quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Comentando o livro "Os Soldados Judeus De Hitler", uma obra cuja leitura é muito útil em nossos dias


Esse texto será dividido em duas partes, a primeira a resenha do livro Os Soldados Judeus De Hitler (Hitler's Jewish Soldiers: The Untold Story of Nazi Racial Laws and Men of Jewish Descent in the German Military) do historiador norte-americano  Bryan Mark Rigg.  A segunda, uma reflexão sobre o momento que vivemos, hoje, no Brasil.  Como vou avisar, se não quiser a segunda parte, é só parar quando for sinalizado.

Enfim, acredito que nunca um livro me pareceu tão real e próximo como esse que li no ano passado por causa do trabalho que uns alunos fizeram sobre o conceito de "banalidade do mal".  O livro é dividido em várias partes, não irei me ater a parte em que ele destrincha as Leis de Nuremberg e seus aspectos raciais, por exemplo, ficarei com duas somente, a que trata do estabelecimento por parte do regime de critérios sobre quem é, ou não é, judeu, e a outra que trata da reação da comunidade judaica alemã ao discurso nazista e de como ele enganou muitos judeus que desejavam a recuperação de sua pátria, seu fortalecimento, depois da tragédia da Primeira Guerra Mundial  Vamos começar, então.

General Erhard Milch, seu pai era judeu,
mas este "detalhe" foi escondido por Göring.
O autor, com base em fontes de época e entrevistas, mapeou o quão flexível e inflexível poderia ser o discurso nazista sobre quem era, ou não era, judeu.  Algo importante para um regime que se baseava na pureza racial e tinha constituído discursivamente os judeus como o seu grande inimigo.  De qualquer forma, mesmo um judeu de verdade poderia receber um atestado de “limpeza de sangue” assinado por Hitler e alguns poucos (*proporcionalmente*) o receberam. Porém, esta é uma informação importante para explicar a criação da terminologia Mischling, significando mestiço, sangue-misturado, que passou a ser utilizada para categorizar judeus e meio-judeus (*1/4 e 1/8 de sangue judaico*), transformando repentinamente alemães comuns, alguns sem nenhum contato com suas raízes judaicas, muitas vezes educados como cristãos, em passíveis de perda de cidadania, discriminação e mesmo a morte.  Com o agravante de alguns deles, filhos, ou netos, de homens judeus com mulheres que não o eram, não serem considerados judeus pelas leis religiosas judaicas.

Por conta disso, foram muitos os casos de mulheres alemães, mães e avós, que para salvar seus filhos e netos, foram aos tribunais admitindo-se publicamente como adúlteras.  Imagine a humilhação e a vergonha.  Não raro, vizinhos “arianos” recebiam suborno, ou o faziam por amizade mesmo, para testemunhar que tinham tido casos amorosos que nunca ocorreram.  Ainda assim, caso houvesse desconfiança por parte das autoridades, os filhos eram levados ao escritório da agência responsável por estabelecer a pureza racial para uma investigação científica e ocorriam casos bizarros de um irmão ser considerado ariano e o outro um judeu puro ou “Mischling”.  Abraçar a ideologia nazista é abraçar a irracionalidade, é tentar dar aparência coerente e cientifica ao que é absolutamente insano.

“Ela pertence à Igreja, ela pertence à Satã (*o judeu*). 
Ambas estão perdidas para a raça alemã.”  Der Stürmer,
anticatolicismo e antissemitismo, às vezes, vinham juntos. 
Fora, claro, a visão das mulheres como um objeto à serviço do Estado.
A outra parte do livro, essa muito mais importante para a nossa atual realidade, trata da questão do atitude da comunidade judaica alemã, em sua maioria laica e com comportamentos idênticos ao de qualquer alemão médio, posto que era isso que eles e elas eram, diante da ascensão nazista.  No geral, acreditavam que o partido tinha boas ideias para o país, apesar do discurso um tanto radical.  Aqueles que previam algum dissabor, não raro pensavam em quantas perseguições os judeus haviam enfrentado ao longo de séculos.  E como as perseguições vêm e vão, e o povo judeu permanece.  Ou então, não acreditavam que o que era dito, seria cumprido.  Políticos falam demais, não é mesmo?  É tudo da boca para fora, o que importa é salvar a Alemanha dos seus inimigos comunistas, socialistas, anarquistas, social-democratas e, claro, judeus.  Como esses judeus alemães não se viram no grande inimigo construído?  Nem tanto se a gente lê esse livro.

