quinta-feira, 28 de junho de 2018

Comentando o Volume #13 de Ōoku



Faz um mês, mais ou menos, que terminei de ler o último volume lançado nos EUA de Ōoku (大奥), de Fumi Yoshinaga.  Ōoku é o nome dado ao harém do Shogun e o centro da série que começou a ser publicada em 2005.  Como a revista Melody é bimestral (*tornou-se em algum momento dos últimos anos*), com sorte saem dois volumes por ano no Japão.  A partir do momento que a edição da VIZ alcançou a japonesa, sai um volume por ano nos EUA.  E, bem, isso é angustiante.  Muito MESMO!  No Japão, a série está chegando no volume #16.  Yoshinaga tinha prometido #12 volumes, já passou disso, mas é meio evidente, até por contingência da própria história que ela criou, que a série está caminhando para o final.  Espero que ela não tente esticar este último arco para além do necessário.

Para quem não conhece a história, e temos resenha desde o volume #1 no Shoujo Café, trata-se de uma série que trabalha com ucronia, isto é, história alternativa.  Eventos reais, personagens reais, estão lá, mas, neste caso, normalmente com seu sexo biológico trocado, isto, porque, uma praga, chamada de varíola vermelha, dizimou a população masculina jovem do Japão.  Sobraram 1/5 dos homens no auge da epidemia.  As mulheres, agora maioria, tiveram que assumir os postos de mando e os mais diferentes ofícios, memso os que exigiam força física.  O fechamento aos estrangeiros é uma forma de preservar esse terrível segredo que poderia levar à invasão do país.  O Shogun – comandante político e militar supremo do Japão – passou a ser uma mulher e ela tem um harém, o Ōoku, que dá nome para a série.  Com o tempo, o que era temporário se torna a norma.  Iniciado como um volume único fechado em si mesmo, a série fez sucesso e seguiu seu caminho.

Preview do volume #13
O volume #13 tenta sanar um problema do final do volume anterior (*resenha aqui*), que foi muito corrido.  Quando fechamos o volume #12, os navios negros do Almirante Perry estavam ameaçando bombardear o Japão.  O Shogunato estava no fim... Yoshinaga, então, retorna para alguns anos antes, mostrando como as mulheres começaram a perder o poder que tinham conseguido a partir do início da praga.  A coisa já se anunciava.  A doença vinha se atenuando nos últimos 50 anos.  Menos doentes, mais sobreviventes.  Houve, também, o desenvolvimento da vacina e tudo mais.  Ōoku é uma série peculiar, porque suas personagens não permanecem por muito tempo.  Você cria empatia e as personagens cedem espaço para outras, afinal, o tempo é inexorável.  Três volumes, normalmente, é o máximo.  Prevalece o Ōoku, em si mesmo uma personagem.  Os dois últimos volumes foram dominados pela única vilã de verdade que a série apresentou, Harusada Tokugawa.

A neta de Yoshimune, a grande Shogun da série, personagem presente em muitos momentos mesmo sem estar em cena, maquinou para conseguir que seu filho, Ienari, reinasse.  O primeiro homem desde o governo do terceiro Shogun.  Quando termina o volume #12, vemos Harusada derrotada pela sagacidade de Lady Shige, esposa de Ienari, e O-Shiga, ex-concubina do Shogun, e uma espécie de secretária particular da vilã.  Ienari, que fora dominado pela mãe e enganado pela esposa para seu próprio bem, passa a desconfiar das mulheres e usa de seu poder para reconduzir os homens às posições de mando.  Seu filho Ieyoshi, persiste na mesma seara, mas é um governante menos competente, mas igualmente prolífico em produzir filhos e gastar dinheiro público.

