quinta-feira, 27 de abril de 2017

Se não puder parar amanhã, reflita e ajude


Amanhã, haverá uma greve geral, ou, pelo menos, assim esperamos.  Trata-se de um movimento legal, diga-se de passagem, porque o direito de greve, conseguido à duras penas, ainda não foi confiscado dos trabalhadores e trabalhadoras.  Talvez, a data perto do feriado não tenha sido a melhor escolha, mas foi escolhida para coincidir com a votação das reformas trabalhistas que tem tirado o sossego de muita gente.  A greve também ocorre em memória da greve geral de 1917, a primeira da história do Brasil.  Por que estou falando disso, aqui, no Shoujo Café?

Escrevo, porque preciso, escrevo, porque a maioria dos leitores e leitoras do site são muito jovens.  Alguns, talvez, nem estejam no mercado de trabalho ainda e, quando entrarem, terão menos direitos, condições piores do que eu tive quando comecei. Sem debate com a sociedade, só maciça propaganda estatal e dos que ganham muito com as mudanças, ou com os patrocínios, as reformas são cantadas como fundamentais, é isso, ou a ruína da nação, terrorismo mesmo.  Talvez, sejam convencidos a achar normal não terem férias (*se terceirizados, é quase uma certeza*), trabalharem até 12 horas por dia, terem reduzido seu horário de almoço, porque, como disse um figurão da FIESP, um dos agentes patrocinadores da “modernização”, o trabalhador pode comer o sanduíche com uma mão e operar a máquina com a outra.  Isso, claro, em um dos países campeões de acidentes de trabalho é uma fala temerária.

Há quem tenha saudades, mas o PMDB está fazendo
a ponte para o futuro do passado mais sombrio.
Talvez, você também seja levado a achar normal que a aposentadoria não seja pensada para seu mínimo sustento, que o aposentado – que começou a ser chamado depreciativamente de “inativo” no governo FHC – explora o Estado e os que estão trabalhando, quando, na verdade, aquele homem e aquela mulher, agora idosos, contribuíram para terem o direito ao devido descanso remunerado.  Você, também, talvez seja levado a não se questionar o motivo de quererem punir os mais pobres e desamparados, quando o governo mantém isenções fiscais descabidas para os muito ricos e não se preocupe com os grandes sonegadores da previdência, ou ainda, utilize o dinheiro da própria previdência para outros fins.  Isso, dizem eles, não importa.  De repente, você imagine que nunca precisará se aposentar, na verdade, provavelmente, a maioria nunca poderá se as reformas forem passadas, seja na versão antiga, ou na nova.

Eles – membros do executivo e legislativo, especialmente – são os mesmos que se recusam a rever seus régios salários e pensões, fora, claro, o envolvimento com a corrupção, que é o roubo sistemático dos nossos impostos, do nosso futuro.  Para eles, do executivo e legislativo, entretanto, há um só caminho: contenção fiscal, confisco de direitos dos trabalhadores, maiores cargas aos mais pobres.  Por exemplo, o secretário da previdência de Temer é envolvido com a maior empresa que vende planos de previdência privada no país.  Feliz coincidência, não é?

Contra as reformas: Greve Geral.
Previdência social, condições dignas de trabalho e leis que protejam os trabalhadores, não são bandeiras exclusivas da esquerda, são questões sérias e, em qualquer país decente, assunto de todos.  Ainda que as legislações sejam diferente, e os salários, também, vejam lá quanto é um salário mínimo ou uma aposentadoria em vários países iguais ou em melhores condições que o nosso, cabe ao Estado zelar pelo bem estar do povo.  O nosso, o atual, parece querer entregar tudo, a começar por nossos direitos mais básicos.

Por isso, fiquei muito feliz quando o Papa Francisco, curiosamente, o líder mais progressista da atualidade, se recusou a vir ao Brasil e expôs a perversidade das reformas.  É uma voz poderosa contra as injustiças.  Alguém importante, muito mesmo.  Todas as outras adesões, são bem-vindas, mas não sei se o governo ouvirá.  Só se as manifestações forem enormes.  Agora, ano que vem, há eleições e nada do que está sendo feito não pode ser revertido, ainda que recuperar direitos seja missão dificílima. Lembrem-se se não tivéssemos um legislativo tão ruim, essas reformas não andavam.

