sábado, 11 de março de 2017

Comentando Silêncio (Silence, 2016)


Ontem, assisti Silêncio (Silence), filme dos sonhos de Martin Scorcese, que trata da perseguição aos cristãos (católicos) japoneses durante as primeiras décadas do Shogunato e a persistência de alguns fiéis que, em silêncio, mantiveram sua fé.  O nome do filme vem daí, da necessidade de segredo, resiliência, frente à terrível perseguição, ao mesmo tempo que faz o paralelo com o silêncio da divindade, neste caso, o Deus cristão, diante do sofrimento de seus fiéis seguidores.  Estaria Deus insensível às orações e provações de seu povo, ou simplesmente eles não conseguiam compreender e sentir de forma mais profunda a sua fé?  De qualquer forma, Silêncio é um filme ao mesmo tempo bonito e terrível, um filme para adultos, sem dúvida, mas não para todos os gostos.  E, bem, nada desabona quem não gostar do filme, que fique claro.  

Silêncio começa em 1640, no seminário jesuíta de São Paulo, em Macau, onde o diretor da instituição, o renomado missionário italiano Alessandro Valignano (Ciarán Hinds), expressa seu pesar em relação ao destino dos cristãos no Japão e fala à dois jovens padres – Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) – sobre uma carta do padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) contrabandeada pelos holandeses.  Para Valignano, Ferreira tinha apostatado da fé e, por isso, os dois jovens deveriam desistir do plano de se dirigirem ao Japão para procurar o jesuíta que havia sido professor de ambos.  Rodrigues e Garupe convencem Valignano a permitir que sigam para o Japão em busca de Ferreira, mesmo sabendo que o destino dos cristãos no país é a tortura e a morte.

Dois jovens idealistas.
Por tudo o que eu já sabia da perseguição aos cristãos-católicos no Japão, eu já sabia, sem ter lido nenhum spoiler, aliás, que o filme seria tristíssimo, só não imaginava que seria tão barra pesada.  De certa forma, ele se estica em sucessões de torturas violentíssimas de uma forma quase pornográfica.  Não sei se o livro original do japonês Shūsaku Endō, desce às minúcias da descrição das torturas, mas o filme não nos poupa de nada.  Muito longo, ele tem 161 minutos, eu fui me sentindo cada vez mais angustiada e compartilhando da dor do protagonista, a personagem de Andrew Garfield.  

O jovem jesuíta não é tão torturado fisicamente, mas psicologicamente, sim, ele é obrigado a ver cristãos, a maioria camponeses serem martirizados, até que não consegue mais resistir e faz o que seus captores desejam: renega publicamente a sua fé.  É a única forma de salvar a vida de outros, de impedir que sejam submetidos a torturas atrozes.  De fato, como mostra o filme, houve uma espécie de inquisidor no Japão, um homem responsável por caçar e eliminar qualquer influência católica na ilha.  Inoue Masashige (Issei Ogata) foi encarregado pelo shogun Iemitsu, de quem havia sido amante, de perseguir os cristãos.  Há algo de sádico na personagem que quase sempre sorri, que é sempre untuosa e deixa para os outros a cara feia e os gritos.  É um vilão terrível, como todos os inquisidores, aliás.

Inoue-sama não está rindo aqui.
Até que cheguemos na parte final do filme, que é cheio de clímaces e anticlímaces, que tiram um pouco da força da película, ainda que a narrativa consiga manter o seu vigor, eu fiquei matutando o motivo pelos quais o inquisidor não matava logo o jovem padre.  Por que tanto trabalho para fazê-lo renegar a fé?  A resposta no filme é que ele precisava de especialistas em cristianismo para detectar outros cristãos e qualquer material desta fé que pudesse ser introduzido no país.  Rodrigues, assim como Ferreira antes dele, tornou-se funcionário do shogunato e um cristão secreto (Kakure Kirishitan / 隠れキリシタン).  Até que o jovem Rodrigues abjure, os japoneses tocam o terror para que ele ceda.  E o terror é o terror.  Anteontem assisti Logan e vendo Silêncio a gente tem a real dimensão do que é um filme violento e do que é uma brincadeira para marmanjo ficar dando gargalhada no cinema.

Falando no protagonista do filme Sebastião Rodrigues, ele é português, mas inspirado em um jesuíta italiano, Giuseppe Chiara, que seguiu com três companheiros, Pedro Marquez, Alfonso Arroyo e Francisco Cassola, em 1643.  Foram presos, torturados (*fisicamente, não o que fizeram com o protagonista*), e levados a abjurar para, em seguida, serem transformados em agentes do shogunato, “padres caídos”.  Chiara viveu até os 83 anos no Japão, como funcionário do Estado, casou-se com uma japonesa, teve seu nome mudado, abraçou publicamente o budismo e, supostamente, permaneceu cristão.  

