domingo, 4 de junho de 2017

Comentando Mulher Maravilha (Wonder Woman, 2017)


Quinta-feira, assisti ao filme da Mulher Maravilha.  Trata-se da primeira vez que a personagem, criada no âmbito da II Guerra Mundial, em 1941, ganhou uma superprodução para o cinema.  Isso é particularmente notável, afinal, o resto da tríade da DC – Super-Homem e Batman – já tiveram vários grandes filmes para o cinema, porém, nada surpreendente, pois sendo uma super-heroína, uma mulher, a personagem foi muito maltratada e negligenciada ao longo dessas sete décadas.  O surpreendente, e isso é mérito da diretora, Patty Jenkins, e da protagonista, Gal Gadot, também, o primeiro filme da Princesa Amazona funcionou e muito bem na tela grande como apresentação de personagem e como filme de ação.  A DC deve estar exultante e, talvez, lamentando não ter investido antes na Mulher Maravilha.

A história do filme começa no Louvre, nos dias atuais, e faz a ponte com os acontecimentos do filme Batman vs. Super-Homem.  Diana Prince recebe de Bruce Wayne a foto da Mulher Maravilha na I Guerra Mundial, na Bélgica, e começa a lembrar de seu passado, de como se tornou uma super-heroína.  Somos então levados para a Themyscira, lar das Amazonas sobreviventes de uma guerra entre o pai dos deuses olímpicos, Zeus, e seu filho Ares, o deus da guerra.  Diana (Lilly Aspell/Emily Carey), filha da rainha Hipólita (Connie Nielsen) é então apresentada.  Uma criança muito talentosa e que deseja aprender as artes da guerra.  Contra sua vontade, e pressionada por um grande segredo, a rainha permite que sua irmã, a general Antíope (Robin Wright), torne Diana uma verdadeira guerreira amazona, mas exige que ela seja submetida ao mais duro dos treinamentos.


Um poder tão forte que esgarça a proteção da ilha das amazonas.
Adulta, a jovem Diana libera um estranho poder que enfraquece temporariamente a proteção mágica que torna Themyscira invisível e inalcançável.  Pela fenda, passam o espião norte-americano Steve Trevor (Chris Pine) e marinheiros alemães que estão em seu encalço.  Há uma batalha na praia e a morte é apresentada à Diana da forma mais terrível.  A princesa passa a alimentar o desejo de deixar sua ilha e seguir para o mundo dos mortais onde Ares parece estar novamente liberto e causando grande destruição.  Para Diana, seu destino é matar o deus da guerra e salvar a humanidade, mas há muitas coisas que ela desconhece e a princesa não faz ideia do que encontrará no mundo dos mortais e das experiências que irá passar em Londres e nos campos de guerra da Bélgica.

O que dizer do filme da Mulher Maravilha sem estragar seu prazer de ir assistir ao filme?  E eu quero ver de novo.  Bem, a maioria das resenhas vêm caminhando juntas, o filme é o melhor da nova leva da DC.  Algo que não seria difícil, verdade, mas Mulher Maravilha é um bom filme, com um roteiro coeso, sem cenas desnecessárias, com piadas que funcionam, um romance que ajuda no andamento do filme e faz sentido, além de lutas muito bem coreografadas.  A batalha na praia, quando as Amazonas precisam defender sua ilha é muito, muito boa, assim como as cenas do treinamento de Diana.  Eu destacaria nessa primeira fase do filme a atuação de Robin Wright, sua Antíope é uma das melhores coisas da película.


Antíope é maravilhosa.
Como todo filme de apresentação, Mulher Maravilha poderia se tornar arrastado em algum momento.  Contar a origem de um herói, ou heroína, pode ser uma armadilha, mas conseguiram apresentar a Mulher Maravilha, que não é chamada de Wonder Woman em nenhum momento do filme, de forma articulada e sem atropelos ou demoras excessivas.  A infância, a inserção das Amazonas na narrativa mitológica, o treinamento, o primeiro contato com o mundo exterior e a decisão de partir.  Diana se encontra pressionada entre a mãe, que quer protegê-la, e a tia, que deseja prepará-la para quando o “momento” inevitável chegar.  Apesar da força e do talento congênitos, por assim dizer, o filme enfatiza a necessidade de aprendizado.  

