quarta-feira, 8 de março de 2017

Mais um Oito de Março passando


Sei que preciso escrever um post sobre o 8 de Março.  É dever mesmo, mas tenho andado tão ocupada que fui acumulando posts, fora isso, esta semana, para piorar, me sinto doente, não sei se estou, mas me sinto.  Agravante três, falar do 8 de Março este ano me deixa um tanto deprimida.  Temos um governo que deseja roubar a dignidade de homens e mulheres do país, erodindo definitivamente o SUS, transformando o Brasil em um dos piores países para se aposentar, promovendo uma reforma do Ensino Médio que, provavelmente, tornará pior uma escola que está longe de ser boa.  De resto, saiu esta semana um relatório sobre desigualdade de gênero e raça que, bem, só mostra que os abismos continuam, não somente entre homens e mulheres, mas entre brancos e negros em nosso país.  Enfim, talvez seja um post tenso.

Só recordando, o 8 de Março surgiu – independentemente de sua origem – como uma data de lutas, de denúncia das desigualdades e das discriminações sofridas pelas mulheres.  Não é uma data festiva no sentido que muita gente lhe dá, isto é, mais um momento em que o comércio busca potencializar seus lucros com promoções de produtos “para mulheres”.  Tão pouco é um dia de lembra o quanto gostam de nós, mulheres, com distribuição de rosas e bombons.  Aliás, estranhamente, nem isso rolou no meu trabalho hoje.  A primeira vez desde que comecei a lecionar no CMB.  Sei lá se isso é bom, ou ruim...

Bertha Lutz: feminista, sufragista e cientista.
Partindo para as coisas mais densas, começo pela fala de nosso presidente em exercício.  Em seu discurso do 8 de Março, ele destacou dois atributos das mulheres: “Na economia, também a mulher tem grande participação. Ninguém é mais capaz de indicar os desajustes de preço no supermercado do que a mulher. Ninguém é capaz de melhor detectar as flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico (...) Tenho convicção do quanto a mulher, pela minha criação, pela Marcela, faz pela casa, pelo lar, pelos filhos. Se a sociedade vai bem, se os filhos crescem, é porque tiveram adequada formação em suas casas e, seguramente, quem faz isso não é o homem, é a mulher.”.  A secretária de Política para as Mulheres, Fátima Pelaes, veio em defesa do chefe, argumentando que ele é realista e, não, machista.

Posso dizer uma coisa?  Temer é tanto machista, quanto realista, e sua fala vem bem a calhar.  Apesar do nosso presidente e exercício parecer uma peça saída dos anos 1950, assim como sua jovem e b3la esposa, vejam que, no fundo, no fundo, segundo o relatório do IPEA, de 2014, ele não está tão errado, afinal, 90,7% das mulheres que trabalhavam fora cuidam das tarefas domésticas.  Já os homens, 8 em cada 10 não divide tarefas domésticas com suas parceiras.  As mulheres – ainda que exercendo uma profissão remunerada – cuidam muito mais do lar, dos filhos, das compras, enfim, tem dupla jornada.  Mesmo mulheres de classe média média e acima, se delegam algumas funções, o fazem para outras mulheres, babás, e empregadas domésticas, principalmente, ainda assim, não raro, são elas que supervisionam se tudo está indo bem.  Gerenciar, também, é trabalho.

Humanas, afinal. 
Resumindo, trabalhamos mais, algumas mulheres, muito mais, especialmente, em tarefas que revertem para o bem-estar de outros membros da família, só que este trabalho “sublime” não é remunerado.  Ainda bem que temos nosso presidente para nos lembrar de quão importante somos no 8 de Março, não é mesmo?  Só que, aí, vem este mesmo governo e quer igualar a idade de aposentadoria de homens e mulheres, afinal, isso seria militar pela igualdade de gênero.  Essas feministas é que só querem vantagens (*deve ser, por isso, que possivelmente perderemos umas 22 posições no Índice Global de Desigualdade de Gênero deste ano*).

Ora, se trabalhamos mais, se somos as principais responsáveis pelo bem-estar dos demais membros das nossas famílias, por qual motivo querem nos lembrar que somos iguais para nos extorquir mais anos compulsórios de trabalho?  Ao invés de reformarmos a sociedade (*ou a revolucionarmos, a depender de quem fala*), temos gestores e legisladores que desejam nos impor ainda mais cargas, neste caso, uma aposentadoria tardia, que, talvez, ajude a encurtar a vida de muitas mulheres pobres e negras.  Aquelas mesmas que já ganham, em média, os piores salários. O fato das mulheres viverem, na média,  mais que os homens incomoda, mas não o suficiente para repensarem o modelo tóxico de masculinidade vigente. É mais fácil nos tirar direitos sob a capa de promover a igualdade. 

Muylaert está correta.
Certamente, se houvesse mais equidade de gênero, seria justo que homens e mulheres tivessem que se aposentar com o mesmo tempo de serviço, no Brasil que temos, não é.  No entanto, a reforma da previdência nos roubará direitos, enquanto o próprio presidente ressalta o quanto trabalhamos para além de nossos empregos formais.  Daí, é muito ridículo ver homens se lamuriando de como as mulheres querem igualdade, mas não desejam se aposentar com a mesma idade que eles.  Ora, trabalhando sete horas e meia a mais por semana, seria muito estranho se nos calássemos e nos submetêssemos às reformas propostas por (*surpresa*) homens cujas esposas são, em sua maioria, belas, recatadas e do lar.

São muitas coisas me azedando para que eu conseguisse produzir um texto positivo nesse Oito de Março.  Mas há dados interessantes desses últimos dias, claro, sempre temos.  Bolsonaro foi considerado réu no STF por incitação ao crime de estupro e injúria.  Sim, ainda é aquela história de “você não merece ser estuprada”, que, espero, não termine em pizza.  Também estou faz dias com um artigo aberto no computador sobre estratégias para o aumento da representatividade das mulheres no cinema e na TV.  O texto é sobre Nicole Kidman e como ela está usando seu dinheiro e poder para promover filmes e séries que empreguem atrizes maduras e discutam temas de interesse das mulheres.  Isso é muito legal.  Outra boa notícia é que alunos e alunas da rede estadual do Rio de Janeiro receberão noções da Lei Maria da Penha.  Espero que os/as professores/as sejam competentes e comprometidos.

Explicadinho.
Vou terminar aqui.  Não escrevi um texto decente, eu sei, mas, como ressaltei lá no início, estou cansada e a cada 5, 10 minutos, Júlia vem me chamar.  Eu vivo na pele a experiência do trabalho extra que a maioria das mulheres tem que fazer.  Enquanto isso, meu marido está absolutamente desimpedido para usar seu “tempo livre”.  Não é de propósito, Júlia quer a atenção da mãe, não do pai, é algo cultural.  São práticas difíceis de mudar, já o preço, quem paga, são as mulheres.

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