sábado, 23 de dezembro de 2017

Novelando: algumas palavras sobre Tempo de Amar e como o amor da ficção é bem irreal

O primeiro beijo trocado.
Estou faz tempo querendo escrever outro texto sobre a novela Tempo de Amar, a única que acompanho no momento e fico no Twitter vendo os papos, o que é pior... Parece coisa de desocupada, certo?  Pois é... Olha que coisa feia!  Enfim, meu texto anterior foi um comentário sobre os trinta primeiros capítulos da trama (*Está aqui*). Uma coisa que nunca fiz, porque tinha perdido vários capítulos e meio que fiz uma maratona.  De lá para cá, muita coisa aconteceu, mas o mocinho e a mocinha não se reencontraram ainda, contrariando todos os princípios do folhetim.  Pior, ninguém que eu conheça  lamenta.

Vamos lá, este texto terá maior função do que discutir novela, porque eu gostaria de falar sobre amor.  Quando eu era  jovem - adolescente até lá pelos meus vinte e poucos anos - com zero experiência amorosa para além do cinema, da literatura, das novelas, do que minha mãe ensinava e das pessoas que observava, eu cria piamente em amor eterno, que só se amava de verdade uma vez na vida, que não se podia amar de formas diferentes  e mais de uma pessoa ao mesmo tempo, que sexo sem amor não deveria existir e que nunca seria satisfatório de verdade.  Continuo sem grandes experiências próprias, mas percebo que as coisas não são bem desse jeito aí.  O problema é que muitos folhetins continuam operando nessas bases.


O romance apressado do casal que mal vimos juntos em tela.
Em Tempo de  Amar, a mocinha Maria Vitória conheceu Inácio.  Ela rica, ele muito pobre. Se apaixonaram e trocaram seu primeiro beijo no primeiro capítulo da novela (*a repetição da palavra foi para dar ênfase*).  No capítulo 4 ou 5, já tinham transado, juram amor eterno, ele parte para o Brasil e ela se descobre grávida, solteira e escorraçada pelo pai.  Foi uma correria desnecessária.  Os protagonistas não se reencontraram ainda depois da primeira semana de novela.  

O mocinho trabalhador está agora no Brasil, sabe por carta do filho, decide voltar, mas bandidos o agridem e roubam na estrada.  Ele é encontrado entre a vida e a morte pela vilã - provavelmente psicopata - que salva sua vida, mas decide que ele lhe pertence.  Ele se recupera, mas fica um tempão cego e é dado como morto.  A vilã mexe seus pauzinhos e o mocinho parece esquecer que tem família em Portugal, um patrão que o trata como filho, a dona da pensão em que morava, acredita nas mentiras que lhe contam de que sua amada casou e outro homem assumiu seu filho.  Para arrematar, ele  se casa com a vilã mentalmente desequilibrada sem pensar duas vezes.


Ouvindo Maria Vitória chorar por Inácio.
Enquanto isso, nossa destemida mocinha teve sua filha roubada, atravessou o Atlântico, quase  foi violentada pelo outro vilão da novela (*a novela tem bem uns quatro vilões assumidos e mais alguns enrustidos, fora  os minions*), e acabou esbarrando com Vicente, moço rico e de bom coração.  Primeiro, eles se tornaram amigos, se consolaram por seus amores perdidos, trocaram confidências.  Com o tempo, o moço que a salvou de outra tentativa de estupro por parte do tal vilão, descobriu-se apaixonado por ela.  A  moça, que crê que Inácio esteja morto, se nega aperceber que ama Vicente.  

O primeiro beijo dos dois foi roubado pelo rapaz (*não, não vou discutir consentimento, porque a gente sabe dos sentimentos de Maria Vitória por ele e o rapaz se desdobrou em desculpas depois*), mas, dias depois, o beijo foi compartilhado.  Foram capítulos e mais capítulos construindo de forma sólida um romance, fazendo com que a relação dos dois fosse crível.  Fora isso, Vitória Strada e Bruno Ferrari tem química.  Eles funcionam juntos. As cenas deles são ternas, românticas, pontuadas por um texto bem estruturado e polido, e que é um dos destaques da novela. 


Salvando a mocinha do vilão estuprador.
Nem vou dizer que Inácio não funciona com a mocinha, porque, bem, eles mal contracenaram.  Fora isso, Inácio foi privado de parte da sua virilidade, assumindo por vontade a posição de bichinho de estimação da vilã.  Quer dizer, ele não assumiu nada, ele é uma PERSONAGEM foram os autores - Alcides  Nogueira e seus colaboradores - que o colocaram nesta situação injusta e absurda.  Daqui três meses, a novela termina.  A torcida está toda - ou mais de 90% - por Maria Vitória e Vicente (*ou #MAVICENTE, como o povo costuma escrever no Twitter*), como consertar essa lambança?

Li em algum lugar que Inácio vai lutar pela filha e por Maria Vitória, que amoça estaria de casamento marcado com Vicente quando ele reaparecesse na sua vida.  Olha, uma coisa é ter a mocinha enganada, aprisionada, e casando com o vilão, quando o mocinho - tido como morto - reaparece.  Outra coisa é ela estar se casando com o cara mais legal da novela e aparecer o encostado do mocinho, porque ele aceitou casar com uma moça rica que não amava e ficou um tempão no bem bom por vários capítulos,enquanto a mocinha passava momentos terríveis, e  impedir o enlace dos dois.  Fora, claro, que estamos nos anos 1920 e ele está casado no cartório e na igreja com outra.


