sábado, 10 de novembro de 2018

Comentando Bohemian Rhapsody (2018)




Ontem, finalmente assisti Bohemian Rhapsody, filme que não é sobre o Queen, mas uma espécie de biografia tributo muito adocicada da trajetória de Freddie Mercury, o vocalista do grupo. Começo dizendo o seguinte, eu ADOREI o filme, ele é muito bem executado e dirigido, contando com excelentes atuações e, ao mesmo tempo, devo pontuar que ele é apelativo, melodramático, superficial no tratamento de uma série de questões e conservador.   Parece sob medida para apresentar o Queen às novas gerações sem ofendê-las com o lado mais sujo e pesado das décadas de 1970 e 1980.  E, apesar de tudo isso, eu iria ver de novo se tivesse tempo e companhia.

Bohemian Rhapsody acompanha a trajetória de Freddie Mercury (Rami Malek), então Farrokh Bulsara, de família farsi, estudante de artes que trabalhava no aeroporto de Heathrow, em Londres, a partir do momento em que ele conhece o baterista Roger Taylor (Ben Hardy) e Brian May (Gwilym Lee) o guitarrista da banda estudantil Smile e se torna seu vocalista.  A banda eventualmente será rebatizada de Queen e se tornará um sucesso graças ao talento de Mercury e do restante do grupo, suas experimentações musicais, como a música que dá nome ao filme, e ousadia.  Tudo isso é costurado a partir da vida atribulada de Mercury, seus problemas com o pai conservador, seu amor e amizade por Mary Austin (Lucy Boynton), as crises em relação a sua orientação sexual, o mergulho em uma vida de orgias sem fim, o rompimento com os amigos do Queen, o HIV e o retorno triunfal no Live Aid, o maior show de todos os tempos.

Mary Austin, musa de Mercury, havia sido namorada
de Brian May, algo que o filme não mostra.
Quando li as resenhas de Bohemian Rhapsody, filme dirigido por Bryan Singer (a nova série X-Men) e Dexter Fletcher, fiquei desestimulada.  No geral, as resenhas elogiavam com restrições, apontando que se tratava de uma cinebiografia chapa-branca e superficial.  A única resenha que li que me deu uma dimensão do que eu sentiria assistindo ao filme foi a do jornalista Nilson Xavier.  Um amigo também me recomendou, fazendo suas ressalvas críticas, mas eu titubeei.  Fui a uma consulta e aguardei quase uma hora até a sessão, quase fui embora, felizmente, não voltei para casa.  

Pois bem, trata-se, sim, de uma biografia chapa-branca.  Mas o que afinal é chapa-branca, alguém perguntaria.  Nas suas origens, a palavra se referia aos jornais, ou jornalistas, que nunca confrontavam um governo, mesmo quando pareciam criticá-lo, que era patrocinados por ele às escondidas, ou às claras.  A partir daí, o termo passou a ser usado para qualquer material que tem esse caráter falsamente crítico e adulatório.  No caso de Bohemian Rhapsody, a criação de um vilão no sentido mais novelesco da palavra, Paul Prenter (Allen Leech), que parece estar meio que se especializando nesse tipo de papel, o assessor pessoal de Mercury, tem o papel de atenuar os defeitos do protagonista.

Há muitas cenas mostrando a criação
e a gravação das músicas.
Prenter é muito importante para o filme na medida que ele existe para ser a alma danada de Mercury, o que tira do protagonista a responsabilidade por suas escolhas equivocadas.  Vejam só, Prenter atiça a homossexualidade, ou bissexualidade de Mercury, o filme não é claro quanto a isso (*só apresentou um interesse feminino do cantor, a sua musa, por assim dizer*), afastando-o de Mary, que era uma boa influência sobre o protagonista.  Ele é que parece apresentar Mercury aos garotos de programa, festas regadas à generosas doses de drogas e bebidas, bares gays barra-pesada,algo que, no filme, é sinônimo de perdição. Até a carinha que o ator, Allen Leech, faz já o denuncia como o sujeito perigoso que é, mas Mercury na sua necessidade de preencher seu vazio interior, acaba se deixando arrastar.

