quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Comentando O Touro Ferdinando (Ferdinand, 2017)


Ontem, fui com Júlia assistir O Touro Ferdinando, filme animado dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha (Rio/A Era do Gelo) e baseado no livro The Story of Ferdinand do norte-americano Munro Leaf, publicado em 1936.  Não é um grande desenho, tem muitas do estilo bobão das últimas continuações de A Era do Gelo, mas é um material acessível para discutir com crianças questões importantes como pacifismo, maus tratos aos animais e o próprio conceito de masculinidade hegemônico.  Resumindo, como filme precisava melhorar muito, mas tem seus momentos.  

Ferdinando começa o filme como um bezerro na fazenda Casa del Toro, especializada na criação de touros para a arena.  Desde muito cedo, os bezerros se enfrentam antevendo a glória da arena, mas Ferdinando prefere cheirar flores e adota uma postura pacifista além da compreensão de seus companheiros e de seu próprio pai, que é selecionado para as touradas. Quando seu pai não retorna, Ferdinando consegue fugir e acaba sendo abrigado pela menina Mina e seu pai. O tempo passa, o bezerro cresce, e um mal entendido faz com que Ferdinando seja preso e reenviado para a Casa del Toro.  Ele vai seguir o destino que lhe tinha sido traçado?  Ele conseguirá se manter longe da arena?  Seu fracasso o levará para o matadouro?  O que será de Ferdinando?

Para Ferdinando, a arena não era a glória,
ele nunca a desejou.  Ao longo do filme,
ele descobre que, na verdade, ela significa morte.
Será uma resenha curta, ou assim espero. O Touro Ferdinando já havia sido adaptado em um curta metragem que venceu o Oscar em 1938.  Eu assisti quando criança, ainda que tenha remota lembrança dele.  A nova animação possui um visual muito bonito, especialmente, os campos de flores, mas faz um uso muito limitado do 3D, isto é, só está lá para pagarmos mais pelas entradas. Função mesmo, quase nenhuma. O estilo de humor maluco da Era do Gelo 4 e 5 parece aflorar aqui e ali, na maioria do tempo não colaborando efetivamente para o engrandecimento da história, só a torna boba mesmo.  A gente ri, mas funciona como as intervenções do esquilo da Era do Gelo e só.

Os três pontos importantes para discussão no filme, no entanto, estão bem claros.  O primeiro deles é o pacifismo.  Ferdinando leva sua recusa a lutar aos extremos, tal e qual um Gandhi, ele se posta diante do inimigo e se recusa a revidar.  Logo no início ele diz para seu principal antagonista, o bezerro, depois touro, Valente, que ele pode bater nele, fazê-lo sangrar, mas que ele protegeria a indefesa flor, seu tesouro.  É fácil compreender por qual motivo governos fascistas baniram o livro original, afinal, é possível ver em Ferdinando os ecos da I Guerra Mundial, da recusa de muitos em pegar em armas e como esta atitude é subversiva. O pacifismo do touro termina contaminando seus companheiros e fazendo com que eles se posicionem criticamente em relação ao seu “destino”, a arena, a morte certa.

A amizade de Nina e Ferdinando é bonita.
O segundo ponto do filme é a discussão do próprio conceito de masculinidade vigente em nossa sociedade.  Sabe aquela ideia de que ser homem é ser violento, de que homem não chora, não pode gostar/apreciar o belo, que deve pisar e humilhar os mais fraco, submetê-los?  Tudo isso está explicito em O Touro Ferdinando.  O protagonista não se enquadra e se recusa a abraçar os modelos hegemônico de masculinidade.  Ele sofre na infância, mas busca ativamente a felicidade, fugindo, se insubordinando, se recusando a lutar.  Tudo isso exige muita coragem, ser diferente não é fácil, e como o filme é simples, espero que os pequeninos consigam entender a mensagem.

