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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Ōoku, série de história alternativa de Fumi Yoshinaga, terá peça do Teatro Takarazuka

Ōoku (大奥), de Fumi Yoshinaga, é um dos meus mangás favoritos, tem tag no blog, e já teve dois filmes para o cinema (2010 e 2012), dois doramas (2012 e 2023), além de uma série animada (2023) que está na Netflix.  Agora, e isso não me surpreende, chegou a hora de uma peça do Takarazuka.  Segundo as informações já liberadas, e isso me surpreendeu, será o arco de Arikoto e Iemitsu.  E só por essa escolha, já sei que haverá uma segunda peça com Emonnosuke e Tsunayoshi. 😍

Ōoku é um drama de história alternativa, que no Japão é considerado ficção científica, ambientado no período Edo, em que a população masculina diminuiu drasticamente devido a uma misteriosa doença chamada Varíola Vermelha, que infecta apenas homens, principalmente jovens, e até mesmo o cargo de Shogun foi passado para uma mulher. O mangá foi publicado na revista Melody (Hakusensha) por 16 anos, entre 2004 e 2020, totalizando 19 volumes. A obra recebeu inúmeros prêmios, incluindo o Prêmio de Excelência na Divisão de Mangá do 10º Festival de Artes Midiáticas do Japão, o Grande Prêmio de Mangá do 13º Prêmio Cultural Osamu Tezuka, o Prêmio James Tiptree Jr. (*de ficção científica e gênero*), o 1º Prêmio de Mangá Anan (*uma revista japonesa*), o 56º Prêmio de Mangá Shogakukan na categoria Shoujo, o Prêmio Especial do 5º Prêmio Sense of Gender e o 42º Grande Prêmio Japan SF.  Premiadíssimo e inédito no Brasil.

Segundo as informações já liberadas, as protagonistas serão Akatsuki Chisei (Arikoto) e Uta Chizuru (Iemitsu) e a peça será da Hoshi Gumi (Star Troupe).  A dupla protagonizou a peça de Hana Yori Dango (花より男子).  A estreia da peça será em  19 de fevereiro de 2027.  Primeiro em Tokyo, depois, em Osaka.  Ah, como eu queria assistir a isso! 🥺Agradeço à Jéssica, que me mostrou a notícia no Comic Natalie, e ao Igor, o meu especialista em Takarazuka, que me repassou o link da Revue.

domingo, 12 de julho de 2026

Balanço geral da série Cenas de Awajima (Awajima Hyakkei/淡島百景)

A nova temporada de animes já começou e já estou me atrasando, mas precisava separar um tempo para terminar Cenas de Awajima (Awajima Hyakkei/淡島百景), série baseada no mangá homônimo de Takako Shimura.  Não encontrei scanlations completas da série, mas imagino que o anime cobriu todo o mangá, porque são somente 5 volumes e a série teve 12 episódios.  Este é meu quarto texto sobre a Awajima; é um fechamento mesmo.  Para as outras resenhas, é só clicar: 1 - 2 - 3.  Como o mangá está em lançamento nos EUA, vou usar o resumo da Yen Press:

A Escola de Ópera de Awajima, para onde inúmeras garotas de todo o país convergem na esperança de um dia brilhar nos grandes palcos. Enquanto se esforçam para alcançar seus sonhos de estrelato, seu tempo em Awajima é repleto tanto de amizade e admiração quanto de competição e inveja. Os preciosos sentimentos de garotas que são, ao mesmo tempo, colegas e rivais são capturados com ternura nos retratos de um elenco de artistas!

Cenas de Awajima conta a história de uma escola de teatro musical; é a instituição, o centro da nossa história, o real protagonista da série, assim como no caso de  Ōoku (大奥) de Fumi Yoshinaga.  As meninas entram e saem de cena, frequentam a escola em anos, às vezes, décadas diferentes, seguem suas vidas que podem, ou não, se cruzar em outros momentos da série.  A escola, no entanto, permanece como uma referência positiva ou negativa para elas.  A inspiração de Awajima é o Teatro Takarazuka.  A divisão entre atrizes que fazem papéis femininos (musumeyaku) e masculinos (otokoyaku) é a mesma, assim como o tempo de curso (dois anos), a ênfase na disciplina e na hierarquia etc.  Por outro lado, a série parece introduzir coisas que não são típicas do Takarazuka, como as longas licenças das atrizes, a possibilidade de sair e voltar para Awajima e o fato de que algumas atrizes parecem se casar e continuar atuando.  Isso não existe no Takarazuka.

Como pontuei em meu outro texto,  Cenas de Awajima tem muitas persoangens, sua narrativa é fragmentada, não linear e opera em várias temporalidades, sem se preocupar com quem está assistindo.  Às vezes, temos umas três temporalidades diferentes no mesmo episódio.  É confuso, portanto, mas é a estrutura da série mesmo.  Outra coisa, as personagens, pelo menos algumas delas, mudam de nome.  As meninas têm seu nome de nascimento quando entram na escola, seu nome artístico depois que se formam e, as que se casam, têm o nome de casada.  No mesmo episódio, os três nomes podem aparecer.  Você desfoca um pouquinho e se perde.  Fora isso, as legendas da Crunchyroll nem sempre são realmente boas, porque se eu, que sei muito pouco de japonês, estou estranhando certas coisas, imagino quem sabe a língua mesmo.

Não aconselho ninguém a fazer o que fiz hoje com uma série como essa, isto é, pegar CINCO EPISÓDIOS e assistir de enfiada.  Mas eu precisava terminar ou acabaria deixando de lado, coisa que aconteceu com mais de uma série da temporada de inverno.  São muitas personagens que entram e saem da história, que têm uma parte de sua história narrada em um episódio e eventualmente aparecem em outro, e você precisa estar atenta para perceber que o fulano ou a fulana já apareceu antes.  De qualquer forma, já nos últimos três episódios, temos uma confirmação de quem são as personagens mais importantes de Cenas de Awajima: Wakana Tabata e Kinue Takehara, que acredito que foram alunas na primeira ou na segunda década do nosso século, e Katsurako Ibuki, que vinha de uma família com tradição em Awajima e acabou se tornando professora da instituição.  As três personagens aparecem várias vezes.

Nos últimos três episódios, ficamos sabendo que Tabata teve curta carreira em Awajima, graduou-se e se tornou escritora de muito sucesso.  Seus livros, alguns de memórias, outros romances, se entendi corretamente, falam de Awajima e ajudam a alimentar a mitologia em torno do teatro. Tabata participa de um evento em Awajima como palestrante e visita a professora Ibuki no hospital.  Ibuki era uma professora estrita, temida pelas alunas, mas Tabata estabeleceu um laço de respeito, admiração e amizade com ela.  Ibuki pede ajuda a Tabata para corrigir um grande erro do passado.