Muitos apoiaram o partido, vejam só, por não se identificar na propaganda racista que era feita pelos seus veículos de comunicação, afinal, o judeu que aparecia nas caricaturas do infame “Der Stürmer”, jornal nazista que era enviado para todas as comunidades alemães do mundo e que custava uma ninharia, não se parecia com os judeus reais.  O judeu da caricatura tinha nariz adunco, olhos pequenos, era sempre moreno, tinha algo de suíno (*obviamente, para aumentar a ofensa*), usava roupas religiosas.  Rigg explica que muitos judeus alemães identificavam esse tipo de judeu com os que vinham do Leste, o imigrante que fugira dos “progrom” czaristas, ou da Revolução Russa.  Eram judeus incômodos para a culta comunidade judaica alemã, pelas comparações que poderiam provocar, por terem hábitos vistos como arcaicos, enfim, esses judeus também eram vistos como “o outro” por eles.  O "outro", não raro, pode ser transformado em inimigo.

"O batismo não o torna um não-judeu..."  Do livro infantil
"Der Giftpilz" (Os Cogumelos Envenendados). 
É fácil encontrá-lo inteiro na internet. 
Não pense que o autor está culpando os judeus pela ascensão do nazismo, ele não seria um bom historiador se fizesse esses raciocínios tolos, Rigg está trabalhando com as mentalidades de época e visões de mundo, de status quo.  O problema é que para os nazistas, aqueles que ativamente estavam construindo a figura do grande inimigo, não fazia diferença alguma se o judeu era um religioso ultra-ortodoxo, um estrangeiro, ou um "bom cidadão" alemão e as Leis de Nuremberg viriam em 1935 como uma bomba devastadora sobre toda a comunidade judaica.  Criou-se, então, essa nova categoria chamada de “Mischling”.  A lista de não-cidadãos não incluía somente os judeus, mas o livro trata desse grupo especificamente.  

Não adiantou, portanto, um oficial superior condecorado na Primeira Guerra escrever uma carta indignada aos oficiais do governo quando seu sobrinho foi expulso do Exército, alegando que sua família judaica serviu aos exércitos alemães desde as Guerras Napoleônicas.  Eram judeus e ponto final.  Noutro relato, um jovem “Mischling”, que não fora criado em ambiente judaico, tampouco tinha a aparência das caricaturas, mas fora visitar os parentes no bairro judaico para ver se estavam bem, só se salvou de um linchamento, porque arriou as calças diante de uma turba cheia de ódio e mostrou que não era “de fato” judeu, porque não era circuncidado.  Há relatos, também, de jovens soldados alemães de origem judaica, patriotas e desejosos de servir ao seu país, que se lançavam em missões perigosas simplesmente para terem seu valor reconhecido.  A maioria, quando a perseguição apertou, foi expulsa das forças armadas do mesmo jeito.  

A maioria dos judeus alemães não se parecia com os
do Der Stürmer e não perceberam a ameaça.
Um relato curioso, porque tem tons cômicos no meio de tanta desgraça, é o de um militar expulso do exército por ser um “Mischling”.  Sua avó materna era judia, casou-se com um nobre alemão.  Era de família rica e influente.  A mãe dele, que como filha de uma judia seria judia de verdade, por assim dizer, nunca soubera das origens da família.  Aqui, cabe um esclarecimento, o autor explica que quando o pai era judeu, normalmente, o filho, ou filha, tinha alguma noção de judaísmo, ou de suas origens, quando era a mãe, não raro, a ignorância era completa, porque quem costumava definir a fé da família era o patriarca.  Enfim, a mãe zelosa e indignada foi direto ao escritório do segundo em comando abaixo de Hitler.  Fez petição, escreveu carta.  Tudo negado.  Daí, jogou m**** no ventilador, “se meu filho vai ser expulso, os meus sobrinhos, filhos da minha irmã, tem que ser expulsos, também.”  E foram, mas a mulher não descansou – e imagine os contatos que ela tinha – até que seu caso foi parar na mesa de Hitler.  O moço foi reintegrado, recebeu atestado de pureza de sangue, e mostrou-se altamente incompetente na campanha na URSS, comandando uma bateria de artilharia alvejou seus próprios soldados, entre outras tantas bobagens que fez.  