O filme abre com o suplício de Ferreira.
O mesmo ocorreu com Ferreira e Liam Neeson pouco aparece no filme, ainda assim, suas cenas são todas elas fortes e com função dentro da história.  Ao que parece, o verdadeiro Ferreira era um grande intelectual, como muitos jesuítas, e os japoneses talvez tenham se esforçado para mantê-lo vivo.  Ele produziu ao longo da vida trabalhos de medicina (*tomando por Ōoku, a medicina ocidental realmente era superior em alguns fundamentos*) e astronomia (*idem aqui, mas a fonte foi um documentário da Discovery, acho*), além de ser creditado a ele um livro onde o cristianismo é refutado.  Este livro não é consenso, mas no filme ele é citado.  Ferreira era sincero, ou um prisioneiro?  

Quando ele aponta que os japoneses nunca entenderam o cristianismo, que foi necessário fazer adaptações, não sei se era desconhecimento ou deslize de quem pensou o roteiro, mas o fato é que os jesuítas, professores por opção, eram peritos em fazer essas gambiarras teológico didáticas.  Usavam elementos da cultura local, adaptavam o discurso, deslizavam aqui e ali, mas entregavam a mensagem.  Fizeram isso no mundo inteiro.  Por qual motivo não fariam no Japão?

O intérprete, o tentador (?) e o pobre protagonista.
Enfim, Ferreira é peça chave para erodir a resistência de Rodrigues, o antigo discípulo.  Acusa-o de ser orgulhoso, de se imaginar como Cristo, de não perceber que seu dever para com os que estavam sofrendo tortura era se dobrar aos desejos dos japoneses.  Ferreira é o homem que traiu sua fé e parece reconhecer a superioridade dos japoneses em relação aos ocidentais, além da impossibilidade da expansão cristã no Japão.  Ele, sob severa vigilância, diz o que seus mestres desejam que diga, nunca pode ficar sozinho com Rodrigues e tem um intérprete sempre presente.  Só que o nome do filme é Silêncio e o olhar de Neeson fala, também, assim como, já no final do filme, o olhar de Andrew Garfield passa a dizer muita coisa.  E como esse menino trabalhou bem!  Meu coração não ficava tão partido por causa de um protagonista desde Parade’s End com o Bennedict Cumberbatch.

Falando um tanto do outro padre, Francisco Garupe, a primeira coisa é que eu nunca vi ou li um o sobrenome “Garupe”.  Alguém conhece algum português com este sobrenome?  Pergunto-me se não foi um erro de transliteração do autor japonês que se manteve nas traduções e no filme, claro.  Interpretado pelo esquisitinho do Adam Driver (*sim, ele é esquisito e só o vi em papéis malas*), o padre é o fanático religioso da dupla, que se deixa levar pelos seus sentimentos e convicções, é quem parece mais empolgado para ir em busca de Ferreira, e não consegue compartilhar integralmente do olhar humanista e realista de Rodrigues.  

Levando esperança.
O protagonista autoriza os camponeses a abjurarem, o ato simbólico de pisar nos fumi-e, imagens religiosas entalhadas, e lhes garante que Deus os perdoaria, Garupe é contra.  A personagem, aliás, tem pouco e muito tempo em tela.  O filme é longo, então, ele participa de toda a primeira parte, mas pelo mesmo motivo, ele não está nos outros dois terços da película.  Independente disso, sabemos que ele, também, comeu o pão que os japoneses amassaram sorrindo.  Quando o revemos, ele está mais esquálido do que já é naturalmente.  Pergunto-me se ele perdeu peso para aparecer na sua última sequência.

Um detalhe importante de Silêncio é que o filme tem um elenco majoritariamente japonês e é falado boa parte do tempo nesta língua.  Fora o inquisidor e o arrogante intérprete (Tadanobu Asano), as três personagens japonesas mais importantes são Kichijiro (Yōsuke Kubozuka), o guia que os leva ao Japão, o velho que lidera a aldeia onde os jesuítas chegam primeiro (*não consegui o seu nome*) e o único papel feminino de maior destaque a jovem Mônica/Haru (Nana Komatsu).  O filme não cumpre a Bechdel Rule, nem tinha como.  Trata-se de um filme protagonizado por homens e em uma esfera masculina: os samurais e oficiais que comandavam a província de Nagasaki, os sacerdotes jesuítas.  Há algumas camponesas, a esposa que é imposta à Rodrigues, mas a maioria das mulheres não tem fala.

Mônica.
Sobre Kichijiro, o guia, ele é uma personagem com uma história somente dele.  Ele foi o único de sua família que negou a fé.  Todos foram executados e ele se culpa por isso.  É o traidor que se arrepende, trai de novo e se arrepende, e se mete em umas situações que, apesar de repetitivas, são trabalhadas para construir, ou reconstruir, o caráter de um indivíduo que, em dado momento da película, Rodrigues diz que é tão desprezível que sequer consegue ser mau.  Toda vez que ele reaparecia e pedia para confessar, dava vontade de dar uns tabefes nele.  Mas a personagem é interessante, em um filme que, sim, é longo, às vezes cansativo, e exigente.

