sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Comentando Eu Te Matarei, Querida (My Cousin Rachel, 2017)



Esta será uma resenha curta, ou assim, eu espero.  Assisti My Cousin Rachel, a versão de 2017, segunda-feira.  Ainda estou meio de cara, aliás, se efetivamente o título nacional for Eu Te Matarei, Querida.  Não me surpreende que ele tenha estreado nos cinemas e eu nem tenha percebido, apesar de estar esperando o filme. Enfim, baixei o filme e ele foi um dos mais fracos que assisti este ano.  Muito decepcionante a atuação do Sam Claflin, esperava mais dele.  No entanto, difícil saber se a responsabilidade é somente dele, ou do roteiro como um todo.

My Cousin Rachel é baseado em um romance de Daphne Du Maurier, escrito em 1951 e adaptado rapidamente uma primeira vez em 1952.  Não é dito a data da história no filme atual, mas o anterior se passava em 1938.  Analisando o figurino, deve ser por aí mesmo.  A trama gira em torno de Philip (Sam Clafin), um jovem orfão acolhido muito pequeno por um primo solteirão e dono de muitas terras na Cornualha chamado Ambrose.  O primo-pai sofre de alguma moléstia que o obriga a passar temporadas em terras mais quentes, no Sul da Europa, mas, durante o resto do tempo, sua vida gira em torno de Philip e da propriedade. Um dia, ao voltar da faculdade, Philip recebe uma carta de Ambrose, que está na Itália, comunicando seu casamento com uma prima viúva chamada Rachel (Rachel Weisz).  As cartas se sucedem e parecem todas felizes, até que o jovem recebe uma missiva em tom muito alterado do primo que diz que Rachel quer matá-lo, que o está envenenando, e pedindo socorro.  

Já saindo do luto.  Rachel é excelente amazona.
O jovem mostra a carta ao seu tutor, Nick Kendall (Iain Glen) e sua filha Louisie (Holliday Grainger).  Não tarda a chegar uma carta comunicando a morte de Ambrose.  Philip parte para a Itália em busca de explicações e vingança, mas só encontra o advogado do primo, Enrico Rainaldi (Pierfrancesco Favino), que conta que Ambrose morreu devido a um tumor no cérebro e que sofreu de alucinações em suas últimas semanas. Philip não acredita e passa a ser consumido pelo ódio. Ele quer se vingar e parece que sua chance aparece quando a viúva de Ambrose, a prima Rachel, chega a propriedade.  No entanto, o rapaz se deixa encantar e passa a alimentar a dúvida.  Ela matou Ambrose?  Ela é uma vítima? Ela é confiável?

Olha, se Sam Clafin passasse alguma dúvida, ou resistência, o filme poderia ganhar um pouco de densidade.  O problema é que, desde o primeiro momento, ele fica absolutamente fascinado por Rachel.  E, bem, anulou-se a tensão, a dúvida e vemos o moço se desfazer aos pés dela.  Assim, em alguns momentos do filme a atuação dele, o roteiro medíocre, fazem com que o filme chegue quase ao insuportável.  Só não o é por causa de Rachel Weisz, mas em ela pode salvar a história de ficar abaixo do medíocre.

A viúva.  Assassina?  Vítima?
Não tenho como analisar o filme tomando como ponto de partida o livro.  Eu não li, nem me sinto inclinada a fazê-lo.  Sei que Daphne Du Maurier (1907-1989) tem uma carreira sólida e vendia muito bem.  Não vou entrar na discussão sobre o plágio de Rebecca em relação ao livro brasileiro A Sucessora, de Carolina Nabuco, porque, bem, sou cada vez mais inclinada a pensar que houve coincidência e uso de estruturas narrativas mais que comuns.  De qualquer forma, também não tenho como analisar o filme de 1952, não o assisti, mas ele recebeu várias indicações ao Oscar, rendeu um Globo de Ouro de revelação para Robert Richard Burton e elogios para Olivia de Havilland. O que posso dizer é que esse filme de 2017 tem um roteiro muito limitado.