Katsurako Ibuki, quando era aluna, nos anos 1960, eu imagino, foi responsável pela desistência ou expulsão de uma aluna brilhante, Emi Okabe.  As duas eram amigas, mas quando Okabe defende uma outra aluna e diz que ela era mais talentosa do que Ibuki e as outras meninas da roda de invejosas, ela passa a sofrer bullying.  Sim, bullying do tipo que meninas costumam fazer, isto é, desprezo, maledicência, abuso verbal temperado de ironia e veneno, isolamento.  O que Okabe diz desperta as inseguranças de Ibuki, porque sua avó, uma grande estrela de Awajima, sempre disse que ela não era boa, graciosa e bonita o  suficiente para ser uma grande estrela.  Ibuki parecia não se deixar atingir pela avó, mas, no fim das contas, isso não era verdade.  Pior, a série colocou Ibuki arrependida de ter dito à velha o que ela merecia ouvir.  Acredito que comentei sobre isso em minha segunda resenha.

Com a perseguição liderada por Ibuki, Okabe termina perdendo a paciência com ela, a agride e tem que sair de Awajima.  A outra colega, a que tinha muito talento, termina atentando contra sua vida.  Já tínhamos visto parte dessa história em um episódio anterior; algumas sequências se repetem, só que com mais detalhes.  Ibuki quer que Tabata escreva um livro sobre o que há de tóxico em Awajima.  O pedido vem em outra visita, que parece ter ocorrido com algum tempo de diferença.  Sim, a história das várias temporalidades.

Tabata tem medo de que o relato transformado em livro ganhe ares sensacionalistas e manche a imagem da escola; fora isso, ela precisa da autorização da família de Emi Okabe para escrever sobre ela.  Aqui, temos um problema de sobrenomes.  O marido de Emi não é Okabe; aparece outro sobrenome, inclusive, mas, depois, ele parece ter o mesmo sobrenome que a esposa.  Confuso, mas, neste caso, eu ouvi o diálogo; não estava na dependência da legenda.  Um filho de Emi é contra; o viúvo e o filho mais velho são a favor.  Achei o filho caçula jovem demais e o marido de Okabe deveria ser mais velho, porque Ibuki parecia bem mais velha.  Poderia ser a doença, claro.  O fato é que o viúvo acredita que a história de Emi deve ser contada e que isso poderia fazer diferença para alguém.

A editora do livro de Tabata é outra ex-aluna de Awajima, que nunca foi para os palcos. Depois da palestra de Tabata, ela decidiu seguir carreira na área de literatura.  É outro indício de que anos se passaram entre a primeira visita de Tabata ao hospital e a segunda.  Muito bem, o livro de Tabata é um sucesso, mas expõe Awajima como um lugar de bullying e competição.  Ex-atrizes e alunas vêm a público dar seu testemunho.   Tabata se sente culpada, mas eis que Awajima decide transformar o livro em peça.  Alguém termina comentando que capitalismo é capitalismo.   No fim das contas, Awajima irá lucrar e reforçar sua mística mesmo com todos os problemas que vieram à tona.  E a mensagem final da série é de nostalgia em relação às várias gerações de meninas que passaram por Awajima e que tiveram suas vidas impactadas pela escola.

Gostei da série?  Achei que gostaria mais de Awajima.  O tom intimista me agradou, o foco nas personagens e seus dramas, mas queria ver mais das aulas na escola.  Queria ver Ibuki coo professora, por exemplo, não somente em suas interações com Tabata.  Só que não tivemos quase nada disso.  E, em alguns momentos, os dramas não me convenceram tanto, a pareceram exagerados, mesmo em um anime com um tom muito contido.  Um exemplo é no episódio da seita ou este final que coloca em evidência o bullying (ijime) que é um negócio muito presente nas escolas japonesas. 

A competição em Awajima não deveria chocar ninguém, como parece ser o caso depois do lançamento do livro de Tabata. Talvez, se eu conseguisse rever a série, conseguiria compreendê-la melhor.  O mais seguro, no entanto, será ler o mangá.  Como o preço da versão Kindle é bem acessível, devo comprar a edição norte-americana.  Deixo a recomendação para quem quiser assistir Awajima, mas com todas as ressalvas que escrevi, afinal, não é uma série de fácil digestão.

domingo, 17 de maio de 2026

Comentários sobre o episódio 6 de Cenas de Awajima: Uma resenha bem rápida mesmo

O episódio 6 de Cenas de Awajima (淡島百景/Awajima Hyakkei) foi sobre fantasmas que habitam a escola e o festival cultural, culminância do curso de dois anos para as meninas que que estão se formando.  Como a produção não nos facilita a vida, ele tem pelo menos TRÊS temporalidades se alternando rapidamente.  A proposta do mangá original de Takakko Shimura é essa mesma e quem está no comando do anime não tem pena do espectador. Awajima, a escola, é inspirada no Teatro Feminino Musical Takarazuka.

Sim, é uma série difícil de assistir, mas, ao mesmo tempo, ela oferece uma narrativa tão singela e simpática que não há como não terminar o episódio com um sorriso discreto no rosto... e UM MONTE DE DÚVIDAS na cabeça. Será que entendi tudo direito mesmo?  Não vou recontar o início da série, mas fiz uma resenha sobre os cinco primeiros episódios, ela está aqui.  

Neste episódio, revemos personagens dos episódios anteriores, não todas, e acredito que somos apresentados a uma professora que é da mesma de Okabe-san, a bolsista que abandonou o curso por causa do bullying praticado por Katsurako Ibuki.  Ibuki-san também se tornou professora.  No mesmo episódio, ficamos sabendo que uma personagem da mesma geração que essas que citei e que parecia ter cometido suicídio, está viva, mas não seguiu carreira.  

Há uma menina nova, certamente de outra temporalidade, que todos creem que vê fantasmas, mas que considera que piores do que qualquer alma penada são as pessoas vivas; ela vê Awajima, a escola, como um lugar que acaba despertando o que de pior existe nos seres humanos.  Essa menina aparece várias vezes no episódio e termina tendo uma pequena história que parece ir costurando as outras.  

Se tivesse que colocar um pequeno defeito no episódio 6, faltou a Tabata ter um tiquinho mais de espaço. Como ela estava em uma das temporalidades, fiquei me perguntando por onde ela andaria.  Ela só tem  uma cena bem clara no final, quando vem cumprimentar sua senpai, Kinue Takehara, que fez Romeu na peça de teatro que as alunas que estão para se formar apresentaram.  Takehara quer seguir carreira e certamente será uma esplêndida otokoyaku. A melhor amiga de Takehara aparece no episódio, ela vem assistir ao espetáculo e temos memórias das duas aparecendo ao longo do episódio, também.

De resto, reforço que a série não é sobre pessoas, é sobre a escola e, ao mesmo tempo, não é sobre o curso, mas sobre as esperanças, frustrações, sucessos e dores de várias gerações de meninas que habitaram esse lugar. Por isso, faz sentido o episódio ser sobre fantasmas ou assim parece no início.