Prenter provoca a demissão do primeiro empresário do grupo, John Reid (Aidan Gillen), além disso, teria detonado a separação do Queen.  Demitido, ele entrega para a imprensa, no filme para a TV, na realidade  para os jornais, a vida de orgias de Mercury, apresentando-se como alguém que tentou salvá-lo e não conseguiu.  Seguindo essa linha, Leech foi o grande responsável pela contaminação de Mercury com o HIV, certo?  Se Mercury ficasse com Mary, se o cantor tivesse a vida regrada dos outros membros do Queen, apresentados como bons pais de família (*sim, o filme os mostra dessa forma*), talvez, ele estivesse vivo, não é?  Li um artigo que pontua que Prenter, se estivesse vivo, processaria a produção do filme, mas ele faleceu em virtude do HIV no mesmo ano que Mercury, 1991.
Criado para ser odiado e sempre com um olhar dúbio.
Mas não pense que o filme é homofóbico, ele é, sim, conservador, daí ser muito adequado às audiências de nosso tempo.  Ele traçou uma linha perfeita entre o gay correto e aquele que não é.  Enquanto Mercury estava envolvido em orgias, ele era um homem vazio e infeliz, contraiu o HIV, então, uma sentença de morte.  Só que em uma dessas festas ele conhece seu companheiro de fim de vida,   Jim Hutton (Aaron McCusker), que não estava lá se divertindo como tantos desconhecidos que Prenter trazia para a casa de Mercury, mas como garçom.  Ele rejeita o assédio de Mercury (*ameaça bater nele até*), ele mostra que merece a amizade e o amor do cantor, ele é difícil, tão difícil que o protagonista terá que procurar por ele, ele é para casar a ponto de ser apresentado para a conservadora família do cantor.  A relação dos dois foi um pouco diferente na vida real, mas, ao que parece, Hutton foi difícil mesmo, não se jogou nos braços do Mercury quando ele acenou para ele, não.  E quem nunca viu, ou leu, uma história assim?  Só que, normalmente, é um romance heterossexual. 😉

Quem viveu os anos 1980 e início dos anos 1990, como eu, lembra da tragédia que foi o HIV, as pessoas definhavam diante dos nossos olhos na TV, nas revistas, nos jornais.  Só que você não precisava viver em orgias para ser contaminado, você poderia ser uma pessoa regrada e conservadora e ter o azar de receber uma transfusão de sangue contaminada, como Henfil e seus irmãos, todos hemofílicos, ou ser a melhor das esposas e ter um marido infiel e ser condenada à morte.  Mas é fato que a doença foi particularmente cruel e nos privou de muitos artistas geniais, alguns negando que estavam contaminados, porque, bem, havia o estigma, a homofobia, o simbólico do sangue, as associações com pragas bíblicas.  No início, o HIV foi chamado de "câncer gay" e havia quem dissesse que os contaminados estavam pagando pelo seu pecado.

Festas regadas à drogas e bebida não
preenchiam o vazio dentro de Mercury.
Freddie Mercury foi uma das vítimas.  Renato Russo, Cazuza foram brasileiros de destaque tragados pela doença.   Eu perdi dois primos uma geração mais velhos que eu para o HIV, na época, os adultos e os velhos se calavam sobre a doença e os motivos da contaminação, as desculpas eram tuberculose, ou câncer, afinal, o HIV debilita o sistema imunológico.  Os jovens e adolescentes de hoje não viram a tragédia, a educação sexual deficiente e proibida (*ou em vias de*) tem feito com que o número de contaminados aumente em nosso país.  Por conta disso, filmes como Bohemian Rhapsody podem ter um efeito positivo, ou não, já que estigmatizam um estilo de vida e não promovem reflexão mais ampla sobre o HIV.

