sábado, 21 de outubro de 2017

Algumas palavras sobre a tragédia de Goiânia


Ontem, um menino de 14 anos em Goiânia, pegou a arma da mãe policial, levou para a escola, matou dois colegas de turma e feriu outros quatro.  Uma das meninas feridas está em estado grave, os demais, sobreviverão.  Ele sofria bullying e, ao que parece, todos sabiam.  Tristemente, o incidente ocorreu no dia 20 de outubro, Dia Mundial de Combate ao Bullying. Uma tragédia e poderia ter sido pior, se uma coordenadora não tivesse convencido o garoto a parar, provavelmente entre o primeiro carregamento da arma e o segundo.

Começo dizendo que poderia ser mãe de qualquer um dos envolvidos.  Do agressor, ou das vítimas.  Que eu, como professora, poderia ser vítima em uma situação como essa.  Que sou solidária com as famílias enlutadas, mas preciso falar sobre bullying.  E falar sobre um sofrimento que, segundo os relatos, se prolongava por meses.  Será que antes do menino puxar o gatilho (*11 vezes*), seu pedido de socorro foi ouvido? Será que algum trabalho foi feito com a turma?  Com os alunos e alunas da escola? 


Bullying é um fenômeno universal, não é algo novo, só não tinha nome.  O que tem mudado é a forma como a escola e a sociedade lidam com a questão.  Infelizmente, muitas pessoas ainda encaram a vítima do bullying como alguém que não é forte o suficiente, um fracassado em potencial.  Em uma sociedade machista (*e, sim, é preciso discutir isso*), o menino que sofre bullying, que não consegue revidar e se tornar ele mesmo um bully, é um fracassado, alguém que não honra sua própria masculinidade.  Em tempos de internet, há gente covarde e fracassada o suficiente, adultos, não raro, aos montes para sugerir loucuras, ou incentivar ideias criminosas, em adolescentes desesperados.  Alguns desses, devem estar celebrando, outros, lamentando que o menino tenha levado à sério os conselhos. Que era "só zoeira".

 Não raro, esse adolescente que sofre bullying não tem coragem de pedir ajuda, afinal, ele ou ela seria um fracassado se fosse recorrer aos adultos. Talvez, até tenha buscado ajuda, mas, nós, adultos - educadores e pais - não raro não os ouvimos, ou vemos.  Em certos casos, até perguntamos "o que você fez para merecer" ou "não seja bundão".  Bullying não é revide por algo que alguém fez, é o prazer em torturar aquele que parece o mais fraco, sempre e repetidamente, é uma forma de estabelecer hierarquias e microrrelacões de poderes.  O bully é poderoso no seu próprio círculo, a escola pode ser uma micro-sociedade das mais agressivas e cruéis. E, como disse a pscióloga Rosely Sayão, nos preocupamos com a vítima, raramente, pensamos que nosso filho ou filha pode ser um agressor. 


As pessoas precisam deixar de negligenciar os efeitos do bullying.  É terrível para quem sofre e se mais meninos, especialmente eles, por questões socioculturais, tivessem acesso à armas, teríamos mais incidentes como o de Goiânia.  E, não, este não é um post sobre porte de armas.  Os pais do menino são policiais, precisavam ter armas e por mais cuidadosos que fossem, dificilmente imaginariam que seu filho estava planejando fazer o que fez.  Provavelmente, e não tenho dado nenhum, estou somente sendo solidária com o pai e a mãe do agressor, foram portadores responsáveis de armas.

Uma última coisa, isso, sim, está entalado aqui na minha garganta.  Semana passada, estreou um filme para o público infanto-juvenil no Brasil no qual um bully é visto como o herói da história e modelo a ser seguido.  Bullyies não podem ser modelos de sucesso para ninguém.  Eles tornam a vida de crianças e adolescentes miserável, eles ajudam a tornar as escolas um lugar mais violento do que ela já é.  Quem riu desse filme, o defendeu nas redes sociais, e ontem veio reclamar que vão usar o caso de Goiânia para criticar a questão das armas e que se deveria focar no bullying, esse grande mal, precisa repensar seus valores.


Bullying não é engraçado, não é legal, não pode ser encarado como normal.  Quem sofre bullying é vítima e precisa de ajuda, não pode ser abandonado.  E o bully, sempre que possível, precisa ser corrigido e reintegrado.  Estamos falando de crianças e adolescentes, de possibilidades de socialização e correção.  Há escolas que estão enfrentando o problema, o que não impede que o bullying continue lá, mas quem disse que o trabalho é fácil?  O que precisamos a todo custo evitar é que novas tragédias como essas aconteçam.

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2 pessoas comentaram:

Chamo isso de ABUSO DE PODER. De certa forma, o agressor é um déspota. Infelizmente tem gente que é humilha da ao extremo e é capaz de matar. (não justifica... mas cada reação é reação)

Bullyng, Mata tanto vítima, quanto o agressor.

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