sábado, 9 de setembro de 2017

Comentando Como Nossos Pais (Brasil, 2017)


Segunda-feira assisti ao filme brasileiro Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, o mais premiado no 45ª Festival de Gramado. Melhor filme, direção, atriz, ator, atriz coadjuvante e montagem.  Todos as premiações merecidíssimas.  Como Nossos Pais é um filme moderno, coeso, e que aborda questões que afligem praticamente todas as mulheres modernas.  As da minha geração – a protagonista tem quase minha idade – mas, também, as mulheres mais jovens.  Mesmo os tons de classe podem ser diluídos se observarmos que o drama vivido pela protagonista é o mesmo de tantas mulheres que, em pleno século XXI, são exigidas e se exigem demais de si mesmas.  Como ser feliz desse jeito?  Segue um resumo da história.

Rosa (Maria Ribeiro) é uma mulher que quer ser perfeita em todas suas obrigações: como profissional, mãe, filha, esposa e amante. Quanto mais tenta acertar, mais tem a sensação de estar errando. Filha de mãe intelectual (Clarisse Abujamra), com quem mantém uma difícil relação, e pai artista (Jorge Mautner), que ela protege, apesar de seus defeitos, ela oscila entre conflito, culpa e afeto.  Já Dado (Paulo Vilhena), seu marido, é um ser ausente, ativista pela proteção da Amazônia e antropólogo de fama internacional.  Quem sustenta a casa, massacrando-se em trabalhos medíocres e estressantes, é Rosa.  Mãe de duas meninas, ela se impõe perfeição e exige perfeição, tornando a relação com a filha mais velha, Nara (Sophia Valverde), a repetição do mesmo ciclo destrutivo que mantém com a mãe.  Dois choques irão fazer Rosa rever sua vida e decidir que precisa ser feliz.

Sabe aquele cara que em casa não lava um copo?
Aviso logo que esta é uma resenha difícil de escrever.  Como comentar um filme tão interessante, tão próximo de mim, de vivências minhas, de gente que conheço, repleto de discussões de gênero, sem contar o filme todo?  A resenha periga ficar enorme, grande mesmo.  Como Nossos Pais me tocou em vários sentidos.  Desde a relação um tanto conflituosa com a mãe, aquela sensação de não ser tão amada quanto o irmão (*Bobagem, até tomar consciência que não se ama igual, que cada filho/a, cada amor é diferente*), a necessidade de acertar sempre, a bicicleta como metáfora da liberdade, a solidão que pode ser sentida mesmo dentro de um casamento de anos.  

Rosa, protagonista de Como Nossos Pais, parece sempre cheia de raiva, frustração.  Isso pode gerar uma espécie de repulsa por ela no início da película.  Toda a sequência inicial, por exemplo, o almoço de família, pontuado pelos barulhos simpáticos das crianças presentes, é marcada pela tensão.  Trata-se de uma homenagem de Clarice para Dado, o genro.  Um ativista pela defesa da Amazônia e do povo Ianomâmi, um herói, portanto, um modelo.  Ele merece toda a deferência, ser festejado.

Bomba: "Você não é filha do Homero!"
Como não conhecemos as personagens, a minha primeira impressão é a de que Dado era filho de Clarice.    Daí, temos a primeira explosão de Rosa e descobrimos que ela é a filha e que a mãe parece considerá-la com seu emprego comum, uma criatura medíocre.  Rosa reage, agride o marido, porque ele está lavando louça e em casa ele nada faz.  Exagero?  Ele parece ser um cara tão legal... Depois, ela repreende o marido e as filhas por tomarem banho de chuva.  Que megera! O filme, a partir daí oscila entre esses embates agressivos de Rosa com a mãe, com a filha mais velha, com o marido, ela parece prestes a explodir.  A metáfora com o leite fervendo e derramando se liga a isso.  Ao mesmo tempo a protagonista é toda acolhimento em relação ao pai, um homem que parece viver às custas das mulheres que (*diz*) amar.

Ainda assim, há cenas muito ternas em Como Nossos Pais, como a das filhas fazendo tranças nos cabelos de Rosa, ela e as meninas regando a plantas da mãe.  Ou mesmo quando Rosa finalmente parece estar se reconciliando com Clarice e passa a ouvir o que a mãe, uma mulher dura, sem dúvida, mas livre e decidida tem a dividir, a ensinar, a rememorar.  Um dos pontos centrais do filme é a descoberta de que Clarice tem pouco tempo de vida.  A mãe parece encarar com serenidade a morte, enquanto a filha, Rosa, parece perplexa com a força da matriarca, sua capacidade de parecer senhora de si até em um momento tão terrível.

