terça-feira, 9 de janeiro de 2018

E o primeiro livro do romantismo brasileiro foi escrito por um negro


Semana de posts aleatórios, desculpem. Estou esgotando meu pacote de dados de internet e, para variar, a conexão está horrorosa na casa dos meus pais. Imagens, pesquisas, tudo é difícil de fazer e nem sempre posso sentar no computador.  Vamos lá!

No domingo, um amigo postou um artigo sobre Francisco de Paula Brito (1809-1861), negro, tipógrafo, escritor, militante contra o racismo e a descriminação racial, amigo do Imperador.  Eu nunca tinha ouvido falar de uma personagem tão importante. Nunca tinha lido uma linha sobre ele. E, bem, homens e mulheres negros que tiveram destaque social, ativistas políticos, raramente recebem a atenção que deveriam ter nos nossos livros didáticos de história. Daí, fica parecendo que era preciso ser homem branco (*mulher branca não serve, também*) para fazer alguma coisa, produzir mudança social, reflexão,  enfim... também, não pensem que estou indo na linha reacionária burra de que tanto faz como tanto fez ser branco ou negro no Brasil, ainda mais em tempos de escravidão, mas há muito que se discutir.


Capa da edição de 1977?
Mas o texto curto nem é sobre isso. Um dos sócios de Paula Brito, Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, nascido pobre, pouco escolarizado, mas que conseguiu certa ascensão social e intelectual, foi o autor do primeiro romance romântico brasileiro, O Filho do Pescador.  Livro que eu desconhecia totalmente, afinal, fora as edições do seculo XIX, houve uma nos anos 1940 e, outra, em 1977... alguma mais? Não descobri ainda.

Lendo o resumo, e só achei resumo mesmo, parece um livro muito mais pesado do que a média dos romances românticos brasileiros. A protagonista, Laura, que é sequestrada aos treze anos por um homem, tem com ele um filho, que lhe é roubado pelo crápula. Termina abandonada, é se torna amante de outro homem. Perde o compnheiro em um naufrágio, é resgatada pelo tal "filho do pescador", Augusto, que casa com ela, mas a mulher comete adultério com vários homens.... E  desconfio de quase incesto, sabe?

Enfim, nada das mocinhas castas que ficavam bem nas leituras de salão. Não me surpreende que o livro tenha sido deixado nas sombras, mas a autoria, pesa, é com o passar do tempo, é inexplicável que a gente continue sem saber dele, aprender sobre ele na escola. Eu fiz meu ensino médio nos anos 1990! Agora, viram que eu só falei da tal mulher? Por que o livro não leva o nome dela? Machismo do autor, talvez.
Estudei meu primeiro ano nesse livro. 
Não sei os livros de literatura atuais, mas estudei em bons livros, um deles, o do José de Nicola, é todos davam A Moreninha como nosso primeiro romance romântico. Será que já fizeram justiça? Houve até celebração dos 200 anos do autor em sua cidade natal, Cabo Frio.  Lendo a introdução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira para a edição de 1977 de O Filho do Pescador, descubro ainda que o PRIMEIRO romance escrito em língua portuguesa é de autoria de uma mulher nascida no Brasil, Teresa Margarida da Silva e Orta, em meados do século XVIII. Outra coisa que não estava nos meus livros, mas tratado como consenso pelo autor da introdução.  Será que em Portugal se lembram dela na escola?

Invisibilização, exclusão da ordem do discurso, esquecimento. Não acreditem na falácia da qualidade, perguntem quem escreveu, para quem, onde, quando.  Daí, depois, vem a pergunta, mas em que os negros  ou as mulheres, contribuíram mesmo? Há teses de doutorado e outros trabalhos sobre O Filho do Pescador, mas edição disponível para compra, ou leitura on line, não parece haver. Em sebo, claro, você encontra.

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