A Casa del Toro é como a escola de gladiadores de Spartaco.  Tudo ali transborda testosterona.  Os jovens bezerros admiram os adultos mais violentos, porque este seria o selo da virilidade e o passaporte para a glória.  Só que nem todos os que tentam atingir a perfeição vão atingir a meta e nem podem, afinal, é preciso selecionar, excluir, hierarquizar.  A arena não é para todos, se você não nasce com o tipo físico certo, como Magrão, o seu destino pode ser o matadouro.  Se você não controla seus nervos, como Guapo, você pode ser descartado.  Violência, competitividade, desprezo pelos mais fracos, são os pilares desse modelo.  Ferdinando escolhe não se enquadrar, mas mesmo os que se esforçam podem ficar às margens.

Touros, cabra e ouriços em fuga.
O terceiro ponto é a própria condenação da violência contra os animais.  Tourada não é esporte.  Não importa o quanto um touro seja magnífico, ele nunca vai vencer, ele nasce derrotado, porque o bicho homem controla o jogo e suas regras.  O toureiro não é um herói, sua elegância e coragem são  falsas, porque tudo é construído para que ele prevaleça no final, que um touro assustado, estressado, termine sendo morto.   O abatedouro é outro ambiente mostrado no filme.  Se a arena é  o local da glória, o abatedouro é o espaço do medo. Uma câmara de horrores, destino dos touros que fracassam.  Mas o que seria a glória se ninguém volta da arena?  É aí que Ferdinando consegue contaminar os outros com seu modo alternativo de pensar e, bem, vou repetir: não me espanta que regimes fascistas como o de Franco tenham banido o livro.

Talvez, haja uma quarta questão em Ferdinando: as aparências enganam. Ferdinando é grande, maior que a maioria dos touros. Ao olharem para ele as pessoas esperam violência, mas ele é gentil e dócil.  O problema é que por causa da sua aparência, um pequeno deslize pode ser fatal.  É possível falar de preconceito usando Ferdinando.  As pessoas são mais do que estereótipos, no entanto, nem sempre elas têm tempo e/ou oportunidade de mostrarem sua índole, competências, porque são rotuladas de antemão.  Nosso herói, Ferdinando, sofre com isso.

Ferdinando se recusa a lutar.
Em relação Bechdel Rule, o filme não a cumpre.  O ambiente da Casa del Toro é masculino, lá só trabalham homens e touros.  Para não colocarem somente machos, inventam uma cabra “treinadora”, Lupe, e uma ouriço para colocarem o mínimo de mulheres no elenco. Aliás, queria saber qual a função real de uma cabra nessa história... Ah, sim!  Temos uma égua, também, mas aqueles três cavalos alemães servem para humor e só.  E temos Nina, a menina que cuida de Ferdinando como se fosse um cachorrinho.  Enfim, todas essas personagens, menos a égua, estão na história em função de Ferdinando.  Os touros – Valente, Guapo, Magrão, Angus – tem um fiapo de história própria, mas as fêmeas do elenco não.  Se Nina fosse um garoto – e é bom que não seja, não estou reclamado disso – não haveria diferença.

Que mais dizer?  É um desenho arrumadinho, bonito, com alguns momentos tocantes, mas não é um filme tão bem estruturado e equilibrado.  Talvez, esteja sendo dura, mas acabei de assistir A Vida é uma Festa e a Disney/Pixar ofereceu um material muito melhor.  Vale a pena ver Ferdinando?  Sim, vale, mas não vá ao cinema esperando demais, porque você não vai receber mesmo. Júlia gostou mais de A Vida é uma Festa. Ela me disse de manhã.


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1 pessoas comentaram:

Vai se tornar um dos meus favoritos! Eu esperava ver uma animação bem feita e uma estória até triste e melancólica, mas do início ao fim o tom é positivo. Pais e filhos vão adorar os personagens e aprender preciosas lições de otimismo consciente, de bondade e amizade, enquanto se divertem a valer. Uma ótima pedida para as férias, vale o ingresso e a pipoca da família inteira. Honestamente, é um dos melhores filmes de animação que vi no ano passado. Envolvente desde os primeiros minutos, a sensível estória leva a gente a pensar sobre como encaramos nossa vida. É muito fácil se identificar com os personagens e seus dramas, e o mais surpreendente é que há tanto bom humor que o peso do contexto (um touro que tem como destino uma tourada não é nada mais do que uma alegoria da humanidade rumando para o final inevitável da morte) permanece como uma leve ameaça constante porém sem dominar os sentimentos do espectador.

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