Há ainda o relato raro, já que a maioria dos testemunhos são de soldados, homens, portanto, sobre uma jovem alemã que teve seu pai judeu preso.  Como filha de um judeu, ela era vista como judia pelas leis nazistas, mas para a comunidade judaica, ela não era.  Desesperada e com medo, foi até a delegacia procurar informações, mandaram que fosse até o escritório da comunidade judaica, eles é que sabiam do paradeiro dos judeus presos.  Lá, ela foi mal recebida, afinal, seu pai tinha abandonado o judaísmo, converteu-se ao cristianismo, inclusive, para casar com uma alemã.  Eles não tinham nada a ver com o caso, nem sabiam do pai da moça.  Volta ela para a delegacia.  Dessa vez, os policiais a levaram para um quartinho no fundo da delegacia e a estupraram para aprender qual era o seu lugar.  Ela não encontrou o pai.

Werner Goldberg (3/10/1919-28/09/2004), soldado
filho de pai judeu e usado na propaganda de alistamento.
É um livro pesado e foi o melhor livro de História, isto é, da disciplina mesmo, que li no ano passado.  A capa da edição brasileira não segue a original, e como estava esgotado e as edições nacionais em sebo pareceram caras, eu consegui o meu livro em inglês mesmo e baratinho na Estante Virtual (*há exemplares ainda*).  A capa original traz a foto de Werner Goldberg, que foi usada na propaganda de alistamento na qual era descrito como o “soldado alemão ideal”.  Alto, louro, olhos azuis, nariz fino.  Ele era um “Mischling”, mas, como o autor bem argumenta, a caricatura era diferente da realidade.  Segundo a Wikipedia, alguns historiadores criticam o Rigg por usar um título sensacionalista no livro, no entanto, como a maioria das pessoas crê que os nazistas seguiam à risca os seus preceitos raciais, vejo o título como um alerta importante.  

Recomendo o livro para todo mundo, porque ele vale a leitura.  Hoje, ele está esgotado no Brasil, mas é possível encontrá-lo usado, em sebos.  

A partir daqui, reflexões para nossos dias, mas aconselho que continue a leitura

Quem poderia imaginar que se chegaria a este ponto?
Que mensagens podemos tirar deste livro em tempos como os nossos?  Há muita gente votando no Brasil em um candidato com um discurso radical e antidemocrático, porque não se reconhece como o inimigo que ele desenha em seus discursos.  Não é ativista político.  Não é LGBT.  Não é feminista.  Não é comunista.  Não é negro.  Não precisa de cotas sociais, ou raciais.  Não mora nas periferias.  Não é nordestino.  Não recebe bolsa família.  Talvez, nem seja pobre.  É somente um patriota que deseja um Brasil melhor.  

Infelizmente, muitos descobriram na Alemanha Nazista que não precisavam ser judeus, nem se ver como tal, para serem perseguidos.  A palavra do líder na rádio, nos discursos públicos, era o suficiente para lançar sobre eles as restrições legais e mesmo a violência das pessoas comuns, vizinhos, colegas de escola, da faculdade, do trabalho.  Talvez, no Brasil de um futuro próximo, qualquer mulher que reclamar, que ousar dizer “não” será chamada de feminista e, talvez, seja espancada, estuprada, ou tenha uma suástica marcada em seu corpo.  Vejam bem, o líder pode não ter dado ordens expressas, mas seu ódio sanciona os seus seguidores a saírem por aí fazendo “justiça”.

