quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Novelando: Comentando os primeiros capítulos de Deus Salve o Rei


Como estava curiosa, dei uma olhada nos dois capítulos iniciais de Deus Salve o Rei, a nova novela das 19h da Globo.  Motivo? Em primeiro lugar, por ela estar sendo vendida como uma trama medieval. Não sei se vocês lembram, mas sou uma medievalista aposentada.  Em segundo lugar, para ver se efetivamente estão imitando Game of Thrones.  Outro motivo, foi ficar sabendo que o consultor histórico da novela é um antigo colega de faculdade.  O início da trama é mais ou menos o seguinte:

Em uma terra que não é a nossa, dois reinos, Montemor e Artena, vivem em uma espécie de simbiose.  Montemor, outrora um reino muito próspero, é rico em minério de ferro, mas passa por uma aguda crise hídrica. Assim, estabelece-se um acordo com Artena, que troca sua água por ferro.  No início da história, a rainha Crisélia de Montemor (Rosamaria Murtinho) e seu neto e herdeiro, o Príncipe Afonso (Rômulo Estrela), estão inaugurando um aqueduto que pode ajudar a sanar os problemas do país.  A obra redunda em fiasco e a princesa Catarina de Artena (Bruna Marquezine) propõe a seu pai, o rei Augusto (Marco Nanini), que imponha novas exigências em troca da água.  O honrado rei recusa e se preocupa com a filha em quem detecta graves falhas de caráter.

O drama da personagem de Rosamaria Murtinho
foi  um dos pontos alltos da estréia.
O príncipe Afonso sai em uma expedição aos extremos de seu reino em busca de novas fontes de água. Antes de partir, sua avó, cuja saúde se deteriora rapidamente, avisa que, no seu retorno, abdicará do trono em seu favor. Quando estava quase desistindo e retornando para a capital, é atacado por salteadores, seus soldados são massacrados e ele fica gravemente ferido.  Afonso termina sendo encontrado entre a vida e a morte por Amália (Marina Ruy Barbosa), uma camponesa, que o leva para sua casa.  O rapaz não revela sua verdadeira identidade, os dois irão se apaixonar, e Afonso abrirá mão do trono por amor.  O que, aliás, pode desgraçar Montemor, porque o irmão do príncipe, Rodolfo (Johnny Massaro), não foi preparado para reinar e é um sujeito cheio de defeitos.

Antes de assistir ao primeiro capítulo da novela (*gastei minha mirrada internet baixando o arquivo*), li duas críticas, a do Nilson Xavier e a do site Série Maníacos. As duas foram elogiosas no geral, apontando alguns problemas, como o excesso de computação gráfica. Achei os castelos demasiado grandes, assim, algo pouco realista para o tipo de reino pequeno e um tanto pobre (*de recursos financeiros, não na composição em si*) que criaram para a novela, mas, enfim, deixa quieto.  Mas eu sou péssima para analisar efeitos especiais.  Há cenas em que os cenários parecem menos convincentes, mas o que me chama a atenção mesmo são as interpretações e o roteiro, assim como a tal coerência histórica.

O responsável príncipe Afonso trocará o
trono pelo amor de uma camponesa?
Começarei pela História, essa com H maiúsculo, então.  Como Deus salve o Rei não se passa em nossa linha temporal, talvez nem em nossa dimensão ou planeta, a novela não precisa ter nenhuma, absolutamente nenhuma coerência neste aspecto.  Dragões, magia, elfos, discos voadores, telepatas, podem colocar o que eles quiserem que está valendo. Daí, seria bom pararem de dizer que é “medieval”, porque se eu só pegasse o quesito indumentária, há roupas que não tem nenhuma ligação com o período, nem nele se inspiram.  Bruna Marquezini usa uns sapatos de salto altíssimo e, bem, isso não é medieval, nem seus vestidos tipo camisola com super decote.  Já a indumentária masculina parece oscilar entra inspirações que vão do século XII até o século XVI.  

A roupa feminina faz mais ou menos o mesmo (*teve uns espartilhos que pareciam mais coisa do século XVIII*), salvo pelas roupas de Marquezine, porque a sua princesa Catarina precisa mostrar que é má e sexy ao mesmo tempo.  E, claro, nenhuma das atrizes em evidência vai cobrir os cabelos, porque isso é coisa que praticamente nenhum filme, ou série estrangeira faz direito.  Por qual motivo uma novela nossa teria que fazer? Terminando essa coisa de vestuário, no castelo de Montemor, a sequência de quadros mostra gente usando roupas que são indubitavelmente do século XVI e para a nossa cronologia – na Inglaterra e nos EUA é diferente – isso já é Idade Moderna.  

Marina Ruy Barbosa vai muito bem
como a mocinha da história.
No mais, esqueçam essa História de Idade Média e, principalmente, um período de 1000 anos (476-1453) abarcou uma diversidade enorme de realidades políticas, culturais, sociais, intelectuais, bélicas etc.  Ler, por exemplo, que era uma época de golpes e derrubadas de tronos não faz sentido algum, salvo em situações muito específicas.  E muitas vezes guerra por tronos – Guerra dos Cem Anos (1337-1453), das Duas Rosas (1455-1485) – se pautavam pela certeza de ambas (*ou mais partes*) de que se tinha o legítimo direito a ocupar este espaço.  Dar golpe mesmo, na cara dura, era coisa rara, raríssima, ainda mais na Baixa Idade Média quando os códigos feudais, de cavalaria, eclesiásticos já estavam bem arrumadinhos.  Não era essa bagunça não.  Aliás, o povo gosta de ver a Idade Média como essa época supostamente bagunçada e, ao mesmo tempo, cheia de regrinhas incontornáveis.  Voltemos para a novela, enfim... 