Apesar de biográfico, Bohemian Rhapsody não é muito acurado com as datas.  Mercury encontrou com os moços do Smile antes de 1970.  Mesmo eu que estou longe de ser especialista em Queen sabia que o show espetacular que foi mostrado no Rio de Janeiro, uma das cenas mais lindas do filme, não era o primeiro do conjunto no Brasil, mas o do Rock in Rio.  A data mostrada era mais próxima ao do show do Morumbi, em 1981.   No entanto, a gente sabe que um filme não precisa ser fiel as cronologias, ele tem obrigação de ser fiel as personagens e fatos que apresenta.  No geral, de novo ressaltando que não sou especialista na banda, nem na biografia de Mercury, acredito que ele atingiu o objetivo.
As esposas ao fundo.  Todos os membros do Queen
são apresentados como bons pais de família.
O filme, que abre e fecha com o Live Aid, o show para arrecadar fundos para minimizar a fome na África, coloca Mercury debilitado pelo HIV já nesse momento.  Não era o caso ainda.  O cantor nunca revelou publicamente a doença, como muitos na época, aliás, e só começou a ficar debilitado mesmo em 1989.  O mega-evento ocorreu em 1985.  É um filme e a revelação se prestava a ter um efeito dramático.  Ao que parece, os outros eventos relacionados, como o tempo curto para se preparar para o show, o primeiro do retorno do Queen, tudo está certinho, ainda que tenhamos sites pontuando uma enormidade de incorreções no roteiro do filme.  Quer dizer, o filme funciona, sim, mas fidelidade não é seu ponto forte.

Alguns reclamaram que o filme não aprofundou as demais personagens, Roger Taylor,  Brian May, John Deacon (Joseph Mazzello), o baixista que entrou no grupo e quando eu vi já estava lá (*mas ele era discreto mesmo, enfim*), John Reid e Jim Beach (Tom Hollander), segundo empresário da banda.  Aqui, discordo.  Deu-se, claro um peso ao vilão, que não precisava estar no filme, mas, claro, se não estivesse, Bohemian Rhapsody seria outro, mas o filme não era sobre o Queen, não se enganem, era sobre Mercury.  Por conta disso, acredito que foi muito bem apresentada a relação do protagonista com seus companheiros de banda e como os demais músicos não eram somente coadjuvantes, eles eram o Queen, porque cada um tinha sua função, inclusive em manter o estrelismo e a vaidade de Mercury sob controle.  E Tom Hollander, bem, eu gosto muito do ator e ele estava muito bem, útil e discreto, por assim dizer.  

Todos parecem ter se entregado aos seus
papéis e, bem, me convenceram.
Rami Malek se entregou ao papel de Mercury, a gente olha e sabe que ele estudou os jeitos e trejeitos do artista, só que eu continuei com a mesma impressão que tive no trailer, o ator não tem metade do sexy appeal do original.  Desculpe, isso era importante.  E quando o Mercury real aparece cantando nos créditos, a diferença é brutal.  Como crítica, não ao ator que, repito, estava muito bem, a tal prótese que lhe colocaram.  Mercury tinha um problema na arcada dentária, o bigode era uma forma de disfarçar.  Só que acredito que colocaram uma prótese em Malek que foi além do problema de Mercury e dificultou a dicção do ator em alguns momentos.

Falando dos outros membros do Queen, Gwilym Lee estava excepcional como Brian May, o segundo membro do Queen mais bonito, na minha opinião.  Ele, sim, parecia o próprio em muitos momentos e o ator convenceu tanto como jovem, quanto mais maduro.  E o cabelo espetacular?  Parecia uma peruca do século XVII, início do XVIII, e eu ficava imaginando o sujeito em trajes de época.  o John Deacon de Joseph Mazzello foi o mais discreto do grupo e ganhou mais destaque, dentro do pouco que teve, nas sequências dos anos 1980.  Aliás, ele parecia, a caracterização do ator, ter fugido de um filme adolescente de sessão da tarde.  Já Ben Hardy, que fazia o baterista, Roger Taylor, não envelheceu ao longo do filme.  Ele parece mais jovem do que é e destoou do resto do grupo que envelheceu convincentemente - a maioria já tem mais de 30 anos - e ele, não.  

