domingo, 24 de junho de 2018

Comentando Desobediência (Disobedience, 2017)


Sexta-feira assisti o filme Desobediência (Disobedience), um drama estrelado por  Rachel Weisz e Rachel McAdams que mostra o amor proibido de duas mulheres.  Eu definiria Desobediência nessa única frase e tudo mais no filme do diretor chileno Sebastián Lelio, que levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018 com Una mujer fantástica (Uma Mulher Fantástica), é mero detalhe de fundo.  Estou frisando isso, porque encontrei resenhas positivas, muitas, e algumas que enfatizaram o quanto a representação da comunidade (ultra)ortodoxa judaica inglesa é capenga.  Bem, não é um filme sobre o mundo dos judeus (ultra)ortodoxos e suas tradições, é um filme sobre a paixão entre duas mulheres.  E parece que é chato ter um filme girando efetivamente em torno das mulheres e seus sentimentos.  Deve incomodar muito.

Ronit (Rachel Weisz) é uma fotógrafa bem sucedida que mora em Nova York e, um dia, recebe uma ligação avisando do falecimento de seu pai (Anton Lesser), um rabino proeminente dentro da comunidade (ultra) ortodoxa britânica.  Ela retorna, então, ao seu país natal, à comunidade que abandonou anos atrás, e tem que confrontar parentes e conhecidos que a culpam por estar distante quando seu pai mais precisou dela.  Ao mesmo tempo, ela reencontra dois amigos, Dovid (Alessandro Nivola), principal discípulo e sucessor de seu pai, e Esti (Rachel McAdams), agora casados.  A tensão do trio é evidente desde o primeiro momento e terminamos descobrindo o motivo, Ronit e Esti foram amantes no passado.  O resultado do reencontro é o retorno de violentos sentimentos, culpa, desejo, medo e convicções abaladas para todos os três envolvidos.

Um mundo de regras e cerimônias.
Desobediência, apesar de dirigido por um homem, adota o ponto de vista das mulheres, as protagonistas.  É a grande força da película e a sua fraqueza em alguns em poucos momentos.  Trata-se de um drama lento, introspectivos, marcado pelo luto, pela modéstia das roupas dos judeus (ultra)ortodoxos, pelos matizes cinzentos de Londres.  Esse é o tom geral do filme até explodir em uma cena de sexo entre as protagonistas, bem longa e que liberta as emoções que ficaram escondidas.  Realmente, foi algo que me surpreendeu e que faz a classificação indicativa do filme subir.  Se o filme é reticente em relação a certas questões, como a relação de Dovid com Ronit, que pode ser somente inferida, e superficial em outras, como na abordagem da comunidade judia ortodoxa, a película atinge seu objetivo que é retratar o forte elo entre as protagonistas.

O que sabemos ao certo?  Ronit, a filha do rabino, o homem mais importante da comunidade, decidiu romper e partir, mas a amiga e amante ficou e tentou se ajustar, aceitando um casamento de conveniência.  Dentro das crenças, e não somente dos haredi, lesbianismo não existe, é coisa de mulher confusa, daí, Esti é perfeitamente convencida de que o casamento com um homem bom, compreensivo e religioso poderia ajudá-la a superar o seu mau passo.  Isso lhe garantiria a permanência na comunidade, o único ambiente que conheceu na vida, dentro da fé em que nasceu e acreditava, lecionando na escola para meninas que tanto amava.  Entretanto, nada disso lhe trouxe felicidade.  O casamento, o sexo heterossexual, era mais um dever de alguém sem direito à escolha.

O jantar, um momento de quase catarse.
A volta de Ronit é um fator de desestabilização para Esti e de tensão para seu marido, que convida a filha do rabino a ficar na casa deles.  Ronit, e isso parece que ofendeu alguns que assistiram ao filme, não lamenta ter abandonado a comunidade.  Ela parece feliz com seu trabalho e sua vida como "Off the derech".  "Derech" é caminho em hebraico e um termo que se aplicam aos que se desviaram da fé.  O que é um trauma para muitos, romper com a comunidade religiosa e suas práticas, não parece ser para ela.   Ronit lamenta o afastamento do pai, não ter-lhe tirado uma fotografia durante sua vida, de não ter sido comunicada de sua doença.  