Enfim, Cenas de Awajima não é uma série como Kageki Shojo!! (かげきしょうじょ!!) que segue um molde próximo do mangá de esporte e lembro a todos e todas que histórias de balé e teatro têm o mesmo molde de séries de beisebol, voleibol, patinação, futebol, basquete e outros. Os japoneses não separam as coisas. No caso de Awajima, é mais Ōoku  (大奥): o espaço é o protagonista, mas, como quem manda na série, é gente cruel (😉) a estrutura é toda fragmentada e não linear. Uma obra de arte, enfim.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Comentando os primeiros episódios de Cenas de Awajima (Awajima Hyakkei): uma série sensível, mas complicada de se assistir.

Consegui colocar em dia Cenas de Awajima (Awajima Hyakkei/淡島百景). Foram cinco episódios até o momento porque essa animação foi uma das últimas a estrear nesta temporada.  Trata-se de um anime difícil, denso e poético. Não me causou surpresa, porque conheço a obra de Takako Shimura, tudo ali está de acordo com o que ela oferece em seus mangás, mas como não li a obra e a tomar pelas resenhas curtas antes da estreia da animação, esperava algo um tanto diferente. Awajima é uma escola de teatro musical, na verdade, trata-se do Takarazuka com outro nome. O Takarazuka Revue é um teatro musical feminino criado em 1913.  Ele mistura a tradição japonesa e o teatro de revista ocidental.

No Takarazuka, todos  os papéis são desempenhados por mulheres.  As atrizes que fazem os papéis masculinos são chamadas de otokoyaku (homem + papel), já as que fazem os papéis femininos são as musumeyaku (filha + papel).  Na cidade de Takarazuka há uma escola que anualmente seleciona jovens entre 15 e 18 anos para um curso de dois anos.  Trata-se de um concurso muito disputado, o curso exige enorme disciplina e, após esse período, as formandas estreiam.  No episódio #4 de Awajima, a produção saiu do óbvio que era referenciar a Rosa de Versalhes ou Romeu e Julieta, pegou logo Elisabeth -Rondo of Love and Death- e colocou a mãe da protagonista fascinada pela Morte (Der Tod).  Já no episódio #5, houve menção a Me and My Girl.

Awajima tem uma narrativa fragmentada e não linear. Vamos ao passado e ao presente, às vezes com uma velocidade tal, que me senti perdida. O terceiro episódio, o meu favorito até agora, e o anterior foram os mais complicados nesse sentido.  Lendo o verbete da Wikipedia do mangá, sei que a  protagonista, Wakana Tabata, não está em nossos dias, os celulares parecem antigos, ainda que as TVs sejam de tela plana e bem fininhas. Mas sem olhar a Wikipedia, não conseguiria ter certeza, so tinha indícios mesmo, pois não se falou de internet ainda ou aplicativos de celular.  Também pela Wikipedia, sei que haverá um "nos dias atuais", mas ela ainda não foi mostrado.

O fato é que temos algumas personagens fixas, Wakana Tabata é a protagonista, porque aparece mais vezes que outras, mas isso não quer dizer que tenha muito tempo de tela. Cada episódio se foca em duas ou mais personagens e vamos ao passado e ao presente e de novo ao passado. Década de 1940, 1950, 1960, 1970, 1980... são várias gerações de meninas passando por Awajima, cada qual com seus sonhos, esperanças, medos, amores e amizades. Umas se tornam estrelas, outras desistem, inclusive da vida, há as que brilham por um tempo e se retiram ou retornam, como no caso de Katsurako Ibuki, que se tornou professora e lamenta certos atos do passado.  Não darei spoilers.

No episódio #4, discutiram até as masculinidades divergentes. Takuto, um jovem que ama Awajima por influência da avó, tem dificuldades em se conectar com o resto de sua família e gente de sua idade.  Somente os dois são apaixonados pelo teatro musical e a avó compra dois ingressos para u espetáculo, mas sofre um acidente e insiste que o neto vá.  Takuto parte em busca de uma companhia e convida uma pessoa com quem conversa online, Sayaka-san.  Ele imagina como Sayaka é, porque os dois conversam sobre Awajima e essa pessoa gosta de coisas fofas. Gostar de Awajima não é coisa de homem e a sequência dele no teatro lotado de mulheres é uma mostra disso. Takuto é um rapaz extremamente organizado e com mania de limpeza e, a julgar pelo anime, não parece ser coisa de adolescentes do sexo masculino, afinal, o rapaz é inquirido pelos colegas sobre o motivo de lavar as mãos depois de ir ao banheiro. Os japoneses não fazem isso, não?  Achei estranho.  As partes com Takuto, houve uma historinha extra no final do episódio. Foi bem fofinha.

Já a primeira parte do episódio #5, centrada em uma jovem da geração de Wakaba, que tem problemas em dividir o banho com outras moças, foi a mais chata.  A garota cresceu em uma família que pertence a uma seita, que  não é nomeada, e odeia tudo o que se relaciona a ela, mesmo que seus pais não a tenham obrigado a congregar com eles.  Ela está quase odiando os próprios pais por causa disso.  Não consegui ter empatia.  Já os episódios #2 e #3 se relacionam a Katsurako Ibuki.  Ela é filha e neta de atrizes de Awajima.  Sua avó foi uma beldade  em sua época e amou loucamente o marido.  Pelo que entendi, ela parou a carreira ao se casar e era azucrinada pela sogra, que morava com o casal, para que esquecesse do seu passado.  Ao ter uma filha, ela não consegue amar a menina, porque ela é a cara da avó paterna.  A rejeição da mãe em relação à menina "feia" piora quando ela perde o marido com poucos anos de casamento.  Pela aparência dele, acredito que morreu de tuberculose.

A mãe de Katsurako cresce mimada pela avó paterna, mas desejando a atenção da mãe e sentindo-se feia e inadequada.  Ainda assim, ela passa na seleção para Awajima, mas suas colegas acabam acreditando que ela só passou por ser filha de uma grande atriz.  Apesar de talentosa, a jovem vivia sob a sombra da mãe.  Aé que ela conhece um jornalista, que a vê como ela é.  Os dois terminam se casando e a jovem abandona a carreira.  Katsurako cresceu vendo a avó humilhando sua mãe e dizendo que não gostava do pai, um jornalista, e uma das poucas pessoas que fala com a agora velha dama do teatro sem demonstrar qualquer tipo de assombro.  Ela diz que não gosta do genro por não confiar em homens com olhos de raposa e Katsurako herda os olhos do pai.  Quando a avó está morrendo, Katsurako diz para ela o quanto a odeia e que nao sentirá a sua partida.  Só que a garota  lamenta ter em si muito da avó que ela despreza.  Consigo ter mais empatia pela avó de Katsurako com todos os seus defeitos, pelo que sofreu nas mãos da sogra, do que pela menina da seita

