A nova temporada de animes já começou e já estou me atrasando, mas precisava separar um tempo para terminar Cenas de Awajima (Awajima Hyakkei/淡島百景), série baseada no mangá homônimo de Takako Shimura. Não encontrei scanlations completas da série, mas imagino que o anime cobriu todo o mangá, porque são somente 5 volumes e a série teve 12 episódios. Este é meu quarto texto sobre a Awajima; é um fechamento mesmo. Para as outras resenhas, é só clicar: 1 - 2 - 3. Como o mangá está em lançamento nos EUA, vou usar o resumo da Yen Press:
A Escola de Ópera de Awajima, para onde inúmeras garotas de todo o país convergem na esperança de um dia brilhar nos grandes palcos. Enquanto se esforçam para alcançar seus sonhos de estrelato, seu tempo em Awajima é repleto tanto de amizade e admiração quanto de competição e inveja. Os preciosos sentimentos de garotas que são, ao mesmo tempo, colegas e rivais são capturados com ternura nos retratos de um elenco de artistas!
Cenas de Awajima conta a história de uma escola de teatro musical; é a instituição, o centro da nossa história, o real protagonista da série, assim como no caso de Ōoku (大奥) de Fumi Yoshinaga. As meninas entram e saem de cena, frequentam a escola em anos, às vezes, décadas diferentes, seguem suas vidas que podem, ou não, se cruzar em outros momentos da série. A escola, no entanto, permanece como uma referência positiva ou negativa para elas. A inspiração de Awajima é o Teatro Takarazuka. A divisão entre atrizes que fazem papéis femininos (musumeyaku) e masculinos (otokoyaku) é a mesma, assim como o tempo de curso (dois anos), a ênfase na disciplina e na hierarquia etc. Por outro lado, a série parece introduzir coisas que não são típicas do Takarazuka, como as longas licenças das atrizes, a possibilidade de sair e voltar para Awajima e o fato de que algumas atrizes parecem se casar e continuar atuando. Isso não existe no Takarazuka.
Como pontuei em meu outro texto, Cenas de Awajima tem muitas persoangens, sua narrativa é fragmentada, não linear e opera em várias temporalidades, sem se preocupar com quem está assistindo. Às vezes, temos umas três temporalidades diferentes no mesmo episódio. É confuso, portanto, mas é a estrutura da série mesmo. Outra coisa, as personagens, pelo menos algumas delas, mudam de nome. As meninas têm seu nome de nascimento quando entram na escola, seu nome artístico depois que se formam e, as que se casam, têm o nome de casada. No mesmo episódio, os três nomes podem aparecer. Você desfoca um pouquinho e se perde. Fora isso, as legendas da Crunchyroll nem sempre são realmente boas, porque se eu, que sei muito pouco de japonês, estou estranhando certas coisas, imagino quem sabe a língua mesmo.
Não aconselho ninguém a fazer o que fiz hoje com uma série como essa, isto é, pegar CINCO EPISÓDIOS e assistir de enfiada. Mas eu precisava terminar ou acabaria deixando de lado, coisa que aconteceu com mais de uma série da temporada de inverno. São muitas personagens que entram e saem da história, que têm uma parte de sua história narrada em um episódio e eventualmente aparecem em outro, e você precisa estar atenta para perceber que o fulano ou a fulana já apareceu antes. De qualquer forma, já nos últimos três episódios, temos uma confirmação de quem são as personagens mais importantes de Cenas de Awajima: Wakana Tabata e Kinue Takehara, que acredito que foram alunas na primeira ou na segunda década do nosso século, e Katsurako Ibuki, que vinha de uma família com tradição em Awajima e acabou se tornando professora da instituição. As três personagens aparecem várias vezes.
Nos últimos três episódios, ficamos sabendo que Tabata teve curta carreira em Awajima, graduou-se e se tornou escritora de muito sucesso. Seus livros, alguns de memórias, outros romances, se entendi corretamente, falam de Awajima e ajudam a alimentar a mitologia em torno do teatro. Tabata participa de um evento em Awajima como palestrante e visita a professora Ibuki no hospital. Ibuki era uma professora estrita, temida pelas alunas, mas Tabata estabeleceu um laço de respeito, admiração e amizade com ela. Ibuki pede ajuda a Tabata para corrigir um grande erro do passado.
