segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Comentando Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016)


Sexta-feira assisti ao esperado (*por mim, pelo menos*) Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures), um filme que tira da obscuridade as mulheres negras que participaram do programa espacial norte americano naquele momento crucial da disputa com os soviéticos.  O filme é riquíssimo e possibilita discussões sobre raça, gênero, Guerra Fria, enfim, muitas coisas mesmo.  Destaca-se acima de tudo por ser um bom filme, um entretenimento de qualidade, que combinou de forma equilibrada fatos históricos, liberdade criativa e humor.  Poderia ser um drama até pesado, mas o foco do diretor, Theodore Melfi, atenuou as coisas, sem retirar os conflitos e retratar as condições duplamente desfavoráveis encontradas pelas mulheres negras.  De resto, deveria ser material obrigatório para todas a meninas, para que elas pudessem sonhar com carreiras no campo das ciências exatas e, também, em um dia, irem ao espaço.

Já fiz uma resenha completa em um parágrafo, ou, pelo menos, esta é a minha impressão.  É fácil e complicado falar de Estrelas Além do Tempo, foi um filme que me tocou, que, assim como Sufragistas, no ano passado, valeu cada minuto e cada centavo.  Só que é preciso dar uma sinopse, certo?  Estrelas Além do Tempo desvela a atuação das mulheres negras que trabalhavam na NASA como computadores humanos no início da Corrida Espacial, focando em três delas: Katherine Goble (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe).  Cada uma em sua área, elas foram fundamentais para o avanço das mulheres negras dentro da NASA e para que os norte-americanos pudessem levar seus astronautas ao espaço.

Hidden Figures (incógnitas): x, y e z.
Estrelas Além do Tempo é um marco por jogar luz sobre a importância das mulheres, e mais ainda das mulheres negras, durante a corrida espacial.  Elas – brancas e negras – eram verdadeiras operárias da matemática, fazendo um exaustivo trabalho que, hoje, e desde muito, é coisa delegada às máquinas.  Quem sabia delas?  Eu soube pouco antes do anúncio do filme, talvez porque matérias começaram a aparecer exatamente por conta da produção.  Só que, e isso é muito importante, as três protagonistas.... Sim, eu sei que somente Katherine é protagonista, mas considero as três como tal.  Elas eram mulheres visivelmente superdotadas, ou, como dizemos hoje no ambiente pedagógico, com altas habilidades.  Basta conferir a biografia de cada uma delas na Wikipedia, ou em outra fonte.

O filme abre com a menina Katherine Goble, uma criança que tem sua competência excepcional para matemática reconhecida desde a mais tenra idade.  Ela recebe bolsas de estudo, afinal, seus pais são muito pobres, ela precisa se mudar para estudar além do 8º ano (*eu acho *), ela se forma no colegial aos 14 anos.  Na faculdade, ela fez em tempo recorde todos os cursos da área de matemática e cursos foram criados somente para que ela tivesse o que estudar. Essa parte, li na Wikipedia.  Estabelecido isso, não há como não a considerar uma menina superdotada, especial.  

Matemática é difícil, não é coisa de mulher.
Agora, vamos supor que ela não tivesse o apoio dos pais, esse reconhecimento tão importante.  Imaginemos se, ao invés de empurrá-la para frente, ela ouvisse “Isso não é para você!”.  Afinal, ela era menina e negra.  Eu, por exemplo, tive um excelente professor de matemática que não cansava de repetir para espicaçar as meninas “Longos cabelos, idéias curtas”.  Em nossa escola, os garotos não podiam ter longos cabelos.  Imagine você ouvindo isso e outras coisas ao longo da sua infância e adolescência?  Uma amiga desistiu de estudar engenharia, porque, bem, ela não queria estar no meio de um monte de homens.  Pensemos que, para piorar, essa menina ainda fosse negra e estivesse vivendo em um regime de segregação.