Se eu for para a personagem mais enigmática, Rachel, o que eu posso dizer?  Ela é viúva duas vezes e ainda é jovem e bonita.  Há em torno dela a sedução de ser estrangeira, em alguns poucos momentos, é trazida à tona uma certa passionalidade latina, um certo mundanismo e sensualidade contida (*ela está com roupas de luto o tempo inteiro*), afinal, o primeiro sorriso que ela arranca de Philip é com uma piada de duplo sentido.  É muito claro para mim que é para fazer contraste com Louisie, a moça inglesa sensata, inteligente, contida, mas firme, que todos esperam que se case com Philip.  Louisie sempre está com roupas claras, práticas, mas bonitas, e Holliday Grainger parece mais branca do que já é.  Contraste perfeito com a morena Rachel.  Mas Philip cai por Rachel de imediato, sem disfarces, e mal enxerga a amiga apaixonada.

O ódio e vontade de Philip não duraram
um minutinho diante de Rachel.
Rachel era uma assassina?  Interesseira?  Sedutora?  Não sei.  Ela me parece ser, além de ter uma vida pregressa um tanto dissoluta, como bem levantou o pai de Louisie.  Ela gasta demais.  Ela manda dinheiro – da pensão que Philip decide lhe dar – para o exterior.  Para quem seria?  Qual a relação dela com o italiano Rainaldi?  Seria seu amante?  No entanto, ela parece ser uma boa pessoa.  Em alguns momentos, ela parece ter caráter, querer simplesmente gerir sua vida sem a tutela de um homem.  Como foi seu primeiro casamento?  

Em dado momento, Rachel chega a dizer que gostaria de trabalhar, poderia dar aulas de italiano para se sustentar.  Um blefe, talvez, mas que é a reação de Philip?  Mulheres como ela não trabalham.  Viúvas se casam de novo.  Trabalho é para mulheres pobres, sem homem, sem protetor, sem apelo sexual.  Ela reafirma sua vontade, ele diz que não permitiria em memória do primo.  Seria uma vergonha.  Daí, fiquei pensando e se Rachel tiver, sim, seus pecados, mas for, também, uma mulher vítima de uma sociedade patriarcal?

O jovem dá tudo para Rachel, inclusive o colar que era de sua mãe.
Fiz a ponte com a versão ruim de Os Três Mosqueteiros (1993) que transformou convincentemente Milady (Rebecca De Mornay) em vítima.  Ninguém nunca quis ouvi-la.  Todos a acusaram.  Ela seduziu o padre, ou foi violentada?  Ela foi usada pelo irmão, ou o usou?  A versão dela ninguém ouviu e quando Athos, o homem que ela amou, descobriu a marca dos ladrões em seu ombro, tentou matá-la.  Ela se tornou uma assassina, uma espiã, mas que opção ela teve?  O Cardeal Richelieu foi o único que a acolheu.  E se a narradora da história fosse ela, será que não seria diferente?  Na época, eu fiquei furiosa.  Com o passar do tempo, meu olhar sobre o filme mudou.

Ambrose tinha um tumor, no filme fica um tanto no ar que a coisa pode ser hereditária e Philip também sofra do mesmo problema.  Quando ele e Rachel passam a noite juntos (*e não há nenhuma nudez, nada, nada*), depois que o jovem atinge a maioridade e passa todos os seus bens para ela, ele é tomado de ciúme e sentimento de posse.  Imaturidade, poderia ser dito.  Criado em um ambiente masculino e ausente de mulheres, ele não sabe tratá-las, talvez seja mesmo virgem.  

Pode parecer uma cena romântica, mas minha opinião é outra.
O sexo é um visível rito de passagem para ele.  As sequências antes e depois (*banho de mar, única cena de nudez do filme*), são as mais emocionais da personagem.  Ele parece sair do seu modo bobão, mas é coisa rápida.  Só que quando Rachel recusa o seu corpo, diz não, ele é violento.  Rachel cede uma vez.  O que vemos em seu rosto?  É nojo?  Repulsa?  Ou a face fria de uma mulher interesseira. A partir daí, ela se defende, ela diz que não é propriedade de ninguém, que não aceitará mais a violência de um homem.  

Rachel poderia ser uma assassina? Interesseira?  Certamente.  No entanto, se Rachel casasse com Philip ela perderia tudo, os bens voltariam para ele.  Agora, se ela casasse com o jovem, ela perderia a liberdade. As leis a colocariam sob sua tutela.  Ela não deseja isso.  A recusa é por esse motivo?  É por causa do escândalo?  É porque ela efetivamente queria todos os bens de Ambrose? Quem sabe? As ações de Rachel sempre deixam dúvidas, seu caráter não é transparente.  E, por fim, quem narra a história é Philip e ele, por ser machista, por ser imaturo, por sentir-se rejeitado é tudo, menos confiável.  

