domingo, 19 de novembro de 2017

Quem sempre é representado, não entende a importância do que é sair da invisibilidade. NÃO ENTENDE MESMO!



Ontem, não postei nada no Shoujo Café, passei a tarde e a noite corrigindo provas, hoje, apesar de ter várias coisas abertas aqui, resenha da Liga da Justiça e de Rosa Luxemburgo para fazer, preciso publicar uma reflexão.  Sei que minha opinião - é opinião MESMO - será polêmica, mas preciso escrever. 

Tempos atrás escrevi um texto com o título representatividade só não é importante para quem é sempre representado, este post se conecta com ele.  Enfim, não vi o post, não leio o Mídia Ninja, salvo se aparece na minha timeline, mas eles louvaram o fato do Fórum Econômico Mundial, em Davos, aquele "antro neoliberal", será presidido por mulheres em 2018. Aliás, a BBC tinha publicado recentemente uma matéria chamada "Onde estão todas as mulheres da economia?" ressaltando que elas são invisíveis... Daí, procurando onde e como começou essa história, me deparo com um site de (extrema) esquerda muito importante com a seguinte frase "A representatividade é uma armadilha tradicional da política burguesa".  A isso respondo que quem sempre é representado, não entende a importância do que é sair da invisibilidade. Por isso, por exemplo, a presença do marido do primeiro-ministro de Luxemburgo na foto das primeira-damas da OTAN foi tão importante.  

O post da discórdia.
Certos nichos marxistas continuam defendendo teses que nasceram insensíveis e ultrapassadas, direito deles (*porque são principalmente ELES*), mas quando a coisa aparece na minha time line e o assunto são mulheres, me sinto tentada a me pronunciar.  Há quem acredite que os feminismos nasceram atrelados à esquerda, mas não é bem assim, havia feministas de esquerda, burguesas, de direita, enfim, de várias cores e origens e os núcleos duros (*e MASCULINOS*) da esquerda tradicional defendiam e continuam defendendo que falar dos direitos das mulheres é uma estratégia burguesa, que se deve focar na questão de classe.  Para Engels, a desigualdade entre homens e mulheres tinha suas origens na instituição da propriedade privada, assim, eliminadas as classes sociais, as desigualdades econômicas, homens e mulheres seriam livres e iguais. 

Daí, alguns citam os primórdios da Revolução Russa como modelo dessa igualdade utópica sonhada pelos socialistas e comunistas.  Alexandra Kolontai, primeira mulher ministra de estado, e tantas outras mulheres que participaram do movimento socialista, dos primeiros anos da Rússia revolucionária e da URSS, das leis progressistas (*e radicais para muitas mulheres*) desses anos servem de exemplo.  Esquecem, no entanto, que Stálin, ao chegar no poder promoveu uma série de retrocessos (*backlash*), fechou a seção feminina do partido comunista, confiscou o direito de aborto, reforçou que o espaço principal das mulheres era o lar e quando as mulheres voltaram da 2ª Guerra fez o possível para que fossem esquecidas.  Procurem a representatividade dentro dos comitês gestores da antiga URSS, de Cuba, da China etc.  Não iremos achar muitas mulheres.

Alexandra Kolontai, primeira mulher a ser ministra de Estado,
mas não foi ela a definir os rumos da URSS.
Eliminaram (*discursivamente*) as barreiras de classe, mas as de gênero, continuaram lá.  E toma repetir que falar de representatividade é armadilha burguesa.  Claro que é, não é mesmo?  Afinal, exporia a falácia da igualdade dentro dos grupos de esquerda, dentro dos estados que colocaram em prática o socialismo real.  Até hoje, é uma briga conseguir paridade em sindicatos, partidos e outros meios.  Quando tentamos, muitos homens, que falam alto e gesticulam, vem com o "armadilha burguesa" ou com um "as mulheres não querem participar".  

Presenciei uma ceninha dessas em agosto e falo como testemunha ocular, não como teórica do assunto somente.  Eu me ofereci para compôr uma comissão paritária (*50% homens/50% mulheres*), depois de grande insistência para que alguma mulher se voluntariasse (*eu tenho uma filha pequena e um marido com problemas de saúde e nenhum parente próximo de mim para dar suporte.  Problemas "de mulher", vocês sabem.*), pois o blá-blá-blá agressivo do esquerdomacho (*que queria se impor como membro da comissão*) foi me deixando cada vez mais furiosa, levantei e o sujeito queria me matar.  Ele se retirou da disputa aos berros, porque teria que ir para o voto com outros três homens para compor a comissão e ele não era bem uma pessoa simpática que a maioria quisesse chamar para um chazinho... 

