quinta-feira, 30 de março de 2017

Uma História de Terror do Século XXI


Não acho que vivemos um dos melhores momentos da história da humanidade e esse já é um ponto de partida pessimista para este breve texto.  Agora, às vezes, a gente se depara com umas notícias tão surreais que mesmo já tendo lido muita coisa, acaba ficando impactada.  E eu preciso escrever, preciso dividir essa pequena angústia.  2017, século XXI, e uma mulher de 36 anos é resgatada do cárcere privado no Ceará.  Viveu por 16 anos em um cubículo, sem luz elétrica, nua, sem banheiro em sua cela, sendo alimentada duas vezes ao dia, ela já não era capaz de falar. Era mantida trancada à cadeado e quando vinham lhe dar banho, sempre tentava fugir.  Segundo o delegado: “Tivemos de romper dois cadeados e arames para tirá-la do cativeiro. Deu trabalho, pois, para ter acesso ao quarto, tivemos de passar por um terreno que tem três casas.”  Tétrico, sem dúvida.

Motivo do encarceramento?  Ela engravidou aos 20 anos.  O pai e o irmão não aceitavam uma mãe solteira na família e decidiram escondê-la.  Quando o bebê nasceu, um menino, foi entregue para ser criado por outras pessoas.  A moça estudava, tinha uma vida normal, mas "deu um mau passo", como minha avó, nascida em 1930, diria.  Foi o suficiente para todo esse terror.  Os relatos (*1-2*) falam que ela tinha ficado abalada pelo fim de um relacionamento.  Normal, não é mesmo?  A maioria das pessoas que namora, rompe, enfim, já ficou abalada.  O filho veio de um rápido namoro posterior.  Um acidente?  Talvez e custou-lhe a juventude, atirou-lhe na prisão.


Em que ano estamos de novo?  É possível que o machismo seja tão perene, tão forte, que tais práticas persistam em nosso país?  Será que ninguém deu por falta dela?  No colégio ou faculdade?  As amigas?  Ninguém a procurou?  Toda a cidadezinha era cúmplice?  16 anos!  O delegado já localizou o filho.  Como se deu o acolhimento?  A família "adotiva" não sabia de nada?  Não estamos mais no século XIX, tampouco o Nordeste, ou mais especificamente o Ceará, vive em outra temporalidade.  E, pior, poderia ocorrer em qualquer outro canto do Brasil, não se enganem.  Não é o primeiro caso de cárcere privado de mulheres que leio, simplesmente, me pareceu o pior, o mais terrível.  Vivemos um mundo de paradoxos.  Modernidade e atraso, mas é mais fácil, ou menos difícil, que certas coisas aconteçam com as mulheres.  

O problema são as motivações arcaicas do caso, que sinalizam a prevalência do status inferior das mulheres, do fato da frágil honra dos homens depender do controle dos corpos das SUAS mulheres.  O responsável maior pela atrocidade, o irmão de 48 anos, está preso e pode pegar no máximo 8 anos de cadeia, mas eu duvido.  O pai, talvez a mente por trás do encarceramento, teve sei lá quantos AVCs e não responde por si.  A mãe da encarcerada, nunca concordou com o acontecido, mas se submeteu, se calou, não é o que o patriarcado exige?  Submissa, adoeceu e está entrevada em uma cama.  Seu único ato de resistência, segundo a matéria, foi adoecer e parar de falar.


Eu fiquei me sentindo mal.  É fácil encher a boca e falar que nos rincões do Afeganistão, em um vilarejo perdido da Índia, em uma comunidade tribal em algum canto da África, as mulheres passam poucas e boas.  É aviltante, mas aceitável, pegar o livro Princesa e ler que um pai na Arábia Saudita mandou encarcerar a filha rebelde, mas, aqui, no Brasil, podemos ser uma terra de feminicídios, mas não somos tão arcaicos.  Somos, podemos ser.  Está aí.  E as fotos da prisão só me fazem imaginar o desespero desta mulher.

Desculpem, mas precisava comentar, chorar.  Eu sou mulher e feminista.  O sofrimento de qualquer mulher é meu sofrimento, também.  E eu só posso imaginar e imaginar já dói.  Eu tenho uma menina de três anos.  É terrível pensar que ela possa ser tirada de mim  Torço para que haja punição pelo menos para o irmão, mas qualquer  que seja, nada, nada vai compensar os anos roubados dessa mulher, o direito de maternar que lhe foi tirado, a desumanização, enfim.  Nada.

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1 pessoas comentaram:

QUe pesado Valéria. Fica minha indignação e meu abraço virtual.

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