terça-feira, 12 de junho de 2018

Comentando A Morte de Stálin (The Death of Stalin, Inglaterra/França/Bélgica/Canadá, 2017)



Quinta-feira assisti ao filme A Morte de Stalin, já havia resenhado o quadrinho aqui no blog.  Aliás, cheguei ao quadrinho exatamente por conta do trailer do filme, mas a leitura me fez ter a impressão que que a película não seria lá uma adaptação muito fiel.  Não estava enganada.  Então, se você prosseguir na leitura, já aviso que será uma resenha nadando um pouco contra a maré.  Não considero o filme genial, nem hilariante, trata-se, na minha percepção, de um filme superestimado, talvez, por debochar de um dos grandes monstros da História, Stálin, e do regime que ele ajudou a montar. De resto, estou tentando concluir o texto faz vários dias, mas o fato de encontrar um amigo professor que achou o filme bobão, me ajudou a prosseguir.

O filme, assim como o quadrinho que lhe serviu de base, começa no dia 28 de fevereiro de 1953, com uma orquestra toca o Concerto para Piano nº 23 de Mozart na Rádio do Povo.   O telefone toca na diretoria da emissora e uma ordem do Stálin solicita a gravação do concerto.  O ditador havia adorado.   Pânico geral, ninguém havia gravado.  Músicos são retidos e lhes é exigido que toquem de novo, de forma idêntica, para que Stálin não descubra o engodo.  O público é obrigado a permanecer e comk algumas pessoas tinham saído,  pegam transeuntes para ocupar o vazio e auxiliar a acústica. A pianista, Maria Yudina (Olga Kurylenko), peça fundamental para a gravação, se recusa.  Depois de muita insistência, ela aceita, mas o maestro tem uma síncope e desmaia, outro é chamado.  Gravação feita, a pianista, cuja família tinha sido mandada para a prisão por Stálin, escreve um bilhete e o coloca dentro da capa do LP.  Ninguém tem coragem de retirá-lo.  Stálin lê e tem um AVC.  A partir daí, começa uma corrida contra o tempo e um duelo entre Beria (Simon Russell Beale) e Khrushchev (Steve Buscemi ) pela sucessão do grande líder.


Ícone no meio do mijo.O filme foi proibido na Rússia.
Será uma resenha rápida (*espero*), aliás, recomendo a leitura da resenha do quadrinho para discussões históricas mais profundas, as quais não pretendo repetir.  O filme dirigido por Armando Iannucci satiriza a estrutura repressiva da URSS, suas contradições, e aberrações.  A URSS de A Morte de Stálin já parece decadente em 1953.  Imagino que mais um dos exageros com o intuito de fazer humor.  Se a HQ tem o tom de um filme de máfia, com um humor que é nigérrimo em poucos momentos, o filme oferece o do tipo pastelão com piadas com órgãos genitais e coisas do gênero.  Acredito que se inspiraram em Monty Python, mas terminaram quase se igualando às comédias rasteiras produzidas pelo cinema norte americano. 

Sim, é isso que eu penso, não é o tipo de humor que me faça rir.  Meu riso geralmente veio fora do timing das piadas, por coisas que me pareceram divertidas, mas não sei bem se foram pensadas para tal.  Desagradou-me bastante que todos os membros do conselho de ministros, salvo Beria e  Khrushchev, tenham sido transformados em idiotas, especialmente, Georgy Malenkov (Jeffrey Tambor), que vai herdar o comando do país com a morte do ditador.  No quadrinho, Malenkov é pintado como homem de visão estreita e subserviente – a Stálin, Beria, Khrushchev – mas não o tolo que é mostrado no filme.  Na película, exatamente por ser um tolo, ele não é tão controlável quando no quadrinho no qual, primeiro Beria, depois Khrushchev conseguem manobrá-lo sem problema.


A cena do banheiro é interessante.
Outra representação que não me agradou foi a de Molotov, interpretado por Michael Palin, de Monty Python.  Ele é outro que posa de idiota o tempo inteiro, ainda que (possivelmente) para conscientemente mascarar que sabia e percebia mais do que os outros (Beria e Khrushchev) imaginavam. Ele não é o calculista frio do quadrinho, tampouco faz a proposta na mesma extensão: eliminar Beria não seria suficiente, seria preciso eliminar todos os que estavam ao seu lado, basicamente, a cúpula de NKVD, o serviço secreto.  No filme, Molotov é mostrado como marido afetuoso, mas, assim como todos os outros, incapaz de enfrentar o sistema.  Se Polina (Diana Quick) fosse eliminada, Molotov não veria problema.