Enfim, imagino que em algum momento irão mostrar as meninas nas aulas, sei que haverá um episódio com o festival culural, mas o tom é muito diferente de Kageki Shojo!! (かげきしょうじょ!!), por exemplo, porque o centro da narrativa é Awajima, a escola, centro de tantas e tantas histórias de gerações de meninas. Curiosamente, quando as meninas são mostrada em aula ou as atrizes no palco, não temos som.  Awajima me lembra um pouco a ideia de Ōoku, que não é sobre pessoas, mas sobre o harém de homens. Sei que Awajima não é para todo mundo, mas espero que continuem as scanlations do mangá, porque elas estão paradas faz quatro anos e o mangá é bem curtinho.  Falando do mangá, ele só tem 5 volumes e foi pubicado entre 2011 e 2024.  De 2011 até 2016, ele saia na revista PokoPoko tendo passado postriormente para a revista Ohta Web Comic.

domingo, 22 de setembro de 2024

Problemas demográficos no imaginário de um país. Para que servem os idosos? A obsessão do Japão com a idade. (Artigo Traduzido)

Estou fazendo um trabalho sobre os idosos nos mangás e acabei tropeçando nesse artigo escrito pela jornalista e professora universitária italiana Laura Imai Messina.  Ela trabalha no Japão e o texto fala de como os idosos são empurrados para a morte, por deixarem de ser úteis à sociedade, na literatura, folclore, cinema e mangás.  Isso tudo agravado pelo pensamento capitalista que vê os velhos, cada vez mais presentes na população japonesa, são um peso.  

Sabe quando o discurso neoliberal no Brasil conseguiu fazer a troca da palavra aposentado, algo que se remetia à ideia de que você contribuiu para a sociedade e, agora, pode descansar, por inativo, algo que tem o sentido de peso morto?  Pois é, parece que no Japão, a coisa está indo nesse caminho, também, o que joga por terra aquela coisa do idoso como venerável.  Agora, o importante no texto é que Messina mostra que isso vem de longe.  Ela cita dois mangás no texto, nenhum deles estava no meu radar até tropeçar nesse artigo.  O original está aqui.  Mantive a estrutura do artigo e só acrescentei links para maiores informações sobre os mangás citados no texto e o autor das Baladas de Narayama.  

Problemas demográficos no imaginário de um país
Para que servem os idosos? A obsessão do Japão com a idade

Laura Imai Messina

Filmes, novelas e mangás: em toda obra que trata do envelhecimento há homens e mulheres complacentes e tristes. A maioria deles foi convencida pela retórica de que deixar de viver é patriótico, altruísta, generoso, justo.

Num dos momentos mais críticos da história moderna do país, o antropólogo Yanagita Kunio (1875-1962), considerado o pai do folclore japonês, procurou uma resposta à pergunta “O que é um japonês?”. Ele fez isso explorando contos populares, lendas, a vida nas montanhas, contos de fadas. Ele demonstrou como aquele Japão que, no seu encontro com o Ocidente, se lançava com uma leveza imprudente e um entusiasmo superficial numa transformação que mais parecia uma autodestruição, precisava do folclore, do conhecimento das tradições antigas. Em suma, para se manter firme no futuro do país, era necessária a história do seu passado.

Os clássicos

Lendo o clássico da literatura japonesa As Baladas de Narayama [1] de Fukazawa Shichirō, publicado pela primeira vez em sua terra natal em 1956, e que gira em torno do costume de levar pais idosos para morrer na montanha para fazer frente à escassez de recursos e a fome, lembrei-me do ensaio de Yanagita Kunio dedicado justamente ao tema do ubasute 姥捨て (literalmente “jogar fora os idosos”)[2], escrito originalmente em 1945 para atender à curiosidade de meninas da quinta e sexta séries que tiveram que se mudar para o campo por causa da guerra.

Foi um teste: será que a necessidade, a fome teriam vencido a moralidade, a gratidão que os filhos deviam aos pais? Entre as muitas declinações da história, em parte autóctones, em parte vindas da Índia e da China, a minha preferida é sem dúvida aquela que mostra a mãe idosa quebrando galhos enquanto o filho sobe a montanha onde a abandonará para morrer; quando questionada por que fez isso, a mulher responde que é para criar pistas para que seu filho encontre facilmente o caminho de volta para casa.

A bela história de Fukazawa, como bem escreve Giorgio Amitrano que a traduziu pela primeira vez para o italiano para Adelphi, "ocupa um espaço surpreendentemente vasto em relação à brevidade do texto", de modo que apesar das poucas páginas, a "força narrativa, o a riqueza dos temas e a gama de sentimentos neles descritos têm... o sopro de um grande romance." É um clássico de referência da literatura japonesa, cuja importância é demonstrada pelas inúmeras adaptações e referências mais ou menos diretas em obras culturais e literárias posteriores.

A questão demográfica

O grave problema demográfico e social que o Japão enfrenta há mais de cinquenta anos está há muito tempo no centro de um debate político e cultural, tema de talk shows, documentários, romances, mangá e filmes. Sempre fui animada pela ideia de que o folclore não está muito distante da ficção científica, com a única diferença de que o olhar não está voltado para frente, mas para trás, apesar de apresentar variações da realidade que (ainda) não foram concretizadas.  Ambos são excelentes exercícios de imaginação.

Assim, já em 1973, Fujiko F. Fujio, pai de Doraemon e Superkid, assinou um mangá one-shot intitulado Food Retirement (Teinen-taishoku)[3] que falava de um futuro próximo em que o país, lutando contra uma escassez excepcional de recursos naturais e abastecimento de alimentos, estabeleceu um rígido sistema de racionamento, especialmente em detrimento dos idosos. Semelhante em tema, mas muito mais sombrio e com atmosfera mais apocalíptica, é a história em quadrinhos TEMPEST (2018) de Asano Inio, que prevê uma sociedade devotada ao princípio de "Keep Young", que por um lado fornece incentivos extraordinários para a taxa de natalidade, por o outro pressiona pela eliminação forçada dos idosos.

Com um toque hiper-realista, traça a ideologia anti-idoso que inicialmente se espalhou pela Internet, mas que, aos poucos, foi contagiando os meios de comunicação de massa até que todos os meios de informação se envolveram no movimento de discriminação ("O sistema previdenciário foi um engano criado pelas gerações anteriores com o único propósito de se protegerem!"). Agora apenas viver, sem um propósito útil e concreto para a sociedade, não é mais aceitável.

O limite

Plano 75, estreia na direção de Chie Hayakawa (2022), filme que traça uma sociedade para lidar com o envelhecimento da população e a queda nas taxas de natalidade, incentiva os maiores de setenta e cinco anos à eutanásia em massa, também abre com a notícia de uma onda de violência contra os idosos e com indícios de um sofrimento partilhado por todas as gerações.

