quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O Desespero das Vítimas de Estupro: Três casos comentados

Susana e os Velhos, primeira versão (*acho*)
Hoje, pretendia escrever sobre amenidades, ou sobre o tema principal desse blog, shoujo, claro, mas, no caminho para o hospital (*foi uma vã tentativa de conseguir marcar uma consulta médica*), terminei ouvindo a coluna de uma das jornalistas da Band News FM.  Já falei dela aqui, não lembro quando, mas, basicamente, sempre que ela tem alguma chance, ataca alguma feminista, ou as pautas feministas.  O alvo dela desta vez?  Clara Averbuck, outra jornalista que, esta semana, contou em um post do Facebook que havia sido estuprada por um motorista de Uber, mas que estava na dúvida se fazia, ou não o BO.  Segundo a jornalista:

 "Estão me pressionando para fazer denúncia na delegacia. Essa decisão é minha, não confio no sistema, já fui mil vezes na delegacia, já levei mulheres lá, já vi o tratamento que é dado. B.O. não é um documento mágico do Harry Potter que vai te defender. Não significa que vão prender o cara. (...) Violência sexual é crime que quem tem que provar é a vítima. Eu não tenho sêmen em mim, eu não tenho nada em mim. Eu tenho só essa marca de quando ele me derrubou no chão. Como é que eu vou provar alguma coisa? Não tem como.”

O estupro de Lucrezia.
A crítica da jornalista da Band não caminhou junto com a corriola que acusou Averbuck (*que admitiu estar bêbada ao pegar o carro*) de ser uma vagabunda, mentirosa, de ter prejudicado a vida de um “trabalhador”, já que a Uber, que já encarou outros casos semelhantes (*Exemplos: 1-2-3-4*), dispensou o suspeito (*viu? Sei usar a palavra.*), ela reclamou, assim como no caso da campanha do #primeiroassédio, da falta de objetividade de ações como a da Averbuck, isto é, escrever um texto na internet, acusou-a de querer atenção.  A coluna está aqui (*31/08*).  Podem ouvir.  Enfim, fica parecendo que basta fazer um BO que o estuprador é preso e joga-se a chave fora, quando, na verdade, a vítima é que fica marcada, é alvo de suspeita, deboche, recriminações, muitas vezes correndo o risco de alguma retaliação por parte do agressor.  Mas e se há testemunhas?  Antecedentes?

Vamos ver, ontem, toda a mídia repercutiu, e imaginei que a coluna da jornalista sobre Clara Averbuck tivesse sido anterior, mas ela é de hoje mesmo, o caso do juiz que mandou libertar, com a conivência de outras instâncias, um sujeito que, havia assediado uma mulher em um ônibus lotado na Avenida Paulista.  O que o moço fez?  Intimidou, passou a mão em seus seios e ejaculou no pescoço da moça.  E-JA-CU-LOU!  Imaginaram isso?  O cara quase foi linchado pelos outros passageiros, mas a polícia o salvou, a delegada checou a ficha do cara, que tem cinco acusações de ESTUPRO, e mandou prender.  No entanto, 24 horas depois, a justiça mandou soltar o sujeito.

Outra versão de Susana e os Velhos.
Citando o G1, “(...)  Na decisão, embora afirme que "o ato praticado é grave", e destaque o "histórico desse tipo de comportamento" do rapaz, o juiz diz não ver "constrangimento tampouco violência" e, por tal razão, defende que o crime "se amolda à contravenção e não estupro".  Agora, as palavras do jovem magistrado: "Entendo que não houve constrangimento tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco de ônibus, quando foi surpreendida pela ejaculação do indiciado".  Virou piada na internet uma caricatura do juiz com um pênis ejaculando em seu rosto, mas não é piada, não, é somente o risco que nós, mulheres corremos.  O primeiro, do abuso; o segundo, da justiça patriarcal que se solidariza com o estuprador, porque, bem, a classe dos homens se defende e sempre pode contar com as validadoras do sistema – mulheres, elas mesmas – para reforçar a claque.  Lembrei do filme egípcio, o único que vi na vida, Cairo 678.  A resenha está aqui.