Flerte no mercado.
Também há cenas muito românticas no filme, que estão atreladas a descoberta, ou redescoberta, da sexualidade.  Rosa é uma mulher casada, mas é frustrada.  São muitas atribuições e pouco prazer.  O marido ausente a cobra por isso.  Ela acerta em tudo, menos na cama.  Como ter tesão se você trabalha sem parar e só tem problemas?  Como ser criativa se não tem tempo para si?  Aparece um possível amante.  Um homem que parece ser o que o marido não é, esse homem ajuda Rosa a transgredir, algo que sua mãe diz é que a experiência e sua aceitação é libertadora.

A todo momento, o filme faz uma crítica à sociedade patriarcal que em seu estado mais contemporâneo exige a perfeição absoluta das mulheres.  Libertamo-nos, especialmente aquelas pertencentes às classes burguesas, da obrigação de nos dedicarmos somente ao lar, mas não fomos alforriadas dos trabalhos domésticos, continua sendo “serviço de mulher”.  Se conquistamos espaço no mercado de trabalho, recebemos menos e somos instadas a mostrar competência o tempo inteiro.  E com tudo isso, somos ainda nós as responsáveis aos olhos da sociedade pelo cuidado com os filhos.  

Dado é um bom pai, do jeito dele.
Se alguém tem que atrasar a carreira, fazer sacrifícios, que seja a mulher.  Afinal, é da sua natureza amar e servir (*dispositivo amoroso em ação*), ainda que seja acusada de ser menos profissional e capaz de produzir no mundo capitalista ao cumprir tal missão.  Um homem, e isso é bem ilustrado por Dado no filme, pode sair em viagem de trabalho, passar dias fora, com a certeza de que suas crianças serão bem cuidadas, afinal, a mãe está lá para delas cuidar.  Mas se ele ficar cuidando dos filhos, desde que seja esporádico, será louvado como um sujeito muito legal.  Agora, se a mãe é quem faz isso, e Clarice parte para Brasília largando as filhas e o marido por dois dias, é o caos.

Voltemos para a mãe de Rosa, a personagem já começa hostilizando a nora que, supostamente, está pensando em se divorciar do filho.  Rosa, a filha, é hostilizada, também.  Parece que Clarice olha com desdém para as outras mulheres, que não foram tão livres, corajosas e engajadas como ela, já os homens, salvo o ex-marido, são meninos queridos que precisam ser mimados.  E, ao longo do filme, percebemos que Clarice se esforçou para tornar Rosa uma mulher de sucesso, feliz, engajada... Onde falhou?  Quem nunca leu que mulheres competem entre si?  Que não podem ser amigas?  Que meninos são mais ligados às mães e os meninos aos pais?  Convenções de gênero, construções que parecem reais, porque se tornam reais pela repetição.  Vem o primeiro golpe.

O pai crianção.
Clarice conta para Rosa, sem nenhum tato, que ela é fruto de uma aventura da mãe durante um congresso de sociologia e educação em Cuba.  Seu pai biológico é um político, Roberto Nathan (Herson Capri).  Rosa surta com a descoberta e a insensibilidade da mãe.  Rosa ama o pai e culpa Clarice pelo divórcio.  Ao longo do filme, a cada aparição de Homero, cada lembrança de Rosa, fica patente que ele é um bom sujeito, mas que sempre procurou mulheres para sustentá-lo, sustentar sua arte, mulheres a quem ele nunca foi fiel.  Clarice acredita que fez bem em se separar, no que concordo com ela, mesmo que Homero seja um cara legal, mas quer que a filha, Rosa, seja tolerante com Dado, porque, bem, ele é um sujeito legal e merece sempre uma nova chance.

E Dado não é um cara legal?  Sim, até é.  As filhas o adoram.  Ele é um sujeito capaz de sacrificar tudo por uma causa nobre.  Bonito, não é?  Sim, ele pode, porque tem Rosa para ficar com as filhas, cuidar das tarefas diárias, trabalhar por ela e pelo marido para sustentar os confortos de uma vida de classe média.  O filme é nenhum momento demoniza Dado.  Vemos em tela seres humanos com suas possibilidades e limitações.  A grande crítica é à sociedade patriarcal e machista que possibilita que tantas desigualdades de gênero persistam e que mesmo caras legais, como Dado, não percebam isso.  A vida de Rosa é miserável, parcialmente por sua responsabilidade, mas, principalmente, pelas condições externas a ela.