Dois tipos de mulheres. 
Uma é confiável, a outra, não é.
Terminando, repito, Sam Claflin está mal no filme.  Não sei se foi apagão, ou o que foi, mas não funcionou.  Ele me lembrou o príncipe de Encantada solto em uma propriedade inglesa ao estilo Jane Austen.  Um ator com uma postura cênica, mais dúbia, mais rústica, poderia fazer diferença, criar a tensão sexual que falta ao filme.  Como Rachel diz em um momento do filme, ele parece um filhotinho de cachorro pronto querendo colo.  Enfim, não li o original, não assisti o filme de 1952, mas a história seria melhor com um Philip diferente.

Assistam o filme por sua conta e risco.  As locações são muito bonitas, o figurino é charmoso.  Rachel Weisz está bem, ela leva o filme nas costas e se há algum interesse nele é ver a atuação da atriz.  Ian Glen sempre me parece charmoso.  Já o resto do elenco não se destaca.  Não há como, aliás.  Bechdel Rule é cumprida?  Sim, é.  Filme feminista?  Bem, posso ver Rachel como uma protofeminista, uma mulher que quer sair da prisão, mas só com o malabarismo interpretativo que eu fiz.  De cinco estrelas somente duas. Talvez, tente dar uma olhadinha na primeira adaptação, a própria autora não gostou, vai que é melhor que este?

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2 pessoas comentaram:

eu achei esse filme realmente BEM fraquinho. Agora é esperar o comentário do filme "Lady Macbeth", que gostei pacas! Também irei esperar os comentários dos filmes "Victoria & Abdul (esse filme parece ser vida! Quantos filmes temos com protagonizadas mais velhas e que contam as suas perspectivas sobre a vida?) e "Amor e Tulipas", que parece ser bem interessante visualmente e eu tbm adoro o Dane DeHaan e a Alicia Vikander, que está roubando o título de rainha dos filmes de época da Keira Knightley. :)



Conhecia história através desse filme. O título nacional do filme anterior Eu te matarei, querida, me soa muito machista e misógino. O livro por aqui teve a tradução de Minha prima Raquel. Eu gostei bastante do filme de 2017. Gostei das atuações e da história. No geral eu não sei muito bem analisar atuações. Gostei bastante da personagem da Rachel, as duvidas que a personagem deixa na história me fizeram lembrar do livro Dom Casmurro de Machado de Assis e aquela coisa de 'Capitu traiu ou não traiu Bentinho?' para mim ela não traiu. E para mim a Rachel era simplesmente uma mulher viúva que queria ter o controle da sua vida, a coitada já tinha sido casada duas vezes, sabe-se lá com quantos anos ela casou com o primeiro marido e se é que casou por vontade própria. No máximo acredito que ela não envenenou ninguém, foi mesmo culpa da doença do Ambrose e depois do Phillip. O Phillip era muito moleque, inseguro, inocente e com aquele sentimento de 'entitlement' (não sei como traduzem essa expressão para o português) masculino. Para ele era muito fácil querer casar com a Rachel, ele continuaria tendo todos os direitos que sempre teve, já ela não, estaria submetida a um homem mais jovem, instável e não poderia controlar a própria vida. Não sei como as mulheres conseguiam casar antigamente, era a pressão do sistema, já que com tantas desvantagens para uma das partes só sendo obrigada mesmo.
Enfim, gostei muito da personagem da Rachel, do jeito dela e da liberdade que ela emanava, gostei que ela não queria se casar com Phillip e tomada as decisões da própria vida e dos próprios negócios. A mulher estava sempre um passo a frente do Phillip e de todos. Ou ela era uma grande estrategista ou eram muitas coincidências que aconteciam. E a atriz que a interpreta da um show.
Existe também uma versão da BBC, assisti no youtube.
https://www.youtube.com/watch?v=OUFhX7fYfkU&t=2s
Também assisti o filme de 1952, mas continuo preferindo o de 2017. Recomendo dar uma olhada na versão da BBC.

Mais uma ótima resenha.
Abraços Valéria.

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