Através de outra das protagonistas, Mary Jackson, a mais atrevida e jovem do trio, o filme coloca em questão não somente a discriminação de gênero, mas a discriminação racial no meio acadêmico.  Ela queria ser engenheira, recebe incentivo do chefe da área na agência da NASA, um judeu polonês sobrevivente do Holocausto (*a personagem é inspirada no tutor real de Mary Jackson*), para tentar entrar para o programa de treinamento da agência.  Primeiro obstáculo: você é mulher.  O marido de Mary Jackson, um militante da causa dos direitos civis, chega a colocar que a queria como mãe e dona de casa.  Sim, ela poderia colocar de lado seus diplomas em matemática e física, mas nunca se exigiria o mesmo de um homem.

Fazendo história.
Segundo obstáculo: nunca se viu uma engenheira negra.  Para piorar, nos regulamentos da Base de Langley, dizia que poderiam se candidatar os formados na Universidade da Virginia, ou que fizessem o curso noturno fornecido por ela na Hampton High School.  Ambas as instituições só aceitavam brancos. Ela teve que ir à justiça e conseguir uma exceção.  Para fazer História.  Vejam o desgaste.  Imaginem se o marido e a comunidade não a apoiassem. 

Qualquer pessoa de bom senso sabe que a história de “separados, mas iguais” é uma balela.  As escolas para negros (*as públicas*) eram piores, com cursos incompletos, obrigando os que queriam estudar a se mudarem para mais e mais longe, ou enfrentarem longas jornadas.  Os hospitais públicos também eram inferiores, assim como as bibliotecas.  Dorothy Vaughan, que rendeu a indicação ao Oscar para Octavia Spencer, quer aprender computação, mas os livros mais atualizados não estão na seção para negros da biblioteca pública.  Ela precisa buscar meios “alternativos” para conseguir o que precisa.  

A igreja foi fundamental para o movimento dos direitos civis
dos negros, lugar de força e amparo.
Vejam só, negros pagavam os mesmos impostos, mas eram excluídos de muitas facilidades e possibilidades.  Seguir adiante era coisa para os fortes, ou os que tiveram alguma ajuda, ou os dois.  Meu professor do 3º ano afirmava que a segregação racial explícita obrigou os negros a se organizarem, daí a burguesia negra sulista era muito mais forte.  Ele estava pensando em questões econômicas somente, marxista ortodoxo que era, mas essa organização ia além disso.  Havia redes de escolas, faculdades e universidades que atendiam a população negra.  As igrejas, como é bem mostrado no filme, afinal, as três cientistas eram religiosas, eram lugares de conforto e resistência.  

Era difícil, mas as pessoas tendiam a se unir mais, obviamente, seria menos ruim se você nascesse na classe social certa, tivesse os estímulos necessários, só que, mesmo assim, alguém poderia aparecer com uma regra enlouquecida, exigindo um diploma de uma universidade para brancos como pré-requisito obrigatório para uma promoção, ou um emprego melhor.  Não, o jogo não era justo, era sujo, sujíssimo.  Mesmo se você chegasse lá, caso de Katherine que é chamada para trabalhar no Space Task Group, as pressões não diminuíam.

Mulher negra no recinto?  Faxineira, lógico.
O filme mostra os banheiros segregados, obrigando a protagonista a perder 40 minutos entre deslocamento e uso do sanitário, porque, bem, era ilegal usar o banheiro para brancas.  Pensem na baixa produtividade, em como um chefe pouco compreensivo poderia se exasperar.  É mostrado, também, a forma como os colegas – todos homens, salvo pela secretária – tentam diminuí-la e excluí-la.  Uma pessoa mais fraca, teria desistido.  Agora, algo que o filme mostra e que a biografia de Katherine Goble na Wikipedia deixa ainda mais claro, é que ela sabia das suas capacidades e não abaixava a cabeça.  Bem, isso em um homem é visto como virtude, mas em uma mulher, nem sempre.