Talvez, você que lê a resenha nem soubesse que, no século XVI, 300 mil japoneses eram cristãos, que o Império Português tinha seu olho no país e que o jesuíta Valignano defendeu que os japoneses eram o povo mais desenvolvido do oriente e mais capazes até que os europeus.  Os jesuítas que foram ao Japão, e lá chagaram liderados por Francisco Xavier, acreditavam que os japoneses dariam excelentes sacerdotes.  Como então tudo terminou em expulsão dos europeus, uma revolta gigantesca de camponeses e nobres cristãos e um banho de sangue?  Como explicar toda a tragédia dos cristãos japoneses que o filme mostra tão bem?

Um dos tipos de tortura.
O fato é que durante as grandes navegações, quando os primeiros europeus chegaram ao Japão, o país estava em guerra civil.  Muitos senhores da guerra viram a presença dos europeus, suas armas de fogo, sua fé, como algo útil.  As armas para a guerra, a religião cristã para combater o poder absurdo dos mosteiros budistas.  O catolicismo se espalhou pelo país, criou raízes – apesar do papo do “nada cria raízes no pântano” repetido no filme – e passou a incomodar.  A guerra civil acabou, o Shogunato se estabilizou e os governantes do Japão observaram o que a Espanha estava fazendo nas Filipinas.  Começaram a mudar a política em relação aos estrangeiros.  A França e a Inglaterra se retiraram; Portugal e Espanha foram expulsos; e a Holanda se aproveitou para firmar relações privilegiadas com os japoneses.

Em um dado momento, o inquisidor conta uma parábola para Rodrigues: um homem tinha quatro concubinas que brigavam entre si e tornavam sua vida um inferno.  Um dia, ele colocou as concubinas para fora e a paz passou a reinar em sua casa.  O Inoue-sama pergunta para Rodrigues o que ele acha da história, o jovem jesuíta diz que se trata de um homem sábio.  O inquisidor explica que o homem é o Japão, as concubinas briguentas são Inglaterra, Holanda, Espanha e Portugal.  No Japão, mandam os japoneses, o país estava em paz.  Rodrigues então retruca que existe uma coisa chamada monogamia.  Inoue-sama pergunta: com Portugal?  Não, ele responde, com a Igreja.

Kichijiro, sempre indo e voltando.
Muitos missionários, e não somente jesuítas, ficaram, se recusaram a abandonar os conversos, a maioria gente pobre.  Como católicos, sabiam a importância dos sacerdotes para conduzir os rebanhos e a necessidade de ministrar os sacramentos.  Para o Japão, pensando no efeito daninho do colonialismo, expulsar as potências estrangeiras foi uma forma legítima de preservação.  Agora, é inegável a crueldade e selvageria aplicada aos cristãos do país que eram, em sua maioria absoluta, japoneses.  De resto, este filme deveria ser obrigatório para aqueles surtados que ficam falando em Cristofobia, porque o vizinho reclamou do som alto dos louvores tarde da noite, ou cedo de manhã, ou porque não lhe permitem fazer cultos no local de trabalho.  Cristofobia é coisa muito mais séria e, bem, cristãos morrem e sofrem perseguições em vários lugares do mundo ainda hoje.

Em alguns momentos, Silêncio me lembrou Hábito Negro, um filme franco-canadense sobre os jesuítas na colonização do Quebec.  Rodrigues tem os mesmos sonhos do jovem jesuíta deste outro filme mais antigo.  Sonha com o campo missionário, deseja o martírio, mas não está preparado para a realidade, mais trágica e dura do que ele ouvira dizer.  Falando nisso, eu tenho profunda admiração pelos jesuítas na sua capacidade de tentar se preparar para qualquer campo missionário, se arriscar, se lançar para o desconhecido, sua tenacidade e flexibilidade.  Só que, talvez, o Japão precisasse da disciplina dos beneditinos e da sagacidade dos dominicanos para tempos tão difíceis.  Enfim, estou elucubrando aqui.

Início do terror.
Terminando, não sou purista, não estou exigindo nada, mas seria muito melhor se fossem realmente portugueses os atores de Silêncio. Faria diferença, afinal, ficar inserindo palavras em português no meio das frases em inglês ficou deveras esquisito.  O filme tem uma linda fotografia e foi uma pena ter sido tão pouco indicado no Oscar. Uma injustiça. De resto, é outro belo filme religioso de Martin Scorcese, que já tinha se aventurado no gênero com A Última Tentação de Cristo.  É um filme reflexivo, mas posicionado, ele toma partido dos cristãos, compartilhamos sua dor, o objetivo é conduzir a audiência a sentir compaixão e, no fim, resta o silêncio.

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1 pessoas comentaram:

Essa ideia de que o cristianismo precisa de adaptação para o Japão é a base do livro de Endo. Inclusive ele não falava do século XVI, e sim da realidade dos anos1960, quando escreveu. Na edição mais nova, pela Tusquets, vem um prefácio do primeiro tradutor para o inglês do livro, um padre britânico missionário no Japão, que discute essa questão. Endo, provavelmente o mais conhecido nome do cristianismo japonês, defendia que o Japão era como um charco e que o cristianismo precisava adaptar-se para não afundar.

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