Dado faz pouco da sobrecarga de Rosa.
Rosa parece chata, sem dúvida, para quem quiser ver, claro, os sacrifícios que ela faz pela família, as pressões que sofre.  E o que Dado diz ter sacrificado?  O futebol com os amigos no fim de semana, mas não pela família.  Os sacrifícios dele são por causas maiores e nobres.  Clarice, a velha militante política, entende bem isso.  Rosa, no entanto, se vê abandonada.  A cada cobrança, ela recebe um comentário carinhoso e de tutela “você anda estressada demais...”, ou a cobrança “há quanto tempo não fazemos sexo?”.  Dado não parece satisfeito, afinal, ela não é a amante que ele esperava.  Para Dado, o sexo é a chave para um casamento feliz, para Rosa, o sexo é um elemento de um relacionamento baseado em parceria. Quem está errado?  

O fato é que Rosa falha em um dos aspectos fundamentais dessa mulher moderna exigida pelo mundo em que vivemos.  Além de boa mãe e dona de casa, profissional de alto desempenho, uma mulher perfeita – a verdadeira mulher – precisa ser uma grande amante. Mesmo depois de um dia estressante, de cuidar de tantas tarefas, ela precisa apresentar-se a mais sedutora das fêmeas.  Rosa não consegue e desconfia que Dado tenha uma amante.  Seria verdade?

Clarice Abujamra brilha em todas as cenas,
mas uma mãe como ela...
Mas, sim, sexo é um problema.  Rosa tem desejos, se reprime, mas mantém um flerte com o pai de um coleguinha de sua filha caçula, Juliana (Annalara Prates), enquanto tem ciúme da jovem antropóloga (*sem marido, sem filhos, sem amarras, portanto*) que vive viajando para cima e para baixo com seu marido.  Pedro (Felipe Rocha), o pai do coleguinha, é um outro tipo de homem, parece compreensivo, capaz de satisfazer uma mulher em vários sentidos, ele estimula Rosa a ser menos rígida com ela mesma e com as filhas.  Ele a estimula a retomar seu sonho de escrever.  Rosa reclama que perdeu o prazo de um concurso: “Você escreve para o concurso, ou para você.”  Rosa precisa dar a resposta a si mesma.

A inspiração para a peça da protagonista vem de uma peça famosa de Ibsen, “A Casa de Bonecas”.  Uma pesada crítica ao papel subalterno das mulheres na sociedade patriarcal.  Nunca li nem vi a peça, mas sei disso de muito tempo.  Já o filme faz a analogia entre Rosa e a protagonista da peça, Nora.  Quem conhece o material, já sabe provavelmente os paços que Rosa seguirá em relação ao marido.  No entanto, como se trata de um filme contemporâneo, há outros ingredientes.  E mais, o problema de Rosa é com o marido, não com as filhas ou a consciência de suas capacidades como mãe.

E o flerte evolui para outra coisa... 
Aliás, no confronto com si mesma, com a mãe, no desenrolar da relação com Pedro, Rosa consegue redirecionar a forma como lida com as filhas.  A mais velha, Nara, queria ir de bicicleta para a escola.  Rosa acha perigoso, mas é através da bicicleta que ela aprende a libertar-se, abrir-se para novas possibilidades.  Mas tem que ser algo pessoal, a presença de Pedro, a revelação de que ela, Rosa, não está agindo com muita sororidade em relação a outra mulher, apontam que ela precisa seguir sozinha.

A questão do respeito entre as mulheres, ainda que palavras (*palavrões*) sejam comuns no filme para que umas se refiram a outras, da solidariedade, é algo presente em Como Nossos Pais.  E o filme não tem medo de usar palavras.  Rosa se julga feminista.  Se apresenta como tal e percebe as contradições de sua própria vida, presa em um casamento com um cara legal (*repito, ele é*), mas não companheiro, que divide as tarefas do dia-a-dia.  E, não, sexo, não era a chave para resolver o problema.  Apesar do título, Como Nossos Pais não parece, pelo menos aos meus olhos, naturalizar homens e mulheres, tampouco a relação entre mães e filhas, porque é delas especialmente que se fala.  Repetir o que foi bom, estar aberta a mudanças, ser menos dura.

A solidão da mulher moderna.
Se uma mulher não é classe média, heterossexual, branca, talvez de esquerda, pode imaginar que o filme não vai lhe falar.  Não pense assim.  Mulheres realmente atentas ao mundo ao redor vão perceber vários momentos em que a vivência de Rosa pode ser muito parecida com a sua, porque, bem, é o que muitas mulheres experimentam nesse estágio do desenvolvimento do capitalismo associado ao capital.  Obviamente, talvez largar tudo, dar uma guinada na vida, jogar o emprego horrível para quem o deseje, não seja uma possibilidade imediata, mas repensar sua vida, suas escolhas, perceber a injustiça que você mesma está praticando consigo é algo em que o filme pode ajudar.  