Duvido que muita gente não a achou orgulhosa demais quando deu um passa fora no Cel. Jim Johnson (Mahershala Ali) por ele aparentemente fazer pouco caso da sua competência como cientista.  Ela foi orgulhosa mesmo, por que será que as mulheres precisam esconder suas capacidades?  Eu estou lendo um livro (*e irei resenha-lo*), A Guerra não tem Rosto de Mulher, que fala da experiência das soviéticas na II Guerra e de como elas não foram tratadas como heroínas no pós-guerra.  Uma das coisas que uma das depoentes coloca, uma franco-atiradora, se bem me lembro, é que ela teve que aprender a ser frágil, humilde, submissa, tola para ser aceita pela sociedade. Fingir que era menos e não mostrar o que era.  Katherine, a do filme e a real, não parecia ser pessoa de fazer isso.  

Imagine a pressão sobre uma mulher, agora,
lembrem que ela é negra, também.
Ela exigia mesmo estar em reuniões nas quais as mulheres normalmente não eram admitidas e queria que seu nome fosse creditado por seu trabalho, em um momento no qual era comum (*vide o caso de Dorothy Vaughan*) que mulheres fizessem o trabalho, sem receberem nem o salário equivalente, nem o posto e o reconhecimento.  Seu chefe, interpretado no filme por Kevin Costner, reconhece a sua competência e permite sua presença.  O primeiro americano no espaço, John Glenn (Glen Powell) realmente disse que não iria voar se Katherine não refizesse os cálculos executados pelos computadores IBM.  Se ele tivesse ficado calada e escondido suas potencialidades, talvez não tivesse sido a peça fundamental que foi.  Agora, não pensem que ao se colocar de forma assertiva, ainda que o filme nos ofereça uma Katherine tímida boa parte do tempo, ela não estava arriscando a sua posição.

Enfim, Taraji P. Henson não foi indicada a melhor atriz e eu compreendo.  Ela, talvez pelo excesso de timidez da personagem, apesar do maior tempo em tela, talvez seja a que menos arrebata das três cientistas.  Octavia Spencer, ainda que muita gente a acuse de fazer o mesmo papel de Histórias Cruzadas, uma espécie de Mammy atualizada, é muito mais esfuziante.  A sacada de que os computadores máquinas substituiriam as computadores mulheres e que precisava dominar programação, foi genial.  Seus embates com a arrogante supervisora branca, Mrs. Mitchell (Kirsten Dunst), que teve que se curvar, também.  A parte da biblioteca é outra sequência na qual Spencer brilhou.  De Mary Jackson, já falei.   Janelle Monáe poderia ser indicada à coadjuvante e seria justo.  Só que isso seria difícil e já temos um recorde de atrizes negras indicadas na categoria este ano.  Três de cinco.

As computadoras eram segregadas.
Na verdade, ao vencer o SAG de melhor elenco, só reforçou aquilo que marca Estrelas Além do Tempo: trata-se de um filme de elenco.  Ninguém está mal, ainda que Jim Parsons esteja mais engessado do que deveria (*muito Sheldon quando tinha que ser outra coisa*), todo mundo trabalha bem e melhor em conjunto.  Já escrevi isso quando no caso do Discurso do Rei e repito: seria ótimo se houvesse um Oscar para melhor elenco.  Este seria o prêmio merecido para estrelas Além do Tempo.  E não acredito que o filme fique nem com melhor filme, ou coadjuvante, talvez roteiro adaptado, ele é baseado no livro de Margot Lee Shetterly, mas nem isso, eu acredito.  Sinceramente?  O filme não precisa de nenhum prêmio Oscar, mas não é algo que se deva jogar fora.  Vamos torcer.