O primeiro beijo que não foi trocado, mas roubado.
A  forma mais eficaz de resolver um impasse como este seria matar alguém.  Inácio, claro, seria a melhor escolha, a própria vilã poderia matá-lo ao tentar acertar Maria Vitória (*se os autores  não tem vergonha de serem ridículos, eu também não tenho*).  Vicente poderia morrer, também, já estamos chegando na Revolução de 1930 e poderiam criar um incidente.  Mas acredito que os autores não façam isso.  Talvez, queiram macular Vicente de alguma forma, ou reativar o romance dele com a tal cantora de ópera que está encostada sem ter o que fazer na trama.  Ou, simplesmente, vão reforçar que Maria Vitória nunca deixou de amá-lo, que são almas  gêmeas, tem uma filha, e rejuntar os dois com Vicente, sempre um cavalheiro, abrindo mão de seu amor.

Certo, este texto não está caminhando para lugar algum, nem fiz as ponderações sobre o resto da trama que eu gostaria, e nem vou fazer,porque vou dormir.  voltemos então ao amor.  Essencialmente, boa parte dos folhetins continua trabalhando em cima daquela idéia inicial que pontuei: só se ama uma vez, de um jeito só,uma só pessoa e amor de verdade dura para sempre, se você o perde, vive amargurado pelo resto de seus dias.  


De lá para cá, as coisas progrediram um tiquinho.
A ficção, não somente as novelas, alimenta idéias idealizadas a respeito do romance e do casamento.  É  bonito de se ler e assistir, mas se a gente se pauta por essas coisas termina sofrendo, aceitando violências, privações desnecessárias, perdendo oportunidades de crescimento em nome de um amor que precisa ser eterno.   Lembro de como - apesar dessa visão idealizada do amor que disse ter - coisas como o filme Love Story ou Romeu e Julieta (*li a peça com 13 anos*) me irritavam. Eu nunca consegui chorar por eles.  Essa urgência que plantam dentro da gente, como se só houvesse uma oportunidade na vida de ser feliz.  

Eu chorei por Tristão e Isolda (*li a minha primeira versão da história com 12 anos*), porque aquele amor era realmente impossível e me pareceu eterno.  O mocinho ama a princesa filha do inimigo, acaba tendo que buscá-la para casar com o próprio tio, que tinha idade, talvez, para ser avô da moça.  No caminho, a criada que recebera da mãe de Isolda um filtro de mor para servir para amoça relutante e seu marido imposto na noite de núpcias, termina servindo a beberagem mágica para  os dois jovens e Tristão, que arrastado pela magia, esquece da honra e do dever, já Isolda,esquece que odeia o cavaleiro, porque ele não a tomou para si, como era seu direito (*ele matou o dragão que assolava o reino da Irlanda e poderia se casar  com ela, porque era o decreto do rei, pai da moca*) e decidiu levá-la para desposar  o tio. Depois disso, só tragédia, romance, mais tragédia, separação, mal entendidos, até chegar na tragédia final.  E, sim, eu acredito que se possa amar somente uma vez na vida, só não creio que seja a regra geral para todo mundo.  E, sim, um dos meus primeiros amores literários foi o Tristão.  Lembro de que quando terminei a leitura, era um primeiro de janeiro,chorei por quase meia hora.


Edmund Blair-Leighton.  Tristão e Isolda (1902)
Se novelas fossem uma imagem da realidade, Maria Vitória se casaria com Vicente, teriam filhos adoráveis, seria feliz com ele ainda  que guardasse no coração a lembrança de Inácio, seu primeiro amor.   Já Inácio, descobriria o quanto foi imbecil e acomodado, aceitaria permanecer em um casamento vantajoso com Lucinda, teria amantes, talvez (*se bem que ele parece só amar o bandolim*), ou se separaria dela e iria enfrentar a vida.  Talvez, manteria contato com Maria Vitória por causa da filha que tiveram juntos, talvez, pelo bem das aparências e conveniências, abrisse mão de contato com a criança.

Talvez, como aventei no Twitter, os autores dariam um salto de trinta anos e os dois, viúvos, se reencontrariam por acidente em 1968 em uma passeata pedindo democracia,afinal, ambos pareciam ter  uma postura progressista e democrática.  Já maduros,  com filhos criados, a velha chama se reavivaria.  Terminariam juntos.  A forma mais decente de uni-los seria esta.  Seria uma forma razoável de resolver a situação reatando o romance do início, mas sem ofender nossa inteligência ou sensibilidades, afinal, a maioria torce pelo Vicente.  Se os autores  quiserem aproveitar a minha ideia, está aí, podem pegar.


E tudo começou com uma amizade.
Enfim, para  quê escrevi este texto todo?  Não sei, as coisas relevantes que queria discutir  sobre o andamento da trama, não discuti. De  qualquer forma, vocês já perceberam que estou torcendo pelo romance de Vicente e Maria Vitória.  Preciso confessar, inclusive, que mudei de ideia a respeito do Bruno Ferrari,ele não é mau ator.  Agora, também preciso fazer a defesa do Bruno Cabrerizo, o Inácio.  Ele não é ruim.  A maioria torce pelo Vicente, porque Inácio e Maria Vitória não tiveram tempo de estar juntos em tela, mostrar que são almas gêmeas.  Agora, como os autores vão consertar esta lambança, não sei. Só sei que se separarem Maria Vitória e Vicente, Alcides Nogueira periga receber mensagens como as que Riyoko Ikeda recebeu quando matou Oscar em A Rosa de Versalhes... 

P.S.: prometo um texto decente sobre a novela da próxima vez. Este aqui foi coisa de fã que está shippando loucamente um casal.

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