No quadrinho, Molotov atribui a desgraça da esposa (*que era da alta cúpula soviética e não somente a esposa de Molotov) à Beria, que é visto por ele como o instigador de todos os abusos de Stálin.  No filme, e isso é, apesar dos tons de humor, historicamente mais preciso, Molotov endeusa Stálin, logo, o que o ditador faz é sempre correto. Explicitarem isso é muito importante e  a  película ganhou pontos aqui.  Agora, de resto, o tom da personagem é tão bobo como o do filme.


Zhukov animou um pouco o filme para mim.
E tem Zhukov! Eu fiquei tentando lembrar de onde conhecia o Jason Isaacs. Ah, Lucius Malfoy! O grande Marechal também tem tons ridículos, mas foi o único que eu gostei.  A entrada dele, bem tardia em comparação com o quadrinho, foi espetacular.  Câmera lenta, joga a capa para trás, ferimento do herói no rosto.  Ele parece um chefe de fase de video game super poderoso. Fora isso, a coisa foi deliberada, ele é o super macho que faz os demais se apequenarem e é capaz de resolver tudo no braço. Todo mundo cheio de dedos com o filho de Stalin, Vasily (Rupert Friend), um playboy bêbado, e Zhukov resolve o problema dando-lhe uma surra.  Aliás, no quadrinho Vasily tem menos destaque e ninguém realmente o acha importante para coisa alguma.  A única preocupação é que ele não dê escândalo.

Enfim, não fosse Zhukov descendo a porrada (*é a primeira vez que uso o termo nesse blog, mas, aqui, cabe, sim*) e metendo o pé na porta, Beria teria ganhado no final. Zhukov funcionou no filme, ainda que eu prefira a HQ. E mais, em nenhum momento, fica claro qual era o problema de Zhukov com Beria. Embora um amigo que gostou do filme tenha discordado, ao que parece Beria tentou queimar o Marechal com Stálin, fora o expurgo do Exército pouco tempo antes da invasão alemã e o rancor que muitos militares tinham em relação à Beria.  Aliás, quem não odiava Beria?


A pianista teve seu papel bem apequenado.
De resto, o filme mostra o duelo entre Beria e Khrushchev, os dois são os menos idiotas do filme.  Beria é mostrado como estuprador repetidamente no filme, o  quadrinho é mais econômico, ainda que na HQ a primeira cena do celerado seja estuprando uma moça.  Sim, a rigor não há exagero nisso, ainda que, até onde sei, Beria preferisse mandar seus homens pegarem adolescentes nas ruas do que violentar esposas de prisioneiros.  Talvez, preferisse as filhas.  A morte de Beria, pelo menos a sua execução, parece mais fiel à História, ainda que eu duvide que todos os ministros estivesse presentes ao rito sumário.  O filme não dá para Beria a dignidade que o quadrinho lhe deu.  Ponto para o filme.

Falando das mulheres, o filme não cumpre a Bechdel Rule.  Ele dá para a filha de Stálin um papel maior do que na HQ, onde (*e isso não é um erro*) temos praticamente homens o tempo inteiro.  Assim como no caso do filho de Stálin, o filme mostra os ministros muito preocupados com Svetlana (Andrea Riseborough), Beria em especial.  E, bem, qual a importância política dela?  ZERO.  E mesmo simbólica era muito reduzida.  Já a  pianista Maria Yudina (Olga Kurylenko), que detona o derrame no ditador, tem seu espírito vingativo diminuído. E ela é ma personagem chave... Ela inclusive é acusada de ser amante de Khrushchev.  Na HQ, eles sequer se encontravam.  Tem função na história a acusação? Tem. Só que isso desempodera a personagem feminina mais importante em uma história centrada em homens.


Os filhos de Stálin.
O filme corrigiu algumas coisas que me irritaram no quadrinho, na verdade, corrigiu o que mais me aborreceu.  Durante os funerais de Stálin, na HQ, Khrushchev tenta impedir que multidões cheguem até Moscou.  No filme, é Beria e, no filme, o acontecimento está conectado ao plano para se livrar do grande "malvado" da história.  Enfim, no quadrinho, Khrushchev manda, ou permite, que o Exército abra fogo contra a multidão que vem prestar seus respeitos ao ditador.  Acontece uma tragédia.  No filme, acontece uma grande confusão, mas é um acidente.  As crueldades do filme, denúncias, prisões arbitrárias e aleatórias, normal, mas colocar esse tipo de cena como se fosse algo banal, não se sustenta.

Terminando, a última cena de Khrushchev no filme é visualmente muito interessante.  Ela não está no quadrinho.  Já os créditos são ótimos. Geniais mesmo. Se você for assistir ao filme, veja os créditos até o final.   Enfim, O filme é ruim? Não. O filme é muito bom? Não. Três estrelas de cinco, mas pode ser que não seja o meu tipo de filme. Agora, o quadrinho é muito bom e merece ser lido, já o filme não me faria falta assistir.

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