Diana só se torna a heroína que é, porque se esforça, porque é disciplinada, enfim, são valores importantes a se celebrar, eu diria, e o filme consegue desenvolver muito bem a questão.  A Diana do filme, não é a Mulher Maravilha original, tampouco a de George Perez, é a dos Novos 52.  Não tenho problema nenhum em dizer que não gosto da idéia de Diana semideusa, a personagem está muito forte, prefiro a heroína menos superpoderosa, mas vejam, eu prefiro, de forma nenhuma ficou ruim a escolha que o filme fez.  Dos poderes de Diana, o que mais gostei foi a capacidade de falar várias línguas.  É sempre muito constrangedor que nos filmes todo mundo se entenda tão bem.  No caso das Amazonas, é um dom que permite compreender os outros e se fazer entender.


Hipólita não quer que a filha cumpra seu destino.
Gostava mais da heroína esculpida pela mãe do barro, sem interferência masculina, ainda mais de Zeus.  Esta é minha origem preferida, a primeira.  Outra coisa que senti falta no filme foi o concurso para escolher a amazona que iria par ao mundo dos mortais com Steve Trevor.  É uma sequência muito importante da história da Mulher Maravilha e ficou de fora.  O filme caminhou de forma diferente, bem diferente, mas, de novo, de forma coerente com a história que estava contando.

Agora, a simplificação da mitologia grega me incomodou muito, muito mesmo.  Ares, da forma como foi construído e apresentado, como a divindade que “sopra no ouvido dos homens (*e mulheres*)” as idéias daninhas, mas que não é responsável pelas escolhas que os humanos fazem ficou muito, mas muito próximo mesmo, da ideia de diabo cristão.  Até o capacete tinha chifres.  Foi uma simplificação desnecessária e a uma aproximação complicada com a mitologia cristã.  Esta parte, sim, vejo como ruim, uma escolha infeliz, por assim dizer.


O primeiro homem a colocar os pés em Themyscia.
Seguindo na análise do filme, Mulher Maravilha se beneficiou de escolhas felizes.  Quando Gal Gadot foi escolhida par ao papel, e eu comentei no Shoujo Café essa questão, certamente o que pesou mais deve ter sido o fato dela ter perfil, sim, ficou comprovado em tela, mas, também, ser barata.  Não era uma estrela, tinha um currículo limitado, e se arriscaria em um terreno minado, porque muita gente apostava contra a heroína (*fiquei feliz de ver meu marido morder a língua e sair encantado do filme*) e previa uma desgraça para a DC e para a Warner.  Só preciso dizer uma coisa, agora, a Marvel vai precisar se esforçar muito no filme da Capitã Marvel, muito MESMO.

Gal Gadot, que foi Miss Israel e militar, conseguiu se apropriar da Princesa Amazona.  Ela será, sem dúvida, a Mulher Maravilha daqui por diante, talvez, para sempre.  Ainda que outras atrizes encarnem a personagem depois dela, a referência será Gadot.  E cabe falar de uma coisinha.  Há um zum-zum-zum na internet, especialmente, em sites progressistas, porque Gadot é israelense, como se ser israelense fosse um demérito, e por ter servido na IDF.  Há quem não saiba, mas serviço militar é obrigatório para homens e mulheres cidadãos israelenses.  Há os dispensados?  Sim, normalmente, por motivos religiosos.  Mas fugir do alistamento é algo que ainda causa iindignação no país.  


Diana Prince usava óculos em seu disfarce.  Será que foi uma homenagem?
Uma modelo israelense famosa, Bar Rafaeli, é mal vista no país por ter mentido para não servir ao exército.  Há, também, os refusenik, aqueles que se recusam a servir às forças armadas por motivos de consciência, ideológicos, enfim, normalmente ligados à política israelense em relação aos palestinos.  Esses, pagam o preço pela sua decisão.  E eu os vejo como criaturas admiráveis.  Agora, aqueles que servem ao IDF não são criminosos por princípio.  Estão querendo queimar Gadot na fogueira, ou se angustiar por terem gostado do filme, porque a atriz mandou mensagem para os soldados, homens e mulheres, do IDF, por expressar sua desaprovação ao Hamas.  Esquecem que na mesma mensagem ela fala em coexistência.  