A idade a partir da qual não é mais permitido viver flutua: se em As Baladas de Narayama os filhos têm que levar os pais para morrer na montanha aos 70 anos, no mangá de Fujiko F. Fujio o limiar além do qual os direitos são 75 anos (renováveis ​​apenas através de uma loteria utópica); no TEMPEST aos 85 anos você pode aceitar a eutanásia ou tentar um exame de certificação muito difícil (um único erro ao responder às 500 questões exigidas é suficiente para perder o mero direito de existir).

A descrição de uma idade

Qualquer que seja o período histórico ou a forma artística, em todas as obras que abordam a temática do envelhecimento da população face a um mundo cada vez menos rico em recursos e com uma crise demográfica sem precedentes, os idosos são majoritariamente descritos como complacentes, derrotados; sentem-se inúteis, tolos e sobretudo muito tristes, razão pela qual a maioria deles escolhe a solução final sem protestar, convencidos por uma retórica que faz do suicídio assistido ou da morte voluntária uma "prática patriótica, altruísta para com as novas gerações, generosa e justa."

Em todas as histórias, de As Baladas de Narayama ao mangá de Fujiko F. Fujio e Asano Inio, de Plano 75 a outros filmes no estilo de Logan's Run (1976), as vantagens racionais de suprimir os idosos são evidentes e somam-se a benefícios convidativos como fim de vida sem dor, refeições gratuitas, quantias de dinheiro para gastar com o quiser antes do dia X, isenção fiscal completa para que você possa entregar todos os seus bens aos seus herdeiros. Em suma, do ponto de vista econômico, promete-se que a morte será enfrentada com alívio.

Contudo, toda narrativa é assombrada pela constante questão do que é um ser humano, do significado da dignidade de uma existência. Na verdade, basta que um filho se lembre do amor que recebeu de uma mãe ao escalar a montanha Narayama ou que um sobrinho imagine concretamente a eliminação do cadáver de seu tio antes de concluir o programa Plano 75 no qual se inscreveu por tristeza, em que a regra geral se torna particular, esse sentimento e raciocínio pessoal se manifestam e, portanto, o monstruoso absurdo do assassinato fica claro.

Mas então para que servem os idosos? A questão está justamente no verbo servir. Não é por acaso que uma das versões tradicionais do conto de fadas com tema ubasute recolhido por Yanagita Kunio terminou com o regresso da velha mãe a casa depois de, refletindo em voz alta, o filho da mulher, acompanhado do sobrinho, ter afirmado que o cesto em que a velha que transportava teve que ser trazida para casa, pois ainda poderia ser útil.

Aquela frase, em que o verbo “usar/servir” fazia o objeto conquistar a pessoa, despertou a consciência do homem que finalmente se arrependeu de sua crueldade.

A resposta à pergunta "Para que servem os idosos?" antes, encontrei-o na troca entre um homem e uma enfermeira, num dos romances de ficção científica do escritor Kilgore Trout (nascido, por sua vez, da imaginação de Kurt Vonnegut). Os dois se encontram em uma das Salas do Suicídio Ético onde, por meio de quatorze métodos indolores, as pessoas vão morrer com calma.

O homem, pronto para ir para o outro mundo, "perguntou a uma anfitriã da morte se ele iria para o céu, e ela respondeu que ele certamente iria. Ele perguntou se ele veria Deus, e ela disse: “Claro, querido”. E ele disse: “Espero que sim. Quero perguntar-lhe algo que nunca consegui descobrir aqui." "O que?" ela disse, amarrando-o na cadeira. “Para que diabos servem as pessoas?”

Aqui, a pergunta, se feita com verdadeira convicção, não pode mais ser “Para que servem os idosos”, mas sim “Para que servem as pessoas?” De uma perspectiva orientada para o lucro, nada mais serve realmente a qualquer propósito.


1: Não achei nenhuma edição em português das Baladas de Narayama, o que é bem absurdo, só as versões cinematográficas, e são muitas, aparecem no Amazon.
2: O ubasute das Baladas de Narayama aparece em um dos volumes de Ōoku (大奥). Se a função dos homens é procriar e ele não consegue mais cumprir essa função por causa da idade, ele é somente um peso para a sociedade.
3: Não achei o mangá listado no Mangaupdates e fiquei com preguiça de passar o pente fino na Wikipedia Japones.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Comentando Yoshiwara Boys to Moral Girl!: mocinha morre e reencarna em um passado com papéis de gênero invertidos.

Não conhecia Yoshiwara Boys to Moral Girl! (吉原ボーイズとモラルガール!), de Tsuru Yumika, mas um post do Pro Shojo Spain me chamou a atenção e eu acabei encontrando scanlations dos quatro primeiros capítulos em inglês e raw até o capítulo 9.  Achei curiosa a descrição "Rinko nunca teve sorte com homens e, após seu último rompimento, sofre um acidente e acorda em um horário diferente com os papéis de gênero invertidos.".  Quando vi, já estava fisgada por este isekai reencarnacionista, um dos gêneros de mangá do qual geralmente mantenho distância.  Mas vamos lá comentar os quatro primeiros capítulos.

Rinko tem 27 anos e é professora.  Não fica claro de qual matéria, mas, não sei por qual motivo, acredito que de História.  Ela já teve vários namorados, mas nunca teve um orgasmo.  Ela gosta de sexo, mas seus namorados acham que ela é frígida.  Rinko lê manuais tentando aprender como chegar ao êxtase, mas nada funciona.  E ela termina rompendo com o último namorado e fica muito mal.  Rinko quer alguém que a entenda e que a faça se sentir especial.  Na cabeça da protagonista, ela nunca chega ao orgasmo, porque os homens são muito egoístas na cama.

Muito arrasada com seu último rompimento, Rinko se distrai e é atropelada por um caminhão.  Sim, caminhão (*CLICHÊ*).  Tudo se apaga e ela acorda no passado.  E leva muito na boa esse fato.  Acha que viajou no tempo, nem passa pela cabeça dela que pode ser um sonho, enfim.  Ela está no distrito do prazer de Edo (Tokyo), chamado de Yoshiwara.  Como a protagonista reconhece prontamente a época e o lugar, continuo acreditando que ela seja professora de História. E, se eu estiver certa, ela entra na minha listinha de historiadores sem noção da ficção.  Que São Yang Wen-li  me proteja! Só que há algo diferente, muito diferente...  As mulheres são as clientes e os homens os prostitutos!!!!  Estamos em um mundo tipo Ōoku (大奥), de Fumi Yoshinaga.