Ao contrário de materiais como Que Rei sou Eu?, fatalmente convocados em contraposição à Deus Salve o Rei, que eram abertamente farsescos e cômicos, além de dialogarem o tempo inteiro com os problemas do Brasil da época, a novela atual se apresenta como uma história séria.  Ainda que o núcleo cômico, ou personagens cômicas, como Rodolfo e a personagem de Tatá Werneck, estejam em cena, há toda uma densidade dramática presente na narrativa.  O risco de guerra entre os reinos, a crise hídrica, traições, romances, tragédias.  Nesse sentido, um dos destaques é para a personagem de Rosamaria Murtinho, a rainha regente de Montemor, que criou os netos e cujas faculdades mentais estão se deteriorando.  

Johnny Massaro e Tatá Werneck... A dupla promete.
Para mim, todas as melhores cenas desses dois capítulos foram dela, ou sobre ela, como a que Afonso e o médico tentam convencer o desmiolado Rodolfo de que sua avó precisa de apoio, ou ainda quando o príncipe que será rei por acidente imagina que a avó está em um conselho com ministros e descobre que ela está falando sozinha.  E os dois atores – Rômulo Estrela e Johnny Massaro – estão muito bem.  Rômulo Estrela é um ótimo ator.  Tempos atrás estava vendo uns vídeos da novela Essas Mulheres, da Record, e ele estava lá, novinho.  Pensando bem, ele poderia ter sido uma ótima opção para ser o Darcy de Orgulho e Paixão, mas espero que ele se dê bem como protagonista.  

Agora, um problema da produção, ou do roteiro, sei lá, foi colocar o príncipe sem armadura, cota de malha, ou o que seja naquela expedição (*aliás, pra quê mandar um príncipe em uma missão dessas, ein?*), quando todos os soldados estavam pesadamente armados.  Como guerreiro, e para sua segurança, ele deveria estar muito bem armado.  Falando em armas, Caio Blat dado entrevista e dizendo que não entendeu sua escalação como chefe da guarda foi uma graça.  Mas acredito que ele vá se sair bem, mesmo acreditando que não tem perfil para o papel.

Caio Blat acha que foi mal escalado.
Indo para as duas mocinhas, em um confronto de atuações Marina Ruy Barbosa está ganhando de lavada de Bruna Marquezine.  A atuação da atriz – que é muito competente, apesar da antipatia que muita gente passou a dedicar a ela (*talvez por machismo, por causa do rolo com Neymar, enfim*) – parece muito mal orientada.  Ela tem que ser má, forte e sexy.  Essas são as três características marcantes, mas está parecendo um robozinho, falando de forma empostadíssima, dura e, pior, muito pouco convincente.  Ela não passa orgulho, ou autoridade, ela está sem expressão mesmo.  Espero que Marquezine consiga se soltar, aliás, para o bem de sua personagem, ela precisa se soltar.

Já Marina Ruy Barbosa está interpretando bem a camponesa que se comporta de forma independente e questionadora.  Ela levanta algumas bandeiras feministas, quer ter seu próprio dinheiro e uma profissão, apesar de ter um noivo que pode sustentá-la.  E Ricardo Pereira vai ser o machista chato de plantão da novela, talvez até se torne violento.  Ela também questiona – e essa é a parte mais curiosa – aspectos religiosos do cotidiano, como a existência de uma vontade divina a guiar os acontecimentos.  Não sei se questões de ordem religiosa – sacerdotes ainda não deram as caras – serão trabalhadas, mas como o povo curte relacionar caça às bruxas e Idade Média, ela – afinal, ainda é cozinheira – já é candidatíssima à fogueira.  Se bem que o piedoso príncipe Afonso pode amolecer o coração dela em relação às questões de fé... E eu acho que Marina Ruy Barbosa e Rômulo Estrela combinaram bem, apesar das poucas cenas até o momento.

Acho que esse marquês já era... 
Que escrever mais?  Algo que poderiam ter construído melhor é a forma como as pessoas são nomeadas.  Um reino poderia ter nomes latinos, outro, germânicos, marcando certa identidade, mas preferiram fazer uma salada.  Os idealizadores do aqueduto, provavelmente engenheiros e arquitetos, fazendo trabalho braçal, ficou esquisito.  Assim como a demora de Afonso em chegar até a região que poderia ter água e a rapidez com que Cássio (Caio Blat) vai refazer o percurso em sua procura.  

Com mais qualidades que defeitos, acredito que Deus Salve o rei vá se sair bem.  A concorrência, no caso a Record, anda fazendo burrada em cima de burrada, e a novela tem elenco de qualidade e produção caprichada, além de trabalhar com coisas que estão na moda.  De resto, vai ser duro aturar as musiquinhas pseudo medievais tocadas à exaustão.  Já sei que em todo capítulo vai ter aqueles grupos de músicos.  Já o marquês poeta mala sem alça, noivo imposto para Catarina, já, já, vai sumir.  Imagino que sua vida já vá nos descontos, porque o duque português bonitão (José Fidalgo) deve aparecer amanhã e a morte tocador de alaúde (*mais um para fazer par com o Inácio de Tempo de Amar*) deve ser rapidamente encaminhada.

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