absurdo em cima, ela é lida por gente de todos os públicos e não apenas a faixa habitual de leitores shonen.

Quantas mulheres lêem, digamos, a Shonen Champion, que é uma das grandes revistas shonen e praticamente não tem animes ou marketing? Ou as revistas seinen (fora as Young alguma coisa, que são revistas shonen mais crescidas, falo das Big Comic e Morning da vida) que não têm nenhum? Os tops da Jump vendem 100 mil ou mais exemplares por edição nos grandes mercados ocidentais enquanto a maioria dos mangás de outras origens estoura champagne se vende mais de 10 mil!

Portanto era interessante saber a proporção de mulheres que lê revistas shonen que não são campeãs absolutas de vendas ou seinen de qualquer tipo. Quantas mulheres lêem Golgo 13? Penso que é uma proporção menor do que de homens que leram, digamos, Sailor Moon.

O principal problema dos mangás atuais não é que eles não consigam vender para fora do seu público-alvo habitual. É que eles não estão conseguindo vender bem PARA o seu público-alvo! O Japão está envelhecendo, mas não no ritmo com que as revistas de mangá (de novo, com exceção da Shonen Jump, cujas vendas ainda mostram uma saúde impressionante!) estão perdendo público - e as destinadas ao público mais velho têm uma queda comparável, então não é apenas questão de falta de jovens! Tem mais a ver com a obsolescência do formato e conteúdo demasiado pasteurizado da grande maioria das obras.

Bem, não são as antologias que sustentam o mercado de mangá. Nunca foram, aliás. Cada vez mais, temos formas alternativas de ler os mangás. Há antologias que são virtuais, não tem formato papel.

As Morning, a Evening tem muitas leitoras. É para lá que migram normalmente as autoras shoujo/josei de destaque. Agora, há autoras que vão publicar nas séries Big, também. E é indicativo de que as mulheres, as adultas, pelo menos, leem essas revistas o fato de, por exemplo, a continuação de Chibi Maruko-chan, originalmente da Ribon e que gerou um anime para toda a família, ter sido publicado em uma das revistas Big. Imagino que não estão pensando somente nos homens.

Procure matérias que já publiquei falando de autoras shoujo/josei publicando nessas revistas, isso deve apontar para alguma coisa.

De resto, o fato de poucas mulheres, talvez (*não sei se háa dados*), lerem Golgo 13, não invalida nada do que foi escrito, ou o argumento da Yamashina.

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