Aos homens, talvez as mensagens sejam outras.  O filme não os estereotipa.  O filme que assisti imediatamente antes de Como Nossos Pais, Doidas e Santas, faz isso.  Da mesma maneira que as mulheres são multifacetadas, os homens também são.  Não é espanto, só para usar um reforço, que Paulo Vilhena tenha saído com um Kikito.  Sua personagem, um homem dedicado à carreira, que quando é chamado, eventualmente, a paternar, o faz amorosamente, mas que negligencia as necessidades da casa, a divisão das tarefas e considera os problemas da companheira como menores que os seus, é muito real.  E, sim, ele gosta de futebol.  Poderia não gostar, parece que pelo menos desse estereótipo não se fugiu.

As duas meninas são fofas.
Falando em homens, se algo pudesse ficar fora do filme, ainda que não represente uma quebra narrativa, é a ida à Brasília.  Um dos baques de Rosa é saber que seu pai biológico é um político.  Um homem muito diferente do pai que ela ama e ajuda a sustentar, Homero.  A personagem de Herson Capri, o pai recém descoberto, vira uma espécie de obsessão.  Quem ele é?  Rosa se parece com ele?  O tal político não se recusa a encontrá-la, mas não tem rasos de afetividade, nem pode.  O encontro ajuda Rosa na sua busca pro si mesma?  Cabe a você decidir.  E há a cena do hotel, com Rosa nua vista de costas e a Esplanada ao fundo, me pareceu um plágio daquela que quebrou a internet e tinha em função semelhante Paolla de Oliveira.  A construção é muito parecida, ma é só uma cena.

Não vi a nudez naquele momento nem como libertação, esta função será da cena da bicicleta, naquele arco, aliás, o ato libertário foi ser capaz de, pelo menos por algumas horas, deixar a casa e as filhas sob a responsabilidade do marido e sem culpa.  Se a questão da paternidade biológica fosse posta fora do filme, ele funcionaria bem do mesmo jeito, Herson Capri não faz muita coisa.  Ainda assim, não interpretem como barriga, ou nada do gênero.  O filme tem cerca de uma hora e meia e se resolve sem barrigas nesse momento.  As repetições das cenas de raiva de Rosa não são cansativas, mas constitutivas da personagem.  

Já entreguei metade do rebuiço causado por Caru com essa foto... 
Que mais dizer?  O filme cumpre a Bechdel Rule sem problema com o mérito de ser um filme feminista.  Há várias personagens femininas com nomes que interagem o tempo inteiro, que falam de si, suas necessidades, seus amores, suas vidas.  Rosa, Clarice (*espetacular Clarisse Abujamra*), Nara, Juliana.  Há as outras mulheres de Homero, todas têm nomes.  E a adolescente Caru, personagem de Antonia Baudouin.  Difícil achar o nome da atriz, mas é a meia-irmã de Rosa que termina indo passar uns dias em sua casa, porque o pai, Homero, é despejado.  E que lança seu olhar crítico sobre Rosa e suas relações familiares.  Ela coloca mais fogo no conflito geracional entre as mulheres do filme ao levantar questões como heteronormatividade e casamento monogâmico.  E sua participação não é pouca, difícil é encontra-la citada até nas fichas técnicas do filme.

Já terminando, a trilha sonora do filme é belíssima e absolutamente articulada com a narrativa.  Há várias cenas que só sugerem e permitem que nós, a audiência, preenchamos as lacunas.  Todos os prêmios e elogios para Como Nossos Pais são merecidos e fico feliz que algo fora do chamado Novo Cinema Pernambucano receba reconhecimento.  Como Nossos Pais é muito mais instigante e menos elitista que Aquarius, mais coeso e bem montado, também.  Fora isso, é uma mulher falando sobre mulheres e falando bem, com propriedade.  É necessário esse olhar?  Não diria obrigatoriamente, mas é fundamental termos mais diretoras e roteiristas contando histórias sobre mulheres e o fazendo com tanta poesia e olhar crítico.

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1 pessoas comentaram:

Fiquei muito feliz de ter estreado aqui na minha cidade (apesar de apenas em um cinema e quando eu quis assistir de novo na semana depois da estreia, já era).
Também foi ótima minha experiência no cinema e as reflexões que ficaram também. Adoro bons dramas familiares. O filme me agradou mais até do que o super vangloriado Bingo (que eu gostei, mas não achei isso tudooo, enfim...)

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