sábado, 8 de abril de 2017

Comentando To Walk Invisible, o especial de fim de ano da BBC sobre as irmãs Brontë


Domingo passado, finalmente, terminei de assistir To Walk Invisible (BBC, 2016), filme da BBC sobre as irmãs Brontë, Charlotte (Finn Atkins), Emily (Chloe Pirrie) e Anne (Charlie Murphy).  Três mulheres brilhantes que deixaram sua marca na literatura inglesa e mundial.  Gostei do filme?  Sim, mas, ao mesmo tempo, o achei tímido, aquém do que poderia ser, e, apesar de todo o zum-zum-zum sobre seu conteúdo feminista, muito centrado no irmão das escritoras, Branwell (Adam Nagaitis).  Nesse sentido, estou concordando com a crítica do site Frock Flicks, o link é este aqui.

O filme cobre alguns anos da vida das irmãs Brontë, começando mais ou menos em 1845 e seguindo até a morte de Branwell, em 1848.  Emily, Anne e Charlotte passam a residir com o pai, o reverendo Patrick Brontë (Jonathan Pryce), e presenciam a degradação física e mental do irmão, alcoólatra e viciado em outras drogas, também. Neste curto período vemos como as três mulheres publicam suas primeiras obras sob pseudônimo masculino (*Currer, Ellis e Acton Bell*), assistimos várias discussões sobre as limitações impostas às mulheres na Era Vitoriana e sobre a necessidade de garantir o sustento sem estar sob a dependência masculina.

Charlotte está quase sempre de cara fechada.
Talvez você não conheça nada sobre as irmãs Brontë, mas, muito provavelmente, já ouviu falar de alguma de suas obras, O Morro dos Ventos Uivantes, único romance de Emily, é muito famoso com várias filmagens, adaptações e referências em outras obras, como, por exemplo, o mangá Glass Mask. Já, Jane Eyre, a obra que fez a carreira de Charlotte deslanchar, é refilmado a cada dez anos mais ou menos.  Anne é menos conhecida, morreu jovem e nem teve tempo de ver o sucesso de seu segundo romance, uma das obras mais feministas do século XIX, The Tenant of Wildfell Hall,  fiz uma resenha recente sobre a adaptação para a TV de 1995.  O fato é que raramente se viu tanto talento literário em uma mesma família, especialmente, quando pensamos nas limitações impostas às mulheres durante o século XIX.

Para quem está acostumado com Jane Austen, a vida classe média baixa da família Brontë é um grande choque.  Ao contrário das heroínas de Austen e da própria autora, as Brontë tinham uma alternativa econômica ao casamento, elas foram educadas com a perspectiva de se tornarem professoras, ou governantas caso (*ou enquanto*) não conseguissem um noivo adequado.  Todas exerceram as duas funções, ou pelo menos uma delas, durante a vida.  A educação de mulheres de sua classe social poderia implicar em algum treinamento e, ainda que exercer uma profissão remunerada pudesse ser vista como fonte de certa humilhação, trabalhar era uma forma digna de sobrevivência e mesmo autonomia.

O irmão bêbado.
No especial, vemos as irmãs morando na casa do pai e toda a vida familiar um tanto que suspensa em torno da doença do irmão, Branwell.  O sonho de Charlotte e Emily, abrir uma escola, tinha fracassado.  Anne voltara para a casa paterna humilhada, porque seu irmão, que trabalhava para a mesma família, tinha se envolvido com a esposa do patrão.  Há muita raiva das irmãs em relação à Branwell, e cada uma a expressa sua maneira, afinal, o pai viúvo e a tia, que fez as vezes de mãe para os sobrinhos, depositara no rapaz todas as esperanças e economias da família.  E é em Branwell que reside o problema do filme.

Há tanto o que falar de Charlotte, Emily e Anne, tanto!  Os tempos de escola para meninas pobres, modelo para a que aparece em Jane Eyre, ceifou a vida das duas irmãs Brontë mais velhas.  Charlotte cresceu franzina, provavelmente por conta das privações a que foi submetida.  Emily, mais nova, passou pouco tempo na escola e Anne nunca colocou os pés lá.  O tempo que Charlotte e Emily passaram estudando em Bruxelas, e que rendeu o amor não correspondido da mais velha pelo diretor da escola.  Daí, o romance The Professor, o primeiro que Charlotte escreveu e que foi rejeitado pelos editores.  Nada disso é abordado com a mínima profundidade.

O laço entre Emily e Anne é forte.
Há poucos flashbacks, por exemplo, há cenas da infância dos irmãos, absorvidos em criações de mundos literários desde a mais tenra idade, mas não passa muito disso.  Conforme foram crescendo, Emily e Anne se dedicaram a seu mundo fantástico, Gondal, enquanto Charlotte e Branwell se dedicaram às sagas de Angria.  A ligação mais forte de Charlotte era possivelmente com o irmão e o filme coloca nela uma raiva quase incontida contra a destruição que o jovem causa na família, com suas mentiras, gastos exagerados, bebedeira, enfim, Branwell é tudo, menos gostável.  São de Charlotte as falas mais ásperas, mais críticas, é ela que questiona um mundo que infantiliza as mulheres e as joga na dependência de seres tão desprezíveis quanto Branwell, simplesmente, porque ele é homem.