Você tem um pai abusador...
O volume #13 retrocede ao governo de Ienari, acompanha o governo de seu filho, e termina com sua neta, Iesada (Princesa Sachiko), ocupando o trono.  Por que os homens permitiram o retorno de uma nova Shogun?  Porque os cofres estavam vazios e uma mulher governante não seria capaz de produzir tantos filhos como um homem.  Prover feudos, casamentos e adoções para os filhos dos dois Shoguns anteriores tinha sido um peso para os cofres do Estado.  Quando chegam os estrangeiros, o Japão não tem tecnologia, nem recursos econômicos para tentar se proteger.

Iesada, que deve continuar Shogun por pelo menos dois volumes, é centro de um drama pessoal terrível: ela é abusada pelo pai desde a infância.  A reação de sua mãe?  Odiar a filha, afinal, ela lhe roubada a atenção do soberano. O que a jovem princesa mais desejava era ser casada e ir embora da corte.  O problema é que ela, contra todas as expectativas, foi escolhida para reinar.  A jovem Iesada não pode partir, continua vulnerável ao assédio e ao estupro, e tem seus maridos exterminados por complôs de seu próprio pai.  Isso a marca como uma figura de mau agouro, por assim dizer.  Ieyoshi não é um vilão como Harusada, porque ele só pensa micro, não macro, pensa em seus próprios prazeres e deixa a governança para outros.

E sua mãe não vai lhe ajudar.
Quem livra Iesada de sua sina é outra das personagens que dominam o volume, Abe Masahiro.  Ienari havia imposto o retorno da sucessão pela via masculina, mas o irmão de Masahiro abdica do seu cargo e o Shogun, em um diálogo carregado de desprezo e condescendência, aceita que sua irmã se torne o novo senhor do domínio da família.  A partir daí, vemos a competência de Masahiro, cuja mãe tinha sido Chefe do Conselho do Shogun, em ganhar a confiança do soberano, de seus colegas de conselho, de Iesada, até que ela chegasse, contra todas as expectativas, ao lugar de sua mãe outrora ocupou.  Masahiro, no entanto, não é movida pela sede de poder, mas pelo apego à ordem pública, ao bem comum e para mostrar que, sim, a governança, também, é um assunto de mulheres.

A outra personagem introduzida no volume, e que ocupa a capa com Masahiro, é Takiyama.  O jovem tem uma origem trágica.  Filho caçula de uma linhagem de samurai.  Inteligente e esforçado, além de bonito, o moço deseja ser um intelectual e professor e vive em uma família à moda antiga.  A mãe, uma mulher sem grandes atributos físicos, é uma funcionária de uma das agências de governo, o pai, homem atraente e elegante, vive uma vida de prazeres.  A mãe descobre um adultério.  A amante do marido é sua superior.  Ela mata os dois e se mata em seguida.  é uma cena sangrenta.  Curiosamente, Yoshinaga não se decide se as mulheres têm, ou não tem, competência militar.  Volta e meia, e nesse volume isso ocorre, ela enfatiza a superioridade física dos homens.  Contradições. O problema é quando essas coisas atrapalham o fluxo da história.

Masahiro encontra a jovem Iesada pela primeira vez.
O fato é que Takiyama, ainda adolescente, acaba perdendo mãe, pai, o irmão mais velho, se suicida, também, seu lugar na sociedade e termina vendido para um bordel.  Para atender mulheres?  Não.  Yoshinaga apresenta o bairro dos prazeres agora com espaço dos homens.  Ora, fica parecendo, que as mulheres abriram mão de tudo, ou que luxúria é coisa de homem.  Yoshinaga subverte papéis de gênero, às vezes colocando mulheres com atitudes tão terríveis como o pior filho do patriarcado, mas, aqui, ela parece negar que o desejo nas mulheres seja algo tão forte quanto no caso dos homens.  Yoshinaga precisa rever alguns conceitos... 