Clara Zetkin e a amiga (*quase 15 anos mais jovem*),
Rosa Luxemburgo.
Disse que terminei de ler Rosa Luxemburgo, o quadrinho, enfim, essa grande pensadora socialista não gostava de estar nos espaços segregados de mulheres, como o movimento sufragista e feminista de sua amiga Clara Zetkin.  Não queria ser vista nem como mulher, nem como judia, mas como "um dos caras" e lutou para estar no meio dos homens, ser vista e ouvida por eles.  Isso, mais de um século atrás.  Os homens queriam Rosa entre eles para colocar em palavras o que eles queriam ouvir, quando ela saia do script, ela era execrada.  Na verdade, mulheres só são bem-vindas quando concordam, quando se calam, quando aplaudem, quando, em muitos casos, são usadas para castigar outras mulheres.  Se querem discutir as questões de interesse feminino, se se afastam um pouco do recorte tradicional de classe palatável aos homens (*e este, como raça, não pode ser esquecido*), seu lugar de fala é questionado.  "(...) armadilha tradicional da política burguesa"... 

Daí, e voltemos para hoje, continuam a fazer a crítica errada (*representatividade é armadilha..."*) e só confirmam aquilo que para mim, como feminista, é óbvio: a classe dos homens, de preferência (socialmente) brancos, de preferência heteros, com certeza cis, se defende. E pode ser de direita, esquerda, centro, ou da lua, fazer a autocrítica é tarefa dificílima.  A questão ideológica parece ser o mais importante, mas, no fundo, no fundo, eles - a maioria, pelo menos - não parece perceber que as mulheres precisam e devem ocupar espaços, na verdade, se não estivermos, a culpa é nossa (*ou do capitalismo, ou do patriarcado, ou...*), se estivermos, podemos ser um distrator para o que realmente importa (*a luta de classes, a revolução, whatever*).  Enfim, vou trabalhar daqui para frente em cima de dois exemplos indigestos.  São, sim, mas são úteis ao meu texto:

Mas, até lá muita coisa precisa ser feita.
Margaret Thatcher (*sempre citada para desqualificar a representatividade*) foi importante para as mulheres SIM. "Valéria, sua louca, ela cortou até o leite das criancinhas!" (*E mulher não pode ser má com criancinhas, só homem é que é mau...*)  Pessoal, Thatcher nunca priorizou o fato de ser mulher e ela não era feminista, aliás, as desprezava e dizia não dever nada ao movimento (*mentira, começando pelo direito de votar, mas não vou discutir isso*).  Há mulheres fortes e empoderadas, que não são feministas, sabe? Agora, por causa de Thatcher, uma menina poderia olhar e desejar, sonhar, estar lá, no lugar dela e, ao mesmo tempo, se imaginar fazendo TUDO diferente do que ela fez. 

Muitas mulheres talvez até entendessem Thatcher de forma totalmente equivocada (*e há uma cena espetacular sobre isso em A Dama de Ferro*), mas ela estava lá, no meio dos homens, assim como Rosa Luxemburgo esteve, mostrando que ERA POSSÍVEL sonhar com aquele lugar. Thatcher era mais um reforço de que aquele era um lugar que as meninas e mulheres podiam aspirar.  Fique na cozinha, seja a secretária, ocupe-se de tarefas repetitivas e meticulosas, cuide das pessoas nos seus níveis básicos, acredite que a maternidade e somente ela é seu destino, esse é o seu lugar NATURAL, Thatcher mostrou o quanto isso pode ser diferente.  

Thatcher na reunião da OTAN de 1990. 
Não creio que era fácil ocupar este espaço, não.
Simone de Beauvoir colocou bem que "O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.".  Final da década 1940 e, hoje, muita gente ainda não percebeu isso.  A opressão não é homogênea, não é igual para todos/as, daí os recortes de classe, raça, orientação sexual, identidade de gênero serem tão importantes. Mas paremos de idealizar as mulheres, na verdade, nos reduzindo à "mulher", um modelinho único, porque isso é o fundamental para a manutenção da própria sociedade patriarcal e das desigualdades de gênero. 

Mulheres podem ser "malvadas", insensíveis, podem compartilhar dos valores mais cruéis que o capitalismo pode produzir, podem pensar primeiro em sua classe (*ainda que as marxistas feministas desde os anos 1970 digam que o escravo não pertence à classe do seu senhor*) do que nas outras mulheres, mas estarem lá, onde os homens não fazem questão de tê-las, onde eles acham que não é o SEU LUGAR, também é importante para NÓS MULHERES.  Thatcher chegou onde nenhuma mulher chegou na Grã-Bretanha até hoje.  Ela precisa ser lembrada e isso não significa canonizá-la, ou deixar de apontar os problemas em sua gestão, isto, claro, para quem não comunga dos princípios que ela defendeu.