Aliás, a forma da comunidade puni-la é não avisando-a.  "Você deveria estar aqui", não tem nada a ver com a doença em si, mas a permanência dentro da comunidade, submissa a suas regras. Não sabemos bem como o pai de Ronit a via, se ele pensava nela, quantos anos se passaram desde a partida, quão traumática ela foi.  O fato é que tudo sugere que ele a excluiu de sua vida, ou, pelo menos, publicamente, sim.  Os obituários dos jornais dizem que ele não tinha filhos.  Na verdade, não fosse o telefonema, que, no início, não sabemos ser de Esti, ou Dovid, ela nem saberia da morte do pai.

Qual era a relação de Ronit e Dovid antes
do escândalo?  Não fica claro.
Há momentos de confronto no filme, que não vi com o objetivo de vilanizar os religiosos, mas expôr suas crenças e suas hipocrisias.  Uma das cenas chave do filme é o jantar com a presença de visitas, um rabino idoso (Nicholas Woodeson) e sua esposa (Liza Sadovy), do tio de Ronit (Allan Corduner), que a despreza, da tia (Bernice Stegers), que a ama apesar de tudo, além de Esti e Dovid.  O encontro escala em uma condenação do estilo de vida secular e Ronit, que não lamenta suas escolhas, bate pé, especialmente, em relação aos direitos das mulheres.  é o primeiro momento em que Esti sai da defensiva, da capa de raiva em relação à antiga amiga e amante, e esboça uma fala escandalosamente feminista.  É o começo.

Esti termina se deixando arrastar pelas emoções e, de certa forma, volta a ser a adolescente que teve o idílio amoroso interrompido.  Isso faz com que o romance das duas seja descoberto, novamente.  Minha leitura da coisa é que ela tomou a iniciativa, que Ronit acabou se entregando depois.  Algo que fica muito claro para mim, também, é que Esti é lésbica, já Ronit é bissexual, se relacionou com homens, sente prazer com eles, o que não impede que a amiga seja o amor de sua vida, a única mulher de sua vida.  Por isso mesmo, minha impressão é que Dovid, o marido de Esti, deveria ser noivo de Ronit, afinal, ele era o filho espiritual do rabino-chefe, pai da moça.  Ela se foi, Esti ocupou seu lugar, e ambos se esforçam por se enquadrar naquilo que esperam deles.  Daí, eu vi uma grande tensão entre Dovid e Ronit, a mágoa dele, o quase toque em dois momentos.  

Esti e o marido.  Casamento de conveniência.
Não concordo com o ex-ultra-ortodoxo que apontou que o maior absurdo do filme foi Ronit quase tocar Dovid em uma das primeiras cenas depois do reencontro.  Ela não esqueceu das regras, ela simplesmente está sob forte emoção. Será que isso não é possível? Em outra cena, o quase toque é dele.  Esti vê de longe, mostra ciúme no olhar.  E há a cena quase no final, com Esti envolvida, que é muito libertadora, por assim dizer.  Mas o filme é de Esti e Ronit, não é de Dovid, tampouco é um filme sobre a comunidade ultra-ortodoxa, ou o trauma de ser "Off the derech", porque a personagem de Rachel Weisz  não lamenta ter ido embora.  

Se não é uma boa representação dos (ultra)ortodoxos, e, provavelmente, não é, falar deles não é o objetivo do filme.  Realmente, poderiam usar mais ídiche e hebraico para além de "frum" e "shabos". Concordo com a crítica sobre o "vida longa" desejado em inglês e que parecia coisa de The Handmaid's Tale (Blessed be the Fruit), mas de resto, se quiserem um filme amoroso sobre os haredi, peguem os filmes de Rama Burshtein (*Preenchendo o Vazio e Através do Muro*), que resenhei no blog, e fujam de Amos Gitai, porque Sebastián Lelio é super compreensivo na frente dele.   