Meio atordoada, Rinko acaba sendo aliciada por Yoshino, um adolescente responsável por levar clientes para o estabelecimento onde trabalha.  Yoshino é pupilo do oiran deslumbrante que Rinko viu desfilar pela rua.  Enfim, ela bebe, se sente nas nuvens cercada por um monte de rapazes e acaba sendo levada para a cama por Yoshino, até que chega uma mulher enlouquecida armada com uma faca.  Takao, o oiran, intervém, depois que Rinko consegue desarmar a mulher.  Apesar de mostrar desprezo por Rinko e dizer que ela fede a cachorro, Takao escolhe Rinko para passar a noite com ele, mas ela desfalece e, ao acordar, descobre que está devendo muito dinheiro e que terá que trabalhar no estabelecimento por TRÊS ANOS para pagar sua dívida.

Sério que nossa mocinha vai ficar no passado como criada de um bordel? E sendo pisada pelo oiran que ficou muito ofendido pelo fato dela ter dormido antes que eles fizessem sexo?  É essa a história?  Sim e não.  Rinko passa uns perrengues e sofre com o assédio debochado dos rapazes.  Eles acham engraçado como ela fica sem graça com a falta de pudor dos sujeitos, que são todos bishounen lindos, mas, ainda no segundo capítulo, ela ajuda Yoshino a se tornar competente em arregimentar clientes, porque todos debochavam dele por não conseguir trazer mulheres (*bem, ele trouxe Rinko*), nem entretê-las de forma adequada.

Vendo como Yoshino conversa e alegra uma jovem triste, Rinko começa a acreditar que é possível para as mulheres encontrarem alguma felicidade no distrito do prazer.  Rinko também passa a observar Takao e como ele é capaz de ser gentil e responsável, apesar de parecer vaidoso e insensível.  Rinko descobre que ele criou o bordel do nada e fica chocada ao saber que ele é somente um adolescente de 18 anos.  Rinko fica meio atordoada e começa a alucinar e vê-lo de uniforme escolar, assim como os outros rapazes. Takao poderia ser um dos seus alunos! E, o pior, ela sente desejo por ele e culpa, também.  

Descobrindo que todos os rapazes, especialmente Takao, trabalham demais, ela decide criar um cronograma de trabalho, introduzindo a ideia de folga. Como Takao e a contadora percebem o quanto Rinko é competente, eles deixam que ela organize uma escala de trabalho.  Já Rinko usa sua experiência criando as escalas de limpeza dos alunos no colégio e seus conhecimentos sobre modernos host clubs para reformar o bordel.  Como Yoshino se torna competente como prostituto, graças aos conselhos de Rinko, Takao transforma a moça em sua assistente e ela passa a acompanhá-lo.  Na verdade, o rapaz está se apaixonando por ela e Rinko também gosta do oiran.  E, no fim das contas, Rinko está sendo promovida.

Mas só tenho quatro capítulos traduzidos e o último termina em um gancho muito bom.  Ran, a principal cliente de Takao, irá se casar.  Ela quer passar sua última noite com o moço e termina se aproximando de Rinko.  Ran parece querer fazer amizade com Rinko, mas, na verdade, ela sente ciúmes da protagonista e tem um plano maligno.  Eu vi o capítulo 5, mas não entendo o que está escrito. Ran tem um passado com Takao, talvez seja sua amiga de infância, e ela tenta se livrar da protagonista.  Tenta, porque Rinko vira a mesa em cima dela.

Yoshiwara Boys to Moral Girl! é publicado na revista Be Love e teve seu terceiro volume lançado no Japão.  O traço da autora é bom, nada exuberante, mas funciona bem, inclusive fazendo cenários bem detalhados.  E, algo que ela faz muito bem, é misturar a indumentária típica das oiran (prostitutas de luxo) e das prostitutas com roupas masculinas.  Não sei se a história vai sair de Yoshiwara, ou vai ficar somente lá.  Em um capítulo futuro e sem tradução, aparece um moço bonito de óculos, ele não é prostituto e tem alguma ligação com Takao.  Quem seria ele?

De qualquer forma, não temos grandes discussões de gênero (*papéis masculinos e femininos em uma dada sociedade*) até o momento, mas a questão do prazer (sexual) e da felicidade feminina são centrais na história, que não é um mangá erótico, é mainstream mesmo. Agora, me incomoda um tanto o fato da mocinha estar muito tranquila nessa nova vida no passado e não mostrar curiosidade em saber mais sobre esse mundo invertido.  Espero que a coisa evolua nesse sentido.  enfim, meu veredito?  A série merece ser lida, espero que tenhamos logo mais scanlations.

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Segunda temporada de Ōoku estreia no mês que vem

No dia 3 de outubro, a segunda temporada do dorama de Ōoku (大奥), baseado no mangá de Fumi Yoshinaga, estreia na NHK.   Ōoku é uma série de história alternativa, que começa no início do século XVI, quando uma terrível doença, a varíola vermelha, dizima a população masculina, em especial, os jovens.  Este evento serve de ponto de divergência, algo importante no gênero história alternativa (ucronia),  entre a nossa linha temporal e a da série.  A carência de homens foi fator determinante no fechamento do Japão ao contato com o exterior (Sakoku).  No início, havia a esperança de que a doença fosse embora e houve o esforço para a manutenção da estrutura patriarcal da sociedade japonesa, porém, conforme o tempo passava, as mulheres terminaram assumindo o poder.  Só que a doença começa a recuar ao longo das décadas e o Shogunato das Mulheres não irá sobreviver e será apagado da história.

Serão cobertos o arco da vacina e o final do mangá e há uma foto mostrando as personagens do arco da vacina caracterizadas, nela aparecem Tanuma Okitsugu (Matsushita Nao),  a única que tem seu nome no Drama Wiki, mas consegui os nomes em outro site: Aonuma (Tatsugo Murasame), o louro;  Hiraga Gennai (Anne Suzuki), o mais baixo, não sei se o outro homem é o Kuroki, mas ele será interpretado por Reo Tamaoki, mas ele parece velho demais, já a mulher deve ser a única vilã indiscutível da série, Tokugawa Harusada (Yukie Nakama).  

O fato é que a primeira temporada, que eu preciso terminar de resenhar, cortou muita coisa e chegou a mostrar as filhas de Yoshimune.  De qualquer forma, saiu uma foto com algumas das personagens do último arco da história: Abe Masahiro (Takiuchi Kumi), a última ministra de destaque  durante o shogunato das mulheres (*a atriz deveria ser gordinha, mas acho que não é*); Takiyama (Furukawa Yuta), o último camareiro-chefe do  Ōoku; Tokugawa Iesada (Manaki Reika); Tanshoin (Fukushi); Tokugawa Iemochi (Shida Sara) e "o Príncipe" Kazu (Kishii Yukino).  

Para quem quiser saber mais da série, Ōoku, bast clicar na tag.  Há posts sobre todos os volumes do mangá, informações da série, as primeiras adaptações live action (2010/2012), o anime da Netflix (}2023) o novo dorama (2023).  Para quem quiser, há três shoujocast sobre a série, basta dar um pulinho no Youtube.  Coloquei o último vídeo feito aí embaixo.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

#Shoujocast no Ar! Disse que ia comentar o resto da série #Ōoku da #Netflix, o vídeo está aqui.