Homens, mulheres e crianças na greve de 1917.
Sei que, talvez, alguém leia e fale, mas quem votou na Dilma, votou no Temer. Sim, votou, é um pacote só, mas não votou nesse projeto, nem esperava ver ministérios chave nas mãos do DEM e do PSDB.  Sabe, eles perderam a eleição, não deveriam estar governando.  Fora isso, nem em campanha propuseram esse projeto descarado que temos aí, porque, bem, dificilmente ganhariam com ele.  Mas houve um golpe, que já foi confessado abertamente.  Mas que importam?  Se quando vice Temer se importava tanto com campanhas de popularidade, agora, seus 4% são mero detalhe.

De resto, amanhã irei às manifestações.  Meu trabalho, o Colégio Militar de Brasília, não irá fechar, é compreensível, dado o perfil da instituição, mas a maioria dos professores civis estará na Esplanada.  Será minha primeira vez lá.  No Rio, minha última manifestação foi contra a privatização da Petrobrás ainda no governo FHC.  Eu era jovem, bem jovem.  Agora, vou principalmente por acreditar que preciso fazer isso pelos atuais jovens e pela minha filha.  Sentiria vergonha de olhar para ela no futuro e simplesmente dizer que nada fiz, que só me dava ao trabalho de fazer militância virtual.

Mulheres nos protestos em 1979, Teerã.  Quanto se perdeu e quão rápido?
Por conta disso, e de ouvir de novo o Shoujocast de Orgulho & Preconceito, lembrei de um livro excelente, Lendo Lolita em Teerã.  A autora, uma professora de literatura, me apresentou o livro de Jane Austen de forma muito irresistível e mostrou a experiência de uma mulher adulta, assim como eu sou agora, que se esquivou de ir para as ruas o quanto pode.  Ela chegava a dar falta para os alunos e alunas que faltavam as aulas na universidade para militar.  Estava ocorrendo a Revolução Iraniana e, quando ela percebeu, esta já tinha se tornado uma revolução islâmica. Quando ela foi para a rua, já era tarde demais e só lhe restou usar o chador.  Ela caiu em depressão, passou anos sem sair à rua, só tomou coragem de novo, quando as universidades foram reabertas e ela convidada a lecionar de novo.  

Eu não quero ser acusada de me mover somente quando for tarde demais.  Aliás, talvez até já seja. Outro livro que me vem à mente em tempos tão sombrios é O Conto da Aia.  Pode parecer exagero, um mero conto de ficção científica, mas para perdermos direitos, especialmente, nós, mulheres, não é difícil.  Aliás, é muito, muito fácil.  O que pode parecer exagero ontem, pode se tornar uma dura realidade hoje.  Olhe aí essa reforma trabalhista que sepulta a CLT e nos joga em condições cruéis semelhantes às que em 1917 fizeram São Paulo (*e outras cidades*) parar.  Eles e elas lutavam por jornada de 8 horas diárias e horas extras remuneradas, ontem, no projeto de reforma aprovada, ganhamos 12 horas como possibilidade.  Esta semana mesmo já estourou um escândalo: uma prefeitura de Santa Catarina fez leilão de terceirização para contratar professores.  Quem pagasse menos levava.  Já é resultado da possibilidade de terceirizar até as atividades fim.

Que futuro nós queremos?
É como voltar às épocas nas quais a luta sindical era atroz. Aliás, outra campanha é para nos fazer desacreditar da luta coletiva. Demonizar os sindicatos, ao mesmo tempo em que exaltam os acordos coletivos acima do legislado. Como sindicatos fracos, ou inexistentes, terão poder de barganha?  Não em nossa realidade.  Em breve, quando estiver dando aula de Era Vargas, talvez, tenha que convencer meus alunos e alunas que aquelas leis de 1943 não são fruto da imaginação de um/a autor/a de ficção científica.  É isso. Se paro amanhã, se vou à manifestação, é pelo futuro, o meu, o de vocês, o de Júlia.  Se não puder parar, veja aqui como ajudar.

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