Gwilym Lee e Ben Hardy tem grande destaque no filme.
Agora, talvez o filme não tivesse funcionado não fosse a música.  Apesar de não ser um musical, na medida que ninguém está conversando e começa a cantar e dançar, Bohemian Rhapsody é um filme musical, pois costura a ação e as músicas do Queen.  E, bem, eu não sabia que conhecia tantas músicas da banda, mas elas vinham na minha cabeça com facilidade.  Claro, que entre outras bandas da minha infância e adolescência, o Queen era uma das poucas que eu prestava alguma atenção.  Mas já escrevi várias vezes que sou meio que uma nulidade nesse aspecto.  Associo música com algo visual, um filme, uma novela, uma propaganda de TV, um anime.  

Por exemplo, "Wo Wants to Live Forever" e o primeiro Highlander.  A música facilmente me levava às lágrimas.  Eu chorei na cena em que ela apareceu em Bohemian Rhapsody, entre outras coisas, porque é uma das cenas mais tristes do filme.  Não vou descrever, o filme tem uma veia melodramática forte.  E, por conta disso, eu chorei três vezes no filme.  Na cena de "Wo Wants to Live Forever", no início da sequência final do Live Aid, que é tão longa que eu parei de chorar e ainda rolou uns dez minutos, e na cena da reconciliação com o pai.  Cena para fazer chorar mesmo, porque Mercury, no fim do filme, conserta sua vida, por assim dizer, sob uma perspectiva conservadora, como pontuei no começo do filme.  Falando nisso, a família de zoroastristas iranianos que fugiram da perseguição islâmica para a Índia.  Daí, chamar Mercury de "pak", que é ofensivo para um paquistanês, deveria ser ainda mais ofensivo para um farsi-indiano, por assim dizer.


A relação com Mary era dúbia e Mercury fica
abalado quando ela decide reconstruir sua vida amorosa.
Já caminhando para o fim, o filme não cumpre a Bechdel Rule.  Temos algumas mulheres com nomes, Mary Austin é o grande destaque, claro, mas acredito que todas as conversas entre mulheres foram sobre Mercury.  E a função de Mary é meio que de musa, suporte, enfim, uma função bem tradicional, assim como a da mãe e da irmã do cantor, que passa o tempo e continua na casa dos pais, enfim... Mary, aliás, é quem aparece para salvar Mercury, acordá-lo, por assim dizer, para que ele coloque sua vida nos eixos.  Uma fada, enfim, que ele queria e precisava ter por perto, mas não na sua cama, por assim dizer.  Já as esposas dos outros membros do Queen, não parecem ter nomes.  A jornalista tem nome, mas isso é irrelevante.  Mas não é um filme sobre mulheres, é sobre Mercury e, no máximo, sobre os outros homens que construíram o Queen.  

Curiosamente, quando falaram de quem se apresentaria no Live Aid, só citam homens, ou conjuntos masculinos.  A única menção à uma artista mulher, Madonna, é em tom de deboche.  Agora, vejam que esse meio artístico, dos grandes cantores, é dominado por homens, ou eles recebem muito mais destaque que as mulheres, na média.  E quem controlava o mundo da música, também.  A participação curta Ray Foster (Mike Myers), dono da EMI, o homem que perdeu o Queen (*assistam o filme*), ilustra bem isso.  Até hoje, os homens mandam no mercado da música e são as maiores estrelas, ou as mais bem pagas, ou as de carreira mais perene.

O filme não é sobre o Queen, é sobre Mercury.
É isso.  Eu amei o filme, ele me emocionou, a história é bem contada, a música é maravilhosa.  O enfoque, no entanto, é conservador e ajustado para os nossos tempos que se acham tão progressistas e não são.  A releitura do horror do HIV é atenuada e os vilões precisam ser apontados.  E, sim, se é verdade que o povo vaiou as cenas gays em alguns cinemas brasileiros, ou do Rio de Janeiro, esse povo é realmente muito fraco, deveriam ser obrigados a assistir um A Lei do Desejo, de Almodovar, para ver o que são cenas de impacto.  De resto, sai do cinema querendo ouvir Queen, mas não Barcelona, que é posterior ao filme e é só com Mercury, e que estava no rádio do meu carro.  E, sim, eu assistiria o filme outra vez com prazer.


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