Katsurako Ibuki, quando era aluna, nos anos 1960, eu imagino, foi responsável pela desistência ou expulsão de uma aluna brilhante, Emi Okabe. As duas eram amigas, mas quando Okabe defende uma outra aluna e diz que ela era mais talentosa do que Ibuki e as outras meninas da roda de invejosas, ela passa a sofrer bullying. Sim, bullying do tipo que meninas costumam fazer, isto é, desprezo, maledicência, abuso verbal temperado de ironia e veneno, isolamento. O que Okabe diz desperta as inseguranças de Ibuki, porque sua avó, uma grande estrela de Awajima, sempre disse que ela não era boa, graciosa e bonita o suficiente para ser uma grande estrela. Ibuki parecia não se deixar atingir pela avó, mas, no fim das contas, isso não era verdade. Pior, a série colocou Ibuki arrependida de ter dito à velha o que ela merecia ouvir. Acredito que comentei sobre isso em minha segunda resenha.
Com a perseguição liderada por Ibuki, Okabe termina perdendo a paciência com ela, a agride e tem que sair de Awajima. A outra colega, a que tinha muito talento, termina atentando contra sua vida. Já tínhamos visto parte dessa história em um episódio anterior; algumas sequências se repetem, só que com mais detalhes. Ibuki quer que Tabata escreva um livro sobre o que há de tóxico em Awajima. O pedido vem em outra visita, que parece ter ocorrido com algum tempo de diferença. Sim, a história das várias temporalidades.
Tabata tem medo de que o relato transformado em livro ganhe ares sensacionalistas e manche a imagem da escola; fora isso, ela precisa da autorização da família de Emi Okabe para escrever sobre ela. Aqui, temos um problema de sobrenomes. O marido de Emi não é Okabe; aparece outro sobrenome, inclusive, mas, depois, ele parece ter o mesmo sobrenome que a esposa. Confuso, mas, neste caso, eu ouvi o diálogo; não estava na dependência da legenda. Um filho de Emi é contra; o viúvo e o filho mais velho são a favor. Achei o filho caçula jovem demais e o marido de Okabe deveria ser mais velho, porque Ibuki parecia bem mais velha. Poderia ser a doença, claro. O fato é que o viúvo acredita que a história de Emi deve ser contada e que isso poderia fazer diferença para alguém.
A editora do livro de Tabata é outra ex-aluna de Awajima, que nunca foi para os palcos. Depois da palestra de Tabata, ela decidiu seguir carreira na área de literatura. É outro indício de que anos se passaram entre a primeira visita de Tabata ao hospital e a segunda. Muito bem, o livro de Tabata é um sucesso, mas expõe Awajima como um lugar de bullying e competição. Ex-atrizes e alunas vêm a público dar seu testemunho. Tabata se sente culpada, mas eis que Awajima decide transformar o livro em peça. Alguém termina comentando que capitalismo é capitalismo. No fim das contas, Awajima irá lucrar e reforçar sua mística mesmo com todos os problemas que vieram à tona. E a mensagem final da série é de nostalgia em relação às várias gerações de meninas que passaram por Awajima e que tiveram suas vidas impactadas pela escola.
Gostei da série? Achei que gostaria mais de Awajima. O tom intimista me agradou, o foco nas personagens e seus dramas, mas queria ver mais das aulas na escola. Queria ver Ibuki coo professora, por exemplo, não somente em suas interações com Tabata. Só que não tivemos quase nada disso. E, em alguns momentos, os dramas não me convenceram tanto, a pareceram exagerados, mesmo em um anime com um tom muito contido. Um exemplo é no episódio da seita ou este final que coloca em evidência o bullying (ijime) que é um negócio muito presente nas escolas japonesas.
A competição em Awajima não deveria chocar ninguém, como parece ser o caso depois do lançamento do livro de Tabata. Talvez, se eu conseguisse rever a série, conseguiria compreendê-la melhor. O mais seguro, no entanto, será ler o mangá. Como o preço da versão Kindle é bem acessível, devo comprar a edição norte-americana. Deixo a recomendação para quem quiser assistir Awajima, mas com todas as ressalvas que escrevi, afinal, não é uma série de fácil digestão.














































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