Mestre Moa, assassinado com 12 facadas por ter
declarado voto contrário ao do candidato de extrema-direita.
Talvez, você, trabalhador assalariado, não consiga, nesse momento, sequer discernir os discursos contra os direitos trabalhistas (*13º salário, férias remuneradas, pagamento menor para as mulheres, porque elas engravidam etc.*), ou a proposta de imposto de renda com alíquota única que vai tributar pobres e ricos da mesma maneira, desde que o eleito lhes dê segurança.  Mas você, mais tarde, talvez sinta no bolso o peso dessa segurança, se ela vier de fato, e, claro, não terá espaço para reclamar publicamente, porque, bem, qualquer oposição terá sido proibida de fato, ou, se não tiver sido, será desqualificada, afinal, quem reclama só pode ser “comunista”.  Aliás, todo mundo é comunista nesses dias aos olhos do eleitor fanático: o Papa, a Embaixada da Alemanha, a revista the Economist, o historiador de direita Francis Fukuyama... Imagine se você não poderia ser um, também?

Talvez, você seja professor ou professora, daquele tipo que tem certeza que não faz doutrinação em sala de aula, porque tem matéria para dar, porque perde um tempão tentando disciplinar a turma, porque, bem, não é esse tipo de pessoa.  Você acredita que novas diretrizes educacionais poderão criar escolas melhores, mas não viu que a proposta do candidato é ampliar o ensino à distância, logo, menos empregos, que está se falando em censura de livros abertamente.  

Muro da UERJ pichado em 2010.  Será que quem picha
muros com mensagens de ódio não será capaz de matar pessoas?
Quem sabe, mesmo você seja acusado/a de “comunista” por tentar, simplesmente, dar o seu conteúdo como sempre fez.  Ou seja denunciado por um aluno ou aluna por ter chamado sua atenção, por ter corrigido de forma correta uma prova ou trabalho, e, bem, professores não são confiáveis.  Se for funcionário público, isto é, do Estado, não do governo que ocupa a cadeira momentaneamente, sua estabilidade – que erroneamente é vendida como emprego vitalício sem demissão mesmo que justificada – estará ameaçada.  

Em um cenário assim, discordar do chefe, do governo da época, não querer dar um jeitinho para alguém importante ou bem relacionado, pode custar seu emprego.  O risco é seu, mas, talvez, você acredite que somente os maus funcionários serão punidos.  Os mais honrados soldados alemães foram dispensados por motivos absolutamente irracionais, a sua ficha de serviço pouco, ou nada, pesou, afinal, para o regime, eles eram judeus, eram o inimigo.

Diretório do PSOL pichado em 2015.  Uma das propostas do
candidato de extrema-direita é liberar o porte de armas.
E, bem, você pode ser um religioso, um bom cristão, desse tipo de gente que vota pensando na família e nos valores morais.  Para você, eu recomendaria ler a Bíblia, antes de tudo e olhar para o discurso e a vida das pessoas em quem você está votando.  De resto, você, também, poderá ser considerado “comunista” se discordar do líder, ou de seus representantes, que torcem a Palavra ao seu bel prazer.  Que olham o cisco no olho do outro, mas não veem o argueiro no seu.  Mas para o você, que conhece a verdade e não a cumpre, o acerto de contas será mais drástico, porque, bem, mesmo que viva feliz sob um governo autoritário que persegue o diferente, que oprime os mais fracos (*o pobre, o órfão, a viúva*), que fecha os olhos para a violência contra o “inimigo”, terá ainda que prestar contas à Deus por seus atos e palavras.  Sua segurança vale o estabelecimento da barbárie?  Não deveria a igreja ser o lugar seguro no qual o pecador venha se abrigar, se curar e se reformar?  Ou será lícito impormos nossa fé – só naquilo que nos convém, claro – ao mundo?  

Reflexões, enfim...  Mas eu não quero me desesperar.  Acredito na democracia e que a maioria dos brasileiros e brasileiras irão colocar na balança e ver o que é mais importante.  Posso estar sendo otimista?  Sem dúvida, mas o que restou no fundo da Caixa de Pandora foi a ESPERANÇA, esse mal tão necessário a nossa sobrevivência.

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