Alienação?  Manipulação? Estratégia?
Vamos para o outro exemplo, esse muito vivo e atuante: Fernando Holiday.  Um Holiday é um desserviço gigantesco, mas ele seria menos notado se fosse como todos os homens com lugar de fala privilegiado e com poder para prejudicar a sociedade: socialmente branco. As críticas, muitas vezes, se focam no fato dele ser negro e ser um babaca, como se todo negro, por ser negro, fosse (*ou tivesse que ser*) combativo das causas sociais mais nobres, consciente do racismo estrutural e de ESQUERDA. Nunca vi as críticas se focarem no fato dele ser demasiado jovem e inexperiente, a sua cor e, em alguns momentos, sua origem social, se impõe na maioria das análises.  Eu não aconselho ninguém a votar em um Holiday, há opções melhores, mulheres, especialmente, mas um jovem negro pode olhar para ele e pensar "eu posso tentar ocupar esse lugar e FAZER DIFERENTE". 

A ausência de negros na política só reforça a mensagem de que política é para os homens, brancos, ricos e algumas exceções aí pelas beiradas, uma mulher branca rica, um jogador de futebol, um excepcional intelectual negro ou um apadrinhado e por aí vai. Negros, especialmente os pobres, devem ficar no seu lugar, nunca aspirar coisas maiores. E se aspiram e erram, serão ridicularizados por serem negros em primeiro lugar (*mas racismo não existe*), não por serem corruptos, ou mal preparados ou...  Todos lembram de Celso Pitta, afilhado político de Maluf, que São Paulo elegeu (*sim,  nem ele, nem o Holiday, não chegou lá sozinho, ou somente com o voto dos negros e negas*) prefeito, poucos lembram do combativo Paulo Paim, senador petista pelo Rio Grande do Sul e de como ele faz jus ao seu cargo. 

Paulo Paim, por que não lembram dele?
Repito, se ver é importante. O ato de silenciar e excluir sempre é político. "Ah, elas não existem!", ou "O que elas têm a dizer não é importante..."  Há mulheres cientistas, mas não as chamam para os eventos e mesas, se não estão nos livros didáticos, logo, elas não existem.  Há mulheres economistas (*o foco da querela*), mas não as chamam para ocupar lugares de destaque, logo, elas não existem, não tem nada a dizer. Monto uma mesa sobre direitos das mulheres, não chamo nem mulheres juristas, nem militantes feministas, nem médicas, nem...  Bastam os homens de sempre.  Quem entende melhor da nossa vida do que eles?  Lembrem da PEC "Cavalo de Tróia".  Será que se tivéssemos mais mulheres na comissão o abuso daqueles 18 homens seria tamanho?  

Será que mesmo diferentes, com idéias diferentes a respeito de tantas coisas, com vivências individuais, as mulheres - se representadas na comissão - não pensariam que elas também são mulheres, em suas irmãs, em suas filhas, em suas netas?  Será que naquele momento não se instalaria a serialidade, isto é, unir forças pontualmente por algo que nos une, sem necessariamente nos tornarmos aliados permanentes.  A experiência de ser mulher em uma dada sociedade nos iguala pelo menos em alguns aspectos e em situações determinadas?  Olha, se tudo que eu leio sobre atuação parlamentar feminina não estiver errado (*Exemplo*), sim, acredito que a maioria das deputadas, mesmo as mais reacionárias, votaria contra a proibição do aborto em qualquer situação.

De quantas mulheres cientistas você se lembra? 
E de suas descobertas e feitos?
Voltando ao ponto inicial, representatividade é importante, se ver é importante, crer-se capaz de chegar lá é importante. Ver homens reforçando que não é importante, quando se trata das mulheres e de outras minorias (*em termos de representatividade, vejam só*) é deveras comum.  É assim que funciona. O mecanismo é esse, trata-se da luta pela manutenção de espaços de fala e de poder.  Critico Davos, mas penso no meu partido e no meu movimento sindical.  Vai que as mulheres cismam de querer representatividade aqui, também?  Companheiras, primeiro as questões de classe, o problema das mulheres se resolve se cuidarmos do que deve vir primeiro!  Tipo na URSS... E a crítica a determinadas falas bobinhas e inocentes, caso, talvez, do que a Mídia Ninja fez em relação a Davos, pode ser feita de forma muito mais articulada do que "não basta ser mulher" ou "não basta ser negro" ou "olha, os nazistas tinham uma seção feminina do partido" (*como dizem alguns, foi de "cair a bunda" esse negócio aqui...*). Sério, cara, as pessoas precisam ter mais discernimento sobre seu privilégio masculino, precisam, sim.

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