Tinha dito que poderia fazer outro vídeo sobre o anime de Ōoku  (大奥), baseado no mangá de mesmo nome de Fumi Yoshinaga. Terminei a série ontem e preciso comentar algumas coisas. Bom de estar de férias sem poder sair de casa é que a gente pode fazer mais vídeos para o canal. Espero que vocês gostem, preferi gravar a escrever um texto.  Para quem quiser ver o primeiro vídeo, clique aqui.


Links do Episódio:

domingo, 2 de julho de 2023

Comentando o primeiro capítulo de Ōoku (Netflix/2023): uma animação surpreendentemente fiel e carregada de emoção.

No dia 29 de junho, estreou mundialmente na Netflix a adaptação de Ōoku  (大奥), série animada baseada no mangá de mesmo nome de Fumi Yoshinaga.  A série cobre, em seus 10 episódios, os primeiros volumes do mangá  publicado entre 2005 e 2020 na revista shoujo Melody, que é para um público mais velho.  A série foi muito premiada e já foi adaptada para live action inúmeras vezes, a última adaptação estreou este ano na NHK e terá uma segunda temporada.  

Pois bem, Ōoku é uma série de história alternativa, que começa no início do século XVI, quando uma terrível doença, a varíola vermelha, dizima a população masculina, em especial, os jovens.  Este evento serve de ponto de divergência, algo importante no gênero história alternativa (ucronia),  entre a nossa linha temporal e a da série.  A carência de homens foi fator determinante no fechamento do Japão ao contato com o exterior (Sakoku).  No início, havia a esperança de que a doença fosse embora e houve o esforço para a manutenção da estrutura patriarcal da sociedade japonesa, porém, conforme o tempo passava, as mulheres terminaram assumindo o poder, porém, resquícios desse mundo dominado pelos homens continuaram lá e intrigavam a 8ª shogun, Yoshimune.

A série começa com a ida do jovem Yunoshin Mizuno para o Ōoku.  Ele faz parte de uma família samurai empobrecida, ele ama uma mulher rica da casta dos comerciantes chamada O-Nobu e não pode se casar com ela.  Ao ir para o Ōoku, ele conseguirá recursos financeiros para a sua família, permitindo que sua irmã possa se casar, porque conseguir um marido para si era muito caro, e obrigaria O-Nobu a esquecer dele e aceitar um pretendente adequado.  No Ōoku, Mizuno acaba descobrindo um ambiente corrompido, marcado por intrigas e violências, inclusive de caráter sexual.  O fato de tantos homens jovens e saudáveis estarem ali confinados é uma demonstração do poder da shogun e um desperdício na opinião do jovem.

Guiado por Sugishita, um experiente funcionário do Ōoku, ele começa a se adaptar, mas atrai a atenção do Camareiro-Chefe do harém que decide tirá-lo da condição de serviçal e colocá-lo no grupo que pode ser digno da atenção da nova shogun e esta é Yoshimune, que chega da distante província de Kii para assumir o poder.  Fujinami, o Camareiro-Chefe, acredita que Mizuno vá atrair a atenção da soberana, o que de fato acontece, mas o que nem o rapaz, nem Yoshimune sabe, é que a a tradição do Ōoku obriga o primeiro homem que se deitar com a shogun a morrer, porque sendo ela uma virgem, ele lhe roubaria a pureza e derramaria seu sangue.  Assim, o alto oficial salvaria seu próprio amante, Matsushima, o homem mais qualificado a se tornar concubino da shogun, de uma possível seleção inicial.

Quando me deparei com o primeiro capítulo de Ōoku com 79 minutos, eu me assustei.  É o tamanho de um modesto longa metragem.  A escolha foi ousada e acabou sendo certeira.  Todo o primeiro volume do mangá coube dentro desse tempo, deixando de fora muito pouca coisa que está no original.  Para quem nunca leu nada do que escrevi sobre essa série, ou a desconhece, o primeiro volume pode ser lido como uma obra fechada, somente o seu último capítulo se presta a fazer a ponte com o que vem depois, porque mostra Yoshimune procurando entender por qual motivo as mulheres são obrigadas a usar títulos e nomes masculinos, é essa descoberta que leva a um flashback que começa no volume #2 e irá ocupar o restante da série.  Eu imagino que Yoshinaga começou a lançar Ōoku calculando que, caso o mangá não desse certo, ele poderia parar nesse primeiro volume.

Eu pensei que a Netflix iria fazer uma lambança com Ōoku, mas o primeiro capítulo, mesmo com uma animação abaixo da média, porque ela é mais estática do que dinâmica, e se afastando em alguns momentos do traço da Fumi Yoshinaga, conseguiu oferecer um espetáculo muito digno.  A própria animação mais parada pode ter contribuído para reforçar que se trata de uma atmosfera opressiva e cheia de regras, ou seja, ela ajudou a marcar muito bem o que é o Ōoku, além disso, a música, o uso da câmera foram muito competentes.  Os créditos finais tem algo de épico e, ao mesmo tempo, intimista.  Enfim, foi emocionante mesmo, porque eu nunca imaginei ver esse mangá transformado em anime.  NUNCA!  

E eu quase chorei pela forma respeitosa como o primeiro volume foi adaptado, como conseguiu igualar o filme de 2010, como não diminuíram o papel de Sugishita mostrando inclusive como ele se tornará próximo de Yoshimune, eu já fico imaginando o impacto quando Arikoto estiver em cena. Aliás, esse primeiro capítulo deixou o do dorama de 2023 no chinelo.  Sem chance de comparação.  A adaptação da NHK colocou o primeiro volume em uma hora de episódio e cortou todas as tramas paralelas que tanto sabor dão para a história.  O anime nos deu o duelo, permitiu aprofundar a personalidade de Sugishita, mostrou bem o caráter de Yosimune e não eliminou o menino costureiro.

Pena que sempre adaptem a mesma parte do mangá.  Eu iria ficar realmente atordoada se a Netflix anunciasse uma adaptação integral de Ōoku, uma segunda temporada, ou, pelo menos, o arco da vacina e o arco final, como será no dorama. Algo mais fantástico seria poder ver o arco de Yoshimune, quando termina o flashback, e entender quem é Manabe e o papel de Hisamichi, o braço direito e melhor amiga da shogun.  O anime cobriu muito pouco, pois pegou somente do volume 1 até o início do volume 4.  


Em português, a série tem como subtítulo "Por Dentro do Castelo", uma tentativa de aproximar do título em inglês "The Inner Castle", só que a ideia na língua inglesa tenta capturar o sentido na língua japonesa.  Ōoku quer dizer "grande interior", não é a parte de dentro do castelo, mas uma área dentro do castelo do shogun, em Edo, atual Tokyo.  Era a residência da esposa e das concubinas do chefe militar e governante de fato do Japão entre  1603 e 1867, além de toda uma multidão de serviçais.  Por isso, talvez ficasse melhor, "a parte de dentro do Castelo", ou algo próximo.