Obviamente, se você não acredita na possibilidade dos dois estados, um palestino e, outro, israelense, você vai achar um horror de qualquer jeito.  Há israelenses que acreditam e lutam por essa possibilidade.  Enquanto isso, praticamente todos os países árabes e muçulmanos trabalham contra essa ideia que foi a da resolução da ONU.  A eles se juntam a direita e extrema-direita israelense, muitos religiosos, e mesmo cristãos que veem Israel como peça chave para o cumprimento de suas profecias apocalípticas.  


O visual do filme é muito bom.
Enfim, há muito caroço nesse angu e se eu acho até razoável que o Líbano censure o filme por ser estrelado por uma israelense, mas considero ridículo a chorumela por parte de sites feministas que acham que criticar o Hamas, que faria com as mulheres palestinas o mesmo que o Talebã fez no Afeganistão se pudesse, ou mandar um “alô” para os soldados israelenses é uma ação criminosa.  Menos, eu diria.  O mundo não é cor de rosa, tampouco, preto e branco.  E não vou deixar link para nenhum texto que segue essa linha que critiquei, encontrar é fácil.  

Desviei muito de novo, não é?  Mas voltemos.  Meu maior medo em relação ao filme era transferi-lo para a I Guerra Mundial.  Tanto tinha medo, que evitei comentar o filme no blog.  Poderia ter feito textos reclamando, mas preferi calar mesmo.  Vendo o filme, bem, ficou tudo redondinho, ou nem tanto, já que seria mais coerente que Trevor fosse britânico do que americano, encaixaria melhor, mas estar na Grande Guerra e, não, na Segunda Guerra, não causou problema.  O roteiro deu conta do recado.  Agora, tive que ouvir, e com razão, meu marido dizendo “Ah, então a Mulher Maravilha é o Capitão América da DC?”.   Sim, o grupo de sujeitos que acompanha a heroína até a Bélgica, a presença do escudo, Trevor assumindo de certa forma o papel de Bucky (*sem spoilers*), foi uma aproximação perigosa, mas que deu certo.  Raramente, aliás, um filme funcionou tão bem.


Não adianta tentar convencê-la que Ares não está por trás da guerra.
Coisa interessante de Mulher Maravilha, as piadas funcionam.  Há algumas de duplo sentido (*e como acho o Chris Pine canastrão...*) em relação a sexo.  Há piadas sobre o deslumbramento da heroína com o mundo dos mortais, sua inocência.  Há um leve e bem aplicado fanservice.  Falando da inocência de Diana, da sua ignorância das regras sociais, especialmente, da desigualdade entre homens e mulheres, ela possibilitou umas cenas muito boas, também.  Quando ela invade a reunião do Parlamento, quando faz a analogia entre o trabalho de secretária e a escravidão, enfim, tudo bem bolado.

Falando de romance, ele se desenvolve de forma segura ao longo do filme.  O interesse pelo ser estranho, um homem, o constrangimento de Trevor com a proximidade da heroína, uma mulher espantosa em todo o sentido. E, bem, o fato de Diana não ter amarras ridículas em relação ao sexo, só curiosidade, mesmo, foi algo coerente com a personagem e empoderador.  O sexo acontece (*censura 10 anos*), depois que os dois se apaixonam, e a coisa flui naturalmente.  Trevor nessa parte já tinha entendido que estava se relacionando com um ser extraordinário e o filme não investe em situações desnecessárias de excessivo cuidado, ciúme, ou o que seja.  Se em um próximo filme, Diana tiver outro par, não haverá conflito, porque foi um primeiro amor realista e maduro dentro de um filme que, bem, é tudo, menos realista.


A bela cena da neve.
Falando em Sir Patrick (David Thewlis), acho que ele, com seu discurso pacifista e um close específico em seu guarda-chuva, foi uma menção ao primeiro ministro britânico que não soube lidar com Hitler, Chamberlain.  Os vilões do filme, Ludendorff (Danny Huston) e a Drª Maru (Elena Anaya), são estereotipados, bem rasos mesmo, mas foram utilizados de forma adequada dentro do filme que se passa no fim da I Guerra, às vésperas do armistício.  Os dois vilões querem evitar o fim do conflito inventando uma nova arma que poderia mudar os rumos da guerra.  Para isso, são capazes de tudo.  Ludendorff se comporta meio que como um Darth Vader caricato, ou possuído?  Porque, para a heroína, a culpa toda é de Ares.  Quanto ao bombardeiro gigantesco que aparece no final do filme, aviões daquele tipo foram utilizados na I Guerra, mas em testes e em pequena escala.  O progresso da aviação durante o conflito foi espantoso.