O fato é que Masahiro vai até essa casa de prostituição em busca de alguém para conversar.  Sabe aquela história de cliente que paga prostituta para trocar confidências?  Pois bem, é isso.  Talvez, como ela é extremamente inteligente e precavida, conhecesse o passado de Takiyama.  O jovem, muito inteligente, conversa com sua cliente, lhe conta sua história, dá-lhe até conselhos.  Tempos depois, quando o moço já estava no limite de sua estadia em uma casa que explorava a prostituição de meninos, afinal, está ficando adulto e é muito alto, Masahiro compra sua liberdade e o leva para o Ōoku.  

Takamiya e seu primeiro encontro com Masahiro.
Takiyama passa a ser os olhos e os ouvidos de Masahiro dentro do harém, além de ser o protetor de Iesada.  O jovem é o primeiro a dizer umas verdades para a futura Shogun, ele não a trata com a subserviência de tantos outros e termina sendo fundamental para frustrar as situações de abuso do velho Shogun, que é um verme, repito, impunha à filha.  No entanto, ele não consegue curar as feridas de sua senhora.  A dor é profunda demais.  Na minha leitura, ele se apaixona por ela, mas o volume termina com a chegada de um novo marido, uma personagem que, efetivamente, teve importância na história do Japão.  E que vem junto com uma capa branca... Capas pretas são a regra em Ōoku, uma capa branca sempre significa alguma coisa importante.  Sempre.  A azul marcou o início do arco final.  

E é nesse volume #13 que os estrangeiros chegam, que os tratados desiguais são assinados, pois o Japão não tem como resistir, é necessário tentar ganhar tempo.  Masahiro comanda a política do país, mas não pode aparecer para os americanos e outros.  Eles não respeitariam uma mulher.  Essa opção de Yoshinaga me dá nos nervos, não a opção em si, mas como ela conduz a coisa, com as mulheres um tanto encurraladas.  Eu queria que ela colocasse uma conspiração imperial em andamento (*como foi de certa forma o que ocorreu*), afinal, em Kyoto nunca se quebrou a regra de se ter um homem como imperador. Eu queria que ela colocasse mulheres armadas lutando por seus espaços de poder.  Queria, mas sei que não vou ter.  Yoshinaga tem uma dificuldade tremenda em sair do Ōoku, seu personagem principal.  De retratar batalhas, conflitos, guerras.  Não sei como ela vai se virar, mas pelo menos nesse momento da história, ela terá que tentar.  Talento, ela tem. 

Iesada nunca será feliz?
Já caminhando para o fim, me causa certa angustia como Yoshinaga faz e desfaz as estruturas sociais.  E a resistência das mulheres?  Como assim elas são empurradas para dentro de casa sem resistir?  Como assim uma ordem do Shogun - a exclusão das mulheres da sucessão - é acatada sem grande resistência?  Como assim.  Até o fantasma da poderosa Lady Kasuga, que nunca quis que soubessem que o Shogun é uma mulher, apareceu.  Como historiadora, uma das críticas que fiz ao mangá, isso desde o início, é como Yoshinaga não tem noção de que mudanças nas mentalidades são lentas.  Só que eu mesma estou testemunhando o abominável backlash em termos de direitos das mulheres e é possível mapear grandes eventos que trouxeram um impacto significativo nos usos e costumes.  

O problema é que as mulheres em Ōoku tinham o poder nas mãos coisa, por exemplo, que as mulheres iranianas durante a Revolução Islâmica não tinham, ou mesmo nós, com tão pouca representação dentro do Congresso, não temos.  O que eu digo é que Yoshinaga trabalha muito bem o micro, as relações dentro do Ōoku, as questões pessoais.  A trama do abuso sexual em família é magistralmente desenvolvida.  A relação de Iesada e Masahiro, idem.  Com Takiyama temos, de novo, um supremo chanceler digno do nome.  Eles mereciam um filme, ou um dorama. Parte de Ōoku já foi adaptada três vezes.  Só que Yoshinaga não poderá se esconder no Ōoku nos próximos volumes.  Ela tem um desafio de fazer o que ninguém faz em uma narrativa de História alternativa: criar um ponto de convergência.  Conseguirá?  Eu terei que esperar uns anos para saber... 

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