Terminando, enquanto esperava chamarem a minha senha no hospital, fui ler a última edição da revista espanhola de História, Historia y Vida, que apareceu nas bancas de Brasília.  Ela é do ano passado, e estavam comemorando os 100 anos da redescoberta do trabalho da pintora do Barroco italiano, Artemisia Gentileschi (1593-1656).  Ela só ficara uns 300 aninhos na obscuridade, para uma mulher, seja artista, cientista, estadista, isso é quase nada... Mas, enfim, o que une Artemisia aos casos citados nesse post sombrio?  Ela foi estuprada aos 18 anos por um artista, que era seu professor de perspectiva, o pintor Agostino Tassi.  Um ano depois do ocorrido, provavelmente, porque o cidadão não quis “reparar” o erro casando-se com ela, o pai da moça, também pintor, o denunciou.  Sabe o que aconteceu?

Judith dá cabo de Holofernes.
Artemisia fez um relato pungente de como o sujeito se aproveitou do fato dela estar sozinha em casa (*havia subornado uma vizinha para ser avisado quando o pai dela sairia*), para invadir a residência.  A BBC traduziu parte do depoimento de Artemisia: "Trancou o quarto a chave e depois me jogou sobre a cama, imobilizando-me com uma mão sobre meu peito e colocando um dos joelhos entre minhas coxas para que não pudesse fechá-las. E levantou minhas roupas, algo que lhe deu muito trabalho. Pôs um pano em minha boca para que não gritasse. Eu arranhei seu rosto e arranquei seus cabelos."  Na Historia y Vida estava completo, mas eu teria que traduzir, já  basta isso.

A corte então a submeteu a um exame humilhante feito por duas parteiras diante de um juiz e deum escrivão.  O estuprador subornou testemunhas, tentou difamar a pintora.  Ela foi submetida à tortura, prática comum nos processos da época, mas que poderia ter deformado suas mãos.  Ela manteve sua versão. O caso se arrastou por meses e o sujeito foi condenado.  Ele podia escolher entre prisão por cinco anos e exílio de Roma.  Preferiu deixar a cidade.  Vitória da moça e seu pai que denunciaram a violência?  Não se adiantem!  Poucos meses depois, o cara estava de volta à cidade. Afinal, tinha bons amigos.  Já Artemisia, para salvar a honra da família, foi obrigada a se casar com um pintor medíocre e deixar Roma definitivamente.  Mesmo depois de sua morte, ainda circulavam histórias maledicentes a seu respeito.

Outra versão de Judith e Holofernes.
No entanto, embora sua vida não tenha sido fácil, a pintora, que hoje é celebrada graças ao minucioso trabalho de resgate feito por acadêmicas feministas, é lembrada por sua arte, onde a violência muitas vezes se faz presente, por ter sido a primeira mulher (*conhecida, vai saber*) a ser aceita na Academia de Belas Artes de Florença, além de dar nome ao prêmio anual para mulheres quadrinistas na França (*criado por mulheres*).  

Ela poderia ter se calado, talvez tivesse tido uma carreira igualmente brilhante, mas o que eu quero dizer é que mulheres são desqualificadas quando se calam e quando denunciam, quando buscam a justiça, ou quando a fazem a sua moda, como Clara Averbuck.  Simplesmente, como mulheres – velhas ou moças, virgens ou experientes, casadas (*desde que sem a companhia do homem nosso legítimo senhor e dono*) ou solteiras – podemos ser apropriadas a qualquer momento, porque o espaço público não deveria ser nosso lugar.  Se o caso for à  justiça, ainda corremos o risco de ouvir que um sujeito que ejacula em nossa cara não cometeu violência.  E se fosse na cara de um homem?  De qualquer forma, usem os casos acima para refletir sobre os motivos dos crimes de estupro serem sub-notificados e imaginem quantos nunca chegam nem às  delegacias, nem ao Facebook. 

Jael mata Sísera com um prego de sua tenda.
P.S.: Todas as ilustrações do texto são quadros de Artemisia.  Observem a recorrência do tema estupro e vingança feminina, de inspiração clássica, ou bíblica, ainda que, e isso é importante, ela tenha pintado retratos, vários, aliás.  Há uma lista de seus trabalhos aqui.

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