Concordando com o Frock Flicks, e isso não é desculpa, talvez a diretora e roteirista Sally Wainwright tenha escolhido falar da decadência física e mental de Branwell para ressaltar o quanto a vida das mulheres estava subordinadas ao masculino.  O irmão que deveria zelar por elas, não tem condição de cuidar de si mesmo.  O pai, já idoso, é mais dependente do que senhor da casa e, ao mesmo tempo, para efeitos legais, tem domínio sobre as filhas.  Sua morte, caso não tenham como se manter, as condenará à miséria, afinal, como pastor, sua casa e propriedade são da paróquia.  As irmãs nada têm de seu. Vê-se no filme a forma complacente como o pai tratava o filho bêbado e mentiroso, passando a mão em seus mal feitos, incapaz de chama-lo à responsabilidade.  Todo o investimento maior tinha sido em Branwell e ele colocara tudo a perder com seus vícios.  

Emily mantinha seus escritos escondidos.
Emily, a mais tímida e caseira das irmãs, descarregava sua raiva em longas caminhadas na charneca – inspiração para O Morro dos ventos Uivantes – e em uma poesia carregada de sentimentos fortes, violentos que recebe destaque em alguns momentos do filme.  Em relação ao irmão, no entanto, ela é correta, abnegada, a própria representação do dever.  Ela não se revolta, ela veste o dispositivo amoroso e engole sua dor e frustração.  É a única das irmãs mostrada entregue às prendas domésticas, por exemplo, e tem uma explosão de raiva ao ter sua intimidade invadida por Charlotte, que encontra seus escritos.

Já, Anne diz que escrever é o que lhe dá vida, ela faz a ponte entre as irmãs, ambas muito duras, mas amorosas com ela de uma forma, ou de outra. Função de caçula, talvez.  Anne consegue embarcar na proposta de Charlotte, tentar ganhar a independência através de sua pena.  Sua morte prematura, meses depois de Emily e do irmão, tornaram sua carreira a mais apagada, já que Charlotte meio que censurou a obra de Anne, talvez a mais ousada das irmãs quando o assunto era crítica social e posicionamento feminista. Sim, se o filme não terminasse com a morte de Branwell poderíamos ver isso discutido em tela, mas todo o roteiro girou em torno do rapaz, ainda que a proposta fosse falar dde Charlotte, Emily e Anne.

Escrever, escrever, escrever.
A questão da carreira literária feminina, no entanto, é bem abordada no filme.  Por qual motivo assinar com nome de homem?  Um homem é julgado por sua obra, já uma mulher escritora é julgada como mulher antes de tudo.  O sucesso veio, algumas especulações giravam em torno da suspeita de que um ou outro livro poderiam ter sido escritos por uma mulher, mas a crítica literária acabou acolhendo O Morro dos Ventos Uivantes, Jane Eyre e Agnes Grey.  As irmãs fizeram um pacto de se manterem invisíveis, mas por uma questão de necessidade, tiveram que se revelar.  Emily não concordou, daí, outra crise com Charlotte.  Mas, de novo, o filme volta para o drama de Branwell, muitas cenas com ele e as irmãs ficam pairando em torno do rapaz.  Desperdício.

E, como o filme termina com a morte de Branwell, temos somente legendas falando que Emily e Anne se foram meses depois.  Charlote ainda viveu muitos anos, fez amizade com mulheres importantes de sua época, ativistas dos direitos das mulheres e romancistas como Elizabeth Gaskell (*de North and South e Wives and Daughters*), que escreveu sua biografia.  Charlotte casou-se, algo que Gaskell apoiou e outra amiga, que aparece no filme, Ellen Nussey (Gracie Kelly), lamentou.  O fato é que Charlotte morreu grávida aos 38 anos.  

Estátua das irmãs na frente do museu em sua honra.
Sua constituição física, ela era franzina, baixinha, e a atriz que colocaram para interpretá-la no filme também é, era muito frágil.  Ela teve muitos enjoos, mal conseguia comer e, hoje, já se considera que ela pode ter morrido em virtude da má nutrição e, não, de tuberculose.  Enfim, uma carreira ceifada muito cedo, mas pensem que Anne morreu bem antes, aos 29 anos, Emily, aos 30.  De resto, é um filme muito bonito visualmente, a charneca, o figurino, enfim, vê-se o investimento feito na produção, que termina mostrando o museu em homenagem às irmãs nos dias de hoje.

Eu ainda quero ver uma minissérie sobre as irmãs Brontë, ou sobre Charlotte, que não fique se desviando para dar atenção à Branwell.  Quero que falem delas, sua vida, suas obras, a partir delas, nada de desvios, concessões ao drama (*que ele procurou*) do irmão que nunca conseguiu desenvolver seu potencial.  Enfim, To Walk Invisible é bom, mas fica no meio do caminho de ser excelente.  Tem momentos feministas, e poderia ser ótimo sem eles, não reside aí a crítica, mas é centrado em demasia no masculino.  De resto, fiquei fascinada pela potência das poesias de Emily, que eu não conhecia, e me mordendo de vontade de ler as obras das irmãs pela primeira vez, ou de novo.

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