Que mais preciso falar?  O filme é feminista?  Até a medula.  E era o que a maioria esperava, ou não?  Não há negociações, por assim dizer, só que é um filme de fácil digestão.  Talvez, se fosse um filme sobre as amazonas e seu mundo, a coisa pudesse ganhar dimensões menos agradáveis para alguns.  O filme cumpre a Bechdel Rule.  Absolutamente.  Há muitas personagens femininas com nomes, que conversam entre si e falam de tudo, até de homens. Ah, sim, Etta Candy, interpretada por Lucy Davis, é uma reminiscência dos quadrinhos originais, era uma espécie de líder das estudantes universitárias que ajudavam a Mulher Maravilha original.  A personagem foi preservada e muito modificada nas muitas encarnações da história da Mulher Maravilha e, bem, ela está no filme. 


Armadura?  Há muitas piadas com o vestuário restritivo das mulheres.
É isso.  Salvo pela mitologia grega deformada, o filme me agradou muitíssimo.  Até o laço da verdade funcionou esplendidamente e o visual do uniforme ficou espetacular. Irei assistir ao filme da Liga da Justiça com muitas esperanças de poder reencontrar Diana.  De resto, foi um grande acerto para uma diretora com um currículo tão restrito e com um único grande sucesso, Monster.  Sim, sucesso, mas um filme de orçamento pequeno.  Agora, uma atualização (*05/06*), Patty Jenkins deve se tornar a diretora a conseguir a maior bilheteria de estreia em um filme, fora isso, Mulher Maravilha já deve ser o segundo filme de Super-heróis mais rentável, só perdendo para o primeiro Homem de Ferro.  Urra!  Se Mulher Maravilha mostra que mulheres gostam de filmes de ação (*se tiver uma mulher como a princesa Amazona ajuda, claro*), Jenkins prova que mulheres sabem dirigir bons filmes de ação, também.

Espero que o filme da Mulher Maravilha abra caminho para outras heroínas na tela grande e mais diretoras mulheres em filmes desse tipo e com tão grande orçamento e expectativas.  Ah, sim!  O tema da Mulher Maravilha no filme foi composto por uma mulher, também, Tina Guo, uma violoncelista chinesa que já havia composto o tema de Batman vs Superman.  Enfim, se puder, e os horários legendados são ruins, assistirei ao filme de novo.  Só lamento que Júlia seja tão pequena para assistir ao filme.

Trailer do filme legendado.



Tina Guo tocando o tema da heroína.

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4 pessoas comentaram:

Amei o filme, saí do cinema já com vontade de ver de novo!
Senti falta de uma cena que destacasse mais o lamento pela morte de Antíope e das outras amazonas que morreram, mas talvez não tenham sentido necessidade por as amazonas terem outra visão de morte e responsabilidade.
Outra coisa que me deixou apreensiva foi que comecei a duvidar de que Ares realmente seria o culpado e dessa forma, Diana apesar da força, seria considerada meio louca por insistir tanto nisso. Compreendo que seja algo difícil de acreditar, mas fiquei extremamente aliviada quando nos é mostrado que Ares existe sim (embora não seja o único culpado).
Nunca fui fã da mulher maravilha, mas saí do filme querendo ser ela!

"eu acho até razoável que o Líbano censure o filme por ser estrelado por uma israelense"

pelo que eu entendi, você acha razoável o preconceito com judeus... sabe quem também achava razoável? aquele austríaco que conhecemos como um dos maiores genocidas da história, HITLER

e se fosse Israel banindo filme palestinos e árabes?

Só uma pessoa com zero conhecimento de geopolítica do Oriente médio, ou zero capacidade de leitura de texto para vir escrever algo assim, uma insinuação tão vil e uma analogia tão absurda. Mas, enfim, internet, internet.

E mais, israelense não é sinônimo de judeu, mas é outra coisa que eu não acredito que essa pessoa saiba, OK.

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