Momento em que Ronit desnuda os cabelos
de Esti, obrigada, pelas regras religiosas,
a escondê-los sob uma peruca (sheitel). 
Como coloquei na resenha de Preenchendo o Vazio, não tenho simpatia por comunidades religiosas radicais e repressivas.  Um dos temas de Desobediência é liberdade.  Ronit é livre, ela não quer marido, nem sete filhos.  Não prevalece na película o discurso de sacrifício pela família ou pelo coletivo.  Ela quer viver, escolher, com seus erros e acertos.  Esti optou por ficar, mas a paixão renovada pelo retorno de Ronit faz com que ela se questione.  E dentro desse tipo de ambiente, questionar é o que você não deve fazer por princípio.  Esti nasceu na comunidade, ela nunca escolheu.  Ela foi arrastada.  Ela não pode escolher o que vestir, ela não pode escolher se quer, ou não, mostrar seu cabelo, ela não tem direito a manter seu nome, ela é um apêndice de seu marido, obrigada a fazer sexo com ele pelo menos uma vez por semana.  Darei um spoiler agora: Esti escobre que está grávida.  Aí, vem uma frase importante: "Eu nasci nessa comunidade, eu nunca escolhi.  Quero que meu filho possa escolher."

O filme não vai mostrar o nascimento da criança, ele termina antes.  O drama de Dovid, que por mais compreensivo que seja, é fruto daquela sociedade patriarcal, e Esti não termina com os créditos.  O escândalo que o romance de Esti e Ronit gerou, tornou a posição de Dovid muito frágil.  Sua carreira como rabino, seu prestígio, mesmo visto como vítima, ficou abalado.  Já Esti, não poderia continuar professora, provavelmente, nem vivendo na comunidade.  A passagem de Ronit é um furacão.  Nada voltará a ser como antes.

O filme é delas e sobre elas, apenas entenda isso.
Concluindo, o filme cumpre a Bechdel Rule.  Além disso, é um filme feminista e subversivo, ao assumir o ponto de vista das mulheres, seu direito ao livre exercício da sexualidade.  O fato de ser uma comunidade ultra-ortodoxa é somente um pano de fundo tênue, logo, poderia ser outro grupo religioso super regrado qualquer e o efeito seria semelhante.  O fato da co-roteirista ser judia (*provavelmente, não ortodoxa*), a elogiada Rebecca Lenkiewicz, não agrega muita coisa nesse aspecto, no entanto, certamente pesou para que prevalecesse a perspectiva feminina da película.  Mas houve algo que me escapou, na Wikipedia, há listado no elenco um ator como o jovem Dovid, eu não os percebi no filme, não vi flashback nenhum,.

Desobediência um filme morno, introspectivo, escuro.  Sim, é, porém, é um filme muito bom.  Eu recomendo.  4 estrelinhas de 5, pelo desempenho do trio principal, pelo drama bem conduzido, pela coragem em retratar um amor avassalador entre mulheres, ale´m da intensa amizade que as une.  E, não, não estou dando preferência à filmes com temática judaica, eles simplesmente estão aparecendo na minha vida, só que, nesse caso, aliás, trata-se de um mero detalhe.

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1 pessoas comentaram:

Ótima resenha! Eu adorei o filme pelos mesmos motivos. Não é um filme envolvente, catártico. É um filme que olha de uma certa distância e mostra muito bem a repressão pesa sobre as personagens e os abismos que existem sobre elas. Há muitos vazios que têm que ser preenchidos pelo espectador, mas, justamente por isso, o que temos no fim é uma história tão linda quanto real sobre o amor e desejos reprimidos das duas.

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