É isso, vou continuar assistindo e devo fazer mais resenhas, aviso que a série tem muita violência de vários tipos, não é material para crianças, a classificação indicativa é 16 anos.  Quinta-feira mesmo, vi que tinham lançado, também, mais capítulos legendados do dorama.  Ver Ōoku em evidência é algo realmente fantástico, fora que é um reconhecimento do trabalho de Fumi Yoshinaga.  Resta saber se essa atenção toda vai fazer com que algum dos seus mangás chegue no Brasil.  Se quiserem ler as resenhas dos volumes da série e outros textos que fiz sobre Ōoku, basta clicar na tag.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Ōoku: Data de estreia e trailer

Ontem, saiu o cartaz do anime de Ōoku (大奥), série da Netflix baseada no mangá homônimo de Fumi Yoshinaga, com a data de estreia, 29 de junho.  Ōoku conta uma história alternativa do Japão (ucronia), na qual uma epidemia de varíola vermelha  dizimou a população masculina, e as posições de poder e no mundo do trabalho foram ocupadas pelas mulheres, primeiro emergencialmente, depois definitivamente e o passado foi esquecido.  Há indícios de que as coisas um dia foram diferentes, mas o segredo é guardado.  Neste Japão alternativo, a shogun, líder político-militar do país tem o privilégio de ter um harém, o Ōoku, cheio de homens jovens e lindos a seu dispor, enquanto a maioria das mulheres sequer têm condições de ter um marido para chamar de seu.  Há resenhas de todos os volumes de Ōoku no blog, é só clicar na tag. Eu ia fazer um post, não fiz, ficou para hoje e eis que saiu o trailer.  Ele está abaixo.

O trailer mostra o que será abordado na série animada, e que é a mesma parte do mangá que já virou filme para o cinema (2010), série de dorama (2012) e dorama este ano, e que terá segunda temporada.  Teremos Yoshimune, a sétima shogun, ou seja, a história do primeiro volume e o primeiro arco da série, a história de Arikoto e Iemitsu.  Estou curiosa?  Estou, mas eu queria mais que isso, OK.  

sábado, 25 de março de 2023

Netflix anuncia o anime de Ōoku e minhas considerações sobre isso

Olha, foi uma surpresa ver o anúncio ontem, mas já era quase meia noite e eu não tinha ânimo para postar, mas é isso, entre os anúncios feitos pela Netflix no evento chamado Anime Japan, a plataforma de streaming anunciou que Ōoku (大奥), série de ficção científica (História Alternativa) de Fumi Yoshinaga vai virar anime.  Eu fiquei entre soltar rojões e virar os olhos, porque até onde sei, a maioria dos animes da Netflix tem uma produção abaixo da média, vide Seven Seeds, e Ōoku tem 19 volumes.

Vamos ao resumo, porque sei que há quem não conheça a história.  Estamos no início do século XVII e uma terrível doença se abate sobre o Japão.  4/5 masculina do país, especialmente, os jovens, morre da horrível varíola vermelha. Para evitar que o país seja invadido, o Japão se fecha para o contato com os estrangeiros, para que ninguém saiba da situação. Com a falta de homens, as mulheres assumem suas funções e mesmo o shogun é uma mulher.  Como forma de distinção, a shogun tem um harém, o Ōoku, onde ela tem somente para si uma quantidade obscena de homens, seja para dividirem a sua cama, ou fazerem outros serviços.  Mas, com o tempo, a doença começa a recuar, até ser extinta definitivamente, e o balanço de poder entre homens e mulheres será revertido.

Pelos frames no Comic Natalie, a adaptação, ou, pelo menos, as amostras que eles ofereceram, vai focar no início do mangá (*Vol. 1-3*).  Essa parte, aliás, foi adaptada em um filme de 2010, um dorama em 2012, e na adaptação live action que estreou neste janeiro na TV Tokyo.  Eu fiz resenha do primeiro capítulo da nova versão (*ainda estou aguardando que legendem o resto da primeira temporada, porque haverá uma segunda*) e ainda que considere o resultado bom, para que o primeiro volume caiba em uma hora, e no filme ele foi adaptado no dobro de tempo, sacrificaram muita coisa, as subtramas, o que Yoshinaga coloca de humor.  Vejam bem, se essas adaptações levarem as pessoas ao mangá, eu comemoro, mas o sacrifício que está sendo feito nessa conversão atual para dorama me deixou bem decepcionada.  Será que o anime irá fazer diferente?  

Sobre a informação, o que temos é o seguinte, o diretor será Abe Noriyuki, o Estúdio será o Deen, que fez muita coisa boa.  O roteiro será de Takasugi Rika e o character design de Sato Yoko.  Pelos frames a arte está muito diferente da série original, está meio morta, sem a beleza do original, genérica até.  Fumi Yoshinaga merecia uma série que, pelo menos, preservasse o seu traço, ou o espírito dele.  Pelas frames, vejam bem, pelo pouco que liberaram até o momento, não será assim, não.  Ainda não há data de estreia.  

Outra coisa, no anúncio, houve a dúvida de se a série é shoujo, ou josei.  Bem, sai na revista Melody.  Na wikipedia em inglês, está escrito que a revista era shoujo e, agora (*DESDE QUANDO? Nas notas do artigo, há links externos, não da Hakusensha, do mesmo ano, 2021, chamando a Melody de josei e shoujo*), é josei.  No entanto, Na Wikipedia japonesa continua como shoujo, eu fui checar para ver se tinha mudado.  Considerarei como válida a informação da página em japonês, até porque, a Melody, a Cookie, mesmo a Cheese, são aquelas revistas shoujo limítrofes, isto é, elas almejam um público mais velho e oferecem mangás que são mais sérios, mais dramáticos, o que, claro, não representa o todo da revista.  No fim das contas, as japonesas querem é ler bons  mangás e, às vezes, se apegam a uma revista, ou autora e, neste caso, a seguem para onde ela for.  De resto, para fechar o caixão, na conta do Twitter da revista, está que ela é shoujo.

Fora, claro, que virou quase moda entre alguns fãs de mangá tentarem tirar material shoujo da sua demografia original para mostrar que são pessoas maduras e que não leem material juvenil, isto é, shoujo, quando está cheio de shoujo muito mais complexo do que muita série que tem como alvo o público adulto mesmo. Eu até relevo esse tipo de atitude, quando ela é fruto da imaturidade, tipo o/a adolescente que quer mostrar que cresceu, agora, quando é coisa de gente supostamente bem informada, não.  É a mesma coisa que empurrar material shounen e seinen com romance como shoujo, ou josei, porque, bem, macho não gosta dessas coisas, então, tem que ser para menininha.