domingo, 15 de outubro de 2017

Já que me pediram um post de dia dos Professores...


Me pediram um post de dia dos professores. Sou professora, normal é escrever em uma data como essas... Talvez a ideia fosse elencar professores de anime e mangá, recentemente, até descobri que a vida dos professores no Japão pode ser tão ruim como a de muitos companheiros por aqui (*Ex.: 1 e 2*).  Eu consigo lembrar de vários, se incluísse os treinadores em mangás de esporte (*o que inclui coisas como balé, música e teatro*), teria muito mais gente para citar.  Como a vida dos jovens japoneses gira em torno da escola, professores em mangás shoujo e shounen são abundantes, ainda que a maioria não se destaque muito, porque, bem, o centro da ação normalmente são os jovens.

Onizuka encabeça todas as listas
de melhor professor de mangá.  Pode procurar.
Mas vamos lá, acho que o primeiro professor de anime do qual me lembro não era bem um professor, mas foi professor em um episódio, era o Van Helsing de Don Dracula (ドン・ドラキュラ).  Anime enlouquecido, Van Helsing queria usar sua posição de professor para pegar o personagem título, já que daria aulas para a filha de Drácula, Sangria.  Ele finge que tortura a menina para impressionar o pai dela, mas, no final, Dracula e Van Helsing se unem em um esquema para vender um método infalível de cola... Nada que seja aprovado pela moral e os bons costumes, mestre Tezuka não brincava em serviço. 

Yukari-sensei é engraçada e perigosa, também.
Posso lembrar de professores bons e ótimos (Kumiko-sensei de Gokusen), sádicos (Jin Munakata de Ace wo Nerae), responsáveis (Minamo-sensei de Azumanga Daioh), loucos (Yukari-sensei de Azumanga Daioh) impossíveis (Korosensei), depressivos (Nozomu Itoshiki de Sayonara, Zetsubou-Sensei!) pervertidos (Kimura-sensei de Azumanga Daioh), imortais (Tsukikage-sensei de Glass Mask), sedutores (Viktor de Yuri!!! on ICE) e alguns que parecem fofos, mas são detestáveis (Terada-sensei de Saura Card Captors).  Há também mangás intermináveis sobre professores/as.  As continuações de Seito Shokun! (生徒諸君!) que o digam, imagino que Nakki seja uma professora fantástica, porque somando as séries com ela adulta já são para mais de 50 volumes... 

Quem não queria o Viktor como professor????
Será que é isso que se espera do Shoujo Café hoje?  Há tantos posts em sites por aí com listas de melhores professores.  Obviamente, a maioria shounen, a maioria com Onizuka, de Great Teacher Onizuka, no topo da lista.  Preciso fazer um post parecido?  Enfim, estou tão esgotada que o blog mal tem funcionado, apesar de montes de notícias e assemelhados abertas aqui e ali.  Júlia passou a semana doentinha, enjoando.  Tive uma carga de trabalho grande e o clima em Brasília está infernal,  literalmente, quente e seco.  Tivemos os dois dias mais quentes do ano esta semana.  Enfim, vou transplantar para cá meu post do Facebook.  Não todo ele, mas uma parte que é cabível.  Vamos lá:


Gosto muito desse quadrinho. Cada professor e professora contribui - não determina, forma, ou deforma - para o crescimento dos seres humanos que chegam em nossas salas de aula.  Pudera todos nós colaborarmos para que vocês ganhassem balões ou asas e pudessem ir mais alto e mais longe. É assim que eu gostaria de ser lembrada, como alguém que ajudou de alguma forma, não como alguém que detém a luz do saber, ou seja lá o que for, e ilumina a vida de alguém. Isso efetivamente não existe.  Primeiro, porque o saber/conhecimento nunca é acabado, pronto, estagnado, para ser transmitido. Segundo, bem, ainda precisa explicar?

Por uma educação humanística.
Mas é muito problemática essa nossa profissão e, agora, vou falar de coisas feias. Quantas vezes não ouvi "Professor sempre vai ter emprego!". Uma profissão que deveria ser valorizada, ainda mais nas séries iniciais, é cheia de gente que não deveria estar nela, que fez a escolha errada, que não tem vocação, preparo ou amor pelo que faz. Não há argumento salarial que justifique gente em sala de aula massacrando crianças e jovens, embotando seus sonhos, sua capacidade de questionar, derramando bobagens e crueldades. Minha profissão é cheia de gente que me dá medo e faz vergonha.  Há quem acredite piamente que o problema está sempre com os/as alunos/as, isso é um grande erro.

O/A professor/a não é uma obra
acabada e o/a aluno/a não é uma folha em branco.
De resto, vivemos um momento muito complicado em que desejam nos criminalizar quando fazemos o nosso trabalho, quando não colocamos antolhos em nossos meninos e meninas. Não, não se trata de tentar retirar os maus professores de sala de aula, ou ajudar os que tem problemas, trata-se de destruição de carreiras, sonhos, projetos. Trata-se de matar o futuro de nosso país. Nem em meus piores pesadelos, eu imaginaria tamanha perseguição e difamação (*Exemplo*).  É muito, muito triste. Pior ainda, ver tanta gente elegendo um dos maiores pedagogos do século XX, Paulo Freire, um brasileiro, como uma ameaça, ou um monstro.  Isso, sem ler, sem estudar, só por ouvir dizer de internet... Tempos tenebrosos.

Acho que no Brasil do Escola Sem Partido,
Zetsubou-sensei iria conseguir morrer.
Que mais dizer? Gosto de ser professora. Se alguém quiser me matar aos pouquinhos, basta me tirar de sala de aula. É meio que um exercício vampiresco. Meus alunos e alunas me enchem de vida, de esperança no futuro, de alegria, mesmo em momentos de grande tristeza pessoal.  Talvez, eles e elas não imaginem o quanto são importantes, eu sei que não sou a mais efusiva, nem sociável das professoras.  Minha timidez não permite, ainda que eu veja a sala de aula como um palco e me lembro de professores e professoras queridos nessas horas...  Mas a profissão é permeada pela reciprocidade, nós, professores/as, aprendemos bastante, também com o tempo.  A Valéria que entrou em sala de aula a primeira vez com 17 anos, é muito diferente da Valéria de agora, com 41 anos.  Espero que o saldo seja positivo para mim e para meus alunos e alunas.  Será?  

E assim como Jun Munakata, de Ace wo Nerae,
nunca viu Hiromi em toda a sua potencialidade
(*ele morre cedo no mangá*),
sei que não verei o sucesso da maioria dos
meus alunos, só espero ter contribuído
e nunca atrapalhado.
Enfim, desejo a todos os colegas, uma maioria de mulheres, mal pagas, pouco respeitadas, agora, também, criminalizadas, um Feliz Dia dos/as Professores/as.  Que não seja somente mais uma data para constar, que em 2018 possamos voltar e dizer que algo de bom ocorreu.  Infelizmente, vivemos dias bem sombrios e nunca a nossa prática cotidiana em sala de aula foi tão importante, eu diria, para possibilitar sonhos, valorizar talentos, reforçar os valores humanísticos que, a rigor, pautam a nossa profissão.  É isso.

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