Algumas coisas a se pontuar antes do fim.  A primeira delas é como o filme mostra a falta de solidariedade – nos meios feministas usaríamos sororidade – entre as mulheres brancas e negras.  Isso não é surpresa, tampouco algo que não tenha sido visto no cinema.  Vide Histórias Cruzadas.  O que Estrelas Além do Tempo não faz é jogar a responsabilidade da opressão, ou a vilania sobre as mulheres brancas.  Os homens, aqueles que de fato detém o poder de mando, são ativos na segregação.  Agora, cabe às mulheres brancas, até para garantir seu espaço de poder e privilégios delegados, reforçar as barreiras e explorar as mulheres negras.  As mulheres são oprimidas, mas as opressões são diferentes.  Quem é oprimido pode, também, oprimir.  O filme mostra isso brilhantemente através da personagem de Kirsten Dunst.  Agora uma futilidade: ela foi envelhecida para o filme?  Ela me pareceu muito mais madura do que deveria ser.

Ela não queria ser invisível.
Outra coisa, o filme comprime eventos da vida das protagonistas, situações que se desdobraram por anos, ou eram muito anteriores, em um curto espaço de tempo entre 1961-62.  É direito, é escolha, mas da forma como foi executado, o filme quase pode ser descrito como inspirado em fatos reais.  Por exemplo, Mary Jackson se forma engenheira em 1958, mesmo ano que Katherine é transferira para o grupo de pesquisa espacial e ela nunca foi tirada de lá.  Dorothy Vaughan se tornou a primeira supervisora negra ainda nos anos 1940, quando a NASA era NACA.  

Entendo que o objetivo ao comprimir os eventos marcantes da vida dessas mulheres era criar um enredo mais envolvente, o que foi conseguido, e, também, especialmente no caso de Katherine, ressaltar o desprezo em relação às mulheres e negros, além de criar um efeito dramático no final do filme.  Da mesma forma que meu marido está resmungando até agora que as discussões matemáticas do filme são mastigações para o expectador, que nunca essas coisas básicas iriam ser trazidas à discussão em um grupo avançado de engenharia aeroespacial.  

O John Glenn do filme é quase tão jovem quanto Gagarin.
Falando em NASA, fiquei surpresa e feliz ao descobrir que a agência tinha promovido o fim da segregação – mesmo em um estado segregado – no ano de 1958.  O filme, talvez por preguiça, ou para não romper, mas reforçar, com certas narrativas históricas consagradas, o que eu chamo de “eco historiográfico” na minha tese de doutorado, tenta atrelar a mudança à eleição de Kennedy.  Bem, algumas coisas já aconteciam antes de Kennedy, a lutas dos direitos civis dos negros já ganha força nos anos 1920 e vai em um crescendo.  

De resto, o elenco era ligeiramente mais jovem do que as personagens reais.  No caso do ator que fez John Glenn, escandalosamente mais jovem.  Glenn tinha 40 anos quando se lançou ao espaço, o ator gatinho tem mais de dez anos menos. Chega a ser cômico.  Os astronautas americanos eram pilotos militares experimentados, muitas vezes, ex-pilotos da Guerra da Coréia; os cosmonautas soviéticos é que eram moços (*e moças*) de seus vinte poucos anos.  Falando em moças no espaço, que linda foi aquela cena das filhas com Katherine e a menor lhe dando o desenho e sonhando com a mãe no espaço... 

Katherine ainda está viva.
Não preciso pontuar que o filme cumpre a Bechdel Rule e que, mais do que isso, é um filme feminista.  Diferente de Sufragistas, ele vem recebendo o reconhecimento devido e espero que sirva de inspiração para muitas meninas.  Sim, há quem diga que se tornou engenheiro, ou desejou ser astronauta, graças à Jornada nas Estrelas.  A primeira astronauta negra norte americana, Mae Jemison, é um desses casos.  Quem sabe as hidden figures, figuras ocultas, incógnitas (x, y, z), em português (*os números que não são conhecidos, os valores desconhecidos*), ao deixarem de ser desconhecidas, silenciadas, sirvam de inspiração, de alento.  E que mais filmes sobre hidden figures, possam ser produzidos.

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